O Protestantismo no BrasilCapítulo 10 de 11 ⤓ PDF
Fotografia antiga em preto e branco de uma praça de Belém: caminho de pedra à esquerda, palmeiras altas e um monumento com estátua ao fundo, canteiros de plantas em primeiro plano
CAPÍTULO 10 DE 11

O Espírito pelo Brasil

A Assembleia de Deus cresce e as novas ondas dos anos 1950 e 1960

Em setembro de 1930, em Natal, missionários suecos e pastores brasileiros se reúnem por seis dias. Quando saem, o trabalho no Norte e no Nordeste está em mãos brasileiras, e os dois jornais da igreja viraram um só. O que veio depois, e o que as outras igrejas dos anos 1950 e 1960 trouxeram.

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Natal, Rio Grande do Norte, 5 de setembro de 1930. Missionários suecos e pastores brasileiros se reúnem em convenção, por seis dias. Chegou da Suécia, a pedido dos missionários, Lewi Pethrus, pastor da igreja Filadélfia de Estocolmo, que dava retaguarda e sustento a missionários. O Diário de Vingren atribui a vinda dele a dificuldades entre missionários e irmãos brasileiros sobre a direção do trabalho. A reunião foi adiada uma vez, e Vingren viajou à Suécia para convidá-lo.

Ao fim, assinam todos os missionários e dezesseis pastores brasileiros. As decisões, segundo o Diário: o trabalho no Norte e no Nordeste (cerca de mil membros e 160 igrejas, nas palavras dele) passará inteiramente a obreiros brasileiros, e os templos serão entregues às igrejas locais até 1.º de julho de 1931; os missionários irão para o Sul; os dois jornais da igreja se fundirão no Mensageiro da Paz; haverá uma convenção geral, anual, "de caráter espiritual". Foi o momento em que a direção do trabalho no Norte e no Nordeste passou a mãos brasileiras. Este capítulo conta como ela chegou até ali, o que fez com a Bíblia no caminho e como, nos anos 1950 e 1960, outras igrejas pentecostais surgiram ao lado dela.

01 — DO PARÁ AO SULLeigos, migrantes e missionários

A expansão foi, em grande parte, obra de gente comum. Gedeon Alencar, numa resenha de Portella, diz que ela se deveu a leigos anônimos, migrantes do fim do ciclo da borracha, mais do que a missionários. Do Pará a mensagem chegou ao interior (Soure, Tajapuru, Bragança, ainda em 1913). Em 1915, Vingren viajou a Alagoas, de 23 de abril a 13 de julho, e em 28 de maio um homem, chamado Candinho, foi o primeiro batizado no Espírito ali. Em 1916, Adriano Nobre foi enviado a Pernambuco. Em 1918 chegou ao Recife o casal sueco Joel e Signe Carlson. Em 1920, num artigo na revista sueca Julens Härold, Vingren escreveu que já havia igrejas em oito estados do Brasil. Nesse mesmo ano, ele chegou ao Rio de Janeiro (7 de julho). Segundo Paulo Leivas Macalão, a primeira Assembleia de Deus do Rio foi organizada em 30 de abril de 1924. Em 15 de novembro de 1927, Daniel Berg e a esposa chegaram a São Paulo; os primeiros batismos foram em 4 de março de 1928.

As datas variam conforme o critério: a tabela de Isael de Araújo, citada por Fajardo, põe a "primeira AD" do Rio em 1923 e a de São Paulo em 1923 também, mas o Diário e Conde falam em 1924 e 1927–28. Os primeiros marcam a chegada da mensagem, em geral por leigos migrantes; os segundos, a igreja organizada. Houve também missionários suecos: Samuel e Lina Nyström, em 1916; Otto e Adina Nelson, em 1914 ou 1915 (o próprio Diário diz as duas coisas); os Carlson, em 1918; Nils Kastberg, que desembarcou em Recife em 7 de junho de 1929. A retaguarda era a Filadélfia de Estocolmo, de Pethrus.

Frida Strandberg Vingren, sueca, casou-se com Gunnar em Belém em 16 de outubro de 1917, e foi a única mulher comentarista das Lições Bíblicas. A convenção de Natal oficializou, segundo o Diário, que as irmãs têm direito de participar, testificando e ensinando, mas que não se considera justo que uma irmã tenha a função de pastor, salvo em casos excepcionais. Vingren morreu na Suécia em 29 de junho de 1933; Berg, em 1963.

🏺 O que os arquivos guardam

Quem convocou a convenção de Natal? O Diário diz que foi pedido dos missionários, que chamaram Pethrus para mediar, com o princípio sueco da igreja local livre e independente. Fajardo, citando Silas Daniel (2004), descreve que em 1929 dez pastores brasileiros do Norte e do Nordeste se reuniram em Natal e decidiram convocar uma convenção para apresentar demandas de mais autonomia. Pethrus (2004), citado por Fajardo, diz que os pregadores brasileiros tinham organizado a conferência e convidado os missionários. Alencar, segundo uma resenha, afirma que foi convocada pelos brasileiros a contragosto dos suecos. Sobre a personalidade jurídica, Fajardo, com Daniel, a situa em 1946, em Recife, para abrigar a CPAD; resenhas de Alencar dizem que o registro foi em 1930. Quem presidiu a primeira assembleia também é debatido: Fajardo, com Daniel, diz que foi o pastor Cícero Canuto de Lima; uma resenha de Alencar diz que em 1937 Paulo Macalão se tornou o primeiro brasileiro presidente da Convenção. Este livro afirma só que a CGADB nasce da convenção de Natal, em setembro de 1930, e que só ganha personalidade jurídica, segundo Fajardo, em 1946.

⚠️ A história oficial de Emílio Conde (1960) tem, segundo Fajardo e Isaia, tom providencialista. Os que a leem criticamente, como Fajardo e Alencar, são em boa parte pesquisadores ligados à própria igreja; cada um é citado aqui pelo nome, sem generalizar.

02 — JORNAL, HINÁRIO E ESCOLA DOMINICALO que a Bíblia ganhou de papel

Os primeiros jornais foram a Voz da Verdade (novembro de 1917 a janeiro de 1918), de Almeida Sobrinho e João Trigueiro; a Boa Semente (as fontes dão 1918 ou 1919 como começo; funcionou até 1930), dirigida por Vingren e Nyström; e O Som Alegre (Rio, 1929–1930). A Boa Semente começou em 1918 ou 1919, e não em 1917. Em 1930, na primeira assembleia geral, os dois últimos se fundiram no Mensageiro da Paz, com primeiro número em dezembro do mesmo ano. A Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) nasce legalmente em março de 1940, segundo Bandeira (citando D'Avila), e uma das razões foi a exigência do DIP, em 1939–40, de que só pessoas jurídicas tivessem jornais. Em 1946 a CPAD foi vinculada à CGADB.

A Harpa Cristã teve a primeira edição em 1922, em Recife, a princípio com cem hinos, organizada por Adriano Nobre; a segunda, de 1923, no Rio, com trezentos. Conde fala em uma tiragem de um milhão de exemplares para a primeira, número improvável para 1922 e que este livro não repete. A convenção de 1937 autorizou a Harpa com música. A Escola Bíblica Pentecostal, primeira escola de formação, foi dirigida por Nyström em Belém, de 4 de março a 4 de abril de 1922, com dezesseis pastores. E as Lições Bíblicas, como revista própria, vêm de 1930: doze lições por trimestre, texto bíblico curto, leitura bíblica diária e "texto áureo". Fajardo escreve que as revistas eram ferramentas de formação bíblica numa época em que o estudo teológico formal não era permitido nas Assembleias de Deus.

Por que isso importa para a leitura da Bíblia? Porque o povo que a igreja alcançava lia pouco. Fajardo, citando o Censo de 1960, dá 46,7% de analfabetismo no país nesse ano. Enquanto as igrejas históricas, como o capítulo 7 mostrou, tinham nos colégios um caminho para as elites, a Assembleia de Deus aproximou da escrita, segundo Fajardo, gente com pouca escolaridade ou analfabeta. Como quem não lia podia chegar à Bíblia? Pelo culto, pelo colportor que vendia a Bíblia a quem depois pediria a um parente que a lesse, pelo versículo decorado, pela revista. O historiador Gedeon Alencar escreve que os intelectuais criticam a leitura "moralista e literalista" dos pentecostais e não veem o significado de uma pessoa semiletrada ter um livro e "lê-lo". As Lições Bíblicas foram, de 1930 a 1989, segundo Fajardo, a matriz doutrinária comum: a mesma revista chegava ao operário da periferia de São Paulo e às comunidades ribeirinhas da Amazônia.

🔎 A palavra original

O nome "pentecostal" vem de uma data. O Novo Testamento diz "cumprindo-se o dia de Pentecostes" At 2.1: o grego é πεντηκοστή (pentēkostḗ, G4005), que o dicionário de Strong define como "o quinquagésimo (dia) a partir da Páscoa, ou seja, a festa de Pentecostes". A conta vem da lei: "contareis cinquenta dias" Lv 23.16. As igrejas deste capítulo se chamam pentecostais por causa do que Lucas conta do cinquentésimo dia, e a Congregação Cristã, do capítulo anterior, não aceita o rótulo. Já a palavra "assembleia", do nome da AD, corresponde ao grego ekklēsía, de que o capítulo 4 falou.

03 — MINISTÉRIOS E NÚMEROSUma igreja que é muitas

A Assembleia de Deus, escreve Fajardo, não é um bloco único: é um conjunto de ministérios, redes de igrejas sob um pastor-presidente, e de convenções. A CGADB nasceu com a lógica sueca da igreja local livre; na prática, o sistema evoluiu para ministérios autônomos. Em Madureira, no Rio, a obra de Paulo Leivas Macalão (nascido em 1903, convertido em 1924) foi organizada em 15 de novembro de 1929; em 1989 Madureira saiu da CGADB e fundou a CONAMAD (Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil – Ministério de Madureira), o primeiro grande grupo a se autonomizar. Alencar interpreta o fracionamento como disputa política, e não teológica; Fajardo mostra que os debates convencionais de 1940 a 1980 giravam, em boa parte, em torno de "invasões de campo". Existem hoje várias convenções, e a CGADB é a maior ligada à linha "da Missão".

Quantos são? Para os primeiros anos só existem estimativas, e Fajardo avisa que elas vêm de agências missionárias estrangeiras com preocupações apologéticas: 14 mil em 1930, 120 mil em 1949, 407 mil em 1960, 753 mil em 1970. Dreher (1991) dá 960 mil em 1964. A partir daí há censo. O IBGE contou 8.418.140 pessoas da Assembleia de Deus em 2000 e 12.314.410 em 2010 (6,5% da população). A própria Convenção, em texto reproduzido numa moção da Assembleia Legislativa do Mato Grosso (2021), estima cerca de 22,5 milhões de membros; é uma estimativa autodeclarada, muito acima do censo, e este livro não a verificou em documento da CGADB. O censo de 2022 não separa denominações. A última contagem por igreja é a de 2010.

04 — TENDAS, RÁDIO E ESTÁDIOA segunda onda, de 1951 a 1962

Paul Freston chama de "ondas" os grandes momentos de criação de igrejas pentecostais no Brasil: a primeira, nos anos 1910 (Congregação Cristã e Assembleia de Deus); a segunda, a partir dos anos 1950; a terceira, a partir dos anos 1970 (capítulo 11). Ricardo Mariano usa a metáfora e dá nomes: pentecostalismo clássico, deuteropentecostalismo e neopentecostalismo. Freston escreve que a segunda onda corresponde ao começo do crescimento rápido, nos anos 1950; que a urbanização e a sociedade de massas, sobretudo em São Paulo, abriram espaço para novas formas de pentecostalismo, com as tendas de circo, ênfase na cura divina e certo relaxamento de tabus de comportamento. Há críticas às tipologias: Fajardo observa que elementos do pentecostalismo clássico e do chamado neopentecostal se entrecruzam, e Alves e colegas mostram que a literatura periodiza as ondas de modos diferentes. Gandra lembra que as classificações são "apenas delimitações metodológicas".

Igreja do Evangelho Quadrangular. Foi fundada nos Estados Unidos por Aimee Semple McPherson, em Los Angeles (1923, segundo uma justificativa da Câmara Municipal de São Paulo; 1922, segundo Paula). No Brasil, segundo documentos legislativos paulistanos (provavelmente fornecidos pela denominação), foi fundada em 15 de novembro de 1951, em São João da Boa Vista (SP), pelo missionário Harold Edwin Williams, com ajuda de um peruano, Jesus Hermírio Vasquez Ramos. De 1952 a 1954, Williams e Raymond Boatright lideraram a Cruzada Nacional de Evangelização, que começou em São Paulo, nos bairros de Água Branca e Santa Cecília, com tendas de lona, cura divina e uso intenso do rádio. A denominação americana conta que a ideia da tenda de circo veio de uma cruzada de Billy Graham nos Estados Unidos. As datas divergem entre 1951 (fundação), 1952–1953 (cruzada) e 1954 (estruturação como IEQ). Os "quatro" títulos de Cristo da igreja são Salvador, Batizador no Espírito, Médico dos médicos e Rei que há de vir.

O Brasil para Cristo. Freston, no relatório do Pew Forum, escreve que Manoel de Mello foi o primeiro brasileiro a fundar uma grande igreja pentecostal, O Brasil para Cristo, em 1955. A própria igreja, segundo uma matéria da Câmara Municipal de São Paulo que cita o seu portal, data a fundação de 1956 e diz que começou como um movimento itinerante de evangelismo, cura e libertação, numa tenda improvisada na Vila Carrão, na zona leste de São Paulo. Freston diz que ela levou a mensagem pentecostal a espaços seculares, como cinemas e estádios, e fez o primeiro uso em larga escala do rádio e uma incursão curta na televisão. Duas informações que circulam, o ginásio do Pacaembu em 1960 e o nome do programa de rádio, não aparecem nos textos consultados.

Igreja Pentecostal Deus é Amor. O site oficial diz que foi fundada em 3 de junho de 1962, com três membros: o missionário David Martins Miranda (1936–2015), a mãe, Anália, e a irmã, Araci. A fundação, diz a igreja, foi feita conforme orientação do Espírito Santo. Tem um programa de rádio, "Voz da Libertação", e um jornal, O Testemunho. O Templo da Glória de Deus, em São Paulo, foi inaugurado em 1.º de janeiro de 2004. A Casa da Bênção, que o IBGE contou em 2010, tem data e local de fundação que não se confirmaram em fonte (o "1964, Goiânia" que se lê não se sustenta). Em 2010 o IBGE contou 1.808.389 pessoas da Quadrangular, 845.383 da Deus é Amor, 196.665 d'O Brasil para Cristo e 125.550 da Casa da Bênção.

👁️ Como era viver ali

Um pequeno objeto mostra como a Bíblia circulava. A "caixinha de promessas", uma caixa com versículos soltos em filipetas, foi vendida pela CPAD nos anos 1940 e, segundo Fajardo (que cita o Mensageiro da Paz de 1946), nunca foi reconhecida nem recomendada oficialmente. Nos cultos da Cruzada dos anos 1950, segundo Paula, havia tendas de lona, cura divina e uso intenso do rádio; segundo Freston, a mensagem entrou em cinemas e estádios, e as igrejas dessa onda relaxaram alguns tabus de comportamento.

🌱 Semente de sermão

"Naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus" At 6.1. No livro de Atos, entre o Pentecostes e o fim do livro, a igreja teve que resolver um atrito entre dois grupos de língua e cultura diferentes, e o fez escolhendo sete homens. Na história que você acabou de ler, houve atrito entre suecos e brasileiros em 1930, e entre ministérios muitos anos depois. "Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união" Sl 133.1, mas até a primeira igreja precisou organizar-se para isso.

LINHA DO TEMPODa Convenção de Natal aos anos 1960

Datas do Diário de Vingren, de Conde, de Fajardo e das próprias igrejas. Onde há divergência, o texto diz.

1913–1916
Bragança, São Luís, Alagoas (1915, Vingren), Pernambuco (1916, Adriano Nobre).
1916
Samuel e Lina Nyström chegam.
1920
Vingren escreve que há igrejas em oito estados; chega ao Rio em 7 de julho.
1922
Primeira edição da Harpa Cristã, em Recife; Escola Bíblica Pentecostal, em Belém.
30 de abril de 1924
Primeira AD organizada no Rio, segundo Macalão.
15 de novembro de 1927
Berg chega a São Paulo.
5–10 de setembro de 1930
Convenção de Natal; os jornais se fundem no Mensageiro da Paz; começam as Lições Bíblicas.
março de 1940
CPAD, em um contexto de exigência de pessoa jurídica para jornais.
1946
CGADB ganha personalidade jurídica, em Recife, segundo Fajardo.
15 de novembro de 1951
Fundação do Quadrangular, em São João da Boa Vista (data de fontes legislativas).
1955 ou 1956
O Brasil para Cristo, de Manoel de Mello.
3 de junho de 1962
Deus é Amor, de David Miranda.
1989
Madureira sai da CGADB e funda a CONAMAD.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🗓️

Natal, setembro de 1930

Suecos e brasileiros se reúnem; o Norte e o Nordeste passam a obreiros brasileiros; os jornais viram o Mensageiro da Paz. Quem convocou é debatido.

📚

Papel para a Bíblia

Harpa Cristã (1922), Lições Bíblicas (1930) e CPAD (1940): formação bíblica para um povo que lia pouco.

⛺

A segunda onda

Quadrangular (1951), O Brasil para Cristo (1955 ou 1956) e Deus é Amor (1962), com tendas, rádio e cura divina.

🔢

12,3 milhões em 2010

Pessoas da Assembleia de Deus no censo de 2010. A estimativa da própria Convenção, de 22,5 milhões, é autodeclarada e não foi verificada.

Próximo capítulo, o último: a terceira onda, a Universal e as igrejas de teologia da prosperidade descritas pelos dois lados, o que os censos de 1872 a 2022 contam, e a Bíblia no Brasil hoje, com as traduções, a Sociedade Bíblica e os leitores.

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