RomaCapítulo 6 de 11 ⤓ PDF
Gravura sépia de Edward Dodwell: a planície de Corinto, com a cidade ao longe e o Acrocorinto, a montanha, ao fundo
CAPÍTULO 6 DE 11

Cláudio, Gálio e Erasto

Fome, expulsão e pedras: o mundo romano de Atos

Um juiz romano manda a briga de religiosos embora, e o nome dele fica numa pedra de Delfos. Cláudio, a fome, a expulsão dos judeus de Roma, Gálio, Erasto e os títulos que Lucas acertou.

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Em Corinto, um grupo de homens leva Paulo ao tribunal do governador. O governador é Gálio. Paulo ainda abre a boca para se defender, e Gálio fala antes.

"Mas, sendo Gálio procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus concordemente contra Paulo, e o levaram ao tribunal, Dizendo: Este persuade os homens a servir a Deus contra a lei." Atos 18.12-13

Esse juiz romano deixou o nome numa pedra. Este capítulo reúne nomes que o Novo Testamento traz e que textos e pedras antigos permitem conferir: o imperador Cláudio, o procônsul Gálio e, com ressalva, Erasto. Junto vão outros títulos romanos que Lucas usou do jeito certo, e a pergunta de quanto isso prova.

19 — CLÁUDIOA fome, o rei que morreu em Cesareia e os judeus de Roma

Cláudio foi imperador de 41 a 54 d.C. Foi aclamado pela guarda pretoriana depois do assassinato de Calígula e tinha fama de erudito. É o imperador dos primeiros capítulos de Atos, e a primeira vez que Lucas o nomeia é para datar uma fome: "haveria uma grande fome em todo o mundo, e isso aconteceu no tempo de Cláudio César" At 11.28. Foi o profeta Ágabo, vindo de Jerusalém a Antioquia, que a anunciou, e os cristãos de Antioquia mandaram socorro aos irmãos da Judeia At 11.29-30.

As fontes de fora confirmam que o reinado de Cláudio foi marcado por escassez de grãos. Suetônio conta que, numa carestia, o imperador foi cercado no meio do Fórum por uma multidão que o insultava e lhe atirava pedaços de pão, e só escapou entrando no Palatino por uma porta dos fundos (Cláudio 18, tradução minha). Tácito fala de falta de grãos e de fome em Roma em 51 (Anais XII.43). E Josefo diz que, sob os procuradores Cúspio Fado e Tibério Alexandre, houve uma grande fome na Judeia, e que a rainha Helena de Adiabene, uma convertida ao judaísmo, mandou comprar trigo em Alexandria e figos em Chipre para distribuir aos pobres de Jerusalém (Antiguidades XX.51-53, XX.101). As datas variam (c. 44–48). O quadro de Atos 11 cabe nelas.

🏺 O que a pá encontrou

A morte do rei Herodes Agripa. Atos 12 conta que um rei Herodes mandou matar Tiago, irmão de João, prendeu Pedro e morreu pouco depois, em Cesareia: "num dia designado, vestindo Herodes as vestes reais, estava assentado no tribunal e lhes fez uma prática. E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem. E no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus e, comido de bichos, expirou" At 12.21-23. Era Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande, a quem Cláudio dera o reino em 41.

Josefo conta o mesmo episódio, de maneira independente. Em 44, no teatro de Cesareia, Agripa usou uma veste toda de prata, que brilhava ao sol, e os bajuladores o aclamaram como um deus. Ele viu uma coruja num cordame, tomou-a por mau sinal e foi tomado por uma dor forte no ventre. Morreu cinco dias depois (Antiguidades XIX.343-350, resumo meu). As duas versões concordam em cidade, veste esplêndida, aclamação como divindade e morte pouco depois. Diferem na causa: Lucas fala de anjo e de bichos, Josefo, de uma dor no ventre e de um presságio.

⚠️ Os dois relatos não são cópia um do outro, e é difícil dizer que Lucas conheceu Josefo ou o contrário. O que o confronto mostra é que o essencial de Atos 12, o lugar, a data, o jeito da morte, tem apoio fora da Bíblia.

A relação de Cláudio com os judeus de Roma é um dos pontos mais debatidos. O texto de Atos diz que Áquila e Priscila tinham vindo da Itália "pois Cláudio tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma" At 18.2. Suetônio escreve, numa lista de medidas do imperador: "Expulsou de Roma os judeus que estavam constantemente em tumulto por instigação de Chresto" (Cláudio 25, tradução minha). Há três problemas. O primeiro é a data. O historiador cristão Orósio, no século V, coloca a expulsão no nono ano de Cláudio, 49 d.C., e diz tirá-la de Josefo, mas não temos o trecho em Josefo. O historiador romano Díon Cássio diz que Cláudio, em 41, não expulsou os judeus, mas os proibiu de se reunirem. Alguns propõem que houve duas medidas. O segundo problema é a extensão: Atos diz "todos", e Suetônio, "os que tumultuavam", e muitos estudiosos acham improvável que a comunidade inteira tenha saído.

O terceiro é o próprio nome. Quem era Chresto?

🔎 A palavra original

Em grego, "Cristo" é Christós (Χριστός), "ungido, o Messias" (Strong). A palavra grega parecida, chrēstós (χρηστός), "útil, bondoso", era um nome comum, em geral de escravos e libertos. A pronúncia das duas era próxima, e os romanos confundiam. O texto de Tácito, ao falar do suplício dos cristãos sob Nero, aparece, no principal manuscrito medieval, com a grafia Chrestianos, depois corrigida (Anais XV.44). A frase de Suetônio pode ser lida de dois modos. Uma leitura, a de muitos estudiosos, entende que "Chresto" é Cristo, e que o conflito era dentro das sinagogas de Roma por causa da pregação de que o Messias tinha vindo; "por instigação de" seria o jeito de Suetônio, mal informado, falar de uma disputa. A outra pensa em um agitador de nome Chresto, vivo na Roma daquele tempo, e vê nisso um tumulto sem relação com os cristãos. Nenhuma das duas é certa, e Suetônio não explica. O Novo Testamento usa o nome Christianós pela primeira vez em Antioquia At 11.26.

O que se sabe com certeza é que o casal virou amigo e colaborador de Paulo. Eram fabricantes de tendas, como Paulo At 18.3, e mais tarde Paulo os saúda, de volta em Roma, como "meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida expuseram as suas cabeças" Rm 16.3-4. Quando Paulo escreve aos Romanos, por volta de 56–57, a saudação a Priscila e Áquila está numa lista que a maioria dos estudiosos lê como dirigida a Roma: eles estavam de volta. Cláudio morreu em 54, e as fontes antigas falam de veneno, uma versão que nem todos os historiadores aceitam.

20 — GÁLIOO procônsul de Corinto e a pedra de Delfos

Corinto era, no tempo de Paulo, uma cidade romana. Tinha sido destruída em 146 a.C. (Capítulo 1) e refundada como colônia por Júlio César em 44 a.C., e era a capital da província da Acaia, uma província senatorial governada por um procônsul. Paulo chega lá por volta de 50 ou 51 (a data é debatida) e fica "um ano e seis meses" At 18.11. Foi nessa estada que os judeus o levaram ao tribunal de Gálio.

Gálio era Lúcio Júnio Gálio Anaeano, irmão mais velho de Sêneca, o filósofo, e nasceu como Aneu Novato, antes de ser adotado. Quando Lucas o põe no tribunal, o juiz recusa o caso: "Se houvesse, ó judeus, algum agravo ou crime enorme, com razão vos sofreria. Mas, se a questão é de palavras, e de nomes, e da lei que entre vós há, vede-o vós mesmos; porque eu não quero ser juiz dessas coisas" At 18.14-15. Depois "expulsou-os do tribunal", e a multidão grega agarrou Sóstenes, o chefe da sinagoga, e bateu nele diante do tribunal, "e a Gálio nada destas coisas o incomodava" At 18.16-17. Alguns pensam que esse Sóstenes é o mesmo que aparece como coautor de 1 Coríntios 1Co 1.1. É só uma possibilidade, porque o nome era comum.

🏺 O que a pá encontrou

A carta de Cláudio a Delfos. No início do século XX, durante escavações francesas no santuário de Apolo, em Delfos, apareceram fragmentos de uma carta do imperador Cláudio à cidade. A edição de referência é de A. Plassart, Fouilles de Delphes III.4 (1970). O texto, em grego, abre com os títulos do imperador, entre eles "investido do poder de tribuno pela décima segunda vez" e "aclamado imperador pela vigésima sexta vez". Diz que a cidade estava com pouca população, segundo a informação do "meu amigo e procônsul Gálio", e manda que pessoas de boa família de outras cidades se mudem para lá (tradução minha, de uma restauração parcial; os colchetes do texto foram omitidos).

Por que isso importa? Porque os títulos de Cláudio têm contagem. Outras inscrições mostram que a vigésima sétima aclamação veio antes de 1º de agosto de 52, e a carta é da vigésima sexta. Por isso ela é datada de 52, na primeira metade do ano. Gálio, então, era procônsul da Acaia nessa época, e o mandato de procônsul durava, em regra, um ano. A maioria dos estudiosos o põe em 51–52, e alguns, em 52–53. Com isso, o encontro de Paulo e Gálio fica por volta de 51–52, e é a âncora mais usada para fixar a cronologia da vida de Paulo.

Sêneca, em carta, conta que o irmão pegou febre na Acaia e saiu depressa de navio, dizendo que a doença era do lugar, e não do corpo (Cartas 104.1).

⚠️ A inscrição prova que Gálio foi procônsul da Acaia e dá a data aproximada. Não prova nem desmente o julgamento de Paulo. A cronologia de Paulo parte dela, mas cada passo a mais depende de outras suposições, e os estudiosos divergem em alguns anos.

🔎 A palavra original

O "tribunal" onde Gálio julgou é, no grego, bêma (βῆμα), "um passo, um degrau; por extensão, uma plataforma, ou seja, um tribunal" (Strong). É uma tribuna elevada em praça pública, de onde o magistrado julgava. Em Corinto há uma grande plataforma de pedra, no centro da ágora, que os arqueólogos identificam com o bêma. A mesma palavra é a de "o tribunal de Cristo" 2Co 5.10.

Gravura de Edward Dodwell de uma vista de Delfos: ruínas de um muro antigo diante de uma capela e de montanhas
Vista de Delfos — litografia de Edward Dodwell, publicada em 1834, em Views and Descriptions of Cyclopian, or, Pelasgic Remains. Foi nesse santuário que apareceram, no início do século XX, os fragmentos da carta de Cláudio que fala de Gálio. Domínio público.

21 — ERASTO E OS TÍTULOS DE LUCASUm nome numa calçada de Corinto

No fim da carta aos Romanos, escrita de Corinto, Paulo manda saudações de alguns companheiros: "Saúda-vos Gaio, meu hospedeiro, e de toda a igreja. Saúda-vos Erasto, procurador da cidade, e também o irmão Quarto" Rm 16.23. Erasto é, portanto, alguém com um cargo na administração de Corinto. O outro nome que vale uma nota é o do escriba que escreveu a carta, Tércio, que também manda saudar Rm 16.22. "Tércio" e "Quarto" são nomes latinos que querem dizer "terceiro" e "quarto".

🏺 O que a pá encontrou

A inscrição de Erasto. Em 1929, perto do teatro de Corinto, os escavadores acharam uma grande laje de calcário, ainda no lugar, numa praça pavimentada a leste do palco. Em latim, as letras dizem: ERASTVS PRO AEDILITATE S(VA) P(ECVNIA) STRAVIT, "Erasto, em troca da sua edilidade, pavimentou às suas custas" (tradução minha). Costuma ser datada de meados do século I, mas a data exata é discutida: há quem a ponha antes de 50 e quem a leve para a segunda metade do século. Um edil cuidava de ruas, prédios públicos e mercados, e esperava-se que pagasse por obras ao assumir o cargo.

É o Erasto da carta? Há três posições. Uma, defendida desde os anos 1930, diz que sim: Erasto teria sido primeiro o administrador das finanças (o que a ACF chama de "procurador"), depois edil. Outra diz que Erasto era um nome comum e que a inscrição pode ser de outro. A terceira, de estudiosos recentes, lembra que a palavra grega que Paulo usa, oikonómos (οἰκονόμος), que Strong explica como "um administrador de casa, ou superintendente, ou seja, um empregado nessa função; por extensão, um agente fiscal (tesoureiro)", não é o título de um edil, e que o cargo em Rm 16.23 podia ser mais modesto, mesmo de um escravo ou liberto da cidade. David Gill, que estudou o caso em 1989, concluiu que a evidência não permite nem identificar com certeza nem rejeitar a identificação.

⚠️ A pedra prova que um Erasto foi edil em Corinto e pagou uma calçada. Não prova que seja o amigo de Paulo. Se for, mostra que a igreja de Corinto tinha, entre seus membros, alguém com posição na cidade, o que combina com Paulo: "não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres" 1Co 1.26, e "muitos" não é "nenhum".

Outros títulos de Lucas também caem no lugar certo. Em Tessalônica, os magistrados que ouvem Jasom At 17.6 são, no grego, politárchai, uma palavra que quase só aparece em inscrições da Macedônia. Uma delas, de um arco da porta de Vardar, em Tessalônica, hoje no Museu Britânico, lista os politarcas da cidade e costuma ser datada do século II d.C. Há dezenas de outras inscrições com o termo, algumas do tempo de Augusto. Lucas usa a palavra certa para a cidade certa.

Em Malta, Públio é "o principal da ilha" At 28.7, em grego prōtos, e, segundo a literatura, há inscrições maltesas que chamam um governante local de "primeiro dos maltenses". Em Éfeso, os "principais da Ásia" At 19.31 são os asiarcas, e o "escrivão da cidade" At 19.35 é um cargo conhecido da cidade. E em Lucas 3.1 aparece "Lisânias tetrarca de Abilene". Durante muito tempo se achou que Lucas errou, porque Josefo fala de um Lisânias morto em 36 a.C. Mas uma inscrição de Abila menciona Ninfeu, liberto de "Lisânias, o tetrarca", e a menção dos "Senhores imperiais" a data, segundo uma leitura corrente, entre 14 e 29 d.C. Alguns estudiosos ainda discutem se o Lisânias de Lucas é outro, ou o mesmo do século anterior.

⚠️ Esses acertos mostram que o autor conhecia bem a administração romana das cidades gregas. Mostram um escritor bem informado. Não mostram, por si, que cada cena de Atos aconteceu como está contada, e os estudiosos discutem em que medida Lucas escreveu com exatidão. Uma lista de títulos certos é evidência de conhecimento, e não prova de tudo.

👁️ Como era viver ali

Corinto era uma cidade de gente que subia. Era um porto duplo, com fama de rica, de comércio e de gente vinda de toda parte, e muitos dos cristãos de que Paulo fala tinham nomes latinos. Quem tinha dinheiro pagava calçadas para ser lembrado, como Erasto. Quem era artesão, como Áquila e Priscila, trabalhava de dia na tenda e discutia à noite. A cidade julgava com formalidade romana e vivia com o calor, o mercado e a disputa entre sinagoga e igreja. Foi nesse ambiente que Paulo escreveu duas cartas em que fala, com uma franqueza que não aparece em nenhuma outra, de divisões, de dinheiro, de comida oferecida a ídolos e do amor 1Co 13.

🌱 Semente de sermão

Gálio mandou todo mundo embora e "nada destas coisas o incomodava". Para o juiz romano, o evangelho era "questão de palavras e de nomes". Sem querer, ele deixou Paulo livre para continuar em Corinto At 18.18. A indiferença de um poderoso abriu uma porta que a hostilidade dos religiosos tinha tentado fechar. Deus não depende do interesse do governo para fazer o evangelho andar.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

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A fome de Cláudio

Ágabo anunciou, e Josefo, Suetônio e Tácito confirmam a escassez de grãos no reinado At 11.28.

👑

Agripa I

Josefo e Atos 12 contam a morte do rei em Cesareia, em 44, com causas diferentes e o mesmo cenário.

🪨

A carta de Delfos

Cláudio, em 52, cita "meu amigo e procônsul Gálio". É a âncora da cronologia de Paulo At 18.12.

🛣️

Erasto

Uma calçada de Corinto traz o nome de um edil Erasto. Pode ser o do amigo de Paulo, ou não Rm 16.23.

Próximo capítulo: Paulo, cidadão romano. De Filipos, onde foi açoitado sem processo, ao apelo a César.

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