RomaCapítulo 9 de 11 ⤓ PDF
Litografia a partir de David Roberts: Jerusalém em chamas durante o cerco romano, com o exército em primeiro plano e a fumaça sobre a cidade
CAPÍTULO 9 DE 11

Jerusalém, 70 d.C.

Tito, Josefo, o Templo em chamas e o arco que ainda mostra o candelabro

Jesus diz que não ficará pedra sobre pedra, e quarenta anos depois o Templo queima. O cerco de Tito segundo Josefo e Tácito, o que as igrejas leem nas profecias, o triunfo em Roma e o arco onde o candelabro ainda aparece.

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Jesus sai do Templo, e os discípulos o procuram para lhe mostrar as construções. Um deles diz: "Mestre, olha que pedras, e que edifícios!" Mc 13.1. Jesus olha para o mesmo conjunto e responde com uma frase que ninguém esperava.

"Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada." Mateus 24.2

Quarenta anos depois, o Templo queimava. Este capítulo conta como Roma e os judeus chegaram a isso, o que Josefo e Tácito dizem do cerco de Jerusalém, o que ficou de pé em Roma para lembrar a vitória e o que as profecias de Jesus e de Daniel têm a ver com 70 d.C., nas leituras que as igrejas fazem delas.

31 — DA GUERRA AO CERCO66–70: o sacrifício que parou, Josefo e Vespasiano

Já vimos o começo: em 66, o capitão do Templo mandou parar os sacrifícios pelo imperador, e Josefo diz que foi "o verdadeiro começo da nossa guerra com os romanos" (Capítulo 2). Houve também o governo duro do procurador Géssio Floro e o conflito em Cesareia (Capítulo 7). A guerra não tardou. Em novembro de 66, o governador da Síria, Céstio Galo, subiu a Jerusalém com uma legião e reforços e foi derrotado, na retirada, em Bete-Horom (Josefo, Guerra II.499-555). Nero mandou Vespasiano, veterano, que na primavera de 67 começou pela Galileia.

Foi então que apareceu o personagem que dá voz a quase tudo o que sabemos: Josefo, de família sacerdotal, nomeado comandante da Galileia pelos judeus. Em Jotapata, depois de um cerco de uns quarenta e sete dias, ele se rendeu aos romanos. Conta que, levado a Vespasiano, anunciou que ele seria imperador (Guerra III.399-408). Suetônio guardou a mesma história: "um dos nobres cativos, Josefo, quando o lançaram em ferros, afirmou com toda a firmeza que em breve seria solto pelo mesmo homem, mas então já imperador" (Vespasiano 5, tradução minha). Suetônio diz que corria por todo o Oriente a antiga opinião de que, naquele tempo, homens saídos da Judeia dominariam o mundo (Vespasiano 4). Tácito liga a crença a antigos escritos de sacerdotes e diz que a profecia apontava para Vespasiano e para Tito, mas o povo a aplicava a si (Histórias V.13). Em 68, Nero morreu, e o ano seguinte, 69, teve quatro imperadores. Em julho de 69, as legiões do Egito aclamaram Vespasiano em Alexandria. Ele deixou ao filho Tito a tarefa de terminar a guerra, e Josefo, libertado, passou a se chamar Flávio Josefo, o nome da família do imperador, e foi viver em Roma.

👁️ Como era viver ali

Dentro de Jerusalém, o cerco não era só contra Roma. Tácito conta que havia três chefes e três exércitos: Simão guardava os muros mais externos, João a parte do meio da cidade, e Eleazar o Templo, e que eles lutavam entre si, com golpes de astúcia e incêndios, e queimaram uma grande reserva de trigo (Histórias V.12). Josefo descreve a fome com detalhes terríveis, de gente que roía couro e fazia coisa pior (Guerra VI.193-219). Era a primavera de 70, a época da Páscoa, e a cidade estava cheia de peregrinos que ficaram presos pela chegada do exército. Para quem vivia dentro, havia a espada de fora e a de dentro.

32 — O CERCO DE TITODo dia em que os sacrifícios cessaram ao dia em que o Templo queimou

Tito chegou diante de Jerusalém na primavera de 70 com quatro legiões. Levantou rampas, derrubou muros e tomou um a um os três muros da cidade. Em 17 de Tamuz, no mês de julho, Josefo diz que o sacrifício diário parou por falta de homens para oferecê-lo (Guerra VI.94). E, depois de mais algumas semanas, veio o dia fatal. Segundo ele, o fogo começou no décimo dia do mês de Lous (Av), o mesmo dia em que o rei da Babilônia tinha queimado o primeiro Templo (Guerra VI.250). Um soldado, sem ordem, jogou um tição por uma janela dourada (Guerra VI.252). A cidade foi tomada por completo semanas depois, em setembro de 70.

Quem mandou queimar o Templo? É aqui que as fontes se dividem. Josefo diz que Tito reuniu os chefes e queria poupar o Templo, e que o incêndio foi obra do descontrole dos soldados (Guerra VI.236-266). Mas Josefo escreve sob a proteção da família de Tito, e tem motivo para inocentá-lo. Um escritor cristão do início do século V, Sulpício Severo, conta outra versão: Tito, em conselho, decidiu destruir o Templo, para acabar com a religião dos judeus e a dos cristãos (Crônica II.30). Muitos estudiosos pensam que Sulpício reproduz uma passagem perdida de Tácito, mas essa ligação é uma hipótese. Não dá para decidir.

Os números também são discutidos. Josefo diz que morreram um milhão e cem mil durante o cerco e que noventa e sete mil foram levados cativos (Guerra VI.420). Tácito fala de seiscentos mil sitiados (Histórias V.13). Poucos historiadores aceitam o número de Josefo, por ser grande demais para a cidade e a região. O que não está em dúvida é a destruição: a cidade foi arrasada, e o Templo, que Herodes tinha reconstruído e que só ficara pronto por volta de 63, desapareceu (Capítulo 3).

Pintura de Francesco Hayez: soldados romanos e judeus lutando diante do Templo em chamas, com o candelabro de sete braços sendo levado
A destruição do Templo de Jerusalém — Francesco Hayez (1867), óleo sobre tela; Gallerie dell'Accademia, Veneza. Um pintor italiano do século XIX imaginou a cena de 70, com o candelabro de sete braços na mão dos vencedores. Domínio público.
🔎 A palavra original

A frase de Jesus sobre o Templo, "não ficará aqui pedra sobre pedra" Mt 24.2, tem uma versão em Lucas, dita ao entrar em Jerusalém e chorar sobre a cidade: "não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação" Lc 19.44. E quando Lucas fala do cerco, ele o descreve em termos militares: "quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação" Lc 21.20. Mateus e Marcos falam de "a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel" Mt 24.15; Mc 13.14. "Abominação" é bdélygma (βδέλυγμα), que Strong explica como "uma detestação, ou seja, em especial, idolatria", e "desolação" é erḗmōsis (ἐρήμωσις), "devastação, saque". A expressão vem de Daniel, onde ela é ligada à profanação do santuário Dn 9.26-27; Dn 11.31.

Essas profecias de Jesus e de Daniel são lidas de formas diferentes, e convém descrever cada uma com o que ela diz. A leitura preterista entende que as profecias de Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21, e a destruição da cidade e do santuário de Daniel 9.26, se cumpriram em 70 d.C. As palavras de Jesus sobre "esta geração" Mt 24.34 se encaixariam nos cerca de quarenta anos entre a pregação e a guerra. É, no todo ou em parte, a leitura de muitos pais da igreja, de vários comentaristas reformados e de muitos estudiosos críticos. A leitura futurista entende que 70 d.C. foi um cumprimento parcial, ou apenas uma sombra, e que a abominação da desolação e a grande tribulação são acontecimentos ainda por vir, ligados à volta de Cristo. É a leitura de muitos cristãos dispensacionalistas. A leitura da dupla referência, comum entre os evangélicos, junta as duas: 70 d.C. é um cumprimento histórico real, e há um cumprimento final no fim dos tempos. E há uma discussão sobre datas. Estudiosos críticos costumam datar Mateus e Lucas depois de 70 e ver, nas descrições do cerco, um relato posterior ao fato escrito como profecia. Outros defendem datas anteriores e tomam as palavras de Jesus como previsão real. As quatro posições têm seus argumentos, e nenhuma é decidida pela arqueologia.

📜 Segundo a tradição

Eusébio de Cesareia conta, por volta de 325, que os cristãos de Jerusalém foram avisados por uma revelação, antes da guerra, e deixaram a cidade para se instalar em Pela, do outro lado do Jordão (História Eclesiástica III.5). A cena combina com a ordem de Jesus de fugir para os montes Lc 21.21. Mas Eusébio escreve mais de dois séculos depois, e há historiadores que duvidam do relato, achando que a ligação com Pela é uma memória tardia, e outros o consideram plausível.

⚠️ É tradição, e não está nos Evangelhos. Mostra como os cristãos se lembravam de 70: como o cumprimento de uma palavra de Jesus que mandou fugir.

33 — O TRIUNFO E O ARCOO que Roma construiu com o que tomou de Jerusalém

Em 71, Vespasiano e Tito celebraram juntos um triunfo em Roma. Josefo descreve a procissão: carros com cenas da guerra, e, o que mais impressionava, as peças tiradas do Templo, "a mesa de ouro, de muitos talentos de peso", o candelabro, cuja forma diferia da que se usava no Templo, com o eixo do meio fixado numa base e os braços saindo dele, e, por último, a Lei dos judeus (Guerra VII.148-150, tradução minha). Simão bar Giora, o chefe judeu, foi arrastado com uma corda ao pescoço e morto no Fórum, para marcar o fim do triunfo (Guerra VII.153-155). Domiciano, o filho mais novo, também desfilou a cavalo.

Depois veio o dinheiro. Vespasiano mandou construir o Templo da Paz e guardou ali os vasos de ouro do Templo, mas mandou a Lei e os véus púrpuros do santuário para o palácio (Guerra VII.158-162). Pôs à venda a terra da Judeia, que reservou para si, e instalou oitocentos soldados dispensados num lugar chamado Emaús (Guerra VII.216-217). E impôs a todos os judeus do império um imposto anual de duas dracmas, que antes se pagava ao Templo, agora para o templo de Júpiter Capitolino (Guerra VII.218). Esse "imposto judaico" (fiscus Iudaicus) durou mais de um século. As moedas de Vespasiano e Tito trazem a legenda IVDAEA CAPTA, "a Judeia capturada", com uma mulher sentada e abatida junto de uma palmeira.

🏺 O que a pá encontrou

O Arco de Tito. No Fórum Romano, na ponta da Via Sacra, está o arco que o Senado e o povo romano dedicaram ao "divino Tito, filho do divino Vespasiano" (a inscrição diz DIVO TITO, de modo que o arco foi feito depois da morte de Tito, em 81, já no reinado de Domiciano). Dentro, um relevo mostra o triunfo de 71: soldados carregam a mesa dos pães, trombetas de prata e um candelabro de sete braços. É a imagem romana mais famosa dos objetos do Templo. Em 2012, uma equipe de pesquisa da Universidade Yeshiva, nos Estados Unidos, achou vestígios de tinta amarela no relevo do candelabro, o que, segundo os pesquisadores, indica que o relevo era pintado e que o candelabro aparecia dourado.

⚠️ O relevo prova que Roma comemorou a tomada do Templo e como Roma quis mostrar os despojos. Não prova que o candelabro do Templo tivesse exatamente esse desenho: Josefo diz que o do triunfo era diferente do que se usava no Templo, e a base do relevo, com figuras decorativas, é muito discutida.

Relevo de mármore do Arco de Tito mostrando soldados romanos carregando o candelabro de sete braços e outras peças do Templo
Relevo do Arco de Tito: o candelabro e os despojos do Templo — mármore, c. 81–90 d.C., Fórum Romano. Foto de Gunnar Bach Pedersen (2007), dedicada ao domínio público. Domínio público.

Ainda houve resistência. A fortaleza de Massada, no deserto da Judeia, resistiu até 73 ou 74, quando os romanos, depois de construir uma rampa, entraram e acharam, segundo Josefo, quase todos mortos por suicídio coletivo, sob a liderança de Eleazar ben Yair (Guerra VII.252-406). O arqueólogo Yigael Yadin escavou o lugar em 1963–65 e achou, entre outras coisas, fragmentos de cerâmica com nomes, que ele ligou aos "sorteios" do relato de Josefo. A relação entre o achado e o relato é discutida, e o suicídio coletivo, que a arqueologia não pode provar, é objeto de debate entre os historiadores.

👁️ Como era viver ali

Depois de 70, o mundo dos judeus e o dos cristãos mudou de forma. Sem Templo, não havia mais sacrifícios, nem sacerdotes em serviço, nem peregrinação. O judaísmo se reorganizou em torno da sinagoga, do estudo da Lei e dos mestres, e uma tradição posterior localiza o início dessa mudança em Jâmnia (Yavne), onde o mestre Yohanan ben Zakkai teria fundado uma academia. Os primeiros cristãos tinham frequentado o Templo e as sinagogas At 2.46. Depois de 70, os dois caminhos passaram a andar mais separados, e o Capítulo 10 mostra como um autor cristão olhou para Roma depois disso.

🌱 Semente de sermão

Jesus chorou diante da cidade antes de dizer que ela cairia: "Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence!" Lc 19.42. O anúncio do juízo vinha de um coração partido. Quem fala de queda com o rosto seco não aprendeu isso com Jesus. O Templo, que parecia eterno aos discípulos, durou, depois dessa frase, menos de quarenta anos.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⚔️

66–70

Os sacrifícios pelo imperador pararam em 66. Em 70, Tito tomou Jerusalém e o Templo queimou, no dia 10 de Av, segundo Josefo.

📖

Josefo

Sacerdote, comandante, cativo e historiador pró-flaviano. Suetônio e Tácito confirmam o pano de fundo.

🏛️

O Arco de Tito

Mostra o candelabro do Templo levado no triunfo de 71. Foi dedicado depois da morte de Tito, em 81.

🧭

Quatro leituras

Preterista, futurista, dupla referência e a discussão das datas dos Evangelhos Mt 24.15.

Próximo capítulo: Domiciano, o filho mais novo que desfilou naquele triunfo. A ilha de Patmos, a Babilônia sobre sete montes e o número 666.

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