José deixa Nazaré com a esposa grávida. São mais de cem quilômetros até a Judeia, e eles vão porque um decreto manda. "E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade" Lc 2.3. O destino é Belém, "pequena entre os milhares de Judá" Mq 5.2.
Esse é um dos versículos mais lidos do Natal, e um dos mais discutidos pelos historiadores. Este capítulo apresenta Augusto, o primeiro imperador, e depois enfrenta de frente o debate sobre o censo de Quirino, com as principais posições e o que cada uma sustenta. Não chega a um veredicto, porque os dados de que dispomos não dão um.
12 — AUGUSTOO homem que arrumou o mundo
Augusto nasceu Caio Otávio, em 63 a.C., e foi adotado por testamento por seu tio-avô Júlio César, de quem herdou o nome e a fama. Venceu Marco Antônio e Cleópatra em Áccio (31 a.C.) e, em 27 a.C., recebeu o nome que o fez conhecido. Governou até morrer, em 14 d.C., aos 75 anos. Era o dono do império mais poderoso do mundo e, quando se apresentava, falava de si como o restaurador da república. Tácito, que não o admirava sem reservas, resumiu o método: depois de tantas guerras, Augusto conquistou os soldados com presentes, o povo com trigo e a todos com a doçura do sossego, e foi chamando para si, aos poucos, as funções do Senado, dos magistrados e das leis, sem que ninguém se opusesse (Anais I.2, tradução minha). A paz foi o produto dele, e também o preço.
Uma amostra do que isso significava na prática está no texto que ele mandou gravar a respeito da própria vida, as Res Gestae. O Senado, ele diz, mandou erguer um altar da Paz Augusta no Campo de Marte (Res Gestae 12). A Ara Pacis, consagrada em 9 a.C., existe até hoje em Roma. Ele fala também de três contagens de cidadãos, que fez ele mesmo ou com colegas, e dá os números: 4.063.000 em 28 a.C.; 4.233.000 em 8 a.C.; 4.937.000 em 14 d.C. (Res Gestae 8). Era assim que o império se conhecia: contando.
Os Feitos de Augusto. O que sabemos dos censos do imperador vem, em boa parte, do texto das Res Gestae, que Augusto deixou pronto antes de morrer. O original de bronze se perdeu. O que temos são cópias, a mais completa em Ancara, na Turquia, e fragmentos em outros lugares do Oriente, como Antioquia da Pisídia (Capítulo 2). Os números acima vêm dessas cópias.
⚠️ Os historiadores discutem o que esses números contam. Uma leitura os entende como cidadãos homens adultos. Outra, como todos os cidadãos, inclusive mulheres e crianças. A diferença muda a conta da população do império, e não há acordo. O que não está em disputa é que Augusto fez censos de cidadãos romanos.
Lucas escreve que o decreto era "para que todo o mundo se alistasse". "Mundo" é oikouménē (οἰκουμένη), que Strong explica como "terra, ou seja, a parte terrestre do globo; em especial, o império romano". É o "mundo" do ponto de vista de Roma. E "alistar-se" vem do verbo apográphō (ἀπογράφω), "copiar numa lista, isto é, registrar", e o substantivo apographḗ (ἀπογραφή) é "um registro; por extensão, uma avaliação" (Strong). Para muitos leitores, "todo o mundo" é o jeito de falar de quem vive no império: o mundo de Augusto, sem a precisão de um censo único.
13 — O DEBATE DO CENSOQuirino, Herodes e as datas que não fecham
Aqui está o problema. Lucas coloca o nascimento de Jesus durante um censo feito "sendo Quirino presidente da Síria". Quirino, em latim Públio Sulpício Quirínio, é uma figura bem documentada. Foi cônsul sob Augusto (em 12 a.C., segundo a data corrente) e conquistou povos nas montanhas da Cilícia. Depois serviu de guia do neto de Augusto, Caio, na Armênia, e foi amigo de Tibério. Morreu em 21 d.C. Tácito resume o currículo dele e conta que Tibério pediu ao Senado funerais públicos para ele (Anais III.48). Faltam, porém, três coisas para encaixar tudo.
Primeiro, as datas. Josefo diz que Quirino foi enviado à Síria depois que Arquelau foi deposto, em 6 d.C., para fazer o censo da Judeia e avaliar os bens do ex-rei (Antiguidades XVII.355 e XVIII.1-2). Foi esse censo que levou Judas, o galileu, a se rebelar, como Lucas mesmo sabe em outro lugar: "Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento" At 5.37. Mas Mateus e Lucas colocam o nascimento de Jesus no tempo de Herodes Mt 2.1; Lc 1.5, que morreu por volta de 4 a.C. (Capítulo 3). São uns dez anos de diferença.
Segundo, o alcance. Não se conhece nenhum decreto que mandasse recensear todo o império de uma só vez. Há censos de cidadãos romanos, como os de Augusto, e há censos de províncias, em épocas diferentes.
Terceiro, a viagem. José morava na Galileia, que era governada por Herodes Antipas, um tetrarca aliado de Roma. Por que um censo romano o faria ir a Belém, na Judeia, "à cidade de Davi"? Para a Judeia, não se conhece um costume romano de mandar as pessoas à cidade dos antepassados.
A pedra de Quinto Emílio Secundo. É a lápide de um oficial romano, hoje no Museu Arqueológico de Veneza, que veio de Beirute para a Itália no século XVII. O texto diz que ele serviu sob Públio Sulpício Quirínio, legado de César na Síria, e que, por ordem de Quirínio, fez um censo no território de Apameia com 117.000 cidadãos (tradução minha). Prova que Quirino foi legado da Síria e que fez recenseamentos lá. A pedra não traz data, e os estudiosos discutem a qual censo ela se refere: muitos a ligam ao de 6 d.C., e a ligação com o censo de Lucas 2 é discutida.
O papiro de Vibius Máximo. No Egito, uma ordem do prefeito Caio Vibius Máximo, de 104 d.C., manda os que estão longe de casa voltarem para ela por causa do censo. Costuma ser lido ao lado de Lucas 2. Quem o cita a favor de Lucas diz que mostra que o governo podia mandar as pessoas voltarem para registrar. Quem o cita contra lembra que é do Egito, do século II, e que manda voltar para onde a pessoa mora, não para a cidade dos antepassados.
⚠️ Nenhuma das duas peças resolve o debate. A primeira prova que Quirino fez censos na Síria. A segunda mostra que o governo podia ordenar que as pessoas voltassem ao seu lugar para o censo, em outra época e em outra província. Nada prova nem desmente que isso aconteceu no tempo e do jeito que Lucas conta.
Diante disso, os leitores se dividem em posições que merecem ser descritas pelo que cada uma diz.
1. Lucas se enganou, ou juntou duas lembranças. É a posição da maioria dos estudiosos críticos, entre eles Raymond Brown e Joseph Fitzmyer, que veem em Lucas 2.2 uma confusão com o censo conhecido de 6 d.C., usado para ligar o nascimento de Jesus à história do mundo. Quem pensa assim costuma dizer que o interesse de Lucas é teológico: o Salvador nasce sob um imperador, em Belém, por um decreto, e o resto é cenário. Muitos que pensam assim continuam a ver em Lucas um evangelista confiável no essencial. Outros leitores, que entendem a inspiração como garantia de exatidão em cada detalhe histórico, não aceitam essa leitura.
2. Lucas diz outra coisa. Alguns, como I. Howard Marshall, leem prōtē não como "primeiro", e sim como "anterior": este alistamento teria sido anterior ao tempo em que Quirino governava a Síria. O grego tem paralelos, como em João 1.15, onde João Batista diz de Jesus que "foi primeiro do que eu" (prôtos mou), e a leitura resolveria a data. Seus críticos acham a construção forçada em Lucas 2.2.
3. Quirino teve dois períodos na Síria. O historiador William Ramsay propôs em 1898 que Quirino já exerceu um cargo na Síria antes de 6 d.C., e outros, depois dele, defenderam que houve dois governos ou uma função auxiliar ao lado do governador, durante o reinado de Herodes. Há uma inscrição latina, o Lapis Tiburtinus, que fala de um governador que serviu duas vezes na Síria, e alguns a atribuem a Quirino. Mas há quem a atribua a outro, e os críticos lembram que nenhuma fonte documenta um primeiro período dele.
4. Foi outro censo, no tempo de Herodes. O escritor cristão Tertuliano, por volta de 200, diz que o censo do tempo do nascimento de Jesus foi feito na Judeia por Sêncio Saturnino, governador da Síria de c. 9 a 7 a.C. (Contra Marcião IV.19). Justino Mártir, por volta de 155, já tinha dito que os registros do censo de Quirino podiam ser consultados (Primeira Apologia 34), o que vários estudiosos tratam como suposição dele, e não como evidência. Colin Humphreys e outros propõem um censo sem fins de imposto, nos últimos anos de Herodes.
Cada posição tem pontos fortes e pontos fracos, e os estudiosos sérios, tanto os que confiam em Lucas quanto os que não, continuam em desacordo. Uma coisa vale para quem aceita Herodes morto em 4 a.C.: o ano do nascimento de Jesus cai entre c. 6 e 4 a.C., e essa imprecisão não é o ponto central de Lucas. Seu ponto é o contraste do capítulo: um decreto de Augusto põe um casal na estrada, e é por isso que um filho de Davi nasce na cidade de Davi.
14 — BELÉMUma manjedoura, uma estalagem e o Salvador
Belém é, pela Bíblia, a cidade de Davi. Miqueias já tinha dito que dela sairia o governante de Israel: "E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel" Mq 5.2. Mateus cita essa promessa quando os sacerdotes respondem a Herodes Mt 2.5-6. Lucas não a cita, mas põe a cena no lugar certo: "E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem" Lc 2.7.
A "estalagem" de Lucas 2.7 é katályma (κατάλυμα), que Strong explica como "ruptura de uma viagem", ou seja, "lugar de pouso". A mesma palavra aparece em Lucas 22.11, onde a ACF a traduz por "aposento": "Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa" Lc 22.11. Para a pousada pública, Lucas tem outra palavra, pandocheîon, no Bom Samaritano Lc 10.34, que a ACF também traduz por "estalagem". Por isso muitos estudiosos pensam que o katályma de Belém era o quarto de hóspedes de uma casa de família, cheio por causa dos parentes que tinham vindo se alistar, e não uma pousada comercial. É uma leitura possível, e alguns ainda preferem a pousada.
A "manjedoura" é phátnē (φάτνη), "um cocho para forragem", o mesmo lugar onde, em outro texto, desprende-se o boi no sábado Lc 13.15.
A frase central da noite, porém, é a dos anjos. Os pastores, no campo, ouvem: "vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor" Lc 2.11. Em três palavras, "Salvador", "Cristo" e "Senhor", o anúncio reúne o que o império reivindicava para Augusto e o que Israel esperava do Messias. Já vimos o decreto de Priene, de 9 a.C., que chamava o aniversário de Augusto de "começo das boas-novas" e o próprio Augusto de "salvador" (Capítulo 2). Muitos estudiosos acham que o contraste é proposital, e outros, que Lucas apenas usa o vocabulário comum do Oriente. De um jeito ou de outro, o texto diz que o Salvador nasceu num lugar que Roma nem notou.
Para os camponeses da Judeia, um censo não era um evento neutro. Registrava pessoas e terras, e o registro servia à cobrança de impostos. O de 6 d.C. causou uma revolta, a de Judas, o galileu, que Josefo diz ter convencido o povo a não pagar, porque pagar a Roma era aceitar um senhor humano (Antiguidades XVIII.4-10). O casal de Lucas era gente simples: levou, para a apresentação no Templo, "Um par de rolas ou dois pombinhos" Lc 2.24, a oferta que a lei previa para quem não tinha recursos para um cordeiro Lv 12.8. O decreto de Augusto não foi, para eles, uma grande história do mundo. Foi uma viagem, uma lista de nomes e um lugar sem vaga.
O imperador mandou contar cabeças. Deus usou a contagem para pôr o Filho na cidade certa, no tempo certo. O homem escreve decretos para organizar o próprio mundo, e Deus os escreve nas entrelinhas para cumprir o dele. E Miqueias já dissera, séculos antes, de que cidade sairia o que governaria Israel.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Augusto
Otaviano venceu em Áccio (31 a.C.), foi chamado Augusto em 27 a.C. e governou até 14 d.C. O último dos seus censos de cidadãos contou 4.937.000, em 14 d.C.
O problema
Quirino fez um censo na Judeia em 6 d.C. Mas Jesus nasceu no tempo de Herodes, que morreu em 4 a.C. As datas não fecham de modo simples.
Quatro posições
Lucas se enganou; "primeiro" quer dizer "anterior"; Quirino teve dois períodos na Síria; foi outro censo, no tempo de Herodes. Nenhuma é prova.
Katályma
A "estalagem" de Lucas 2.7 pode ser o quarto de hóspedes de uma casa, não uma pousada Lc 2.7.
Próximo capítulo: Tibério, o prefeito Pilatos, a pedra que traz o nome dele e o julgamento de Jesus.
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