Rio de Janeiro, por volta de 1837. Corre a notícia de que chegou um carregamento de livros à casa dos missionários metodistas. Em pouco tempo a casa está cheia de gente de todas as idades e condições: "do homem de cabelos grisalhos à criança que balbucia, do cavalheiro da alta sociedade ao pobre escravo". Um padre idoso aparece em pessoa e pede, de propósito, exemplares em português, francês e inglês. Ao sair, diz: "Nunca antes se fez coisa assim neste país".
Quem conta é o pastor Daniel Parish Kidder, em Sketches of Residence and Travels in Brazil (1845; tradução minha dos trechos, aqui e adiante). Segundo ele, em três dias foram distribuídos duzentos exemplares, o estoque acabou, e os pedidos continuaram, "até se calcular que quatro vezes esse número fora procurado". Este capítulo é sobre o que esse homem e os que vieram depois dele fizeram com a Bíblia em português, sobre o que os padres e os bispos disseram, e sobre o que se pode afirmar de verdade, num assunto em que cada lado tem os seus relatos.
01 — ANTES DOS MISSIONÁRIOSCaixas na alfândega e Bíblias à venda
A Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira foi fundada em 1804, e a Sociedade Bíblica Americana, em 1816. As duas declaravam o objetivo de publicar as Escrituras em linguagem simples, sem notas nem comentários, a um preço que todos pudessem pagar. Esse "sem notas" é o ponto exato de atrito com a Igreja Católica de então. Com a abertura dos portos, em 1808, começaram a chegar Novos Testamentos em português da Inglaterra. As primeiras remessas dependiam, segundo Reily, da boa vontade de capitães de navio, negociantes e militares. O historiador francês Émile Léonard conta que as caixas eram algumas vezes simplesmente abertas na alfândega, para quem quisesse pegar.
Um comerciante britânico no Rio, S. R. McKay, escreveu em 22 de maio de 1826 à Sociedade que tinha visto entre o povo "uma grande avidez de possuir a Bíblia", mas achava que, na maior parte dos casos, ela nascia "da curiosidade de conhecer aquilo que por tanto tempo foi escondido dos seus olhos" (carta citada por Reily, via Micheline Vasconcelos). O próprio Kidder reconhece que "várias centenas de exemplares de Bíblias e Testamentos, das sociedades britânica e americana, tinham sido introduzidos antes, por meio de remessas a cavalheiros ligados ao comércio".
"Ninguém tinha visto uma Bíblia no Brasil antes dos missionários." A frase é repetida, e não se sustenta inteira. O pesquisador José Victor das Neves (dissertação da USP, 2022), que levantou os anúncios dos jornais do Rio de Janeiro, achou como mais antigo registro de venda das Escrituras na cidade o de 1819: a terceira edição bilíngue, latim e português, da Bíblia de Figueiredo, em sete volumes, a 4$800 o volume, na Loja da Gazeta (Gazeta do Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 1819). Entre 1820 e 1840 as Bíblias aparecem em dezenas de endereços diferentes, entre livrarias e lojas comuns. Para Neves, atribuir só aos protestantes a difusão da Bíblia no Brasil "pode ser uma conclusão muito precipitada". Mas a pesquisa dele cobre apenas o Rio, e ele avisa que talvez não valha para o país. Do lado oposto, o viajante francês Auguste de Saint-Hilaire, que percorreu Minas Gerais entre 1816 e 1822, contou ter visto "apenas dois" exemplares da Escritura na viagem inteira (citado por Neves).
⚠️ O que se sustenta: a Bíblia em português estava à venda na Corte desde, pelo menos, 1819, mas era cara, rara e distante de uma população em que cerca de 85% não sabia ler. Segundo o IBGE, em 1872 sabiam ler e escrever 15,8% das pessoas (todas as idades, incluindo crianças e escravizados), e em 1890, 14,8%.
02 — KIDDERUm metodista a cavalo, de 1837 a 1840
Daniel Parish Kidder (1815–1891) era pastor metodista norte-americano. Chegou ao Brasil em 1837 e, com o colega Justin Spaulding, trabalhou no Rio. Viajou por São Paulo, Minas, Bahia, Pernambuco e Pará e voltou aos Estados Unidos em 1840, depois da morte da esposa. Muitos textos o chamam de primeiro agente da Sociedade Bíblica Americana no Brasil. A própria SBB diz que a Sociedade só instalou sua primeira agência no Rio em 1854, e o próprio Kidder se descreve como missionário metodista, para quem a circulação das Escrituras em português "era um objetivo primário da nossa missão" (Sketches, I, p. 136–137).
Ele via o quadro assim, e nisso é testemunha interessada: a Bíblia nunca fora proscrita no Brasil, "a não ser nos regulamentos usuais da Igreja Romana", mas, sem nenhum esforço do clero para fazê-la circular, era "um livro efetivamente excluído e desconhecido", no que se refere à língua do povo. Reconhece que havia Bíblias em latim nas bibliotecas de mosteiros e padres, "mas provavelmente mais do que foram lidas". Em Rio e arredores a campanha dele foi acompanhada de oposição: um jornal chamado O Católico foi lançado, segundo Kidder, "com o objetivo declarado de nos combater", e, segundo ele, durou um mês. Para Kidder, a oposição só aumentava a procura.
Em 1839, no interior de São Paulo, hospedou-se na casa de um padre amigo do ex-regente Feijó. O padre lhe mostrou a biblioteca, uma coleção respeitável. A obra favorita era a Bíblia comentada de Calmet, em francês, em 26 volumes. "Não tinha nenhuma Bíblia ou Testamento em português", anota Kidder. O padre disse que o catolicismo ali estava "quase abandonado", e, sobre a distribuição das Escrituras: "Certamente, vocês estão fazendo o que nós mesmos deveríamos estar fazendo". Num outro povoado, Kidder ofereceu a um homem um folheto. O homem respondeu: "Não sei ler". Kidder pediu que o guardasse e que fizesse os filhos aprenderem.
Em 15 de fevereiro de 1839, na capital da província, Kidder entregou uma proposta à Assembleia Legislativa: doar, por meio da Sociedade Bíblica Americana, exemplares do Novo Testamento "traduzido em português pelo padre Antônio Pereira de Figueiredo", em número suficiente para formar uma "biblioteca de uma dúzia" em cada escola primária da província. Cinco dias depois a Assembleia respondeu oficialmente que recebia a oferta "com especial satisfação" e que deliberaria. O que aconteceu depois, Kidder conta com franqueza: boatos de um padre católico inglês que vivia no Rio fizeram o velho bispo desconfiar de que a tradução tivesse sido alterada, e a comissão arquivou um parecer contrário. "A proposta provavelmente nunca foi levada adiante. Para crédito da província, certamente nunca foi formalmente rejeitada."
03 — OS PADRES DISSERAM"Não é a Bíblia que a Igreja proíbe"
Seria injusto contar essa história só pelos olhos de Kidder. O padre Luís Gonçalves dos Santos, o "Padre Perereca", e Guilherme Paulo Tilbury responderam em panfletos: Desagravos do clero e do povo católico fluminense (1837), O Católico e o Metodista e Antídoto Católico contra o Veneno Metodista (1838). Os argumentos, nas palavras deles, que Neves reproduz, eram estes: "Não he a Bíblia, que a Igreja prohibe, he a má interpretação, he o abuso da palavra de Deos" e "Os Protestantes tem summo empenho de espalhar pelo mundo inteiro as suas Bíblias sem Notas vertidas pela maior parte por Hereges". No Diário do Rio de Janeiro, em 13 de novembro de 1838, "Um Católico Velho" perguntou: se os metodistas acham que a leitura da Bíblia é necessária à salvação, por que não propõem as que já temos, de Pereira, Sarmento e Royaumont? E dizia que nunca constou que a sua leitura fosse proibida, "mas antes autorisada pela igreja catholica". Outro padre, citado por Kidder, escreveu a um bispo sobre o "estranho fato" de que certas Bíblias tinham aparecido em sua paróquia, e o velho prelado, segundo Kidder, ficou "maravilhosamente alarmado". Um padre foi examinar os livros, e, escreve Kidder, nenhum relatório foi dado ao mundo.
Também houve padres e autoridades favoráveis. Kidder cita o bispo eleito do Rio e um padre que compraram Bíblias no depósito do Rio para uso próprio, o padre do interior de São Paulo que lhe disse que faziam o que a Igreja devia fazer, um vigário de Maceió que pediu mais exemplares e um padre de Paranaguá, dono de uma escola primária, que escreveu pedindo "quarenta ou cinquenta Santas Bíblias". Segundo Kidder, o presidente da Assembleia paulista, Martim Francisco, e Antônio Carlos de Andrada aprovavam "o uso universal das Escrituras, especialmente do Novo Testamento". O contexto, observa Vasconcelos, citando Léonard, era que o jansenismo e o regalismo de parte do clero brasileiro de então os deixavam menos hostis.
Em 1843 o bispo do Funchal, na Madeira, publicou uma pastoral, reimpressa no Rio em 1850, dizendo que as Bíblias distribuídas por Kalley na ilha "não são cópias fiéis" de Figueiredo: suprimiam as notas e rejeitavam os livros canônicos de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque e Macabeus. A mesma objeção, em palavras diferentes, aparece em 1857 numa pastoral do bispo do Pará, que Fletcher e Kidder, na obra de 1857, relatam com ironia; este livro conhece a pastoral apenas por esse relato protestante. E em 1864 o Syllabus de Pio IX incluiu as sociedades bíblicas entre os erros condenados.
Os dois lados citavam a Bíblia, e cada um tinha o seu versículo. A encíclica Inter praecipuas (1844), de Gregório XVI, usa 2 Pedro 3.16: nas cartas de Paulo "há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição" 2Pe 3.16. Em grego, "indoutos" é ἀμαθής (amathḗs, G261, "ignorante"), e "torcem" é στρεβλόω (streblóō, G4761), que o dicionário de Strong define como "torcer, ou seja, torturar (na tortura), mas só no sentido figurado, pervertir". Do outro lado, um anúncio de Bíblias no Diário do Rio de Janeiro de 1838, citado por Neves, usava Salmos 119.130-132: "A entrada das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos símplices" Sl 119.130. A "entrada" é o hebraico פֵּתַח (pêthach, H6608, "abertura, revelação"), e "símplices" é פְּתָיִים, plural de pᵉthîy (H6612, "ingênuo, que se deixa seduzir"). A mesma palavra hebraica que dá a ideia de "ingênuo, seduzível" é a que recebe entendimento quando a palavra de Deus é "aberta". Um lado vê perigo nos ignorantes diante da Escritura; o outro vê nos simples o seu leitor ideal. As duas leituras são antigas, e o texto bíblico traz as duas.
04 — FLETCHERUm navio, uma mala e uma Santa Bíblia
James Cooley Fletcher (1823–1901), presbiteriano, nascido em Indianápolis, chegou ao Rio em 14 de fevereiro de 1852, segundo Bruno Rosi (alguns textos dão 1851, ano em que foi enviado). Em 1855, entre 25 de abril e 19 de julho, viajou pelo litoral e pelo interior como agente da Sociedade Bíblica Americana, distribuindo Bíblias em português. Com Kidder escreveu Brazil and the Brazilians (1857), em que o material de Kidder aparece na terceira pessoa, com a permissão dele.
Num dos relatos do livro, em junho de 1855, num vapor de Ubatuba para Santos, Fletcher desceu à bagagem, trouxe uma Bíblia em português e a ofereceu a um passageiro. "Só passaram alguns momentos antes que eu tivesse vendido todos os volumes da Palavra Sagrada que eu tinha à mão, e de todos os lados meus companheiros de viagem liam com avidez um livro que nunca tinham visto." Um oficial da marinha imperial, ao comprar a Bíblia para os filhos, disse: "Embora eu seja um homem de quarenta e cinco anos, nunca vi antes uma Santa Bíblia numa língua que eu pudesse entender". Fletcher concluiu, mais adiante, que "nunca houve antes tanta leitura da Bíblia a bordo de um navio brasileiro" (Brazil and the Brazilians, p. 306 e 314).
É uma cena viva, e de testemunha interessada: Neves mostra que havia Bíblias à venda no Rio desde 1819. Também não há prova de que ele tenha "trazido" Simonton, como às vezes se lê. O que está documentado, segundo Rosi, é que Simonton, quando chegou, em 1859, levava cartas de apresentação fornecidas por Fletcher, embora pouco as usasse, e que em 1863 escreveu uma carta amarga contra o "mundanismo" dele. A relação entre os dois foi ambígua.
05 — AGENTES E COLPORTORESDe mula, de vapor e de pés descalços
A partir de 1856 a distribuição ganhou rosto fixo. Richard Corfield chegou ao Rio nesse ano como primeiro agente oficial da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, e em 1858 viajou por Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará e Amazonas. Um outro agente, Nesbit, da Sociedade Americana, desembarcou no Pará em 1857 com 2.500 exemplares em português e morreu a caminho do Peru em 1858. Os números que circulam, como os 15.227 exemplares que se atribuem a Corfield em três anos (de um livro de Rocha, de 1941), merecem cautela: Neves chama a avaliação de Rocha de "temerária, sem citar fontes".
Três madeirenses, Francisco da Gama, Francisco de Souza Jardim e Manoel Fernandes, foram recrutados por Robert Kalley, em Illinois, em 1856, e vieram com as famílias ao Rio como colportores. Em setembro de 1856, Gama recebeu doze Bíblias, quarenta e oito Novos Testamentos e dez folhetos e os vendeu em poucos dias; entre dezembro de 1856 e junho de 1857 vendeu 262 Bíblias, 168 Novos Testamentos e 183 folhetos (segundo Rocha, via Vasconcelos). Manoel Fernandes foi preso por uma semana em Petrópolis por vender Novo Testamento sem licença de livreiro, e a lei de licença só veio em 1860. O obstáculo, anota a pesquisadora, foi mais legal do que religioso. Em 1864 os colportores de Kalley eram seis, e de maio de 1863 a maio de 1864 venderam 419 Bíblias e 854 Novos Testamentos.
Quem queria uma Bíblia, no Brasil dos anos 1830–50, podia ser um oficial da marinha, uma viúva do Rio (Kidder guardou o pedido de uma, "sou uma pobre viúva e não tenho meios de comprar livros para meus seis filhos"), o secretário da Câmara Municipal, um professor da Escola Normal da província do Rio ou um padre que mantinha escola primária em Paranaguá. Quem sabia ler era minoria, e era quem podia ensinar os outros a ler. Kidder conta que Spaulding mantinha no Rio, em 1837, uma escola diária e uma escola dominical na rua do Catete. Segundo Rosi, citando Alderi Souza de Matos, Kalley deu em Petrópolis, em 19 de agosto de 1855, a primeira aula de Escola Dominical que se costuma citar. O título de "primeira escola dominical do Brasil" é, portanto, disputado.
Onde se imprimia a Bíblia em português? Antes de 1808 não havia tipografia na América portuguesa. Em 1864 apareceu no Rio a Bíblia Garnier, tradução de Figueiredo com notas do cônego Henri Delaunay, em dois volumes, aprovada por mandamento do arcebispo da Bahia. O pesquisador Neves a considera a primeira Bíblia completa editada por casa do Rio, mas foi impressa em Paris. A primeira edição brasileira do Novo Testamento de Almeida saiu no Rio em 1879, pela Sociedade de Literatura Religiosa e Moral, segundo o levantamento dele. Quanto à Sociedade Bíblica do Brasil, ela só nasceu em 10 de junho de 1948, no Rio de Janeiro, com o lema "Dar a Bíblia à Pátria", segundo a própria SBB.
Jesus diz que "nada há encoberto que não haja de ser descoberto" Lc 12.2, e o anúncio de uma Bíblia no Diário do Rio, em 1838, citou essas palavras para vender. Entre os que pegaram a Bíblia na casa dos missionários em 1837 estava um padre idoso que disse nunca ter visto fazerem aquilo. Entre os que a negaram havia padres sinceros que temiam as notas que faltavam. A Palavra não precisa que o leitor seja dono de tudo o que aprendeu; basta que a abra.
LINHA DO TEMPOA Bíblia em português chega ao Brasil
Datas de Kidder, Fletcher, Neves, Vasconcelos, Rosi e das páginas oficiais da SBB. Onde há divergência, o texto diz.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Kidder, 1837–1840
Missionário metodista, no Rio e pelo interior. Em três dias, 200 exemplares distribuídos; em São Paulo, uma proposta de Novos Testamentos nas escolas que ninguém votou.
Figueiredo antes de Almeida
As Bíblias que Kidder e Fletcher distribuíram eram, no começo, a de Figueiredo; Almeida ganhou espaço depois.
Dois lados com fonte
Missionários: o povo não tinha Bíblia. Padres: a Igreja não proíbe a Bíblia, proíbe a Bíblia sem notas, sem aprovação e com outro cânon. Neves: já havia Bíblias à venda no Rio em 1819.
85% não sabia ler
IBGE: 15,8% sabiam ler em 1872 e 14,8% em 1890. Quem tinha uma Bíblia era uma minoria que lia.
Próximo capítulo: em 1855 chega ao Rio um médico escocês, Robert Kalley, e em 1859 um jovem presbiteriano norte-americano, Ashbel Green Simonton. Pela primeira vez, a Bíblia em português é ensinada num culto em português, por pregadores que não vão embora.
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