Começa nas tendas e nas lojas encostadas no Circo Máximo, num ponto junto aos montes Palatino e Célio, onde se vende o que o fogo gosta de comer. O vento empurra a chama pelo comprimento do Circo. Não há muro nem templo cercado que a segure. As ruas são tortas e estreitas, e quem foge muitas vezes encontra o fogo à frente. Aquela noite é a de 18 para 19 de julho de 64.
Seis dias depois, boa parte da cidade é cinza. Este capítulo parte da igreja que Paulo encontrou em Roma: quem eram os cristãos da capital, o que Paulo lhes escreveu sobre a autoridade, o que aconteceu em 64 e o que a tradição conta da morte de Pedro e de Paulo. Cada afirmação traz o rótulo do que ela é: Bíblia, história ou tradição.
27 — A IGREJA DE ROMAUma comunidade que Paulo ainda não conhecia
Quando Paulo escreve aos Romanos, de Corinto, por volta de 56–57, nunca esteve na cidade. Dirige-se "A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos" Rm 1.7, e elogia: "em todo o mundo é anunciada a vossa fé" Rm 1.8. Quem fundou a igreja de Roma, o Novo Testamento não diz. Atos conta que havia "forasteiros romanos" em Jerusalém no Pentecostes At 2.10, e é provável que judeus convertidos tenham levado a mensagem à capital, onde já havia sinagogas. A carta foi escrita em grego, e a lista de saudações, no capítulo 16, mistura nomes gregos, latinos e judeus.
Essa lista dá um retrato da comunidade. Estão ali Priscila e Áquila, de volta a Roma Rm 16.3-5, "os da família de Aristóbulo" e "os da família de Narciso" Rm 16.10-11. Eram casas grandes, com escravos e libertos, e alguns estudiosos lembram que um Narciso, liberto poderoso de Cláudio, morreu em 54. É uma identificação possível, e só isso. O que a lista mostra, de qualquer modo, é uma igreja que se reunia em casas e que misturava gente de baixa e de média posição.
E havia cristãos até perto do imperador. Paulo, preso, escreve: "as minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana" Fp 1.13, e fecha a carta: "Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César" Fp 4.22. A "casa de César" não era a família do imperador. Era o conjunto dos escravos e libertos a serviço dele, a administração do império, com milhares de pessoas. Não sabemos de onde Paulo escreve Filipenses (Roma é a proposta tradicional, e alguns pensam em Éfeso ou Cesareia), mas a frase mostra o evangelho dentro da máquina do império. E a carta aos Hebreus termina com "Os da Itália vos saúdam" Hb 13.24.
Muitos cristãos de Roma no tempo de Paulo eram escravos, libertos ou estrangeiros. Moravam em apartamentos cheios, em bairros de ruas estreitas, trabalhavam para um dono e se reuniam num cômodo cedido por alguém com mais posses. Uma das cartas de Paulo, a Filemom, mostra essa situação. Paulo pede a um dono de escravos que receba de volta Onésimo, "que gerei nas minhas prisões": "O qual noutro tempo te foi inútil, mas agora a ti e a mim muito útil" Fm 1.10-11. No grego há um jogo de palavras com o nome do escravo: Onḗsimos quer dizer "útil, proveitoso" (Strong), e "inútil" é áchrēstos (ἄχρηστος). Paulo pede que o receba "Não já como servo, antes, mais do que servo, como irmão amado" Fm 1.16, e se oferece a pagar o que Onésimo deva Fm 1.18-19.
A carta não manda libertar o escravo, e termina com a frase "sabendo que ainda farás mais do que digo" Fm 1.21, que alguns leem como um pedido discreto de libertação. Por isso é lida de formas diferentes. Alguns leitores veem nela uma crítica silenciosa à escravidão, porque o que era um dono e um servo agora é um irmão. Outros observam que Paulo respeita a ordem social do tempo, como em outros textos Ef 6.5-9, e que a mudança está na relação, e não na lei. E há os que lembram que Paulo condena os "roubadores de homens", os traficantes de escravos 1Tm 1.10. O texto não resolve a discussão, e ela continua até hoje.
28 — NERO E A AUTORIDADERomanos 13 e um imperador de dezesseis anos
Nero tinha dezesseis anos quando Cláudio morreu, em 54, e foi proclamado imperador. Nos primeiros anos, o governo ficou em boa parte nas mãos do filósofo Sêneca e do prefeito pretoriano Burro. É nesse clima que Paulo escreve, na carta aos Romanos, o trecho mais discutido da relação entre o cristão e o Estado:
O texto segue: quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus Rm 13.2; os magistrados não assustam quem faz o bem Rm 13.3; a autoridade "não traz debalde a espada" Rm 13.4; e Paulo conclui com o tributo: "dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra" Rm 13.7. A menção ao imposto tem um pano de fundo romano. Tácito conta que em 58 o povo se queixou tanto dos cobradores que Nero pensou em abolir todos os impostos indiretos. Os senadores mais velhos o dissuadiram, e ele mandou publicar as regras de cobrança, antes secretas (Anais XIII.50-51). O assunto estava no ar em Roma, e muitos estudiosos o ligam à passagem de Paulo sobre o tributo.
"Sujeita" é hypotássō (ὑποτάσσω), que Strong explica como "subordinar; reflexivamente, obedecer", e a palavra grega para "potestades" é exousíai (ἐξουσίαι), de exousía, "capacidade, liberdade, domínio; concretamente, magistrado" (Strong). A autoridade é chamada duas vezes de "ministro de Deus" (Rm 13.4), em grego diákonos (διάκονος), "servidor" (a mesma palavra de "diácono"), e, no versículo 6, de leitourgós (λειτουργός), "servidor público". Paulo usa para o magistrado palavras de serviço. Os leitores discutem se isso coloca a autoridade sob o julgamento de Deus, como defende parte da tradição reformada, ou se apenas descreve a função dela.
Como entender isso? As igrejas leram Romanos 13 de formas diferentes, e convém descrevê-las pelo que cada uma diz. A tradição luterana e reformada, de Lutero e de Calvino, ensina a obediência às autoridades, mesmo ruins, e a recusa só quando mandam pecar, a partir de Atos 5.29: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens". Calvino admitia, em casos extremos, que magistrados inferiores resistissem a um tirano, e não os particulares. As igrejas anabatistas e menonitas, dos séculos XVI em diante, entendem que o cristão sofre o poder, ora por ele e não pega em armas, e muitas veem no Estado uma ordem permitida por Deus, mas fora do "reino de Cristo". Outros leitores, de várias tradições, lembram que o mesmo Novo Testamento chama o império de besta no Apocalipse (Capítulo 10), e que Romanos 13 deve ser lido junto de Apocalipse 13, e não no lugar dele. E há quem leia a passagem como instrução para o tempo e o lugar de Paulo, um conselho prático a gente que vivia sob suspeita, sem uma teoria política.
Paulo escreve isso a cristãos de uma cidade onde, poucos anos depois, o imperador mandaria matar cristãos nos seus próprios jardins (seção 29).
29 — O INCÊNDIO DE 64Quem pôs fogo em Roma, e quem pagou
Tácito, que escreveu mais de cinquenta anos depois, começa o relato com uma dúvida: foi uma catástrofe "por acaso ou por ardil do príncipe, e é incerto, pois os dois foram contados" (Anais XV.38, tradução minha). Conta o resto com minúcia. O fogo começou, na noite de 18 para 19 de julho, em lojas ao lado do Circo Máximo, e o vento o levou. Nero estava em Âncio e só voltou quando as chamas chegavam à casa dele. Abriu o Campo de Marte, os monumentos de Agripa e os próprios jardins para os desabrigados, mandou construir abrigos de emergência e baixou o preço do trigo. Mesmo assim, corria o boato de que, enquanto a cidade ardia, ele tinha subido ao palco de casa e cantado a queda de Troia. O fogo acabou no sexto dia, ao pé do Esquilino, e depois reacendeu. Das catorze regiões de Roma, quatro ficaram intactas, três foram arrasadas e sete ficaram com poucos restos (Anais XV.38-41).
Suetônio dá outra versão, mais dura: o imperador teria posto fogo na cidade abertamente, por desgosto com as ruas velhas e as vielas tortas, e teria visto o incêndio da torre de Mecenas, cantando a "Queda de Ílion" em traje de palco (Nero 38, tradução minha, a partir de texto inglês). Muitos historiadores modernos consideram o acidente mais provável. Tácito mesmo duvida, e as fontes se contradizem em detalhes: em Tácito, Nero estava em Âncio e o canto é só um boato, e em Suetônio ele canta de uma torre. Mais prudente é dizer que a causa não pode ser fixada e que a cidade sofreu muito.
Depois do fogo, Nero construiu uma grande casa de campo no centro de Roma, a Casa Dourada, que Tácito descreve com lagos, bosques e pastagens (Anais XV.42). E, nas palavras de Tácito, "nem os meios humanos, nem as dádivas do príncipe, nem as cerimônias para aplacar os deuses faziam desaparecer a suspeita de que o incêndio tinha sido ordenado" (Anais XV.44, tradução minha). Então, para acabar com o boato, Nero "apresentou outros culpados e os castigou com penas requintadas: os que o povo, que os odiava por suas abominações, chamava de cristãos".
O texto de Tácito. É o relato mais antigo e mais completo da perseguição de Nero, e vale ler o resto, em tradução minha: "primeiro foram presos os que confessavam; depois, pela denúncia deles, uma multidão enorme foi condenada, não tanto pelo crime de incêndio quanto pelo ódio ao gênero humano. E aos que morriam acrescentavam-se zombarias: cobertos com peles de feras, eram dilacerados por cães, ou, pregados em cruzes, queimados ao cair do dia para servir de luz noturna. Nero oferecera seus jardins ao espetáculo e dava jogos de circo, misturado ao povo em traje de cocheiro, ou de pé num carro. Por isso, ainda que contra culpados que mereciam o último castigo, nascia a compaixão, como se eles fossem mortos não pelo bem comum, mas pela crueldade de um só" (Anais XV.44).
O que Suetônio diz. Em outro lugar, ele inclui entre as medidas de Nero: "Foram castigados os cristãos, uma classe de homens de superstição nova e perniciosa" (Nero 16, tradução minha, a partir do texto inglês). Suetônio põe isso numa lista de reformas de polícia, e não liga o castigo ao incêndio.
⚠️ Os historiadores discutem três coisas. A primeira é o motivo: se os cristãos foram acusados do incêndio, como diz Tácito, ou punidos por outra razão, como a lista de Suetônio sugere. A segunda é o alcance: a perseguição parece ter sido em Roma, e não em todo o império. A terceira é a base legal: não se sabe se Nero baixou uma lei contra os cristãos ou se agiu por ato próprio. Tertuliano, por volta de 200, fala de uma "instituição neroniana" contra eles (Aos Gentios I.7), mas Tertuliano é tardio. O que não se discute é que Tácito, um senador pouco amigo dos cristãos, registrou que um grupo cristão foi morto em público por ordem do imperador.
O manuscrito medieval do trecho traz primeiro Chrestianos, depois corrigido, e Tácito explica o termo: "a esses que o povo chamava de cristãos". O nome grego, Christianós, já aparecia em Antioquia At 11.26, e é uma palavra feita com Christós e a terminação latina -ianus, que indica "partidário de": como "herodianos" Mc 3.6. Para os romanos, era o rótulo de uma seita. A frase de Tácito, odium humani generis, "ódio ao gênero humano", repete uma ideia que o mesmo Tácito aplica aos judeus, que têm, diz ele, "hostil ódio contra todos os outros" (Histórias V.5, tradução minha). A recusa de participar da vida religiosa da cidade era lida como inimizade.
30 — PEDRO E PAULOO que a Bíblia diz e o que a tradição conta
O Novo Testamento anuncia os dois fins, mas não os conta. Paulo, perto do fim, escreve: "eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé" 2Tm 4.6-7, e lembra que "Ninguém me assistiu na minha primeira defesa", mas "fiquei livre da boca do leão" 2Tm 4.16-17. E Jesus diz a Pedro que, quando for velho, "estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras", "significando com que morte havia ele de glorificar a Deus" Jo 21.18-19. Aí termina a Bíblia. Quando e onde, ela não diz.
A tradição mais antiga, fora da Bíblia, põe os dois em Roma. Clemente, bispo de Roma, escreve em c. 96 aos coríntios que Pedro sofreu muitos trabalhos e deu testemunho, e que Paulo, depois de pregar até o limite do Ocidente, foi martirizado diante dos governantes (1 Clemente 5–6). Inácio de Antioquia, por volta de 110, diz aos romanos que não lhes dá ordens como Pedro e Paulo (Aos Romanos 4.3). Tertuliano, por volta de 200, conta que Paulo foi decapitado e Pedro crucificado em Roma. Eusébio (c. 325) cita um escritor romano chamado Gaio, de c. 200, que diz poder mostrar "os troféus" dos apóstolos, no Vaticano e na estrada de Óstia (História Eclesiástica II.25). Mais tarde se contou que Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, e que Paulo, sendo cidadão romano, foi decapitado.
As posições sobre isso variam. A tradição católica ensina que Pedro foi o primeiro bispo de Roma, e que o bispo de Roma é o seu sucessor, com a primazia que isso traz. A ortodoxa reconhece Pedro e Paulo como fundadores e mártires da igreja de Roma, e dá ao bispo de Roma uma primazia de honra, entre os patriarcas, mas não a jurisdição sobre todos. A protestante em geral nota que o Novo Testamento não diz que Pedro esteve em Roma, e que, de toda forma, o fato de ele ter morrido ali não prova a sucessão papal. Muitos estudiosos protestantes, como Oscar Cullmann, aceitam como histórica a morte de Pedro em Roma, e discordam do que a tradição católica tira disso.
Há também a frase de Pedro: "A vossa co-eleita em babilônia vos saúda, e meu filho Marcos" 1Pe 5.13. "Babilônia" é, para muitos, um nome cifrado de Roma (Strong diz que a palavra se aplica, em sentido figurado, "como tipo de tirania"), e é como a tradição antiga a entendeu. Outros pensam na Babilônia da Mesopotâmia, ou em uma fortaleza do Egito com esse nome.
⚠️ Tudo isso é tradição, e a mais antiga é do fim do século I. O que a Bíblia afirma é que os dois escreveram, serviram e esperaram a morte, e não que tenham morrido em Roma sob Nero. A data tradicional é entre 64 e 68, e a ligação com o incêndio vem da tradição, e não do texto bíblico.
Sob a basílica de São Pedro, no Vaticano, escavações a partir de 1940 acharam uma necrópole romana do século I ao IV e, nela, um pequeno monumento do século II ao pé de um muro, que alguns identificam com o "troféu" de Gaio. Em 1950, o papa Pio XII disse que não se podia afirmar com certeza absoluta que os ossos achados ali fossem de Pedro, e em 1968 Paulo VI declarou que as relíquias tinham sido identificadas de um modo que se podia ter por convincente. Muitos arqueólogos veem no monumento a prova de que, por volta de 160, já se venerava o lugar. A identificação dos ossos, porém, é debatida.
⚠️ A escavação prova que, no século II, os cristãos de Roma consideravam aquele ponto do Vaticano o lugar de Pedro. Não prova que Pedro esteja ali enterrado.
Paulo escreveu "Combati o bom combate" de uma prisão, e fala de uma "primeira defesa" em que todos o abandonaram. "Ninguém me assistiu", mas "o Senhor assistiu-me" 2Tm 4.16-17. A igreja de Roma, que nasceu entre libertos e escravos, e de que alguns membros morreram nos jardins de um imperador, recebeu uma carta de Paulo que ainda é lida. Os jardins de Nero se perderam.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
A igreja de Roma
Escravos, libertos e gente da "casa de César". Paulo escreveu antes de conhecê-los Rm 1.7.
Romanos 13
Obediência, tributo e a espada da autoridade. Três leituras: obedecer, salvo para pecar; sofrer sem resistir; ler junto de Ap 13.
64
O fogo durou seis dias e a causa é incerta. Tácito diz que os cristãos foram acusados e mortos nos jardins de Nero.
Pedro e Paulo
A Bíblia não conta a morte deles. A tradição, de Clemente a Tertuliano, a põe em Roma.
Próximo capítulo: Jerusalém, ano 70. A guerra que começou com um sacrifício a menos, o cerco de Tito e o arco de Roma que ainda mostra o candelabro.
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