Os soldados já amarraram Paulo com correias, para o açoite, e há um centurião parado ao lado dele. Paulo faz uma pergunta que muda a cena.
Paulo era, ao mesmo tempo, judeu e cidadão de Roma. Este capítulo segue as vezes em que Atos o mostra diante da lei romana: a prisão de Filipos, o tribuno de Jerusalém, os governadores Félix e Festo, o rei Agripa II, o apelo a César e a viagem por mar até a capital. Quem lê com a história do império ao lado vê, em cada cena, uma peça do direito, do exército e da navegação de Roma.
22 — "SOU ROMANO"Filipos, Tarso e a cidadania de Paulo
Atos mostra Paulo usando sua cidadania três vezes. A primeira é em Filipos, na Macedônia, "a primeira cidade desta parte da Macedônia, e é uma colônia" At 16.12. Filipos era uma colônia de veteranos, fundada por Antônio e Otaviano depois da vitória sobre os assassinos de César, em 42 a.C., e depois ampliada por Augusto. Na linguagem e no direito, era um pedaço de Roma plantado na Grécia. Foi nessa cidade que Paulo e Silas, depois de expulsarem um espírito de uma escrava adivinha, foram arrastados à praça. Os donos da escrava acusaram: "Estes homens, sendo judeus, perturbaram a nossa cidade, e nos expõem costumes que não nos é lícito receber nem praticar, visto que somos romanos" At 16.20-21.
A reação foi rápida e sem processo: os magistrados "rasgando-lhes as vestes, mandaram açoitá-los com varas" e os prenderam At 16.22-24. Passaram a noite do terremoto e da conversão do carcereiro At 16.25-34. No dia seguinte, os magistrados mandaram soltá-los. Foi então que Paulo falou: "Açoitaram-nos publicamente e, sem sermos condenados, sendo homens romanos, nos lançaram na prisão, e agora encobertamente nos lançam fora? Não será assim; mas venham eles mesmos e tirem-nos para fora" At 16.37. Os magistrados "temeram, ouvindo que eram romanos" At 16.38. O medo dos magistrados mostra o peso da cidadania: Cícero já dizia, em 70 a.C., que amarrar um cidadão romano era crime (Capítulo 1).
Os homens que vêm soltar Paulo são, na ACF, "quadrilheiros" At 16.35. O grego é rhabdoûchos (ῥαβδοῦχος), que Strong explica como "portador de vara (os fasces latinos), isto é, um lictor romano". Os lictores eram os guardas dos magistrados, que andavam com feixes de varas, símbolo de que o magistrado podia castigar. E o verbo que a ACF traduz por "açoitá-los com varas" é rhabdízō (ῥαβδίζω), "bater com vara". O nome Paûlos, que Lucas dá a Saulo em Atos 13.9, é latino: Strong diz que quer dizer "pequeno" e que era nome de um romano e de um apóstolo. É o nome com que o Novo Testamento passa a chamá-lo depois de Atos 13.
A segunda vez é em Jerusalém. O tribuno acabou de resgatar Paulo de uma multidão no Templo e o leva à fortaleza At 21.34-35. Quando ia ser interrogado sob açoite, vem a pergunta do começo do capítulo. O tribuno desconfia: "Dize-me, és tu romano?" Paulo diz que sim, e o oficial responde: "Eu com grande soma de dinheiro alcancei este direito de cidadão". Paulo: "Mas eu o sou de nascimento" At 22.27-28. Os homens que iam interrogá-lo "logo dele se apartaram", e o tribuno "teve temor, quando soube que era romano, visto que o tinha ligado" At 22.29.
O tribuno se chamava Cláudio Lísias At 23.26. Era um oficial que comandava mil homens (chilíarchos, χιλίαρχος, "comandante de mil"), uma coorte da guarnição de Jerusalém. O nome é uma pista: "Lísias" é grego, e "Cláudio" é o nome do imperador sob quem ele teria comprado a cidadania (41–54), como era costume com os novos cidadãos. É uma dedução razoável, e não um dado. Sobre a cidadania de Paulo, ela vinha de família, "de nascimento". Como a família a recebeu, Atos não diz. Paulo nasceu em Tarso, que ele chama de "cidade não pouco célebre na Cilícia" At 21.39.
A terceira vez é a mais importante: em Cesareia, Paulo apela a César. Antes, é preciso ver quem eram os homens que o julgaram.
23 — DE JERUSALÉM A CESAREIAA fortaleza, o egípcio e a escolta de noite
O quartel romano de Jerusalém era a fortaleza Antônia, ao lado do Templo, com escadas que desciam ao pátio. Josefo diz que uma coorte ficava de guarda nas festas para evitar tumultos (Guerra II.224). Foi dali que o tribuno desceu com soldados quando soube do tumulto At 21.31-32, e achou que Paulo era outro homem: "Não és tu porventura aquele egípcio que antes destes dias fez uma sedição e levou ao deserto quatro mil salteadores?" At 21.38. Josefo conta o caso: um falso profeta egípcio reuniu uma multidão, que ele conta em trinta mil, e a levou ao monte das Oliveiras, para tomar Jerusalém. Félix saiu ao encontro dele com soldados, e o egípcio fugiu com alguns (Guerra II.261-263). Os números diferem, quatro mil em Atos e trinta mil em Josefo, e há várias explicações possíveis: que Josefo exagerou, que Lucas conta só os homens armados, ou que o tribuno se enganou. Em Atos, a palavra grega é sikários, a latina sicarius, "homem do punhal" (Capítulo 1).
Descoberta uma conspiração de mais de quarenta homens que juraram matar Paulo At 23.12-15, o tribuno resolve tirá-lo da cidade, à noite, com uma escolta grande: "duzentos soldados, e setenta de cavalaria, e duzentos archeiros" At 23.23. Escreve uma carta a Félix, "potentíssimo presidente" At 23.26, onde diz que livrou o homem "informado de que era romano" At 23.27. A carta tem forma de documento oficial, e o tribuno conta os fatos de um jeito que o favorece: diz que livrou Paulo por ser romano, quando só soube da cidadania depois (compare At 21.31 com At 22.27). Eles andam de noite até Antipátride At 23.31, cidade que Herodes fundou na estrada que desce de Jerusalém para a costa, e no dia seguinte a cavalaria leva Paulo a Cesareia, a capital romana da Judeia At 23.32-33. Ele é guardado "no pretório de Herodes" At 23.35, o palácio que Herodes construiu e que passou a ser a sede do governador.
24 — FÉLIX, FESTO E AGRIPAUm liberto no poder, um apelo e um rei que quase acredita
O governador era Antônio Félix, procurador da Judeia de c. 52 a 59 ou 60. Não era um aristocrata. Era um liberto da família imperial, irmão de Palas, um dos libertos mais poderosos de Cláudio, e Josefo o diz (Antiguidades XX.137). Tácito é duro com ele: "com toda crueldade e luxúria, exerceu o poder de um rei com a alma de um escravo" (Histórias V.9, tradução minha). Casou com Drusila, filha de Herodes Agripa I e irmã de Agripa II, e Josefo conta que a tirou do marido, o rei de Emesa, por meio de um mago (Antiguidades XX.141-143). É a mesma "Drusila, que era judia" que aparece em Atos At 24.24. Um filho deles, também chamado Agripa, morreu na erupção do Vesúvio, em 79, diz Josefo.
Foi diante desse casal que Paulo falou: "da justiça, e da temperança, e do juízo vindouro", e Félix "espavorido, respondeu: Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei" At 24.25. O texto é franco quanto ao motivo do governador: "Esperando ao mesmo tempo que Paulo lhe desse dinheiro, para que o soltasse" At 24.26. Tem o jeito de um governador que Tácito descreveria. E Paulo ficou preso "passados dois anos", quando "Félix teve por sucessor a Pórcio Festo; e, querendo Félix comprazer aos judeus, deixou a Paulo preso" At 24.27. A data da troca de governador é debatida, entre 58 e 60.
Festo era de outra qualidade. Josefo o trata como um administrador correto, que morreu no cargo por volta de 62 (Antiguidades XX.197). Quando propôs levar Paulo a Jerusalém, para ser julgado, e o preso viu o risco, veio a frase decisiva: "Estou perante o tribunal de César, onde convém que seja julgado [...]; apelo para César" At 25.10-11. E Festo, "tendo falado com o conselho, respondeu: Apelaste para César? para César irás" At 25.12.
"Apelo" é epikaloûmai (ἐπικαλοῦμαι), de epikaléomai, que Strong traduz por "invocar, para auxílio, testemunho ou decisão". O pedido em latim seria Caesarem appello. O direito de um cidadão romano de apelar a um tribunal superior vinha da república, e Paulo o usa para sair das mãos de um governador que quer agradar aos acusadores. O "conselho" de Festo era o grupo de assessores com quem o governador decidia, prática comum no direito romano. Os historiadores do direito discutem se um cidadão podia apelar antes de ser sentenciado. Em Atos, de qualquer modo, Festo aceita sem discutir.
Antes de embarcar, Festo recebe a visita do rei Herodes Agripa II e da irmã Berenice At 25.13. Agripa era o último dos Herodes a governar, filho de Agripa I, rei de territórios do norte, nomeado por Cláudio e ampliado por Nero. Festo não sabia o que escrever ao imperador. Diz ao rei que o prisioneiro apelou a César, "para que fosse reservado ao conhecimento de Augusto" At 25.21, e confessa que não tem "coisa alguma certa que escreva ao meu senhor" At 25.26. Paulo fala, e Agripa responde com uma frase que a ACF traduz assim: "Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!" At 26.28. Ao sair, os presentes dizem: "Este homem nada fez digno de morte ou de prisões", e Agripa observa que "Bem podia soltar-se este homem, se não houvera apelado para César" At 26.31-32. A apelação, que salvou Paulo de Jerusalém, o levou a Roma.
Paulo passou pelo menos dois anos preso em Cesareia, na cidade que Herodes tinha feito à imagem de Roma, com porto, teatro e hipódromo. Era uma cidade mista, de gregos, judeus e romanos, onde a convivência era tensa. Josefo diz que em 66 foi uma briga entre judeus e gregos na cidade que acendeu a guerra (Guerra II.284-292). Para um preso como Paulo, a vida era a do cárcere: soldados, visitas de amigos, a espera de um governador. O texto diz que Félix mandou guardá-lo "tratando-o com brandura" e que não impedissem os amigos de servi-lo At 24.23.
25 — A VIAGEMUm centurião, um navio de trigo e uma tempestade
O apelo ao imperador tinha de ser levado pessoalmente a Roma. Paulo e outros presos foram entregues "a um centurião por nome Júlio, da coorte augusta" At 27.1. Foram de navio por Sidom, Mira e Cnido, e Lucas descreve com detalhes de marinheiro. No porto de Mira, o centurião embarcou todo mundo num navio de Alexandria que ia para a Itália At 27.6. Era um cargueiro de trigo, e isso ajuda a entender o resto. Roma dependia dos grãos do Egito e da África, e os navios de Alexandria faziam a rota longa, por Mira, Creta e Sicília, até Putéoli, o porto da baía de Nápoles que recebia o trigo.
A época era ruim. "Passado muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, pois, também o jejum já tinha passado" At 27.9. O "jejum" é o Dia da Expiação, que cai no fim de setembro ou em outubro. Vegécio, escritor militar do século IV, diz que a navegação era segura de 27 de maio a 14 de setembro, duvidosa até 11 de novembro e proibida de 11 de novembro a 10 de março (Tratado militar IV.39). Os historiadores discutem o quanto essa regra era rígida, e sabem que navios de grãos corriam riscos para abastecer Roma. Paulo avisou, mas "o centurião cria mais no piloto e no mestre, do que no que dizia Paulo" At 27.11. Veio o "Euro-aquilão" At 27.14, um vento de tempestade de nordeste, e depois catorze dias à deriva At 27.27 e o naufrágio em Malta. "E éramos ao todo, no navio, duzentas e setenta e seis almas" At 27.37. Depois de comer, "aliviaram o navio, lançando o trigo ao mar" At 27.38.
Josefo também naufragou. No ano 63 ou 64, o historiador Josefo, então com uns 26 anos, foi a Roma para livrar uns sacerdotes que Félix prendera e mandara a César. Conta na sua Vida (13–16) que o navio afundou no Adriático e que eles, "cerca de seiscentos", nadaram a noite toda, até que um navio de Cirene recolheu oitenta, entre eles ele. Chegou depois a Putéoli (Vida 13–16, tradução minha a partir do texto inglês de Whiston). Josefo é outro autor, outro navio e outro naufrágio, e o mar é o mesmo: o "Adriático" de Lucas e o de Josefo é o nome antigo de uma parte grande do Mediterrâneo central, e não só do mar entre a Itália e a Grécia. O número de pessoas a bordo, seiscentas em Josefo e duzentas e setenta e seis em Atos, mostra que os navios de carga e de passageiros do tempo eram grandes.
⚠️ A tradição identifica a ilha do naufrágio com Malta (a baía de São Paulo), e é a leitura da maioria. Uma minoria propôs Meleda (Mljet), no Adriático, a partir do nome Adria em Atos 27.27 e de outros detalhes. Os dois lados têm argumentos náuticos, e a identificação não é certa.
Em Malta, uma víbora se pendura na mão de Paulo, e os nativos esperam que ele caia morto At 28.3-6. O "principal da ilha", Públio, o recebe por três dias At 28.7. Três meses depois, a viagem continua "num navio de Alexandria que invernara na ilha, o qual tinha por insígnia Castor e Pólux" At 28.11. A "insígnia" é o emblema do navio, e Castor e Pólux, os gêmeos filhos de Júpiter, eram os protetores dos marinheiros: em grego, Dióskouroi (Διόσκουροι, "filhos de Zeus", segundo Strong). O navio passou por Siracusa e Régio e chegou a Putéoli, onde os irmãos receberam os viajantes durante sete dias At 28.12-14. Depois foram pela Via Ápia, como o Capítulo 1 mostrou, até Roma.
26 — ROMADois anos numa casa alugada
Paulo chega a Roma por volta de 60 ou 61 (as datas variam). O centurião entrega os presos ao comandante da guarda, e a Paulo "se lhe permitiu morar por sua conta à parte, com o soldado que o guardava" At 28.16. Era o regime que os romanos chamavam de custodia militaris: o preso ficava num alojamento próprio, mas ligado a um soldado por uma corrente. Daí a frase de Paulo aos judeus de Roma: "pela esperança de Israel estou com esta cadeia" At 28.20.
O livro de Atos termina de um jeito que muita gente estranha: "E Paulo ficou dois anos inteiros na sua própria habitação que alugara, e recebia todos quantos vinham vê-lo; Pregando o reino de Deus, e ensinando com toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum" At 28.30-31. Não se diz se houve julgamento. Os estudiosos propõem soluções: que o caso foi arquivado porque os acusadores não apareceram, que Paulo foi solto e voltou a viajar (hipótese apoiada por alguns textos antigos e pelas cartas pastorais), ou que foi condenado depois dos dois anos. O Capítulo 8 expõe o que se sabe sobre isso, com a distinção entre a Bíblia e a tradição.
Paulo usou três vezes um direito que a maioria dos seus irmãos não tinha. Em Filipos o usou para exigir que os magistrados reparassem o erro, em Jerusalém para escapar do açoite e em Cesareia para chegar a Roma. Mas ele mesmo escreve: "Três vezes fui açoitado com varas", e acrescenta que "três vezes sofri naufrágio" 2Co 11.25. Nesses açoites, a cidadania não o protegeu ou ele não a invocou, e Atos não os conta. A cidadania era uma ferramenta, não um orgulho. Paulo a usou quando ela servia ao evangelho e a deixou de lado quando não servia.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Cidadão de nascimento
Paulo invoca a cidadania em Filipos e em Jerusalém. Cláudio Lísias a comprou, e Paulo a tinha At 22.28.
Félix e Festo
Um liberto cruel (Tácito) e um administrador correto (Josefo). Félix esperava dinheiro; Festo ouviu o apelo At 25.11.
O navio de trigo
Duzentas e setenta e seis pessoas a bordo. Josefo também naufragou no mesmo mar, com uns seiscentos, c. 63.
Dois anos em Roma
Custódia militar, casa alugada, pregação sem impedimento. Atos termina sem dizer o fim At 28.31.
Próximo capítulo: Nero. A igreja de Roma, a carta que Paulo lhe escreveu, o incêndio de 64 e a primeira perseguição.
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