O rei Herodes ouve uma pergunta que nenhum rei quer ouvir. Uns magos vindos do oriente entraram em Jerusalém e perguntam onde está "aquele que é nascido rei dos judeus" Mt 2.2. O texto diz que Herodes "perturbou-se, e toda Jerusalém com ele" Mt 2.3. Quem fala em "rei dos judeus" nessa cidade está falando de um cargo que o Senado de Roma deu a um homem, mais de trinta anos antes.
Para entender por que um rei poderoso treme diante de uma criança, é preciso voltar a como Roma entrou na terra de Jesus. Este capítulo percorre o caminho: o primeiro contato, o dia em que o general Pompeu entrou no Templo, o rei que Roma fez e o Herodes que Mateus mostra, até o ano em que ele morreu.
09 — ROMA CHEGA À JUDEIADe uma aliança a um general no Templo
O primeiro contato foi uma aliança. O livro de 1 Macabeus, que católicos e ortodoxos incluem na Bíblia e protestantes não, conta que Judas Macabeu ouviu falar da força dos romanos e mandou embaixadores a Roma, por volta de 161 a.C., para firmar amizade e aliança (1Mc 8; Josefo conta a mesma história em Antiguidades XII.414-419). Na época, Judas lutava contra os reis selêucidas, herdeiros do império de Alexandre, e Roma parecia um aliado longínquo e poderoso. Era o começo de uma amizade que custaria caro.
Poucos anos antes, em 168 a.C., o poder de Roma já tinha aparecido de outro modo. O rei selêucida Antíoco IV invadiu o Egito, e o Senado mandou um enviado, Caio Popílio Lenas, exigir que ele saísse. O historiador romano Lívio conta a cena: Antíoco pediu tempo para consultar os amigos, e Popílio traçou um círculo no chão em volta dele com a bengala e disse que, antes de sair dali, ele desse a resposta que levaria ao Senado. O rei, assustado, cedeu (Lívio, História de Roma XLV.12, tradução minha). Muitos estudiosos entendem que Daniel tem esse momento em mente quando diz que "virão contra ele navios de Quitim, que lhe causarão tristeza; e voltará, e se indignará contra a santa aliança" Dn 11.30. A leitura é comum, mas não é a única, e os detalhes de quem é quem em Daniel 11 são debatidos (o volume desta série sobre Alexandre e a Macedônia trata do capítulo com mais vagar).
O hebraico escreve Kittîm (כִּתִּים), de um nome ligado a Chipre. O dicionário de Strong (H3794) diz que a palavra veio a significar, de modo geral, "um ilhéu, ou seja, os gregos ou os romanos das costas em frente à Palestina". No Pentateuco, Balaão já fala de naus "das costas de Quitim" que afligirão Assur e Éber Nm 24.24. Entre os manuscritos do mar Morto, os comentários de Habacuque e de Naum, chamados pesharim, usam "Quitim" para uma potência estrangeira que vem do mar, e muitos estudiosos a identificam com os romanos (o comentário de Habacuque é o caso mais citado; a identificação com os romanos é a mais comum, não a única). Mas a palavra serviu também para os gregos e macedônios: o livro de 1 Macabeus diz que Alexandre veio "da terra de Quitim" (1Mc 1.1). A mesma palavra seguiu o poder que vinha do mar.
Em 63 a.C., o poder chegou em pessoa. Dois irmãos, Hircano II e Aristóbulo II, disputavam o trono e o sumo sacerdócio, e os dois apelaram ao general Pompeu, que estava na Síria. O grupo de Aristóbulo se fechou no Templo. Pompeu sitiou o monte, e o cerco durou três meses. Josefo conta que os soldados romanos levantaram rampas e usaram máquinas, enquanto os sacerdotes continuavam a oferecer os sacrifícios do dia, duas vezes ao dia, sob as pedras que caíam (Antiguidades XIV.65-68; Guerra I.141-150, resumo meu). Quando uma torre caiu, os romanos entraram. Josefo diz que morreram doze mil judeus e poucos romanos (Guerra I.150).
O que mais doeu no povo, escreve Josefo, foi o que veio depois: Pompeu e os do seu grupo entraram no santuário interior, onde só o sumo sacerdote podia entrar Hb 9.7, e viram o candelabro, a mesa, os vasos e uma grande quantia de dinheiro sagrado. Mas não tocou em nada, e mandou que os servos do Templo o purificassem e retomassem os sacrifícios já no dia seguinte (Guerra I.152-153). Tácito, que não era judeu, também guardou o episódio: Pompeu foi o primeiro dos romanos a vencer os judeus e "entrou no Templo por direito de conquista", e daí se espalhou a notícia de que lá dentro não havia imagem de deus alguma (Histórias V.9, tradução minha). A Judeia perdeu o território que conquistara, passou a pagar tributo a Roma e ficou ligada ao governador da Síria. Hircano ficou como sumo sacerdote, sem coroa.
Um poema judaico dessa época, os Salmos de Salomão, que não entrou no cânon das grandes tradições cristãs nem no judaico, fala de um estrangeiro orgulhoso que derrubou as muralhas de Jerusalém e foi morto, depois, nas montanhas do Egito. Muitos estudiosos o leem como uma referência a Pompeu, que foi assassinado ao chegar ao Egito, em 48 a.C. O poema mostra como a invasão foi vivida pelos contemporâneos: como castigo de Deus sobre uma classe dirigente corrupta e como um insulto ao Templo.
⚠️ O texto não é Escritura. Serve como testemunho histórico de como parte dos judeus interpretou 63 a.C. A identificação do "estrangeiro" com Pompeu é a mais aceita, mas é uma leitura, e não uma certeza.
10 — O REI QUE ROMA FEZHerodes, o Grande, e suas obras
Pompeu foi embora, e o poder em Jerusalém passou a depender de quem fosse amigo de Roma. Quem soube ser amigo foi Antípater, da região de Edom (Iduméia), que servia a Hircano. Quando Júlio César esteve no Egito, em 48–47 a.C., Antípater o ajudou, e César, diz Josefo, lhe deu a cidadania romana e a isenção de impostos (Antiguidades XIV.137). O filho dele, Herodes, foi bem mais longe. Em 40 a.C., fugindo dos partas, que tinham invadido a região, foi a Roma. Antônio e Otaviano o apoiaram, o Senado o ouviu e o declarou rei (Antiguidades XIV.381-385). Ele só ocupou o trono três anos depois, em 37 a.C., quando tomou Jerusalém com a ajuda de legiões romanas. Governou até morrer, por volta de 4 a.C.
Era um rei que só existia por Roma, e agiu como tal. Construiu cidades com nomes romanos. Cesareia Marítima, no litoral, no lugar da antiga Torre de Estrato, recebeu o nome de César e um grande porto artificial. Samaria foi refundada como Sebaste, também em honra de Augusto. Perto das nascentes do Jordão, ergueu um templo de pedra branca ao imperador (Antiguidades XV.363). A cidade que depois chamaram Cesareia de Filipe, onde Pedro confessa Jesus Mt 16.13, nasceu nessa região. Ao mesmo tempo, Herodes reconstruiu o Templo de Jerusalém, a partir de c. 20 a.C. (Antiguidades XV.380), e isso explica a frase dos judeus a Jesus: "Em quarenta e seis anos foi edificado este templo" Jo 2.20. A obra só terminou por volta de 63 d.C., e Josefo conta que, ao acabar, mais de dezoito mil operários ficaram sem trabalho (Antiguidades XX.219-222). Em poucos anos o Templo seria queimado.
O aviso do Templo. Em 1871, o arqueólogo francês Charles Clermont-Ganneau encontrou em Jerusalém uma pedra de calcário com uma inscrição em grego. Hoje ela está no Museu Arqueológico de Istambul. Um segundo fragmento, achado em 1935 ou 1936, está no Museu de Israel. A tradução do texto, que é minha, diz mais ou menos: "Nenhum estrangeiro entre além da balaustrada e da cerca em torno do santuário. Quem for apanhado será responsável por sua própria morte, que se seguirá." Josefo diz que eram colunas colocadas a intervalos, com avisos em letras gregas e romanas (Guerra V.193-194), e que os romanos tinham dado aos judeus o direito de matar quem passasse, ainda que fosse romano (Guerra VI.124-126, dito por Tito). Dos avisos achados até hoje, só os em grego sobreviveram.
Isso se liga ao que os Atos contam: Paulo é preso no Templo porque judeus da Ásia o acusaram de ter introduzido gregos no recinto, ao verem Trófimo, de Éfeso, com ele At 21.27-29. E alguns estudiosos acham que a "parede de separação" de Efésios 2.14, que Cristo derrubou, pode ecoar essa barreira. É uma hipótese.
⚠️ A pedra prova que o aviso existia e o que ele dizia. Não prova que Efésios esteja pensando nela: a "parede" pode ser a Lei, ou uma imagem geral de divisão. Ambas as leituras têm defensores.
Viver sob Herodes era viver sob um rei que dava com uma mão e vigiava com a outra. Josefo conta que, numa fome longa, por volta de 25 a.C., ele vendeu o ouro e a prata trabalhados do próprio palácio para comprar trigo no Egito, e distribuiu o grão (Antiguidades XV.299-316). Também conta que mandou matar a própria esposa, Mariana, e, no fim da vida, três de seus filhos. Os dois quadros são do mesmo historiador, e o povo viveu os dois: pão, obras, impostos e medo. Quando os fariseus se juntam aos "herodianos" contra Jesus Mc 3.6, o Evangelho mostra que na Galileia havia gente ligada, de verdade, à casa de Herodes.
11 — HERODES E O MENINOMateus 2, a história e a data
É nesse mundo que Mateus põe o nascimento de Jesus: "em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes" Mt 2.1. Lucas faz o mesmo: "no tempo de Herodes, rei da Judéia" Lc 1.5. O Herodes de Mateus age como o Herodes de Josefo. É um rei desconfiado, que ouve dos magos o título de "rei dos judeus" e se assusta. Descobre que fora enganado e "mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo" Mt 2.16. Mateus vê nisso o cumprimento de Jeremias 31.15, o choro de Raquel Mt 2.17-18.
"Rei" é basileús (βασιλεύς), a "pessoa soberana", segundo Strong. A expressão "rei dos judeus" soa, no Novo Testamento, como um título que Roma dava ou reconhecia: o Senado fizera Herodes rei da Judeia. Os magos a usam com o sentido de "nascido rei" Mt 2.2. E é a mesma frase que Pilatos manda escrever sobre a cruz, em três línguas Jo 19.19-20. Mateus faz a história de Jesus começar e terminar com a mesma pergunta política: quem é o rei dos judeus?
O que a história diz sobre o massacre? Quase nada, e é preciso ser claro. Nenhum texto fora de Mateus o menciona. Josefo, que conta com detalhes as crueldades de Herodes, não fala dele. O único eco é uma anedota tardia, do escritor latino Macróbio (c. 430 d.C.), que diz que Augusto, ao saber que Herodes mandara matar crianças e que o próprio filho dele estava entre os mortos, teria comentado que seria melhor ser porco de Herodes do que filho dele (Saturnais II.4.11). A história de Macróbio, porém, é muito posterior, põe o filho entre as crianças, e os estudiosos discordam sobre se tem algum valor. Quem aceita o relato de Mateus lembra que Belém era uma aldeia pequena, onde as vítimas podiam ser poucas, e que isso explicaria o silêncio de Josefo. Quem duvida acha estranho que Josefo, tão atento às crueldades de Herodes, não diga nada. A tradição posterior fez dos meninos milhares, mas o texto de Mateus não dá número.
E quando foi isso? Josefo escreve que Herodes morreu depois de um eclipse da lua e antes de uma Páscoa, e que reinou trinta e quatro anos depois de matar Antígono e trinta e sete desde que os romanos o declararam rei (Antiguidades XVII.167, XVII.191). A maioria dos historiadores conta esses anos e chega a 4 a.C. Uma minoria, defendendo um eclipse diferente, propõe 1 a.C. Quem fica com 4 a.C. coloca o nascimento de Jesus entre c. 6 e 4 a.C. Quem prefere 1 a.C. o põe mais tarde. A diferença não muda a mensagem de Mateus. A contagem de anos "depois de Cristo" foi fixada no século VI pelo monge Dionísio, o Pequeno, e muitos acham que o ponto de partida dele ficou alguns anos adiante da data real.
Herodes morreu na Judeia, no palácio de Jericó. Josefo diz que cinco dias antes mandara matar o filho Antípater (Antiguidades XVII.191). O corpo foi levado ao Herodião, a fortaleza em forma de cone que ele construiu perto de Belém. Em 2007, o arqueólogo Ehud Netzer anunciou ter achado ali o túmulo dele. Netzer e quem o sucedeu na escavação, Roi Porat, defendem a identificação. Joseph Patrich e Benny Arubas, também da Universidade Hebraica, argumentaram em 2013 que o monumento é modesto demais para Herodes. Nenhuma inscrição nomeia o morto, e o debate continua.
O reino foi dividido entre três filhos, com a aprovação de Augusto. Arquelau ficou com a Judeia, e é dele que José tem medo Mt 2.22. Herodes Antipas ficou com a Galileia, e Filipe com a região ao nordeste Lc 3.1. Depois de queixas de judeus e de samaritanos, Augusto depôs Arquelau em 6 d.C. e fez da Judeia uma província romana, entregue a um prefeito. Aí começa o assunto do Capítulo 5.
Um rei que só existia porque Roma o escolhera treme diante de um menino que ainda não sabia falar. O poder que o Senado dá, o Senado tira, e Herodes sabia disso. A cena de Mateus 2 mostra o contraste de dois reis: um tem medo de perder o trono que ganhou, o outro foi trazido por um anjo e um sonho e depois fugirá, criança, para o Egito.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Navios de Quitim
Muitos veem em Daniel 11.30 o enviado romano que, em 168 a.C., traçou um círculo no chão e mandou Antíoco IV sair do Egito Dn 11.30.
63 a.C.
Pompeu toma o Templo em três meses e entra no santuário, mas não toca em nada. A Judeia passa a depender de Roma.
O rei que Roma fez
O Senado declarou Herodes rei em 40 a.C. Ele reconstruiu o Templo e fundou Cesareia Marítima e Sebaste em honra de Augusto.
Um aviso em grego
A pedra do Templo proibia estrangeiros de passar a balaustrada, sob pena de morte, e liga-se à prisão de Paulo At 21.28.
Próximo capítulo: Augusto, o decreto de Lucas 2 e o debate sobre o censo de Quirino.
Leve este capítulo com você
Baixe o Capítulo 3 — Pompeu e Herodes em PDF — diagramado, com as obras de arte e as 4 camadas de estudo, pronto pra ler offline, imprimir ou usar no preparo do sermão.
🔒 PDF do capítulo