É de manhã cedo em Jerusalém. Os homens que trazem Jesus amarrado param diante do edifício onde o governador romano julga e não entram, para não se contaminarem antes da Páscoa. Então Pilatos tem de sair até eles.
É a cena mais famosa que Roma deixou na Bíblia, e é também uma das mais bem documentadas fora dela. Este capítulo põe o julgamento de Jesus dentro do seu quadro romano: o imperador Tibério, o prefeito que governava a Judeia, a pedra que traz o nome dele e o que as fontes antigas dizem de Pilatos, de Caifás e da cruz.
15 — TIBÉRIOO imperador que não aparece, mas manda
Tibério foi imperador de 14 a 37 d.C., e foi sob ele que Jesus viveu a vida pública e morreu. Lucas data o início do ministério de João Batista pelo calendário do império: "no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos presidente da Judéia, e Herodes tetrarca da Galiléia" Lc 3.1. Contando a partir da morte de Augusto, em agosto de 14, o ano quinze cai em 28 ou 29 d.C. O imperador nunca pisou na Judeia. Desde 26 ou 27, governava de longe, retirado na ilha de Capri, e deixou boa parte do poder nas mãos do prefeito da guarda pretoriana, Sejano, até a queda e a execução deste, em 31.
Tácito, que não gostava de Tibério, resumiu o clima do reinado em relação aos judeus numa frase seca: "Sob Tibério, calma" (Histórias V.9, tradução minha). Mas não foi só calma. Em 19 d.C., segundo o mesmo Tácito, o Senado mandou expulsar de Roma os cultos egípcios e judaicos: quatro mil libertos contaminados por essa "superstição" foram mandados para a Sardenha, e os outros tinham de sair da Itália, a menos que abandonassem os ritos antes de uma data marcada (Anais II.85, tradução minha). Josefo conta o mesmo episódio com outro detalhe, ligado a um golpe de quatro vigaristas que desviaram dinheiro de uma romana convertida (Antiguidades XVIII.65-84). Não era a última vez que Roma expulsaria judeus (Capítulo 6).
Foi a moeda de Tibério que Jesus pediu: "Trazei-me uma moeda, para que a veja", e perguntou: "De quem é esta imagem e inscrição?" Mc 12.15-16. "Imagem" é eikṓn (εἰκών), "uma semelhança, ou seja, um retrato" (Strong), e "inscrição" é epigraphḗ (ἐπιγραφή), a legenda escrita. O denário que se costuma associar a essa cena, por ser da época, traz o perfil de Tibério e, em latim, o título "Tibério César, filho do divino Augusto, Augusto". Em outras palavras, a moeda dizia que o imperador era filho de um deus. Era isso que o dono da moeda carregava no bolso. Ninguém sabe qual moeda exata estava na mão deles. A ligação com o denário de Tibério é uma identificação provável, e não comprovada.
16 — PILATOSPrefeito da Judeia, entre a dureza e o medo
Desde o ano 6 d.C., quando Arquelau foi deposto, a Judeia era governada por prefeitos nomeados pelo imperador, da classe dos cavaleiros (Capítulo 3). Um deles, Valério Grato, ficou de 15 a 26 e foi quem pôs Caifás no cargo de sumo sacerdote, por volta de 18 (Josefo, Antiguidades XVIII.35). O seguinte foi Pôncio Pilatos, de 26 a 36 ou 37. Ele aparece em Josefo, em Fílon de Alexandria, em Tácito, nos quatro Evangelhos, em Atos e nas cartas. Os prefeitos moravam em Cesareia, na costa, e subiam a Jerusalém nas grandes festas, quando a cidade fervia de peregrinos.
O que se sabe dele fora do Novo Testamento é pouco e não é elogio. Josefo conta três episódios. No primeiro, Pilatos levou para Jerusalém, de noite, os estandartes do exército com a imagem do imperador, e a multidão foi a Cesareia pedir, por vários dias, que os tirasse. Num dos dias, ele mandou cercar os suplicantes com soldados e ameaçou matá-los. Eles se atiraram ao chão e ofereceram o pescoço, e ele cedeu (Antiguidades XVIII.55-59). No segundo, ele usou dinheiro sagrado para fazer um aqueduto, e a multidão protestou. Mandou soldados à paisana, com cacetes escondidos, e eles bateram sem dó, matando muita gente (Antiguidades XVIII.60-62). No terceiro, em 36, mandou cavalaria e infantaria contra samaritanos que subiam armados ao monte Gerizim atrás de uma promessa de um impostor. Houve mortos, e os samaritanos se queixaram ao governador da Síria (Antiguidades XVIII.85-87).
Fílon, o filósofo judeu de Alexandria, acrescenta um quarto: Pilatos dedicou escudos dourados no palácio de Herodes, em Jerusalém, só com uma inscrição, sem imagem. Os judeus pediram que os tirasse, ameaçaram queixar-se a Tibério, e Tibério mandou levá-los para um templo de Augusto em Cesareia (Embaixada a Gaio 299-305). Fílon acrescenta que Pilatos temia que o acusassem de corrupção, insolência, rapina, violência, mortes sem julgamento e "crueldade sem fim". Convém lembrar que Fílon reproduz uma carta atribuída ao rei Agripa I e que o objetivo da carta é persuadir o imperador Calígula, e não fazer um retrato justo.
E nos Evangelhos? Lucas conta, de passagem, que "alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios" Lc 13.1. Não há outra fonte para isso, mas o quadro cabe no que Josefo e Fílon dizem. E o Pilatos do julgamento de Jesus é um homem que hesita, tenta soltá-lo e acaba cedendo. Os historiadores discutem como juntar os dois retratos. Alguns acham que Josefo e Fílon mostram o Pilatos real, duro, e que os Evangelhos o amenizam para pôr a culpa mais nos chefes do Templo. Outros lembram que Fílon exagera de propósito. A historiadora Helen Bond, por exemplo, defendeu que Pilatos não era nem o monstro de Fílon nem o fraco dos Evangelhos, mas um prefeito romano típico, que dependia do apoio da elite local e do favor do imperador.
A pedra de Pilatos. Em junho de 1961, uma expedição italiana dirigida por Antonio Frova escavava o teatro de Herodes, em Cesareia Marítima, quando achou, reaproveitada como degrau de uma escada do século IV, uma placa de calcário de uns 82 por 65 centímetros. Em latim, estão legíveis em parte o nome Pontius Pilatus, o título praefectus Iudaeae ("prefeito da Judeia") e a palavra Tiberieum, uma construção em honra de Tibério. O começo e o fim das linhas se perderam, e a restauração mais citada é: "[Aos divinos Augustos] este Tiberieum, Pôncio Pilatos, prefeito da Judeia, [dedicou]" (tradução minha). A pedra está no Museu de Israel, em Jerusalém; há réplicas em Cesareia e em Milão.
É a única inscrição em pedra que se conhece com o nome de Pilatos (um anel de bronze achado no Herodião, com letras gregas que foram lidas como “de Pilatos”, tem atribuição contestada por outros especialistas), e a pedra mostra duas coisas. Primeiro, o homem existia e ocupava o cargo, como os Evangelhos dizem. Segundo, o título era prefeito, e não "procurador", como Tácito e Josefo o chamam: eles usam a palavra do seu tempo, em que o cargo já tinha mudado de nome. O Novo Testamento usa o termo geral hēgemṓn (ἡγεμών), "governante", e acerta sem precisar escolher.
⚠️ A pedra prova que Pilatos foi prefeito da Judeia e que sua autoridade incluía obras públicas em honra do imperador. Não prova nada sobre o julgamento de Jesus, nem diz o que era o Tiberieum, que alguns tomam por um templo e outros por outra construção.
17 — O JULGAMENTOUma pergunta, um título e uma pena romana
Os quatro Evangelhos contam o julgamento com ênfases diferentes, mas o miolo é o mesmo. Os chefes dos sacerdotes entregam Jesus a Pilatos, e a acusação que sobe até o prefeito é política: "proibindo dar o tributo a César, e dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei" Lc 23.2. Pilatos pergunta se ele é o Rei dos Judeus Mc 15.2. Jesus responde de um jeito que não é negar nem afirmar. João acrescenta o diálogo mais longo, e nele Pilatos se gaba do poder que tem: "tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar" Jo 19.10. Há um desfecho, e é violento: Barrabás, ligado a um motim Mc 15.7, é solto. Jesus é açoitado e entregue para ser crucificado Mt 27.26.
Aqui os historiadores se perguntam três coisas. A primeira é onde foi. A tradição aponta a fortaleza Antônia, ao lado do Templo. Mas Josefo e Fílon dizem que os governadores romanos ficavam, em Jerusalém, no palácio de Herodes, a oeste da cidade, e muitos estudiosos preferem esse local. O pavimento de grandes lajes que se mostra hoje sob o Convento das Irmãs de Sião, no caminho que os peregrinos chamam de Via Dolorosa, é para a maioria dos arqueólogos do tempo do imperador Adriano, no século II, e não do de Pilatos. O texto de João usa a palavra lithóstrōton (λιθόστρωτον), "pavimento", e o nome hebraico Gabatá Jo 19.13, e ela não resolve a questão.
A segunda é quem podia matar. Os que levaram Jesus dizem: "A nós não nos é lícito matar pessoa alguma" Jo 18.31. Josefo diz que, quando Judeia virou província, o primeiro prefeito recebeu do imperador o poder de vida e de morte (Guerra II.117). Mas a pedra do aviso do Templo (Capítulo 3) mostra que os judeus tinham, em um caso, o direito de matar quem violasse o santuário, e Josefo conta que, em 62, o sumo sacerdote Anano mandou apedrejar Tiago, irmão de Jesus, na ausência do prefeito (Antiguidades XX.200). Por isso há quem pense que a frase de João é um fato jurídico, e quem a leia como a fala dos que queriam uma execução romana, pública e exemplar. Não há acordo.
A terceira é a frase que fez Pilatos ceder: "Se soltas este, não és amigo de César" Jo 19.12. "Amigo de César" era um título honorífico real, e perdê-lo era perder o favor do imperador. Alguns propõem que a pressão fez sentido depois da queda de Sejano, em 31, quando Tibério ficou desconfiado dos amigos de Sejano e os governadores se sentiam vigiados. É uma hipótese plausível, e é só isso.
Um detalhe que só Mateus traz é o recado da mulher de Pilatos Mt 27.19. Outro é o gesto das mãos: "tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo" Mt 27.24. O gesto é conhecido da lei de Moisés: os anciãos lavavam as mãos sobre a novilha para declarar que não tinham derramado sangue Dt 21.6-7. Há também paralelos em autores gregos e latinos, e Mateus pode estar mostrando o romano usando uma linguagem que os dois mundos entendiam.
O título que Pilatos mandou escrever era "JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS" Jo 19.19, "escrito em hebraico, grego e latim" Jo 19.20. A sigla INRI, que a tradição pôs nas cruzes de igrejas, é formada pelas iniciais, em latim, da frase da Vulgata (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum). Pilatos nega a mudança que os sacerdotes pedem: "O que escrevi, escrevi" Jo 19.22. Mais tarde, quando Jesus morre, é um kentyríōn (κεντυρίων), um centurião, palavra latina, que diz: "Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus" Mc 15.39. Alguns leitores notam que "filho de deus" era um título que as moedas davam aos imperadores, divi filius, e que Marcos põe a confissão na boca de um soldado do império. Outros veem aí só uma frase de um pagão assombrado. As duas leituras são possíveis.
O que a história de fora diz. Dois autores antigos, que não eram cristãos, falam da morte de Jesus. Tácito, por volta de 116, escreve que "o autor desse nome, Cristo, foi condenado ao suplício sob Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos" (Anais XV.44, tradução minha). Josefo, por volta de 93, diz em Antiguidades XVIII.63-64 que Pilatos, por sugestão dos principais homens entre os judeus, condenou Jesus à cruz, e que os que o amavam não o abandonaram. O texto de Josefo que temos tem frases que parecem ter sido postas por um cristão, como "ele era o Cristo". A maioria dos estudiosos pensa que Josefo escreveu algo mais curto sobre Jesus e que um copista cristão ampliou. Uma versão árabe do século X, citada pelo bispo Agápio de Hierápolis, diz só que ele "talvez fosse o Messias". Uma minoria acha o texto todo autêntico, e outra acha tudo uma inserção. Num outro lugar Josefo menciona Tiago, "irmão de Jesus, chamado Cristo" (Antiguidades XX.200), passagem que muitos aceitam.
Um homem crucificado. Em 1968, em Giv'at ha-Mivtar, ao norte de Jerusalém, o arqueólogo Vassilios Tzaferis escavou tumbas do século I e achou, num ossuário com o nome Yehohanan, os ossos de um homem de uns 24 a 28 anos. Um osso do calcanhar tinha um prego de ferro ainda cravado, com a ponta dobrada, talvez por ter batido num nó de madeira. É o único achado conhecido, na região, com os restos de um crucificado daquele tempo. A primeira leitura, de 1970, tirou conclusões sobre a posição do corpo na cruz, e um estudo de 1985, de Joseph Zias e Eliezer Sekeles, apontou erros nela. O ossuário e uma réplica do osso estão no Museu de Israel.
⚠️ O prego do calcanhar prova que o suplício romano, como os Evangelhos supõem, existia e era praticado em Jerusalém no século I. Não prova nada sobre Jesus, e o debate sobre como o homem foi preso à cruz ainda existe. E ao longo dos séculos o julgamento de Jesus foi usado para acusar o povo judeu inteiro. Os Evangelhos nomeiam sobretudo os "principais dos sacerdotes" e uma multidão reunida naquela manhã, e João usa a expressão "os judeus", que muitos estudiosos entendem como a liderança de Jerusalém, e não o povo todo. As fontes mostram que a crucificação foi uma pena romana, aplicada por um prefeito romano.
18 — O FIM DE PILATOS E DE CAIFÁSO que aconteceu depois
Pilatos não durou muito. Em 36, depois do massacre dos samaritanos, o governador da Síria, Vitélio, mandou-o a Roma para responder diante do imperador, e Tibério morreu antes que ele chegasse (Josefo, Antiguidades XVIII.88-89, que dá a Pilatos dez anos na Judeia). Não sabemos mais nada com certeza. Cerca de três séculos depois, Eusébio de Cesareia escreveu, citando historiadores gregos, que Pilatos acabou se matando sob o imperador Calígula (História Eclesiástica II.7). Eusébio não diz quem era o historiador, e a notícia não pode ser verificada. Existem também lendas, em várias línguas, sobre o fim dele. É tradição, e tradição tardia.
Caifás ficou no cargo de sumo sacerdote até 36 ou 37, quando Vitélio o depôs (Josefo, Antiguidades XVIII.95). Josefo o chama de José, "chamado também Caifás". Em 1990, ao abrir uma tumba no sul de Jerusalém, os arqueólogos acharam ossuários, um deles com o nome Yehosef bar Qayafa, "José, filho de Caifás". Muitos acham que é a família do sumo sacerdote, outros discutem a leitura e a identificação, e o debate segue aberto.
Para o povo da Judeia, o prefeito era o rosto de Roma, e o rosto de Roma tinha o cheiro dos soldados. Na Páscoa, a cidade enchia, e o governador descia de Cesareia com tropas, para vigiar o Templo. Quem passava pelo pátio externo via, no alto, a fortaleza Antônia e os soldados romanos olhando para baixo. Josefo conta que, numa Páscoa mais tarde, um soldado fez um gesto obsceno diante do povo no pórtico do Templo e a multidão se amotinou (Guerra II.224-227). O julgamento de Jesus aconteceu numa cidade assim: cheia de gente, de soldados e de medo de um tumulto que a Páscoa podia acender.
Pilatos perguntou: "Que é a verdade?" Jo 18.38, e saiu sem esperar a resposta. A verdade estava de pé diante dele, amarrada. Há quem faça a pergunta certa e vá embora antes da resposta. O prefeito que tinha poder para soltar o acusado cedeu à pressão, e o nome dele ficou no Credo Apostólico ("padeceu sob Pôncio Pilatos") e já em Paulo: Cristo "diante de Pôncio Pilatos deu o testemunho de boa confissão" 1Tm 6.13.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Tibério e Pilatos
Tibério (14–37) governava de Capri. Pilatos foi prefeito da Judeia de 26 a 36 ou 37 Lc 3.1.
A pedra de Pilatos
Achada em Cesareia em 1961, é a única inscrição em pedra conhecida com o nome dele. Dá o título certo: prefeito.
Um julgamento romano
A acusação era política, a pena era romana e o título da cruz estava em três línguas Jo 19.19-20. Tácito e Josefo confirmam que Pilatos o condenou.
Yehohanan
Um homem crucificado em Jerusalém no século I, com o prego no calcanhar, mostra que a pena existia Jo 19.18.
Próximo capítulo: Cláudio, a fome, a expulsão dos judeus de Roma, o procônsul Gálio e o homem cujo nome está numa pedra de Corinto.
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