O Protestantismo no BrasilCapítulo 7 de 11 ⤓ PDF
Fotografia antiga de um grande edifício de três andares numa colina, com árvores e casas baixas à volta e um campo com uma vaca em primeiro plano
CAPÍTULO 7 DE 11

Metodistas, batistas e o quadro-negro

Escolas, hinos e igrejas do interior de São Paulo à Bahia

Uma aluna só, por três meses, numa sala de Piracicaba, em 1881. Foi assim, com escolas, classes bíblicas, hinos e igrejas em inglês e em português, que metodistas, batistas e presbiterianos cresceram no século XIX.

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Piracicaba, 13 de setembro de 1881. Martha Watts, missionária metodista, abre as portas de uma escola. Por três meses, escreve o historiador Duncan Reily, "estudou apenas a aluna Maria Escobar". Uma aluna só, numa sala de aula. Depois vieram alunos de ambos os sexos, de famílias das melhores da cidade, e Prudente e Manoel de Moraes Barros ajudaram a comprar o terreno.

Foi assim que começou o Colégio Piracicabano, e foi assim, com escolas, hinos, classes bíblicas e estações de pregação, que as igrejas metodista, batista e presbiteriana cresceram na segunda metade do século XIX. Este capítulo percorre os três caminhos, da missão metodista de 1835 aos batistas de 1871 e 1882 e à Escola Americana de 1870, e mostra o que essas igrejas faziam com a Bíblia. No fim, a cisão presbiteriana de 1903 mostra as tensões que a obra trouxe.

01 — OS METODISTASDuas vezes uma missão

A Igreja Metodista conta três começos. O primeiro é de 1835: o pastor Fountain E. Pitts desembarcou, mas ficou só até 1836. Em abril de 1836 chegou ao Rio o pastor Justin Spaulding, que, segundo Reily (citado por Hélio de Oliveira Silva), organizou em menos de um mês a primeira Escola Dominical do Brasil, com mais de quarenta crianças e jovens em oito classes. "Temos duas classes de pretos", escreveu, "uma fala inglês, a outra português". A fonte oficial da Igreja Metodista diz que ele organizou uma congregação de cerca de quarenta pessoas, em sua maioria estrangeiras. Em 1837, a pedido dele, chegou Daniel Kidder, de quem o capítulo 5 falou. O padre Luís Gonçalves dos Santos o atacou em 1837–38, acusando-o de querer "descatolicizar o Brasil" e "emancipar os nossos escravos". A missão terminou em 1841 (segundo Silva) ou 1842 (segundo Mendonça, citado por Oliveira). Uma tradição metodista, contada em material devocional da própria Escola Dominical da igreja e sem documento que a sustente, diz que uma senhora, Mary Walker, guardou por mais de um quarto de século uma Bíblia de Almeida recebida de Kidder para entregar ao pastor que viesse substituí-lo, e a deu a Junius Newman em 1867.

O segundo começo é de 1867. Newman, da Igreja Metodista Episcopal do Sul, chegou ao Rio em 5 de agosto de 1867, nomeado para os imigrantes confederados. Em agosto de 1871 organizou uma igreja perto de Santa Bárbara d'Oeste, com nove membros (trinta em poucas semanas), cujos cultos eram em inglês. O terceiro começo, o da missão aos brasileiros, é de 1876: o pastor John James Ransom chegou ao Rio em 2 de fevereiro, depois de Newman apelar várias vezes à Junta que mandasse missionários "para trabalhar entre os legítimos brasileiros". Em 1879, Ransom fundou a igreja na Corte, com uma Escola Dominical de cinquenta alunos. Os primeiros membros brasileiros foram o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque e a esposa, dona Senhorinha. Fundou também o jornal Methodista Catholico, que depois se chamou Expositor Cristão. Em 1883 vieram as revistas A Nossa Gente Pequena e Escola Dominical.

A Conferência Anual foi criada pelo bispo John C. Granbery em 1886, com a primeira reunião em 16 de setembro, em Piracicaba: 214 membros e seis pregadores locais. Em 1889, 359 membros, dez escolas dominicais com 283 alunos, nove missionários e cinco pregadores nativos, "a menor conferência anual em toda a história do metodismo mundial", pois só três ministros eram membros dela. O Colégio Piracicabano, de 1881, recebeu o nome, diz a fonte oficial da Igreja Metodista, para marcar que o primeiro colégio metodista do Brasil era aberto a todos, e não só a metodistas ou a imigrantes americanos. Em 1889 veio o Granbery, em Juiz de Fora. A autonomia da Igreja Metodista do Brasil é de 2 de setembro de 1930.

Reily publicou a estatística da igreja a partir dos relatórios da Igreja Metodista Episcopal do Sul: 480 membros em 1890, 2.785 em 1900, 6.208 em 1910, 10.314 em 1920 e 15.560 em 1930. As escolas dominicais passaram, segundo ele, o número de membros em 1928: eram 18.092 alunos em 1930. Reily observa que os colégios "contribuíram não pouco à educação da elite brasileira", enquanto os membros da igreja eram uma "porção pobre", e que a visão metodista da época descrevia a Igreja Católica como "uma Igreja sem Bíblia" (a descrição é a do metodismo da época, não a opinião de Reily).

👁️ Como era viver ali

Na mesma Santa Bárbara d'Oeste onde Newman organizou a igreja de 1871 viviam famílias norte-americanas que tinham saído do Sul depois da Guerra Civil. O pastor Newman atuava, escreve Reily, "entre os chamados 'rebeldes', ou seja, os sulistas", e Reily acrescenta, em afirmação dele, que um dos atrativos era "ainda se poder praticar a escravidão no Brasil". A pesquisa de Silva, que cita Reily, aponta quatro razões básicas para a emigração: terra boa a preços acessíveis, clima agradável, ajuda do governo imperial e a possibilidade de adquirir escravos. Segundo Goldman (1972, citado por Wagner Duduch), cerca de 20% das famílias de Santa Bárbara e Vila Americana compraram fazendas com alguns escravos, uma estimativa, e o próprio Duduch conclui que "não podemos dizer que todos" os protestantes de lá foram proprietários de escravos. Os imigrantes eram uma mistura de metodistas, batistas e presbiterianos.

02 — OS BATISTASSanta Bárbara, Salvador e a Convenção

Em 10 de setembro de 1871, em Santa Bárbara d'Oeste, foi organizada a primeira igreja batista surgida em solo brasileiro, sob a liderança do pastor Richard Ratcliff, com cultos em inglês para os imigrantes. Mas a Convenção Batista Brasileira não a conta como a primeira. Para a CBB, a primeira é a de Salvador (1882), porque o seu conceito de igreja, explica Wagner Duduch a partir de Pereira (1987), "fica condicionado à atividade missionária de sua fundação reconhecida institucionalmente", e as de Santa Bárbara e de Estação, interessadas só no culto, "não foram contabilizadas formalmente nos anais". Houve um intervalo de dezesseis anos entre as primeiras famílias e os primeiros missionários, e foram os imigrantes que pediram missionários à Junta de Richmond.

A CBB reconhece oficialmente como início da atividade missionária 2 de março de 1881, com o casal William Buck Bagby e Anne Luther Bagby, seguidos em 23 de fevereiro de 1882 por Zachary Taylor e Kate Taylor. Aprenderam português em Santa Bárbara e Campinas. A Primeira Igreja Batista da Bahia foi organizada em 15 de outubro de 1882, em Salvador, segundo o fac-símile da ata que Duduch reproduz, e os organizadores foram os Bagby, os Taylor e o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque. A estratégia, segundo Duduch, era a "abordagem individualizada ou familiar, com a utilização direta da Bíblia" e de folhetos, seguida de visitas e de classes bíblicas; Bagby traduziu um catecismo batista, e Taylor escreveu A Bíblia sobre o batismo.

A Convenção Batista Brasileira abriu a sua primeira assembleia em 22 de junho de 1907, no prédio da Primeira Igreja Batista da Bahia: 43 delegados de 39 igrejas, segundo Alves, que cita Amaral. O número de igrejas e membros em 1907 varia: 83 igrejas e cerca de 4.200 membros, em um estudo; cerca de cem igrejas e 5.000 membros, no relatório do missionário Taylor. A ideia nasceu de uma conversa entre William E. Entzminger, diretor do Jornal Batista, e A. B. Deter. Historiadores críticos, como Cidade (ANPUH, 2024), registram o controle dos missionários da Junta de Richmond sobre as instituições batistas e a linguagem racista de alguns missionários em cartas da época; o "Movimento Radical" de 1920, no Nordeste, levou a uma divisão regional, resolvida pelas "Novas Bases de Cooperação" de 1936. É tema da historiografia, não acusação à Convenção de hoje.

03 — A ESCOLA AMERICANA E O MACKENZIEEnsinar com a Bíblia, sem obrigar a ninguém

Em 1870, o casal George Whitehill Chamberlain e Mary Ann Annesley Chamberlain começou em casa, no Bom Retiro, uma escola informal em São Paulo. O historiador Alderi Souza de Matos fala de uma escolinha para meninas que tinham dificuldade de estudar em outros lugares; o site do Mackenzie fala em meninos e meninas, sem divisão de classes, etnia ou religião, e diz que "a Bíblia teria lugar de destaque, mas ninguém seria obrigado a se converter". Em 1871 a escola foi para a sobreloja onde funcionava a Igreja Presbiteriana de São Paulo; em 1875 passou a se chamar Escola Americana. Em 1878 abriu um jardim de infância, e em 1885 Horace Manley Lane assumiu a direção. Em 1890, Lane e a professora Márcia Browne foram chamados pelo governo paulista para modernizar o ensino. Em 1891 apareceu o Protestant College.

Em 1892 morreu o norte-americano John Theron Mackenzie e deixou em testamento US$ 50 mil para uma escola de engenharia. Ela foi inaugurada em 1896, com a pedra angular de 1894, na qual se lê, segundo Alderi, "Às ciências divinas e humanas". O nome "Mackenzie College" veio depois da morte do benfeitor. Lane morreu em 1912, segundo Alderi, depois de dirigir a instituição por 27 anos; o site do Mackenzie fala em outubro de 1913.

Fotografia antiga em sépia de uma rua de São Paulo com sobrados de balcões de ferro, trilhos de bonde no meio do calçamento, toldos e uma placa de alfaiataria; ao fundo, as torres de uma igreja
Rua da Imperatriz, São Paulo — fotografia de Militão Augusto de Azevedo, Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1887); Museu Paulista da USP, via Wikimedia Commons. É a cidade onde funcionava a Escola Americana. Domínio público.
🏺 O que os arquivos guardam

A escola foi, ao mesmo tempo, orgulho e causa de atrito. Segundo Alderi, a "Moção Smith" de 1897, no Sínodo, pedia ajuda às igrejas-mães para "evangelização pelos métodos mais diretos" em vez de colégios, e Eduardo Carlos Pereira defendia a educação "dos filhos da igreja, pela igreja e para a igreja". A cisão presbiteriana de 31 de julho de 1903 teve três questões em disputa. Fatos em comum nas duas igrejas: a ruptura foi na noite de 31 de julho, no Sínodo reunido em São Paulo; a votação de uma moção sobre maçonaria foi de 52 a 17; saíram sete pastores e um grupo de presbíteros (onze a quinze, conforme a fonte), que fundaram o Presbitério Independente em agosto. As razões: a questão missionária (a dupla jurisdição dos missionários, nos concílios brasileiros e nas juntas norte-americanas), a questão educativa (colégio secular × educação religiosa) e a questão maçônica. Pelo lado da IPB, segundo Alderi, o Sínodo decidira em 1900 que a filiação ou não à maçonaria era questão de consciência. Pelo lado da IPI, o grupo se desligou dizendo defender a autonomia nacional do protestantismo, a evangelização direta e uma educação feita pela igreja e para a igreja. Em 1916, segundo o arquivo oficial de resoluções da IPB, o Supremo Concílio declarou que "jamais reconheceu e nem reconhece compatibilidade ou incompatibilidade da maçonaria com a profissão evangélica", e que as decisões anteriores deviam ser lidas nesse sentido, isto é, sem declarar a maçonaria nem compatível nem incompatível com a fé evangélica.

⚠️ Na época, segundo Alderi, os independentes consideravam o Sínodo "herético" e o Sínodo considerava a IPI "cismática". Este livro descreve cada lado com as palavras dele e não escolhe.

04 — QUEM LIA, E COMOA Bíblia entre a escola e o púlpito

Em 1872 e em 1890, cerca de 85% dos brasileiros não sabiam ler (IBGE, todas as idades). Como uma igreja cuja base era a Bíblia crescia num país assim? Em grande parte lendo em voz alta. As igrejas históricas combinavam a escola, a classe bíblica e a Escola Dominical com revistas próprias (os metodistas em 1883, os batistas, nas lições do Jornal Batista desde 1903), os catecismos (o Catecismo Batista de Bagby; os de Westminster, entre os presbiterianos) e os hinos: Bonome e Lemes, a partir de Hahn, dizem que hinos de vinte a trinta estrofes substituíam em parte a pregação.

🔎 A palavra original

"Catecismo" vem do grego κατηχέω (katēchéō, G2727), que o dicionário de Strong define como "soar nos ouvidos, e daí instruir ('catequizar')". É uma palavra do Novo Testamento, que a ACF traduz de modos diferentes: "para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado" Lc 1.4; "Este era instruído no caminho do Senhor" At 18.25; "E o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui" Gl 6.6. Nos três casos, a palavra é a mesma raiz. As igrejas do capítulo, ao fazerem catecismo, usavam uma palavra bíblica; o texto grego não diz que o método dos catecismos tenha sido o método da igreja do século I.

Os historiadores divergem sobre quem foi atingido. Mendonça, citado em resenha, via um protestantismo que não atingia a classe dominante e que se afastava das camadas populares. Reily nota que o público "nativo" metodista era majoritariamente pobre, enquanto os colégios eram para a elite, e que no Rio Grande do Sul "o elemento puramente nacional era muito pouco atingido", em 1903. Boanerges Ribeiro, presbiteriano, defendia que a cultura brasileira do século XIX abrira espaço ao protestantismo. Ao lado dessas, outras igrejas históricas chegaram: o colportor adventista Augustus Stauffer, em 1893, e o pastor Frank Westphal, em 1895, com o primeiro batismo de Guilherme Stein Jr.; o Exército de Salvação, no Rio, em 1922.

🌱 Semente de sermão

Uma aluna, por três meses. "O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo" Mt 13.31. O Piracicabano começou com Maria Escobar, o Mackenzie com um casal numa casa do Bom Retiro, a igreja de Simonton com duas pessoas numa classe bíblica. Quem sabe contar até um não desanima diante do tamanho do campo.

LINHA DO TEMPOEscolas, igrejas e convenções (1835–1930)

Datas de Reily, Alderi Souza de Matos, Duduch, Dias Filho e das páginas oficiais; onde há divergência, o texto diz.

1835–1836
Pitts e Spaulding, metodistas, no Rio; primeira Escola Dominical (título disputado).
5 de agosto de 1867
Newman chega ao Rio.
1870
Os Chamberlain começam a escola informal em São Paulo.
agosto e setembro de 1871
Igreja metodista (agosto) e igreja batista (10 de setembro) em Santa Bárbara d'Oeste, em inglês.
2 de fevereiro de 1876
Ransom chega ao Rio: a missão metodista aos brasileiros.
2 de março de 1881
Início oficial da missão batista: chegam os Bagby.
13 de setembro de 1881
Martha Watts abre o Colégio Piracicabano.
15 de outubro de 1882
Organiza-se a Primeira Igreja Batista da Bahia.
1886 e 1889
Conferência Anual metodista; Granbery em Juiz de Fora.
1891 e 1896
Protestant College; Escola de Engenharia do Mackenzie.
31 de julho de 1903
Cisão presbiteriana: Presbitério Independente.
22 de junho de 1907
Primeira assembleia da Convenção Batista Brasileira.
2 de setembro de 1930
Autonomia da Igreja Metodista do Brasil.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🎓

Escolas e Bíblia

Piracicabano (1881), Escola Americana (1870), Mackenzie (1891–1896): a Bíblia tinha lugar de destaque, sem obrigar ninguém a se converter, segundo o site do Mackenzie.

🇺🇸

Santa Bárbara, 1871

Metodistas e batistas organizam igrejas em inglês, para confederados; só depois vêm os missionários aos brasileiros.

⚖️

1903

Cisão presbiteriana: 52 × 17, sete pastores e um grupo de presbíteros; questão missionária, educativa e maçônica, descritas pelos dois lados.

🔤

Ler em voz alta

Com 85% sem saber ler, a Bíblia era lida no culto, na classe e na Escola Dominical, e os catecismos faziam o currículo.

Próximo capítulo: as igrejas crescem, e a lei do Império e a Igreja Católica entram em choque. Entre 1872 e 1891, dois bispos presos, uma maçonaria no meio, uma República que separa Igreja e Estado, e o que os protestantes disseram e fizeram em tudo isso.

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