A estrada é de lajes escuras, grandes, bem encaixadas, e cada passo faz um barulho seco. A cada mil passos, um marco de pedra. Paulo caminha preso, sob guarda, e vê vir ao longe um grupo de homens. "E de lá, ouvindo os irmãos novas de nós, nos saíram ao encontro à Praça de Ápio e às Três Vendas, e Paulo, vendo-os, deu graças a Deus e tomou ânimo" At 28.15. Falta pouco. É a Via Ápia, e ela leva a Roma.
Quem vem do sul da Itália para a capital faz o que Paulo fez: percorre a estrada mais famosa do mundo romano, a que a cidade construiu para mandar soldados e cartas a qualquer canto do império. Este capítulo mostra que Roma era essa: como uma aldeia de colinas virou dona do Mediterrâneo, como ela mandava, quem era cidadão e quem não era, e em que língua se falava e se escrevia o Novo Testamento. No fim, uma linha do tempo marca onde a Bíblia cruza cada época.
01 — DE ALDEIA A SENHORA DO MUNDOSete colinas, um rio e uma data de tradição
Os próprios romanos davam uma data para o começo da cidade: 753 a.C. Ela se firmou a partir de um erudito do século I a.C., Varrão. É uma data de tradição, não de arqueologia. O que a pá encontra nas colinas junto ao rio Tibre, o Palatino e o Fórum entre elas, são grupos de cabanas e sepulturas de uns 800 a.C. para cá. A aldeia virou cidade aos poucos, e os estudiosos discutem como e quando.
Os romanos contavam a própria origem assim: dois gêmeos, Rômulo e Remo, filhos de uma sacerdotisa e do deus Marte, abandonados à beira do Tibre e criados por uma loba. Rômulo fundou a cidade e matou o irmão numa briga por causa do muro. Seguiram-se sete reis, até que o último, Tarquínio, o Soberbo, foi expulso, por volta de 509 a.C., e nasceu a res publica, "a coisa pública": a república. A história mais completa dessas origens que sobreviveu é a de Tito Lívio (séc. I a.C.), que escreveu uns setecentos anos depois dos fatos.
⚠️ É tradição, e uma tradição tardia. A república, com cônsules eleitos por um ano e um Senado de ex-magistrados, existiu de fato, mas os nomes e os detalhes dos primeiros séculos vêm de lendas e de listas montadas depois. Este livro usa a data de 753 a.C. apenas como o ponto de partida que os próprios romanos usavam para contar os anos.
Foi como república que Roma cresceu. Primeiro dominou a Itália. Depois venceu Cartago, a grande potência do norte da África, em três guerras (264–146 a.C.). Em 146 a.C., o ano em que Cartago foi arrasada, um general romano também saqueou Corinto, na Grécia, a mesma Corinto onde Paulo pregaria dois séculos depois. A Macedônia virou província romana em 148 a.C. Em 133 a.C., o rei de Pérgamo deixou o seu reino de herança a Roma e, depois de uma revolta, a região virou a província da Ásia (129 a.C.), a das sete igrejas do Apocalipse. Em 64–63 a.C., o general Pompeu pôs fim ao reino selêucida, tornou a Síria província romana e fez da Judeia um vassalo (o assunto do Capítulo 3).
O preço da expansão foi a guerra dentro de casa. Os grandes generais passaram a ter exércitos que obedeciam mais a eles do que ao Senado. Júlio César cruzou o Rubicão em 49 a.C. e foi morto nos idos de março de 44 a.C. O filho adotivo dele, Otaviano, derrotou Marco Antônio e Cleópatra em Áccio (31 a.C.) e anexou o Egito. Em 27 a.C. o Senado lhe deu o nome de Augusto. Ele nunca se declarou rei. Mais tarde escreveu, no relato que mandou gravar de seus feitos, que depois de acabar com as guerras civis devolveu o governo ao Senado e ao povo, e que depois disso superou a todos em autoridade, mas nunca teve mais poder do que os colegas de cargo (Res Gestae 34, tradução minha). Na prática, ficou como único senhor. Nascia o Império, que usava as palavras da república e funcionava como uma monarquia.
"Augusto" é um título, não um nome. Em latim, Augustus quer dizer algo como "digno de veneração". O Novo Testamento, escrito em grego, traduz o título por Sebastós (Σεβαστός), "venerável": é a palavra que Festo usa ao falar do imperador diante do rei Agripa At 25.21. A ACF mantém "Augusto". Já "César" (Kaîsar) era o sobrenome de Júlio César, e depois virou título de todo imperador. É o nome que está nos lábios de Jesus em "Dai pois a César o que é de César" Mt 22.21. Do latim Caesar vêm, em alemão e em russo, Kaiser e czar.
02 — A PAZ QUE VINHA NA PONTA DA LANÇALegiões, estradas e a vida de um soldado
O que segurava o império era o exército. Em 23 d.C., o historiador Tácito lista as forças de Tibério: vinte e cinco legiões, espalhadas pelas fronteiras (Anais IV.5). Oito ficavam no Reno, quatro na Síria, duas no Egito, e assim por diante. Uma legião tinha por volta de cinco mil homens, todos cidadãos romanos. Ao lado deles marchavam os auxiliares, soldados de povos conquistados que recebiam a cidadania ao fim do serviço. A Judeia, nesse tempo, não tinha nenhuma legião: as tropas ficavam na Síria, ao norte, e na Judeia só havia soldados auxiliares. As legiões só chegarão em 70 d.C., e o Capítulo 9 conta como.
A frase mais famosa contra Roma vem do outro lado. Tácito põe na boca de um chefe bretão, antes de uma batalha, esta acusação: "onde fazem um deserto, chamam de paz" (Tácito, Agrícola 30). O discurso é composição do próprio Tácito, não palavras do chefe. Mas mostra o que muitos súditos pensavam. A "paz romana" era real. Augusto se gabava de que o Senado mandara fechar três vezes as portas do templo de Jano, sinal de paz por terra e mar, coisa que, pela memória dos romanos, só acontecera duas vezes desde a fundação da cidade (Res Gestae 13). O Mediterrâneo ganhou uma paz relativa que durou dois séculos, com revoltas e guerras nas bordas e uma guerra civil entre 68 e 69. Mas era a paz de quem venceu.
O soldado aparece o tempo todo nos Evangelhos, quase sempre de relance. É o centurião de Cafarnaum (um oficial a serviço de Roma ou do tetrarca Herodes Antipas, como alguns propõem), que diz a Jesus: "Pois também eu sou homem sob autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai" Mt 8.9. São os que levam Jesus ao pretório. E é a ordem que obrigava qualquer morador de uma terra ocupada a carregar o peso do soldado: "E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas" Mt 5.41. O verbo grego aí, angareúō, é de origem estrangeira, e os léxicos o ligam aos correios do antigo império persa: quem tinha ordem oficial podia convocar gente e animais do caminho. Foi assim que um viajante de Cirene, Simão, acabou carregando a cruz Mc 15.21.
E o soldado? Em 14 d.C., os legionários da Panônia se amotinaram. Tácito põe na boca do cabeça do motim esta queixa: a vida e o corpo do soldado valiam dez asses por dia, e dali saíam a roupa, as armas, as tendas e até o suborno para escapar da crueldade dos centuriões (Anais I.17, tradução minha). Dez asses eram um pouco mais de meio denário. O trabalhador da parábola recebia "um dinheiro por dia" Mt 20.2, e "dinheiro" é o denário da ACF.
A segunda arma de Roma eram as estradas. O exército precisava chegar depressa, o correio oficial precisava correr e o comércio tinha de passar. A mais antiga das grandes, a Via Ápia, foi aberta em 312 a.C. pelo censor Ápio Cláudio e ligava Roma a Cápua, no sul. Mais tarde foi estendida até Brindisi, o porto do Adriático. Seu calçamento é de grandes blocos de rocha vulcânica encaixados, e pedaços dela estão no lugar até hoje. Paulo veio por ela de Putéoli, onde desembarcou At 28.13-14. A Praça de Ápio (Appii Forum) ficava no marco 43 contando de Roma, uns 64 km, e as Três Vendas (Tres Tabernae) no marco 33, uns 49 km. Alguns irmãos de Roma saíram da cidade, a dezenas de quilômetros, para receber um preso.
O grego do Novo Testamento está cheio de palavras latinas, e o dicionário de Strong (1890) marca cada uma como "de origem latina". Quem lê com atenção vê Roma por baixo do texto. Alguns exemplos, todos do vocabulário do império:
kentyríōn (κεντυρίων), "centurião", o comandante de cem homens Mc 15.39. legeṓn (λεγεών), "legião" Mt 26.53. praitṓrion (πραιτώριον), o "pretório", a sede do governador At 23.35 (em Mc 15.16 a ACF traduz a mesma palavra por "sala da audiência"). kēnsos (κῆνσος), o "censo", que no Evangelho já quer dizer o imposto cobrado a partir dele Mt 22.17. dēnárion (δηνάριον), o denário. mílion (μίλιον), a "milha", mil passos Mt 5.41. koustōdía (κουστωδία), a "custódia", os guardas do sepulcro Mt 27.65. kolōnía (κολωνία), a "colônia" de veteranos, que é o que Filipos era At 16.12. Libertînos (Λιβερτῖνος), o "libertino", o escravo libertado, que dá nome a uma sinagoga de Jerusalém At 6.9. sikários (σικάριος), de sica, "punhal", o assassino que andava com ele At 21.38.
03 — QUEM MANDAVA E QUEM ERA CIDADÃOProcônsul, legado, prefeito e rei
Roma não governava tudo do mesmo jeito. Quem lê Lucas e Atos encontra vários tipos de governante, e convém saber qual é qual. As províncias mais antigas e tranquilas eram senatoriais, governadas por um procônsul sorteado pelo Senado para o mandato de um ano. É o caso de Gálio, na Acaia At 18.12, e de Sérgio Paulo, em Chipre At 13.7. As fronteiras armadas eram imperiais: um legado nomeado pelo imperador comandava as legiões. A Síria de Quirino (nome que a ACF dá ao governador, em latim Quirínio) é assim Lc 2.2. Províncias pequenas e difíceis, como a Judeia, ficavam com um oficial da classe dos cavaleiros, o prefeito (depois chamado procurador). Pilatos, Félix e Festo são desses. E em volta de tudo ficavam os reis aliados (os "clientes" de Roma), como Herodes, o Grande, e seus filhos, que mandavam em casa enquanto obedecessem em política externa.
O Novo Testamento usa palavras gregas amplas para tudo isso. A "presidência" de Pilatos, na ACF, é o grego hēgemṓn (ἡγεμών), "chefe de uma província", sem distinguir os títulos Mt 27.2. Os títulos exatos aparecem nas pedras, e os capítulos 5 e 6 mostram duas delas.
E havia a pergunta que decidia muita coisa: você é cidadão romano? A cidadania dava direitos que o súdito comum não tinha: votar, em tese, e ter um julgamento regular, apelar ao imperador e não ser açoitado sem condenação. Herdava-se do pai. Escravos libertados por cidadão romano também a recebiam, com algumas limitações. Soldados auxiliares ganhavam-na no fim do serviço. E dava para comprá-la, como fez o tribuno de Jerusalém At 22.28. Cícero, ao acusar um governador corrupto em 70 a.C., resumiu o peso dessa condição: "É crime amarrar um cidadão romano; açoitá-lo é uma maldade; matá-lo é quase um parricídio. E crucificá-lo?" (Verrinas II.5.170, tradução minha). Paulo vai usar tudo isso, e o Capítulo 7 conta como. A cidadania só deixou de ser privilégio de poucos em 212 d.C., quando um edito do imperador Caracala a estendeu à grande maioria dos habitantes livres do império.
O que sabemos da vida dos soldados e da administração vem de milhares de inscrições e papiros. Para a cidadania, há os diplomas militares, plaquinhas de bronze dobradas em duas folhas, que registravam em latim a cidadania dada a um auxiliar ao fim de seu serviço, com o nome dele, o do imperador e a data. Funcionavam como o comprovante da cidadania. Eles mostram o que o Novo Testamento supõe: a cidadania romana era concedida e registrada por escrito.
⚠️ Nenhum documento fora de Atos fala da cidadania de Paulo: isso é testemunho do livro. O que os diplomas e as leis provam é que o quadro de Atos é plausível para o império do século I.
04 — EM QUE LÍNGUA?Latim para mandar, grego para conversar
A língua oficial do poder era o latim: leis, comandos do exército, cartas do governador. Mas no Oriente, e entre quem lia e escrevia, o idioma comum era o grego, o grego simples de todos os dias (a koiné), herança de Alexandre (assunto de outro livro desta série). Um romano culto crescia falando os dois. A carta de Paulo aos Romanos, escrita para os cristãos da própria capital, está em grego. O poeta Juvenal, por volta de 120 d.C., reclamava, mal-humorado: "Já faz tempo que o rio Orontes, da Síria, desaguou no Tibre e trouxe junto sua língua, seus costumes, suas harpas e seus tambores" (Sátiras III.62-65, tradução minha). O Orontes é o rio de Antioquia. Roma, a capital do Ocidente, falava muito grego.
Por isso a cruz de Jesus tinha três línguas. O título afixado por Pilatos estava "escrito em hebraico, grego e latim" Jo 19.20. O hebraico (na prática, o aramaico falado) era para o povo da terra, o grego para o mundo e o latim para a autoridade que o escreveu. Lucas dá as línguas em outra ordem Lc 23.38, e alguns dos manuscritos mais antigos nem trazem essa frase em Lucas. A mensagem, de qualquer jeito, era entendida por todo mundo que passava.
Para a gente comum, Roma era sobretudo apertada. A capital, com talvez perto de um milhão de habitantes no auge (as estimativas variam muito), morava em prédios de vários andares chamados insulae, "ilhas". Juvenal conta que o dono do prédio escorava as paredes que ameaçavam cair, tapava a rachadura e mandava os moradores dormirem tranquilos sob a ruína pendurada (Sátiras III.193-196, tradução minha). Incêndios eram uma ameaça constante, e um deles, em 64 d.C., será o assunto do Capítulo 8.
O governo sabia que um povo com fome é perigoso, e por isso dava trigo aos cidadãos pobres da cidade. Juvenal resumiu o que sobrou da política romana: "duas coisas somente deseja, ansioso, o povo: pão e circo" (Sátiras X.80-81, tradução minha). E muita gente nessa cidade era escrava. Uma estimativa do historiador Walter Scheidel põe os escravos em cerca de 10% do império todo, e bem mais na Itália. Eram servidores domésticos, artesãos, administradores, trabalhadores do campo e das minas. Uma carta de Paulo, a de Filemom, trata de um deles (Capítulo 8).
A estrada que Roma construiu para o exército marchar foi a mesma que levou Paulo, preso, até a capital. O império construiu os caminhos e o evangelho andou neles. Paulo escreve, preso, que as coisas que lhe aconteceram "contribuíram para maior proveito do evangelho" Fp 1.12. A estrada de quem prendia virou a estrada de quem pregava.
LINHA DO TEMPORoma inteira, com a Bíblia marcada
Datas aproximadas e, até a república, de tradição. O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico cruza com cada época.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Da aldeia ao império
A data de 753 a.C. é de tradição. A república vem de c. 509 a.C., o Império de Augusto, em 27 a.C. Ele nunca se chamou rei.
Legiões e estradas
Vinte e cinco legiões em 23 d.C., e nenhuma na Judeia. A Via Ápia leva Paulo a Roma At 28.15.
Quem mandava
Procônsul (Gálio), legado (Quirino), prefeito (Pilatos) e reis aliados (Herodes). Cada título aparece no Novo Testamento.
Três línguas
Latim para mandar, grego para conversar, aramaico e hebraico para o povo da terra: o título da cruz era nas três Jo 19.20.
Próximo capítulo: no que os romanos acreditavam, de Júpiter ao imperador, e a pergunta que o Novo Testamento faz diante disso.
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