O Protestantismo no BrasilCapítulo 1 de 11 ⤓ PDF
Mapa gravado da baía de Guanabara com a ilha de Villegagnon e o Fort de Coligni, a Grande Ilha, La Briqueterie e aldeias tupinambás na margem; título "La France Antarctique autrement le Rio Ianeiro" numa cartela
CAPÍTULO 1 DE 11

A França Antártica

Léry, Villegagnon e a primeira Ceia reformada no Brasil

Em março de 1557 chegam à ilha de Villegagnon catorze genebrinos com a Bíblia debaixo do braço. Em menos de um ano, três deles estarão mortos, e o que sobrou é um texto, a Confissão da Guanabara, e uma briga sobre o sentido de uma frase de Jesus.

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Quarta-feira, 10 de março de 1557, numa ilhota da baía de Guanabara. Os quatorze viajantes que saíram de Genebra acabam de pôr o pé em terra, enfraquecidos pela travessia. A primeira coisa que fazem é agradecer a Deus. Depois vão ao encontro do chefe da colônia, que os abraça. Nessa mesma manhã, numa sala pequena no meio da ilha, cantam o Salmo 5, e o pastor Pierre Richier abre a Bíblia no Salmo 27:

"Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e inquirir no seu templo." Salmos 27.4

É o primeiro sermão de que se tem notícia, com pastor reformado e culto organizado, em solo brasileiro. A fonte é uma testemunha que estava na sala: Jean de Léry, em Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil (1578). Este capítulo conta o que aconteceu ali em pouco mais de um ano. Não é uma história fácil. Os franceses se dividiram, e a briga começou na leitura de uma frase da Bíblia.

Uma nota sobre datas: Léry escreve no calendário juliano, que a França usava então. Aqui as datas são as dele.

01 — O CAVALEIRO QUE PEDIU PASTORESVillegagnon, Coligny e Genebra

A colônia não nasceu protestante. Nicolas Durand de Villegagnon era cavaleiro da Ordem de Malta e vice-almirante da Bretanha, nascido por volta de 1510 em Provins, perto de Paris. Chegou à Guanabara em novembro de 1555 com uns seiscentos homens, segundo o escritor Vasco Mariz. Eram soldados, marinheiros, artesãos e, na descrição de Frans Schalkwijk, muitos desordeiros, entre eles rapazes tirados de prisões francesas. A missão era militar e comercial: um ponto de apoio na costa, com pau-brasil para vender. Ele levantou o Forte Coligny numa ilha da baía, em homenagem ao almirante Gaspard de Coligny, que apoiava a expedição. Hoje a ilha leva o nome de Villegagnon e abriga a Escola Naval.

A virada religiosa veio em seguida. Léry escreve que Villegagnon fez saber que desejava "servir a Deus segundo a reforma do Evangelho" (tradução minha) e pediu a Genebra ministros e artesãos. Calvino e a igreja da cidade atenderam. Saíram de Genebra, em 10 de setembro de 1556, catorze pessoas. Léry dá a lista. Dois pastores: Pierre Richier, de mais de cinquenta anos, e Guillaume Chartier. O condutor do grupo, Philippe de Corguilleray, senhor du Pont, um nobre idoso que fora vizinho de Coligny. E onze homens, entre eles quatro que voltam a aparecer neste capítulo (Pierre Bourdon, Matthieu Verneuil, Jean du Bourdel e André La Fon) e o próprio Léry, então estudante de teologia e, segundo Schalkwijk, sapateiro de ofício.

Embarcaram em três navios, em Honfleur, em 19 e 20 de novembro de 1556. A travessia durou mais de quinze semanas. Entraram na baía no domingo, 7 de março, e desembarcaram no forte na quarta, dia 10. Villegagnon os recebeu com um discurso que Léry guardou (Histoire d'un voyage, cap. VI; tradução minha): "Quero que a nossa Igreja tenha fama de ser a mais bem reformada de todas. [...] Pretendo fazer aqui um refúgio para os pobres fiéis que forem perseguidos na França, na Espanha e em outras terras."

Mapa gravado da baía de Guanabara visto de cima, com a ilha dos franceses no centro, rosa dos ventos, barcos pequenos e casas ao redor
Gouffre de la rivière de Ganabara ou Janaire — mapa de André Thevet (c. 1586); Bibliothèque nationale de France (Gallica). Mostra a baía com a "Isle aus Francoys". Domínio público.
👁️ Como era viver ali

O primeiro dia na ilha, segundo Léry. No almoço, farinha de raízes, peixe moqueado "à moda dos selvagens" e raízes assadas nas cinzas. Para beber, água de uma cisterna, ou antes, escreve ele, "de um escoadouro de toda a chuva que caía na ilha", porque ali não havia fonte, poço nem rio. Ele a compara a um velho fosso coberto de rãs, "verde, suja e imunda". À tarde os recém-chegados foram levados a carregar pedras e terra para a fortificação. No fim do dia receberam uma casinha que um escravo indígena de Villegagnon acabava de cobrir de capim, e ali penduraram redes de algodão. A ração era de dois copos de farinha dura por pessoa, por dia, e o trabalho ia, diz Léry, "do romper do dia até a noite". Richier os animava dizendo que tinham achado em Villegagnon "um segundo são Paulo" (tradução minha, de Léry, cap. VI).

02 — A CEIAUma frase e uma briga

Na primeira semana, Villegagnon estabeleceu uma rotina: orações públicas todas as noites, duas pregações aos domingos e uma hora de pregação nos dias de trabalho, e os sacramentos "sem nenhuma adição humana, segundo a pura palavra de Deus". Em 21 de março de 1557, um domingo, celebrou-se a Ceia do Senhor pela primeira vez na colônia. Léry escreve: "pela primeira vez, no forte de Coligny, na América". Antes, os pastores prepararam e catequizaram os que iam comungar. Um dos passageiros, Jean Cointa, antigo doutor da Sorbonne, foi convidado a confessar sua fé em público e abjurou o "papismo". Villegagnon mandou sair da sala os capitães, mestres de navio e marinheiros que ainda não tinham feito profissão da fé reformada.

Depois, ajoelhado numa almofada de veludo que um pajem carregava, Villegagnon fez em voz alta duas orações, que Léry diz ter copiado "palavra por palavra". Na primeira pede que a colônia seja lugar tranquilo para os que não podem invocar o nome de Deus em público. A segunda é dirigida a Cristo. Recebeu o pão e o vinho de joelhos, das mãos do pastor. Vasco Mariz lembra que essas orações só foram publicadas em 1578 e acha que podem ter sido manipuladas.

A harmonia durou pouco. Léry conta que Villegagnon e Cointa logo começaram a debater a Ceia. O ponto era o sentido de uma frase de Jesus.

"E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo." Mateus 26.26

Os dois lados, nas palavras de Léry:

Os pastores diziam que o pão e o vinho não se transformam realmente no corpo e no sangue do Senhor, nem os contêm; que Cristo está no céu e que dali, pela virtude do seu Espírito, se comunica como alimento espiritual a quem recebe os sinais com fé. "Isto é o meu corpo" seria linguagem figurada: a Escritura costuma dar aos sinais dos sacramentos o nome daquilo que eles significam.

Villegagnon e Cointa rejeitavam a transubstanciação da Igreja de Roma, que chamavam de "grosseira e absurda", e não aprovavam também a consubstanciação. Mas diziam que "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue" só podem ser entendidos se o corpo e o sangue de Cristo estiverem de fato contidos ali. Villegagnon usava um paralelo: o leproso de Mateus 8 diz a Jesus "se quiseres, podes tornar-me limpo", Jesus responde "Quero; sê limpo", e o homem fica limpo. Do mesmo modo, quando Jesus diz do pão "isto é o meu corpo", deve-se crer, sem mais interpretação, que o corpo está ali. Léry, que escreve do lado dos pastores, comenta com ironia: "Não é bem interpretar uma passagem pela outra?"

🔎 A palavra original

No texto grego de Mateus 26.26 as palavras de Jesus são τοῦτό ἐστιν τὸ σῶμά μου (touto estin to sōma mou), "isto é o meu corpo". O verbo é ἐστίν, terceira pessoa do singular do presente de εἰμί, "ser, estar". O dicionário de Strong (G2076) o define apenas como "ele (ela ou isto) é". Todo o debate de Guanabara girava em torno desse "é". Os pastores diziam que a Escritura costuma chamar o sinal pelo nome da coisa que ele significa. Léry diz que mostraram "outras passagens", mas não diz quais. Quem quiser pesar o argumento deles pode comparar frases em que a Bíblia diz que uma coisa "é" outra, como "esta Agar é Sinai" Gl 4.25. Quem quiser pesar o de Villegagnon pode ler o paralelo que ele usou, Mt 8.2-3. As igrejas cristãs até hoje discordam entre si sobre a Ceia, e este livro não decide.

03 — A RUPTURAÁgua no vinho, sal no batismo e um vinho que acabou

Em 4 de junho de 1557, Villegagnon despachou o pastor Chartier de volta à França, num navio carregado de pau-brasil e de outros produtos da terra, para levar a questão da Ceia a Calvino. Ele mesmo já escrevera a Calvino, em carta datada de 31 de março, dizendo que se esforçaria por seguir o conselho recebido. Léry afirma que o ouviu dizer várias vezes que Calvino era "um dos homens mais sábios que houve desde os apóstolos".

No Pentecostes, logo depois, a Ceia foi celebrada pela segunda vez. Segundo Léry, Villegagnon passou a exigir, citando Cipriano e Clemente, que se pusesse água no vinho; que o pão consagrado fizesse bem tanto ao corpo quanto à alma; que se misturassem sal e óleo na água do batismo; e que um ministro não pudesse casar de novo, por causa de uma frase de Paulo a Timóteo:

"Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar." 1 Timóteo 3.2

Para Léry era Villegagnon querendo "mudar tudo ao seu gosto". Sem esperar a resposta de Calvino, o cavaleiro passou a chamá-lo de "mau herege desviado da fé". Por quê? Léry registra duas explicações. Alguns dos genebrinos achavam que cartas do cardeal de Lorena, que o repreendia por ter largado a religião católica, o fizeram mudar de lado. Léry soube depois, de ouvir dizer, que Villegagnon teria combinado com o cardeal "fingir-se da religião" antes mesmo de partir. Schalkwijk liga a mudança às notícias que chegavam da França de perseguição crescente aos protestantes. Vasco Mariz defende o cavaleiro: para ele, Villegagnon nunca abandonou a fé católica e carrega uma má fama que vem de um só livro, muito reeditado.

Léry descreve castigos duros aplicados por Villegagnon a franceses e a indígenas escravizados e diz que, a certa altura, os genebrinos passaram a celebrar a Ceia à noite, "sem que ele soubesse". Depois da última Ceia, restava só um copo do vinho trazido da França. A questão surgiu entre eles, e Léry a registra com franqueza. Alguns citavam as palavras de Jesus na última ceia:

"E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai." Mateus 26.29

Com esse versículo, achavam que, faltando o vinho, era melhor abster-se do sinal do que trocá-lo. Outros respondiam que Jesus falou do que se bebia na Judeia e que, na terra dos selvagens, teria falado da bebida e da farinha de raiz que usavam ali. A maioria se inclinava para a segunda ideia, mas, como não chegaram a esse extremo, escreve Léry, "a matéria ficou indecisa". A pergunta ficou no ar: o que a Bíblia exige no sinal, e o que ela deixa ao costume de cada lugar?

No fim de outubro de 1557, Villegagnon mandou os genebrinos saírem do forte. Segundo Léry, eles tinham meios de depô-lo, mas preferiram não manchar o Evangelho com uma revolta. Passaram para a terra firme, a um lugar que os franceses chamavam de La Briqueterie, a meia légua do forte, onde ficaram cerca de dois meses entre os tupinambás, que, escreve ele, os trataram com mais humanidade do que o cavaleiro. O culto público continuou. Em 4 de janeiro de 1558, Léry e outros embarcaram de volta para a França no navio Jacques, do Havre. O navio fazia água, e cinco decidiram voltar à terra.

04 — A CONFISSÃODezessete artigos escritos sem livros

Os cinco que voltaram eram Pierre Bourdon, Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, André La Fon e Jacques Le Balleur (este não está na lista inicial de Léry). Villegagnon desconfiou deles. Segundo Jean Crespin, que reproduz o que Léry levou à Europa, mandou-lhes um questionário e deu doze horas para responderem por escrito. Eles escolheram o mais instruído em letras, Jean du Bourdel, que redigiu a resposta, leu-a aos outros, e cada um assinou de próprio punho. É a Confissão de Fé da Guanabara: uma introdução, dezessete artigos e um encerramento.

A abertura lembra 1 Pedro 3.15: os cristãos devem estar prontos "para responder com mansidão e temor" a quem lhes pedir razão da esperança. Os artigos tratam da Trindade e de Cristo, dos sacramentos (a Ceia ocupa quatro), do livre-arbítrio, do perdão dos pecados, da imposição de mãos, do divórcio, do celibato, da intercessão dos santos e da oração pelos mortos. O artigo 6 responde ao que Villegagnon exigira no Pentecostes: se fosse necessário pôr água no vinho, "os evangelistas e são Paulo não teriam deixado de lado coisa de tanta importância" (tradução minha, do texto francês de Crespin). O artigo 14, sobre 1 Timóteo 3.2, mostra moderação: Paulo não proíbe que se case de novo depois da morte da primeira esposa, mas "deixamos o juízo aos mais versados nas Santas Escrituras, pois a nossa fé não se funda nesse ponto". E o artigo 5, sobre a Ceia, diz que as almas fiéis são alimentadas "realmente e de fato" com a substância de Cristo, e cita Agostinho: "Para que preparas os dentes e o ventre? Crê, e já o comeste."

Crespin observa que os homens escreveram sem livros de apoio e quase sem Bíblia. Alderi Souza de Matos, historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil, acrescenta que o texto cita Tertuliano, Cipriano, Ambrósio e, sobretudo, Agostinho, e o considera um dos primeiros documentos confessionais reformados: foi escrito antes da Confissão Galicana (1559), da Confissão Belga (1561) e do Catecismo de Heidelberg (1563). Erasmo Braga, que a traduziu para o português em 1907, a chamou de primeira confissão escrita nas Américas. Nem todos repetem isso: a fórmula mais segura é "o primeiro texto protestante escrito no Brasil", que é como a revista Pesquisa FAPESP a descreve.

O fim foi duro. Crespin e Léry dizem o mesmo: três foram mortos por ordem de Villegagnon, Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil (Vermeil, em Crespin) e Pierre Bourdon, estrangulados ou afogados e lançados ao mar, junto a uma rocha onde a maré sobe. Crespin dá a data de 9 de fevereiro de 1558, mas o dia da semana que ele cita não bate com o calendário daquele ano, e por isso a data é incerta. Segundo Crespin, du Bourdel foi à morte cantando salmos. André La Fon, o alfaiate, foi poupado: Crespin diz que ele prometeu não ser obstinado se lhe mostrassem o contrário pela Palavra de Deus, e Mariz entende que foi absolvido por falta de provas. Le Balleur fugiu. Uma tradição protestante, que vem de Álvaro Reis (1917), conta que ele pregou aos tupinambás, foi preso em São Vicente e acabou enforcado no Rio por volta de 1567. Essa história depende de estudos do século XX e não de documento do tempo, e há quem o confunda com outro réu da época.

🏺 O que os arquivos guardam

Todos os documentos desse episódio têm lado. Léry e Crespin escrevem como huguenotes. Villegagnon, de volta à França, escreveu contra Calvino, e o pastor Richier respondeu em 1561 com um livro em latim. Para Vasco Mariz e para o historiador naval francês Léonce Peillard (1991), que ele cita, os três foram condenados por "traição, distúrbios e desobediência", e o relato de Crespin seria exagerado. O historiador Frank Lestringant, citado por Mariz, escreveu que o sofrimento deles merece piedade, mas que o seu orgulho deve ser condenado, e viu em Villegagnon tentativas discretas de conciliação. A Confissão chegou à Europa uns quatro meses depois de Léry, trazida por testemunhas que a entregaram ao senhor du Pont, em Paris. Léry a recebeu dele e a deu a Crespin ainda em 1558, e Crespin a imprimiu no seu Livro dos Mártires.

⚠️ Muitos textos repetem que os autores foram "enforcados doze horas depois de escrever". Isso não bate com as fontes: as doze horas foram o prazo do questionário, e a morte foi por estrangulamento ou afogamento, algum tempo depois, segundo Crespin e Léry. Também não se sustenta que "os franceses de 1555 eram todos calvinistas": só os genebrinos de 1557, e alguns outros, eram reformados. A colônia era mista, e o chefe era cavaleiro de uma ordem católica.

05 — A BÍBLIA NA ILHAUma Bíblia, salmos e um canto na mata

O que as fontes dizem sobre a leitura da Bíblia no Brasil de 1557? Pouco, e é preciso dizer com honestidade o que não se sabe. Crespin escreve que os cinco presos "mal tinham uma Bíblia" para ajudar nas passagens (tradução minha). Que Bíblia era essa, de que edição, em que língua, nenhuma das fontes informa. Os livros de estudo de Richier e de du Pont foram tomados por Villegagnon quando eles saíram da ilha.

Para esses homens o texto era a base de tudo: do sermão, da briga sobre a Ceia, da Confissão feita de memória. O culto reformado era cantado em salmos. Léry conta que, no caminho entre aldeias, com três tupinambás e uma mulher atrás dele, animado com o dia e com o canto dos pássaros, começou a cantar em voz alta o Salmo 104 em francês:

"Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR Deus meu, tu és magnificentíssimo; estás vestido de glória e de majestade." Salmos 104.1

Os quatro gostaram do som, "porque, no mais, não entendiam nada", e um deles pediu, ao final, que ele dissesse do que falava a canção. Léry explicou como pôde. Que língua usou? Ele não diz. Em outro ponto do livro, Léry registra uma tradição tupinambá de um Mair, um estrangeiro de barba e roupas, que teria vindo muito tempo antes anunciar a mesma fé que ele pregava e não foi crido. Léry especula que talvez fosse "um dos apóstolos" e lembra a palavra de Jesus de que o Evangelho seria pregado em todo o mundo (cf. Mt 24.14).

Essa especulação tem um lado que o leitor de hoje precisa ver. No mesmo capítulo, Léry se pergunta de quem os indígenas descenderiam e arrisca que seria de Cam, filho de Noé, que teriam "sucedido à maldição que Deus lhe deu". Logo acrescenta que deixa cada um crer o que quiser. É uma conjetura do século XVI, que depois foi muitas vezes mal usada. Gênesis 10, que lista os descendentes dos filhos de Noé, não menciona povo algum da América.

As fontes não registram tradução bíblica para o tupi na França Antártica. Os pastores queriam pregar aos indígenas, mas Richier escreveu a Calvino que lhes faltavam intérpretes fiéis. O que houve foi culto em francês para franceses. Dez meninos tupinambás, comprados como escravos por Villegagnon, embarcaram para a França em junho de 1557, depois de Richier impor as mãos sobre eles e de todos orarem; Léry diz que um deles, dado a um senhor de Passy, foi batizado lá.

🌱 Semente de sermão

"Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei" Sl 27.4. O primeiro sermão no Brasil foi sobre um pedido só: morar na casa do Senhor todos os dias. Em menos de um ano, os que o ouviram estavam divididos, expulsos, mortos ou de volta ao mar. A casa do Senhor de que fala o salmo não era a ilha, nem o forte, nem a colônia perfeita que Villegagnon prometeu. A ilha caiu, e o salmo continuou de pé.

Folha de rosto tipográfica em papel amarelado de Histoire d'un voyage fait en la terre du Bresil, de Jean de Léry, com um versículo do Salmo 108 na parte de baixo
Histoire d'un voyage fait en la terre du Bresil — Jean de Léry, 1.ª edição (1578), folha de rosto; exemplar digitalizado no Internet Archive. Na base, o versículo que Léry escolheu: "Senhor, eu te celebrarei entre os povos, e te direi salmos entre as nações" (Salmo 108; tradução minha). Domínio público.

LINHA DO TEMPODa Guanabara ao Rio de Janeiro (1555–1567)

Datas de Léry e de Crespin, em calendário juliano. Onde as fontes divergem, o texto diz.

10 de novembro de 1555
Villegagnon chega ao Cabo Frio e, quatro dias depois, à Guanabara (Léry, citando Thevet). Constrói o Forte Coligny.
10 de setembro de 1556
Os catorze saem de Genebra. Embarcam em Honfleur em 19–20 de novembro.
10 de março de 1557
📖 Primeiro culto: Salmo 5 cantado e sermão sobre o Salmo 27.4.
21 de março de 1557
📖 Primeira Ceia reformada celebrada no Brasil.
4 de junho e Pentecostes de 1557
Chartier parte para consultar Calvino. Villegagnon rompe, segundo Léry, na Ceia de Pentecostes.
fim de outubro de 1557
Os genebrinos são mandados sair do forte e vão para La Briqueterie, na terra firme.
4 de janeiro de 1558
Léry embarca no Jacques; cinco voltam à terra.
fevereiro de 1558
📖 Confissão da Guanabara (17 artigos). Três autores são mortos (9 de fevereiro, segundo Crespin; data incerta).
24–26 de maio de 1558
Léry avista a Bretanha e chega a Blavet. Entregará a Confissão a Crespin no mesmo ano.
março de 1560
Mem de Sá ataca e toma o forte; Henriville é arrasada.
1 de março de 1565
Estácio de Sá funda a cidade do Rio de Janeiro. Os últimos franceses saem em 1567.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⛪

Primeiro culto, 10/03/1557

Salmo 5 cantado, sermão sobre o Salmo 27.4, na ilha do Forte Coligny.

🍞

A Ceia, 21/03/1557

A primeira Ceia reformada no Brasil. Logo depois, a briga sobre o sentido de "isto é o meu corpo" Mt 26.26.

📜

A Confissão da Guanabara

Dezessete artigos escritos em 1558 pelos cinco que voltaram à terra. Três pagaram com a vida.

⚖️

Dois lados

Léry e Crespin falam como huguenotes; Mariz e Peillard defendem Villegagnon. As datas e os motivos têm margem de dúvida.

Próximo capítulo: mais de setenta anos depois, outra bandeira reformada chega ao Brasil, a dos holandeses no Recife, com pastores, uma classe de igrejas, escolas e catecismos que duraram 24 anos.

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