A ilha é de pedra e de vento. João está ali, escreve, "por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo", e a tradição antiga entendeu que como exilado. É o dia do Senhor, e ele ouve, atrás de si, uma grande voz.
O Apocalipse é o livro mais discutido da Bíblia, e também um dos mais ligados a Roma. Ele nunca nomeia o império, e ainda assim fala de uma cidade assentada sobre sete montes, de um trono de Satanás e de uma besta a quem todos adoram. Este capítulo conta quem era o imperador que muitos associam ao livro, Domiciano, como se discute a data da escrita, o que as sete igrejas tinham a ver com o culto ao imperador e como as principais leituras entendem a Babilônia e o número 666.
34 — DOMICIANOO imperador que queria ser chamado de senhor e deus
Domiciano era o filho mais novo de Vespasiano e irmão de Tito. Desfilou a cavalo no triunfo de 71 (Capítulo 9) e foi imperador de 81 a 96. Governou com mão firme e acabou assassinado, num golpe de palácio, em setembro de 96. O Senado, que o odiava, mandou apagar o nome dele dos monumentos. Os autores que escreveram depois, como Tácito, Plínio e Suetônio, eram gente da elite romana que viveu sob ele, e o retrato que deixaram é muito sombrio. Convém lê-lo com essa ressalva.
Um dado conhecido é o tratamento que ele exigia, segundo Suetônio. Ele conta que, ao ditar uma carta em nome dos seus procuradores, Domiciano a começou assim: "Nosso senhor e deus manda que isto se faça", e que depois disso passou a ser costume chamá-lo assim, até por escrito (Domiciano 13, tradução minha). No anfiteatro, em festas, ele gostava de ouvir "Ao senhor e à senhora, felicidades!". O poeta Marcial, que lhe fazia elogios, fala de "o edito de nosso senhor e deus" (Epigramas V.8, tradução minha). Alguns estudiosos acham que Suetônio exagera e que o título era usado de modo informal e por bajuladores, e não como fórmula oficial. É um debate real.
Suetônio dá outro dado, que importa para os judeus. Domiciano cobrava com enorme dureza o imposto judaico que Vespasiano criara. Eram denunciados os que viviam como judeus sem confessá-lo e os que escondiam a origem para não pagar. O próprio Suetônio, que era jovem naquele tempo, diz lembrar de ter visto, num tribunal cheio, um velho de noventa anos ser examinado por um procurador para saber se era circuncidado (Domiciano 12, tradução minha). Em 95, Domiciano mandou matar o primo, o cônsul Flávio Clemente, e exilou a esposa dele, Domitila. Díon Cássio diz que a acusação foi de "ateísmo", por terem caído em "costumes judaicos" (História romana LXVII.14). Alguns veem nisso a pista de cristãos ou de simpatizantes cristãos, e outros, de pessoas ligadas ao judaísmo. Não se sabe.
Em Éfeso, a principal cidade da província da Ásia, os arqueólogos acharam, no século XX, as bases de um grande templo dedicado à família dos Flávios, ligado ao culto de Domiciano, e fragmentos de uma estátua colossal do imperador, cabeça e membros, hoje no museu de Éfeso, em Selçuk, na Turquia. Era um dos maiores sinais do culto do imperador na região dos destinatários do Apocalipse. Depois da morte e do apagamento do nome de Domiciano, o templo foi reaproveitado.
⚠️ Os achados mostram que o culto imperial era grande e visível em Éfeso. Não provam que Domiciano perseguisse cristãos, e não ligam o templo ao livro do Apocalipse.
Para um cristão de Éfeso ou de Pérgamo, o culto ao imperador não era uma tese. Era o calendário de festas, as procissões da cidade, a pressão dos vizinhos e das associações profissionais, que faziam suas refeições em honra dos deuses e do imperador. Ficar fora disso era ficar fora de boa parte da vida social e dos negócios. A pergunta prática era: dá para participar? O Apocalipse reprova quem cedeu, em Pérgamo e em Tiatira, que comiam "dos sacrifícios da idolatria" Ap 2.14; Ap 2.20, e elogia quem resistiu, até morrer Ap 2.13.
35 — A DATA DO LIVRONero, Domiciano e a conta dos sete reis
A data do Apocalipse é discutida, e há duas respostas principais. A mais antiga, e a que a maioria dos estudiosos hoje segue, é o fim do reinado de Domiciano, por volta de 95–96. A fonte é Irineu, bispo de Lyon, por volta de 180, que diz sobre a visão: "foi vista não faz muito tempo, quase na nossa geração, no fim do reinado de Domiciano" (Contra as Heresias V.30.3, citado por Eusébio, História Eclesiástica III.18, tradução minha). O verbo grego pode ser lido como "foi vista" (a visão) ou "foi visto" (João), e os estudiosos discutem qual é o sentido que Irineu quis. Também apoiam a data tardia Clemente de Alexandria, que diz que João voltou de Patmos depois da morte do tirano, e Vitorino de Petau, no fim do século III.
A outra resposta é o tempo de Nero, entre 64 e 68, ou logo depois. Quem a defende aponta duas pistas dentro do livro. A primeira é o Templo: em Apocalipse 11, João recebe a ordem de medi-lo, como se ainda estivesse de pé Ap 11.1-2. A segunda é a conta dos reis: "são também sete reis; cinco já caíram, e um existe; outro ainda não é vindo; e, quando vier, convém que dure um pouco de tempo" Ap 17.10. Contando a partir de Augusto, os cinco que caíram são Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero, e o que "existe" seria Galba, o seguinte, em 68–69, e o que durou "pouco tempo", Oto, que reinou três meses. Contando a partir de Júlio César, o que "existe" seria Nero. Os defensores da data tardia fazem outra conta: deixam de fora os três imperadores curtos de 69. Então, depois de Nero, vêm Vespasiano e Tito, e Domiciano seria "o oitavo", que "é dos sete" Ap 17.11, uma espécie de Nero que volta. Esse esquema supõe que o livro usa o cenário de uma época um pouco anterior à da escrita. As contas dependem do ponto de partida, e várias são possíveis.
O "dia do Senhor" de Apocalipse 1.10 é, em grego, kyriakḗ hēméra (κυριακὴ ἡμέρα). O adjetivo kyriakós (κυριακός) é "do Senhor" (Strong), e aparece no Novo Testamento só duas vezes, aqui e na "ceia do Senhor" 1Co 11.20. Nos papiros e nas inscrições, a mesma palavra aparece também para coisas "imperiais", e alguns estudiosos veem nisso um jogo com o vocabulário do império: o "dia do Senhor" contra o "dia do imperador". É uma hipótese, e a maioria entende o termo como o domingo, o dia da ressurreição.
E houve perseguição sob Domiciano? Eusébio diz que sim, e que João foi exilado por causa dela (História Eclesiástica III.17–18). Tertuliano, por volta de 200, conta que Domiciano também tentou, "parte de Nero em crueldade", mas como era homem parou depressa e fez voltar os que tinha exilado (Apologético 5, tradução minha). Há porém uma discussão moderna: alguns historiadores acham que não existe prova de uma perseguição geral sob Domiciano, e que a tensão do livro vem de situações locais e do modo como os cristãos viam o culto imperial, não de uma ordem do imperador. Outros mantêm que houve pressão real. O livro mesmo fala de um morto, "Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita" Ap 2.13, e de aflição Ap 1.9.
36 — AS SETE IGREJASPérgamo, o trono de Satanás e o culto imperial
O livro é escrito às sete igrejas da província da Ásia Ap 1.11, a mesma província que, desde o século II a.C., fazia parte de Roma e onde o culto ao imperador tinha começado (Capítulo 2). Foi em Pérgamo, em 29 a.C., que Augusto permitiu aos gregos da Ásia dedicar-lhe um recinto sagrado, o primeiro culto provincial ao imperador vivo na região (Díon Cássio, História romana LI.20). E é a Pérgamo que Cristo diz: "Conheço as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás" Ap 2.13.
O que é o "trono de Satanás"? As leituras são várias. Uma pensa no templo de Roma e de Augusto, e em geral no culto imperial. Outra, no grande altar de Zeus, no alto da cidade. Outra, no templo de Asclépio, o deus da cura, cujo símbolo é uma serpente. Outra, na sede do governador romano, onde se decidia quem vivia e quem morria. Nenhuma é certa, e o texto não escolhe. O que está claro é que o livro apresenta a vida cristã naquela cidade como um lugar de conflito com o poder.
O culto imperial também ajuda a ler a segunda besta: "E vi subir da terra outra besta [...]. E exerce todo o poder da primeira besta na sua presença, e faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta" Ap 13.11-12. Muitos estudiosos veem aí os sacerdotes e os magistrados que organizavam o culto na província, e o "sinal" sem o qual "ninguém possa comprar ou vender" Ap 13.17 como a imagem exagerada do que se pedia a quem queria fazer negócios: participar do culto das associações. Outros leem o sinal como figura de uma realidade futura.
37 — BABILÔNIA E O 666A mulher sobre sete montes e o número da besta
O capítulo 17 mostra uma mulher vestida de púrpura, sobre uma besta de sete cabeças, com a testa marcada: "Mistério, a grande babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra" Ap 17.5. O texto explica: "As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada" Ap 17.9, e termina: "E a mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra" Ap 17.18. Para um leitor do século I, era difícil não pensar em Roma. A cidade era chamada, em poesia e em prosa, a das sete colinas: Virgílio fala de Roma cercando de muros "sete cidadelas" (Geórgicas II.534-535), e Marcial, dos "sete montes" que se veem do Janículo (Epigramas IV.64, tradução minha). E "Babilônia", a capital que destruiu o primeiro Templo, é o nome que os judeus usaram para Roma depois que ela destruiu o segundo. O livro apócrifo de 4 Esdras, escrito por volta de 100, põe seu narrador "em Babilônia", e a obra judaica conhecida por 2 Baruque faz o mesmo. A Primeira Carta de Pedro também termina com uma saudação "em babilônia" 1Pe 5.13.
O número está num versículo que pede ao leitor um exercício: "Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis" Ap 13.18. Em hebraico e em grego, as letras eram também números, e essa prática, que chamamos hoje de gematria, era comum. A explicação mais aceita pelos estudiosos é Nero. Escrito em letras hebraicas, Neron Qesar (נרון קסר) soma 50 + 200 + 6 + 50 + 100 + 60 + 200 = 666. Sem a última letra nun, נרו קסר, a soma é 616, e é isso que muitos veem por trás de uma variante antiga: alguns manuscritos trazem 616, entre eles o Papiro 115, do final do século III ou do começo do IV. Irineu, no século II, já conhecia as duas leituras, defendia 666 e sugeria outras soluções, como Lateinos (Λατεῖνος) ou Teitan. A explicação por Nero tem críticas: a grafia hebraica de "César" é discutida, e os pais da igreja que a conheciam não a adotaram.
O que ajuda a ligar a besta a Nero é uma crença que correu depois da morte dele. Muita gente não acreditou que ele tivesse morrido, e Tácito conta que, em 69, apareceu na Grécia e na Ásia um falso Nero (Histórias II.8). Suetônio diz que, por anos, houve quem esperasse o retorno dele, e que surgiram falsos Neros (Nero 57). Daí vem a ideia do Nero redivivus, "Nero que volta à vida". O Apocalipse fala de uma besta com "uma das suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada" Ap 13.3 e de "a besta que era e já não é" Ap 17.11. Muitos estudiosos veem aí uma alusão a essa lenda. Outros duvidam, e a relação entre o livro e a lenda é discutida.
As leituras do livro inteiro são, em geral, de quatro tipos, e vale descrevê-las pelo que cada uma diz. A preterista entende que o livro fala, sobretudo, de acontecimentos do século I, a perseguição de Nero e a queda de Jerusalém em 70, e que a besta é Nero (e, para alguns preteristas, a "Babilônia" é Jerusalém, e não Roma). A historicista, comum entre os reformadores do século XVI e depois, vê no livro um mapa da história da igreja até o fim, e identificou a Babilônia com a Roma papal (leitura que católicos rejeitam, e que muitos protestantes de hoje também não seguem). A futurista entende que, a partir dos capítulos 4 ou 6, quase tudo está por vir, na grande tribulação, e que a besta é uma figura do fim dos tempos. A idealista, ou simbólica, entende que o livro descreve o conflito de toda a história entre o reino de Deus e os poderes do mundo, sem ser um calendário. Muitos estudiosos combinam elementos de mais de uma.
⚠️ O texto diz claramente que a besta é "número de um homem" e que a mulher "é a grande cidade que reina sobre os reis da terra", e a história confirma que Roma era essa cidade para o leitor do século I. O que cada leitura faz com o futuro depende de decisões de interpretação, e não da arqueologia.
Para os cristãos da Ásia, o império parecia eterno: cidades de mármore, templos, moedas com o rosto do deus-imperador. O Apocalipse responde com um canto: "Caiu, caiu a grande Babilônia" Ap 18.2. É uma mensagem para quem está com medo e se pergunta se o poder que ri deles terá a última palavra. O livro não manda fugir do mundo nem pegar em armas: manda "Sê fiel até à morte" Ap 2.10, e esperar o Cordeiro.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Domiciano
Imperador de 81 a 96. Segundo Suetônio, queria ser chamado "senhor e deus", e cobrava com dureza o imposto judaico.
Duas datas
c. 95–96, sob Domiciano (Irineu), ou c. 64–68, sob Nero. A conta dos sete reis depende do ponto de partida Ap 17.10.
Pérgamo
Cidade do primeiro templo a Roma e a Augusto na Ásia, em 29 a.C. É onde está "o trono de Satanás" Ap 2.13.
666 e 616
Em hebraico, "Nero César" dá 666; sem um nun, 616. É a explicação mais aceita, com críticas Ap 13.18.
Último capítulo: de Plínio a Constantino. Como o império passou de perseguidor a protetor e o que isso muda na sua leitura.
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