RomaCapítulo 2 de 11 ⤓ PDF
Litografia de David Roberts das ruínas do pórtico leste do templo de Baalbek, com figuras em primeiro plano
CAPÍTULO 2 DE 11

No que acreditavam

Deuses da cidade, o imperador-deus e a resposta do Novo Testamento

Os romanos tinham deuses para a cidade, para a casa e, no Oriente, para o imperador. O que isso quer dizer, e o que o Novo Testamento responde quando diz que Jesus é o Senhor?

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É noite em Tessalônica, e há gente batendo à porta de Jasom. Uma turba, juntada por ciúme, assalta a casa de Jasom, e "procuravam trazê-los para junto do povo" At 17.5. Paulo e Silas não estão lá. Sobra o dono da casa, que é arrastado até os magistrados da cidade, com alguns irmãos, e ouve a acusação:

"Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui; Os quais Jasom recolheu; e todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus." Atos 17.6-7

É uma acusação política, e os magistrados da cidade a levaram a sério At 17.8. Quem diz que "há outro rei" mexe com algo que, para o mundo romano, era religião e governo ao mesmo tempo. Este capítulo mostra no que os romanos acreditavam: os deuses da cidade, o imperador que também recebia culto e a resposta que o Novo Testamento dá a isso.

05 — OS DEUSES DA CIDADEReligião de templo, de casa e de calendário

A religião romana tinha pouco de crença e muito de rito. Ninguém pedia ao romano que "acreditasse" em Júpiter: pedia-se que fizesse o sacrifício certo, na data certa, com as palavras certas. Se a cidade cumprisse o que devia aos deuses, eles a protegeriam. Os romanos chamavam isso de manter a pax deorum, "a paz com os deuses". Quem cuidava disso eram os magistrados e os colégios de sacerdotes, e não uma classe à parte. O chefe de todos, o pontifex maximus, foi Júlio César e depois Augusto, que assumiu o cargo em 12 a.C. (Res Gestae 10). Os imperadores seguintes também o foram. Seis virgens, as vestais, guardavam o fogo de Vesta, e dizia-se que, se ele se apagasse, a cidade correria risco.

No alto do monte Capitólio ficava o templo dos três grandes: Júpiter, o melhor e o maior, a esposa Juno e a filha Minerva. Os romanos identificaram os próprios deuses com os gregos: Júpiter com Zeus, Juno com Hera, Mercúrio com Hermes. Por isso a ACF, em Listra, traduz a confusão da multidão com os nomes latinos: "E chamavam Júpiter a Barnabé, e Mercúrio a Paulo" At 14.12. O texto grego diz Zeus e Hermes. Listra era colônia romana, mas o povo falava "língua licaônica" At 14.11, e foi o sacerdote do templo de Zeus, em frente da cidade, que trouxe touros e grinaldas At 14.13. O Império cabia em muitos panteões ao mesmo tempo.

Gravura de Piranesi do Panteão de Roma, com o pórtico de colunas e a cúpula
O Panteão, o "templo de todos os deuses" — água-forte de Giovanni Battista Piranesi (séc. XVIII), da série Vedute di Roma; Metropolitan Museum of Art, Nova York. O edifício que ele desenhou é do tempo do imperador Adriano, no século II; o primeiro Panteão, de Agripa, é de 27 a.C. CC0.
🔎 A palavra original

"Religião" e "superstição" são palavras latinas, e os romanos discutiam o que significavam. Cícero (séc. I a.C.) explica que superstitiosi eram os que rezavam e sacrificavam o dia todo para que os filhos lhes sobrevivessem (superstites), e que religiosi eram os que "releem" com cuidado tudo o que diz respeito ao culto, de relegere, "reler" (Sobre a natureza dos deuses II.72, tradução minha). Séculos depois, o escritor cristão Lactâncio (c. 300) deu outra origem, religare, "ligar de novo", e os especialistas ainda discutem a derivação. O que importa aqui é o sentido de uso: religio era o culto feito do jeito aprovado pela cidade, e superstitio era o exagero, o estranho, o suspeito. Esta última palavra é a que Tácito e Plínio usarão para os cristãos (Capítulos 8 e 11).

👁️ Como era viver ali

A religião estava por toda parte, e começava em casa. Cada família romana cuidava dos deuses do lar, os lares e os penates, e do "gênio" do dono da casa, num nicho ou capela doméstica, o lararium, onde se punha uma oferta antes da refeição. Muitas casas de Pompeia, soterrada pelo Vesúvio em 79 d.C., conservam esses nichos pintados. A festa pública também era religiosa: os jogos do circo e do teatro eram oferecidos aos deuses, e os combates de gladiadores nasceram como ritos fúnebres, em 264 a.C., segundo a tradição romana. Quem ia ao espetáculo ia, em parte, a uma cerimônia.

🏺 O que a pá encontrou

Roma tolerava muitos cultos estrangeiros, desde que não ameaçassem a ordem. Quando ameaçavam, o Senado agia. Em 186 a.C., ele proibiu as associações secretas do deus Baco na Itália, que considerou perigosas: uma tábua de bronze com o decreto foi achada em 1640 em Tiriolo, na Calábria, e hoje está em Viena, no Kunsthistorisches Museum. A narrativa dos fatos vem de Lívio (História de Roma XXXIX). A tábua mostra o Estado dizendo ao cidadão como podia e como não podia cultuar.

⚠️ A tábua prova que o Senado regulava cultos e que a vigilância era real. Não prova que Roma perseguisse religiões por serem "diferentes": os cultos estrangeiros mais antigos, como o de Cibele, eram acolhidos oficialmente. O que o Estado temia era o que escapava ao controle.

06 — O IMPERADOR TAMBÉM ERA DEUS?Divus, filho do divino e "boas-novas"

Aqui a história fica delicada, e convém separar. Em Roma e na Itália, os imperadores não eram adorados em vida. Mas depois de mortos o Senado podia declará-los divus, "divinizado". Júlio César foi o primeiro de uma longa lista, em 42 a.C., e Augusto, o seu filho adotivo, passou a se chamar divi filius, "filho do divino". Nas províncias do Oriente, acostumadas a adorar reis, o culto ao governante vivo começou antes e foi mais aberto. O historiador Díon Cássio conta que, em 29 a.C., Augusto permitiu que os gregos da Ásia dedicassem um recinto sagrado a ele em Pérgamo, e os da Bitínia em Nicomédia. Aos cidadãos romanos que moravam em Éfeso e em Niceia, mandou que adorassem Roma e o "divino Júlio" (História romana LI.20, tradução minha). Díon acrescenta que, na própria Roma e na Itália, nenhum imperador, por mais ilustre, ousou aceitar isso em vida: ali as honras divinas vinham depois da morte.

🏺 O que a pá encontrou

O decreto de Priene. Em 9 a.C., o procônsul da Ásia, Paulo Fábio Máximo, propôs que o ano começasse no aniversário de Augusto, 23 de setembro. As cidades da província aceitaram. O decreto foi gravado em pedra em Priene, e as pedras estão hoje em museus de Berlim. Um trecho diz, na minha tradução, que o dia do nascimento do deus foi, para o mundo, "o começo das boas-novas que vieram por causa dele". A palavra grega é euangelíon, a mesma que o Novo Testamento traduz por "evangelho". O texto chama Augusto de "salvador" (sōtḗr).

Os Feitos de Augusto em Antioquia da Pisídia. Augusto deixou escrito um balanço da própria vida, as Res Gestae. O original de bronze, diante do seu mausoléu em Roma, não sobreviveu, mas há cópias em pedra por todo o Oriente. Uma delas, em Ancara, é a mais completa. Outra veio em fragmentos, achados por W. M. Ramsay a partir de 1914, na Antioquia da Pisídia, a cidade que Paulo visitou em sua primeira viagem At 13.14.

⚠️ O que os achados provam é que o vocabulário "evangelho", "salvador" e "senhor" já circulava nas províncias de Paulo, ligado ao imperador. O que não provam é a relação entre isso e o Novo Testamento. Há quem veja nas palavras de Paulo e de Marcos uma resposta direta à propaganda imperial. Outros acham que a base principal é o Antigo Testamento, onde "anunciar boas-novas" é o grande verbo de Isaías Is 52.7; Is 40.9, e que o uso romano é apenas pano de fundo. Muita gente sustenta que as duas coisas pesam.

O título "senhor" (kýrios) mostra o mesmo movimento. Na Bíblia grega do judaísmo, a Septuaginta, kýrios traduz o nome de Deus. Mas era também a palavra comum para dono, amo e, em tom respeitoso, para o imperador. Festo, ao enviar Paulo a Roma, escreve ao imperador Nero, e a ACF o traduz assim: "não tenho coisa alguma certa que escreva ao meu senhor" At 25.26. Mais tarde, por volta de meados do século II, um velho bispo de Esmirna chamado Policarpo seria pressionado, no tribunal, a dizer "Senhor César" e a oferecer incenso, para escapar da morte (Martírio de Policarpo 8.2). O Novo Testamento chama Jesus de kýrios, e isso, em certos lugares, deixou de ser só uma confissão religiosa.

07 — A EXCEÇÃO JUDAICAUm Deus que não aceita imagem

Os judeus eram uma exceção, e os romanos sabiam disso. Eles não cultuavam o imperador e não aceitavam imagens no Templo. Em troca, o império lhes reconhecia o direito de manter o culto de seus pais, e o Templo oferecia sacrifícios em favor do imperador e do povo romano, e não ao imperador. O filósofo judeu Fílon, de Alexandria, diz que Augusto mandou que fossem oferecidos todos os dias, às suas custas, holocaustos ao Deus Altíssimo (Embaixada a Gaio 157). O historiador Josefo conta de modo diferente: segundo ele, os sacrifícios por Roma eram pagos pela comunidade judaica (Contra Apião II.77). Os dois concordam no essencial: o Templo oferecia sacrifícios diários pelo imperador, sem o adorar.

Essa conta delicada quase foi à ruína por volta de 40 d.C., quando o imperador Gaio, chamado Calígula, mandou que uma estátua sua fosse colocada no Templo de Jerusalém. O governador da Síria, Petrônio, demorou a obedecer, e o plano morreu com o imperador, assassinado em janeiro de 41. Tácito resume tudo em duas linhas: "mandados a colocar uma imagem de Gaio no Templo, preferiram pegar em armas; a morte do imperador pôs fim ao tumulto" (Histórias V.9, tradução minha). O episódio é contado também por Fílon (Embaixada a Gaio) e por Josefo (Antiguidades XVIII.261-309), e eles descrevem outra cena: multidões que se deitaram diante de Petrônio, dispostas a morrer antes de ver a estátua dentro do Templo. A diferença entre "pegar em armas" e "oferecer o pescoço" é um dos pontos em que as fontes não combinam. Nos dois relatos, o limite é o mesmo: um imperador-deus dentro do Templo, não.

Vinte e seis anos depois, foram os próprios judeus que quebraram o equilíbrio. Em 66 d.C., o capitão do Templo, Eleazar, filho do sumo sacerdote Ananias, convenceu os sacerdotes a não receber nenhum presente nem sacrifício de estrangeiro. Josefo diz que isso foi "o verdadeiro começo da nossa guerra com os romanos", porque eles rejeitaram o sacrifício de César, e que os principais sacerdotes imploraram em vão que não o interrompessem (Guerra II.409-410, tradução minha, feita sobre o texto inglês de Whiston). O Capítulo 9 conta o que veio depois.

👁️ Como era viver ali

Para um judeu de Roma, de Éfeso ou de Alexandria, a vida de todo dia era um exercício de equilíbrio. O sábado, a comida, a recusa de sacrificar ao imperador, tudo isso o distinguia do vizinho e podia irritá-lo. Os privilégios judaicos, porém, eram reconhecidos por decretos e pelo costume, e a cidade em geral tolerava. Era a esse mundo, com sinagogas em quase todas as cidades, que Paulo chegava a cada viagem, e foi dentro dele que a primeira geração cristã viveu. Alguns estudiosos pensam que, enquanto os cristãos foram vistos como uma corrente do judaísmo, esses privilégios os abrigaram, e que perderam esse abrigo quando as autoridades passaram a distingui-los. Outros duvidam de que o judaísmo tivesse um estatuto legal formal desse tipo: a expressão "religião lícita" é de Tertuliano, por volta de 200 d.C., e não de uma lei romana conhecida.

08 — A RESPOSTA DO NOVO TESTAMENTO"Jesus é o Senhor", e honrai o rei

Diante de um império que misturava religião e poder, o Novo Testamento responde em duas direções ao mesmo tempo, e as duas estão no texto.

A primeira é a lealdade final. Paulo escreve, preso, aos cristãos de Filipos, uma colônia romana de veteranos At 16.12, que Deus exaltou Cristo e lhe deu um nome acima de todo nome, "E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai" Fp 2.9-11. A frase ecoa Isaías: "diante de mim se dobrará todo o joelho, e por mim jurará toda a língua" Is 45.23, dito de Deus. Poucas linhas depois, ele lembra aos mesmos cristãos, que viviam numa cidade de cidadãos romanos, qual é a verdadeira pátria deles: "a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador" Fp 3.20. Aos coríntios, rodeados de deuses, ele diz que, ainda que haja "muitos deuses e muitos senhores", "para nós há um só Deus, o Pai [...]; e um só Senhor, Jesus Cristo" 1Co 8.5-6.

A segunda direção é o respeito. Pedro manda "Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei" 1Pe 2.17. Paulo pede a Timóteo orações "Pelos reis, e por todos os que estão em eminência" 1Tm 2.1-2. E o próprio Jesus responde à pergunta sobre o imposto, diante de uma moeda com o rosto do imperador: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" Mt 22.21. Os capítulos seguintes mostram como as duas direções se encontram em cada julgamento, de Pilatos a Nero.

🔎 A palavra original

Duas palavras do vocabulário político foram parar na vida da igreja. ekklēsía (ἐκκλησία), que a ACF traduz por "igreja", era a assembleia dos cidadãos de uma cidade grega, e o Novo Testamento a usa, em Atos 19.39, para a assembleia legal de Éfeso (a ACF diz "legítima assembléia"). E políteuma (πολίτευμα), em Filipenses 3.20, é "comunidade de cidadãos, cidadania", a que Strong define como "uma comunidade, ou, em abstrato, cidadania". Para quem lia em Filipos, colônia de cidadãos romanos, a imagem era forte.

🌱 Semente de sermão

Na acusação de Tessalônica, os inimigos de Paulo disseram, sem querer, uma verdade: "há outro rei, Jesus". Eles queriam ser ouvidos como juízes, e descreveram o centro do evangelho. O cristão não faz revolução, mas tem um rei acima de todos os reis, e isso muda o modo de obedecer.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🏛️

Religião de rito

Cumprir o culto certo mantinha a "paz com os deuses". Cada casa tinha os seus. A ACF traduz "Zeus" e "Hermes" por Júpiter e Mercúrio em At 14.12.

👑

Imperador e culto

Divinizado depois de morto em Roma, adorado em vida no Oriente. Em Priene (9 a.C.), o aniversário de Augusto era "o começo das boas-novas".

🕎

A exceção judaica

O Templo oferecia sacrifícios pelo imperador, não a ele. Em 40 d.C., a estátua de Calígula quase mudou isso; em 66, a suspensão dos sacrifícios acendeu a guerra.

✝️

Um só Senhor

"Jesus Cristo é o Senhor" Fp 2.11, mas também "honrai ao rei" 1Pe 2.17. As duas coisas estão na Bíblia.

Próximo capítulo: Roma entra na terra de Jesus. De Pompeu, que em 63 a.C. entrou no Templo, a Herodes, o rei que Roma fez.

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