O governador não sabe o que fazer, e escreve ao imperador. Prendeu gente na Bitínia, nas margens do mar Negro, e pergunta se deve castigar um nome ou os crimes ligados ao nome. Ele já interrogou, ameaçou, mandou executar os que não cederam e mandou os cidadãos romanos para Roma. Agora quer saber se está agindo certo.
É o governador Plínio, o Jovem, por volta de 112, e a carta é a de número 96 do livro X das suas cartas. Este é o último capítulo. Ele vai de um dos primeiros textos pagãos que descrevem uma reunião cristã até o acordo que deixou os cristãos livres, e termina com o que Roma deixou para a Bíblia e para quem a lê.
38 — PLÍNIO E TRAJANOA carta do governador e a resposta do imperador
Plínio escreve que nunca esteve em processos contra cristãos e que não sabe o que se costuma punir. Pergunta se deve haver diferença de idade, se quem se arrepende é perdoado, e se é o "nome mesmo, se faltar crime, ou os crimes ligados ao nome" que se castiga. Conta o método: pergunta três vezes se a pessoa é cristã, e os que insistem manda "levar", para a execução, porque, diz, a "obstinação inflexível" merece castigo, seja qual for a crença. Os que eram cidadãos romanos, ele "anotou para serem mandados à Cidade" (Cartas X.96.3-4, tradução minha). É o mesmo direito que Paulo invocou (Capítulo 7).
Depois de uma lista anônima, Plínio cria um teste. Os que negavam ser cristãos, repetiam a invocação aos deuses, ofereciam vinho e incenso diante da imagem do imperador e "maldiziam Cristo" eram soltos. E os que diziam ter sido cristãos e tinham deixado, alguns havia vinte anos, faziam o mesmo. Ele resume o que lhe contaram: tinham o costume de se reunir num dia fixo, antes do amanhecer, "e cantar entre si um hino a Cristo, como a um deus", e de se obrigar por juramento a não cometer roubo, assalto, adultério, nem faltar com a palavra, nem negar um depósito. Depois, voltavam a se reunir para uma refeição "comum e inocente" (Cartas X.96.5-7). Torturou duas escravas, que eram chamadas de ministrae, "servidoras", e não achou "nada senão uma superstição má e exagerada". Mas o contágio, escreve, tinha chegado às cidades, às aldeias e aos campos, e os templos quase abandonados voltavam a ser frequentados, e a carne dos sacrifícios voltava a vender (X.96.8-10).
A resposta de Trajano é curta. Aprova o método, mas diz: "Não devem ser procurados; se forem denunciados e provados, devem ser punidos", e quem negar e provar, ao sacrificar aos deuses, ganha o perdão. E acrescenta que as denúncias sem autor "não devem ter lugar em nenhum crime; pois são de péssimo exemplo, e não pertencem ao nosso tempo" (Cartas X.97, tradução minha).
Não há papiro nem pedra da carta de Plínio, mas a coleção chegou até nós em manuscritos, e a autenticidade da carta 96 e da resposta 97 é aceita pela quase totalidade dos especialistas. Alguns, no passado, duvidaram. É uma das primeiras descrições pagãs, em primeira pessoa, de uma reunião cristã. O que ela mostra: cultos de madrugada, um hino a Cristo "como a um deus", compromisso ético e uma refeição comum. E mostra quanto uma lei vaga bastava para executar gente: o crime, nessa fase, era ser cristão, e a recusa do culto imperial era a prova.
⚠️ A carta é do ponto de vista de um governador romano. O que Plínio escreve é o que lhe disseram sob interrogatório e tortura, e ele não conhecia o cristianismo por dentro. O que não se discute é que, por volta de 112, em uma província do Oriente, cristãos eram presos e mortos por se recusarem a oferecer incenso ao imperador.
"Mártir" vem do grego mártys (μάρτυς), que Strong explica como "uma testemunha (em sentido judicial ou figurado); por analogia, um 'mártir'". Era uma palavra do tribunal, e foi no tempo das perseguições que ela passou a designar quem testemunhava com a vida. No Novo Testamento, ainda é "testemunha": "Antipas, minha fiel testemunha" Ap 2.13. Tertuliano, por volta de 197, escreveu uma frase que ficou famosa: "O sangue dos cristãos é semente" (Apologético 50, tradução minha).
39 — DE PLÍNIO A DIOCLECIANOPerseguições locais, um decreto geral e uma carta de dispensa
Durante mais de um século depois de Plínio, as perseguições foram, em geral, locais e irregulares. Uma comunidade era denunciada por um vizinho ou por uma multidão, um governador agia, e a coisa terminava. Foi assim com Policarpo, em Esmirna, em meados do século II (Capítulo 2), com os mártires de Lyon, em 177, e com Perpétua e suas companheiras, em Cartago, em 203. O quadro mudou em 249–250, com o imperador Décio, que mandou todos os habitantes do império sacrificarem aos deuses e receberem um certificado.
Os certificados de sacrifício. No Egito, a areia guardou os documentos que a ordem de Décio gerou: os libelli, petições em papiro de moradores que declaram às autoridades que sempre sacrificaram aos deuses, que sacrificaram diante delas e pedem que a declaração seja assinada. Foram publicados mais de quarenta, todos de 250, em sua maior parte do Fayum. Valem porque mostram como o decreto funcionava no dia a dia, com cada pessoa tendo de provar a lealdade. A igreja teve de decidir depois o que fazer com os "libelláticos", cristãos que obtinham o certificado sem sacrificar de fato (Cipriano, Sobre os caídos).
⚠️ Nenhum libellus traz o nome de um cristão conhecido, e não temos certeza de que algum deles tenha sido de cristão.
Depois de Décio, houve Valeriano (257–258), que perseguiu o clero e as propriedades da igreja, e Galieno, que em 260 devolveu os bens e deu à igreja um tempo de paz de mais de quatro décadas. A Grande Perseguição veio com Diocleciano. Em fevereiro de 303, ele mandou destruir as igrejas, queimar as Escrituras e tirar os direitos dos cristãos. Lactâncio e Eusébio contam que a igreja de Nicomédia, ao lado do palácio, foi demolida. A perseguição durou, com intensidades diferentes nas partes do império, até 311–313. Em 30 de abril de 311, o imperador Galério, doente, publicou um edito de tolerância: permitia que os cristãos existissem e se reunissem, desde que não agissem contra a ordem, e pedia que orassem ao seu Deus pelo imperador e pelo Estado (Lactâncio, Sobre a morte dos perseguidores 34; Eusébio, História Eclesiástica VIII.17).
40 — CONSTANTINO E MILÃO313: o fim da perseguição e uma virada que ainda se discute
Constantino foi proclamado imperador em York, em 306, e em 28 de outubro de 312 derrotou o rival Maxêncio na ponte Mílvia, perto de Roma. A batalha ficou ligada a uma visão, e aqui as fontes não se encaixam. Lactâncio, por volta de 314, diz que Constantino foi aconselhado em sonho a pôr o sinal celeste de Deus nos escudos de seus soldados (Sobre a morte dos perseguidores 44). Eusébio, em outra obra, a Vida de Constantino, escrita depois da morte do imperador, conta que Constantino lhe disse, sob juramento, ter visto no céu uma cruz de luz com as palavras "Vence por isto" (Vida de Constantino I.28-31). E um panegírico de 310 já fala de uma visão de Constantino em que ele via Apolo. Os historiadores discutem o que houve de fato e quando.
No começo de 313, Constantino e seu colega Licínio se encontraram em Milão e combinaram uma política de liberdade religiosa. Em junho, Licínio publicou, em Nicomédia, uma carta que ficou conhecida como o "Edito de Milão": ela dá tanto aos cristãos quanto a todos o poder de seguir a religião que cada um quisesse e manda devolver os bens tomados nas perseguições. O texto sobreviveu em latim, em Lactâncio, e em grego, em Eusébio (História Eclesiástica X.5). Os especialistas observam que não foi, em rigor, um "edito" único, e sim um acordo e cartas de aplicação. O que importa é o efeito: a perseguição acabou, e a igreja, que era ilegal, passou a ter proteção.
O Arco de Constantino. Perto do Coliseu, o arco que o Senado dedicou a Constantino em 315, pela vitória sobre Maxêncio, traz uma inscrição que atribui a vitória a "instinctu divinitatis", "por inspiração da divindade". Não diz "Cristo" nem "Deus cristão", e muitos historiadores veem nisso uma fórmula escolhida para agradar ao Senado, onde ainda havia muitos pagãos. E as moedas de Constantino continuaram a trazer o deus Sol (Sol Invictus) por uns dez anos depois de 312. Pouco a pouco, os símbolos cristãos entraram nas moedas.
⚠️ Os monumentos mostram um imperador que mudou devagar e falava de um modo que muitos podiam entender. Não provam nem negam que ele tenha se convertido de coração. Constantino foi batizado só perto da morte, em 337, por um bispo (Jerônimo o identifica como Eusébio de Nicomédia), e a lenda de que teria sido batizado em Roma pelo papa Silvestre é tardia.
Como entender a "virada constantiniana"? As tradições cristãs não leem do mesmo jeito. A Igreja Ortodoxa venera Constantino como santo, "igual aos apóstolos", com festa em 21 de maio, ao lado de sua mãe, Helena. A tradição católica reconhece nele o imperador que deu à igreja a liberdade e o apoio do Estado, e historiadores católicos discutem os custos e os benefícios dessa aliança. As igrejas da Reforma que se mantiveram ligadas ao Estado, luteranas e reformadas, entendem que um governante cristão pode proteger a igreja. Já as tradições de igreja livre, como a dos anabatistas e de muitos batistas, veem na aliança uma troca que custou à igreja a sua independência, e chamam isso de "constantinismo". E alguns evangélicos de hoje agradecem a tolerância e se preocupam com o risco da mistura entre fé e poder. Quase ninguém nega que a mudança foi enorme: em 380, o imperador Teodósio declarou o cristianismo niceno a religião do império, e em 391–392 proibiu os sacrifícios pagãos.
Em Nicomédia, a igreja foi demolida em 303, e dez anos depois a mesma cidade era o lugar de onde saía a carta que mandava devolver os bens. Quando a perseguição acabou, a igreja teve de decidir o que fazer com os que tinham entregado as Escrituras às autoridades, os "traditores". A disputa sobre eles, no norte da África, deu origem aos donatistas, e a briga durou séculos. Foi uma época em que a igreja conheceu, ao mesmo tempo, o martírio e o favor do imperador.
41 — O QUE ROMA DEIXOULíngua, lei, estradas e uma Bíblia em latim
Depois do império, ficou a língua. O português, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno saíram do latim. A Bíblia em latim, a Vulgata, de Jerônimo, feita por volta de 382–405, foi o texto bíblico do Ocidente por mais de mil anos, assunto do volume desta série sobre a Europa medieval. Ficou também o direito: o Direito Romano, reunido por Justiniano no século VI, é a base de muitos sistemas jurídicos de hoje, inclusive o brasileiro. Ficou o calendário de Júlio César, de 45 a.C., que dá nome aos meses de julho e de agosto, e que o calendário atual refinou em 1582. E ficaram as estradas e as cidades, muitas das quais ainda estão onde Roma as pôs.
Para quem lê a Bíblia, ficaram sobretudo as palavras. O Novo Testamento está cheio de termos latinos em grego (Capítulo 1), e o português bíblico tem "centurião", "legião", "milha" e "colônia", que vieram direto de Roma.
42 — PASSAGENS QUE GANHAM SENTIDO NOVOOito versículos que você nunca mais vai ler igual
"Mais uma milha" Mt 5.41
A ordem de levar a carga do soldado por uma milha era um direito de quem mandava. Jesus manda ir duas.
"Saiu um decreto" Lc 2.1
Um imperador que contava gente e um censo de Quirino que os historiadores ainda discutem, com quatro leituras possíveis.
"De quem é esta imagem?" Mc 12.16
O denário trazia o rosto e o título "filho do divino Augusto". Jesus pergunta sobre uma moeda que dizia que César era filho de um deus.
"Sendo homens romanos" At 16.37
A cidadania era um escudo contra o açoite sem julgamento, e Paulo a usou como ferramenta.
"Gálio" At 18.12
Uma carta de Cláudio a Delfos o cita, e essa pedra é a âncora da cronologia de Paulo.
"A quem tributo, tributo" Rm 13.7
Em 58, Roma discutia os cobradores de impostos, e Nero pensou em abolir os indiretos.
"A casa de César" Fp 4.22
Escravos e libertos do serviço imperial, entre os cristãos, enquanto Paulo estava preso.
"Sete montes" Ap 17.9
Para um leitor do século I, a cidade das sete colinas era Roma, e Babilônia, o nome que os judeus davam a ela.
VOCÊ SABIA?Curiosidades sobre Roma na Bíblia
O mesmo mar
Josefo naufragou no Adriático, por volta de 63, com uns seiscentos a bordo. Paulo, em Atos 27, tinha duzentas e setenta e seis pessoas no navio.
Três línguas na cruz
O título de Pilatos estava em hebraico, grego e latim Jo 19.20. A sigla "INRI" vem das iniciais latinas da inscrição.
Pilatos, em pedra
A única inscrição em pedra que cita Pilatos foi achada em 1961, em Cesareia, reaproveitada num degrau.
O Templo inacabado
A obra de Herodes só terminou por volta de 63, e em 70 ele queimou.
"Boas-novas" de Augusto
Em Priene, em 9 a.C., o aniversário de Augusto foi chamado de "começo das boas-novas", a mesma palavra de "evangelho".
PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos-chave
PARA FIXARO que ficou do livro
Um império de estradas
Legiões, governadores e cidadania: o mundo em que o Novo Testamento nasceu e andou.
Cada título, uma pedra
Pilatos, Gálio, Erasto, Arco de Tito: o que as pedras provam e o que não provam.
De Nero a Constantino
Dois séculos e meio de perseguições, e um acordo, em 313, que mudou a posição da igreja.
Debates abertos
O censo de Quirino, o incêndio de 64, a data do Apocalipse e o 666: cada posição foi mostrada com as suas razões.
De Augusto a Constantino, Roma passou de império que contava gente a império que a igreja herdou. O Novo Testamento a viu primeiro como a cidade do decreto de Lucas 2 e depois como a "grande Babilônia". Os outros livros desta série mostram o que veio antes de Roma, com os egípcios, assírios, babilônios, persas, filisteus, cananeus e a Macedônia de Alexandre, e o que veio depois, na Europa medieval e na da Reforma.
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