O Protestantismo no BrasilCapítulo 2 de 11 ⤓ PDF
Pintura a óleo panorâmica do Recife: baía de águas agitadas com navios holandeses à esquerda, uma língua de terra fortificada avançando para o mar, a vila ao fundo e, no primeiro plano à direita, ruínas de arcos, árvores e figuras a cavalo
CAPÍTULO 2 DE 11

Recife, 1630

Uma Igreja Reformada com pastores, escolas e catecismos nos tempos dos holandeses

Um sino pequeno que os sinos dos conventos abafavam, uma Ceia com mais de sessenta nomes e, no Nordeste, uma Igreja Reformada que durou 24 anos, com pastores, escolas e um catecismo em tupi. O que ela deixou, e o que isso quer dizer para a Bíblia no Brasil.

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Cidade da Paraíba, 25 de dezembro de 1635. Faz um ano que os holandeses tomaram a cidade. O pastor Jodocus à Stetten, alemão, capelão do exército, anunciou a Ceia várias vezes e a adiou outras tantas "por desculpas pequenas e inválidas", como ele mesmo confessa num relatório. Hoje a Ceia sai. Uma lista com mais de sessenta nomes registra quem comungou: o próprio Stetten, dois comandantes, um comerciante livre, uma mulher de Dockum, na Frísia, soldados, alferes, o professor da escola e o sineiro com a esposa.

O sineiro tem um problema que o conselho da igreja resolverá um mês depois. O sino é pequeno e pouco se ouve, e o repicar dos sinos dos conventos católicos da cidade impede que se saiba se o deles já tocou. Decide-se que ele dará um toque na primeira batida, dois na segunda, três na terceira. É um pequeno detalhe de uma igreja que chegou ao Brasil com a bandeira de outro país. Este capítulo conta o que ela fez em 24 anos, e o que isso quer dizer para a Bíblia no Brasil.

01 — A IGREJA QUE VEIO COM A BANDEIRAA Companhia, o Presbitério e os pastores de cinco línguas

A Companhia das Índias Ocidentais, criada em 1621, tomou Salvador em 1624 e a perdeu em 1625. Em 1630, tomou Olinda e o Recife. Entre 1637 e 1644 governou o conde Maurício de Nassau, e o domínio holandês durou, no Nordeste, até 1654. O historiador Frans Leonard Schalkwijk, ministro da Igreja Reformada da Holanda e professor no Brasil, escreve que a Igreja Cristã Reformada, nome da igreja holandesa, "veio para o Brasil com a bandeira holandesa, e foi expulsa com ela". Era uma igreja do Estado, como eram as igrejas católicas e as protestantes de então nos países onde dominavam. Sua regra de fé eram os textos adotados no Sínodo de Dordt (1618–19): a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dordt.

Foi uma igreja organizada. Segundo Schalkwijk, existiram ao todo uns 22 grupos de crentes pela costa, do Sergipe ao Maranhão. A do Recife era a maior e incluía uma congregação francesa e outra inglesa. Os pastores somam cerca de cinquenta: Schalkwijk conta 47 em um estudo de 1997 e 54 em outro de 2003, o que mostra que o número depende de como se conta. Vieram holandeses, alemães, franceses, ingleses e até um espanhol. A reunião dos pastores e presbíteros, a "classe" ou Presbitério do Brasil, começou a se reunir em 1636. Mais tarde formou-se um Sínodo, com dois presbitérios, o de Pernambuco e o da Paraíba. O dia da primeira reunião não aparece nos estudos citados aqui.

Um dos pastores foi Vicente Joaquim Soler, que nascera em Valência em 1590. Era ex-frade agostiniano espanhol, convertido à fé reformada, e fora contratado em 1635 para pastorear os soldados franceses. Partiu de Amsterdã em 24 de janeiro de 1636 e, ao assinar o livro dos pastores, acrescentou à assinatura uma frase que chamou a atenção da historiadora Maria Aparecida Ribas: "ministro da Palavra divina junto aos brasilianos". Pregava em francês, espanhol e português. O templo francês do Recife, o único templo reformado construído ali (os holandeses em geral usaram igrejas católicas), foi feito, segundo Ribas, com 8.000 florins, 4.000 da Companhia e 4.000 do conde, vindos de uma multa a um judeu blasfemo. Mais tarde, Soler seria chamado de "pai da missionação reformada no Brasil".

Planta gravada de Mauritiopolis e Reciffa, a cidade planejada em grade entre rios, com o istmo e a ponte para o Recife à direita e fortes marcados em volta
Mauritiopolis, Reciffa et circumiacentia castra — planta de Mauritsstad e do Recife, atribuída a Frans Post e ligada ao livro de Gaspar Barlaeus, Rerum per octennium in Brasilia (1647); Bibliothèque nationale de France (Gallica, datada c. 1650). Foi nessa Vila Maurícia que se levantou o templo francês. Domínio público.
🏺 O que os arquivos guardam

"A primeira igreja reformada das Américas"? A frase é comum e precisa de cuidado. Há ao menos três concorrentes anteriores ou contemporâneos: a congregação da Guanabara, de 1557 (capítulo 1); a igreja da guarnição holandesa em Salvador, em 1624–25; e a de Nova Amsterdã, onde um pastor, Jonas Michaelius, escreveu em 11 de agosto de 1628 que a primeira Ceia teve "uns cinquenta comungantes, valões e holandeses" (as atas de Amsterdã, publicadas por Hastings, trazem a carta). Quanto a "primeiro presbitério das Américas", as fontes citadas falam de "classe" do Brasil, mas não usam esse título. O que ninguém discute é o tamanho: 22 igrejas, um presbitério e um sínodo, perto de cinquenta pastores.

⚠️ As datas do Sínodo variam entre as fontes: a proposta é de outubro de 1641, a reunião preparatória é de 12 de novembro de 1642, e a ata do Sínodo, na edição de Hastings, traz uma data (29 de fevereiro de 1643) que não existe, porque 1643 não foi bissexto. Este livro não afirma o dia.

02 — A BÍBLIA NO CULTOConsoladores, leitores e Bíblias que não chegavam

A Bíblia oficial das igrejas holandesas era a Statenvertaling ("tradução dos Estados"), encomendada pelo Sínodo de Dordt e publicada em 1637. As atas do Sínodo da Holanda do Norte, de 1635, diziam que a revisão do Antigo Testamento estava pronta e a do Novo chegara à epístola de Tiago, e que ela sairia em março do ano seguinte; saiu em 1637. Que exemplares dela tenham chegado a Pernambuco, as fontes citadas não dizem. O que se sabe é outra coisa, e vem das atas da Igreja: em 12 de novembro de 1642, a reunião preparatória do Sínodo do Brasil registrou a "falta de consoladores de enfermos, de mestres-escola e de Bíblias grandes". Em 1643, o pastor Francisco Plante, em nome da última assembleia geral, escreve aos de Amsterdã que ainda esperavam as Bíblias.

"Bíblias grandes" quer dizer exemplares de púlpito, para ler em voz alta no culto. Quem as lia? Na falta de pastores, o consolador de enfermos (em holandês, ziekentrooster), um leigo que visitava os doentes e lia a Escritura e as orações. Stetten conta de um homem, Jan Loos, que foi nomeado consolador a bordo, durante a travessia, porque "sabia ler bem", e dirigia a leitura diária da Bíblia e das orações. Para a igreja holandesa de então, ler em voz alta era uma função.

Folha de rosto gravada da Bíblia holandesa: sob um arco com um livro aberto e o nome de Deus em hebraico irradiando luz, o título Biblia, dat is: De gantsche H. Schrifture
Biblia, dat is: De gantsche H. Schrifture — folha de rosto da Statenvertaling, Leiden (1637), por ordem dos Estados Gerais; Nederlands Bijbelgenootschap, via Wikimedia Commons. Domínio público.
🔎 A palavra original

"Consolação" era a palavra-chave dessa igreja. A primeira pergunta do Catecismo de Heidelberg é "Qual é a tua única consolação, na vida e na morte?", e os "consoladores" visitavam os doentes. No Novo Testamento, a palavra grega é παράκλησις (paráklēsis), que o dicionário de Strong (G3874) define como "súplica, exortação, consolo". É a palavra de Paulo em Romanos 15.4: "para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança" Rm 15.4. Não se sabe se os consoladores do Recife pensavam em Paulo ao receberem esse nome; o que o texto grego mostra é que "consolação" e "Escritura" já estavam ligadas no Novo Testamento.

"Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; e, se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor." Romanos 14.8

É o versículo geralmente lembrado como base da resposta que o catecismo dá: "não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador Jesus Cristo". A ligação entre o texto bíblico e a pergunta é a que as igrejas reformadas costumam fazer; o capítulo não a prova nem a contesta.

03 — OS ÍNDIOS, A ESCOLA E O CATECISMO EM TUPIUma missão feita por uma potência invasora

Para uma parte da população, escreve Schalkwijk, os holandeses não eram invasores, mas libertadores: os indígenas do litoral. Em 1625, quando a frota holandesa deixou a Baía da Traição, seis jovens potiguaras embarcaram com ela. Um era Pedro Poti. Ficaram cinco anos nos Países Baixos, aprenderam a ler e escrever e foram instruídos na fé reformada. Voltaram como "línguas" (intérpretes).

A igreja começou a trabalhar nas aldeias sobre um fundamento que os católicos já tinham posto: a maioria dos indígenas do litoral estava batizada, sabia algumas orações e conhecia os nomes de Cristo e de "nossa Senhora". As aldeias eram um conjunto de longas casas cobertas de palha de coqueiro, com uma capela e um campanário na cabeceira. Em 1639, segundo Schalkwijk, havia 21 aldeias de "brasilianos" entre o Rio Grande do Norte e Pernambuco, com uns seis mil habitantes.

👁️ Como era viver ali

Uma casa de aldeia abrigava de quarenta a cinquenta pessoas, cada família pequena no seu canto. Em 1638, o primeiro relatório do pastor David à Doreslaer, que se mudara da Paraíba para a aldeia de Maurícia, diz que os indígenas iam todos os dias aos cultos de oração, canto e pregação, e que era cedo demais para a Ceia, porque havia problemas de embriaguez. Quando ela veio, provavelmente em julho de 1640, em Massurepe, na vila de Pedro Poti, reuniu indígenas de várias aldeias. A escola ensinava a ler, escrever e os fundamentos da fé. Em 1640 o pastor Soler observou que na aldeia de Nassau havia um indígena que sabia ler e escrever e conhecia os princípios da religião; a ideia de empregar indígenas como professores foi aprovada, com salário de doze florins por mês, como o de um cabo do exército. Desde o início de 1641 trabalhavam dois deles, João Gonsalves e Melchior Francisco, os primeiros professores indígenas da igreja evangélica na América do Sul, segundo Schalkwijk.

O livro mais discutido dessa missão foi um catecismo. O Presbitério encarregou os pastores Soler e Doreslaer de redigir "uma breve, básica e clara instrução na religião cristã", em tupi, português e holandês, e o trabalho ficou pronto em 1641. O título completo era "Uma instrução simples e breve da Palavra de Deus nas línguas brasiliana, holandesa e portuguesa". Schalkwijk conclui que o autor era Doreslaer, com ajuda indireta de Soler. O Presbitério de Amsterdã reclamou: devia seguir mais de perto o Catecismo de Heidelberg, e as fórmulas do batismo e da Ceia eram diferentes das aprovadas em Dordt. A Companhia das Índias o mandou imprimir mesmo assim, em Enkhuizen, onde o pai de Doreslaer era pastor. Os exemplares chegaram ao Recife por volta de abril de 1642. Doreslaer respondeu que o escrevera simples por causa do tupi, e prometeu melhorar quando o dominasse melhor; Amsterdã aceitou a explicação.

Nenhum exemplar do catecismo foi achado até hoje. Mas há uma pista: uma lista dos livros no armazém da Companhia no Recife, poucos dias antes da revolta de 1645, registra 2.951 "livrinhos de perguntas" e 2.200 catecismos em espanhol. Schalkwijk acha que o primeiro item podia ser uma pilha dos catecismos trilíngues. É uma hipótese dele.

E a Bíblia em tupi? Um francês, Pierre Moreau, publicou em 1651 que entre os indígenas havia um jovem ministro inglês, criado entre eles dos seis aos catorze ou quinze anos, que, depois de estudar em Leiden, voltou ao Brasil e "traduziu o Antigo e o Novo Testamento, do texto original, em sua língua brasiliana" (Histoire des derniers troubles du Brésil, p. 204–205; tradução minha). Schalkwijk acha que o tradutor era o pastor inglês Johannes Eduardus, mas observa que "provavelmente foram traduzidos somente trechos bíblicos" e que nenhuma pista deles foi achada nos arquivos. Quem pode afirmar com segurança, então, é só isto: houve esforço de entregar o texto bíblico aos indígenas em sua língua, e não se conhece uma Bíblia completa em tupi dessa época.

Schalkwijk termina o seu estudo com uma cena, que ele escreve como evocação e sem data. O consolador indígena João Gonsalves pergunta: "Qual é a tua única consolação na vida e na morte?" E os alunos respondem: "É que, de corpo e alma, na vida e na morte, não pertenço a mim mesmo, mas sim ao meu fiel Salvador Jesus Cristo". Segundo ele, a primeira pergunta do Catecismo de Heidelberg foi traduzida em tupi pelo pastor Johannes Apricius.

Em 31 de outubro de 1645, no começo da revolta luso-brasileira, Pedro Poti escreveu uma carta, em sua língua, ao primo Filipe Camarão, que lutava pelo lado português. Camarão tinha escrito que não queria reconhecer Antônio Paraupaba nem Poti, "que se tornaram hereges". Poti responde que se educou na Holanda e confessa-se cristão, "crendo somente em Cristo, não desejando contaminar-se com a idolatria"; convida os parentes a passar "para o lado dos piedosos" (trechos citados por Schalkwijk). Poti foi preso em 1649, na segunda batalha de Guararapes. Segundo o testemunho de Paraupaba, foi mantido seis meses num poço e padres tentaram forçá-lo a abjurar a fé reformada.

🏺 O que os arquivos guardam

Como julgar essa missão? Schalkwijk, ministro da Igreja Reformada da Holanda e doutor em história pelo Mackenzie, que dedicou anos a esse arquivo, escreve que o fato de os missionários virem de um país invasor é um problema real, e a pergunta que ele faz de volta é: "quem foram os primeiros moradores do Brasil, e quem os primeiros invasores?" Do lado português, frei Manuel Calado escreveu em 1648 que os indígenas aliados dos holandeses eram "traidores à lei de Deus e à Pátria amada", e o padre Antônio Vieira, segundo Schalkwijk (que data a visita à Serra de Ibiapaba em 1654, sem outra fonte conferida aqui), disse que ela virara uma "Genebra de todos os sertões do Brasil", onde muitos eram "tão calvinistas e luteranos como se houvessem nascido na Inglaterra ou Alemanha" (citado por Schalkwijk). Os resultados numéricos, diz o próprio Schalkwijk, foram "parcos".

⚠️ Schalkwijk é o grande estudioso desse arquivo, e seus livros (Igreja e Estado no Brasil holandês, 1986, e The Reformed Church in Dutch Brazil, 1998) são a referência para quem quiser ir mais fundo; este capítulo se apoia em artigos dele, nas atas de Amsterdã publicadas por Hastings e em estudos de outros historiadores. A leitura de que a missão foi positiva e a de que foi um instrumento da conquista existem, e este livro não escolhe entre elas.

04 — ESCRAVIDÃO, CATÓLICOS E JUDEUSO que a igreja fez e o que deixou de fazer

A escravidão. Em 29 de outubro de 1635, na Paraíba, Stetten batizou o filho de um casal de africanos, Antoni Roderigo e Catelina. Ele escreve que os interrogou sobre a fé e os instruiu nos fundamentos, "e mantenho essa ordem ao batizar filhos de negros, porque batizei o primeiro no Brasil". Em 1637, o Presbitério debateu o batismo de filhos de brasilianos e de africanos. Depois, o pastor Jacobus Dapper, do Recife, perguntou se era lícito a um cristão comprar e possuir escravos. Segundo Schalkwijk, o próprio conde de Nassau respondeu que eram escrúpulos desnecessários, e Schalkwijk comenta que as consciências cristãs da época estavam "subdesenvolvidas" quanto à escravidão africana, e lembra que Calvino e o idealizador da Companhia, Willem Usselincx, tinham pensado de outra forma. Os documentos citados não mostram a Igreja Reformada impedindo a escravidão africana. Com os indígenas foi diferente: os regulamentos de 1629, 1636 e 1645 declaravam sua liberdade, e os pastores Doreslaer e Kemp denunciaram ao governo, em pessoa, que jovens eram forçados a trabalhar em terras alheias. Em 1645, uma consulta do pastor Kemp e de um colega levou ao que Schalkwijk chama de "lei do ventre livre": os filhos de casais mistos de indígena e africano seriam livres.

Os católicos. O regulamento de 1634 dizia que nenhum morador seria ofendido em sua consciência desde que vivesse em sossego e sem escândalo público. Houve liberdade de consciência, mas a igreja pedia limites ao culto: as atas de 1642, na edição de Hastings, registram a ideia de que o culto católico deveria ficar limitado dentro das suas igrejas. Do outro lado, João Fernandes Vieira, líder da guerra de restauração, dizia aos soldados, segundo a crônica de Diogo Lopes Santiago, que via "a honra de Deus tão desprezada, os templos sagrados postos por terra", e que os holandeses queriam fazer dos filhos e filhas dos moradores "luteranos e calvinos", com o pregador Soler à frente.

Os judeus. Por volta de 1636 surgiu no Recife a comunidade Zur Israel ("Rochedo de Israel"), a sinagoga da Rua do Bode, que muitos chamam de a primeira das Américas, e depois o rabino Isaac Aboab da Fonseca chegou, em 1641 ou 1642 (as fontes divergem), e deixou a prece hebraica Mi Chamocha. Nas atas de 1642 a igreja registra que, em relação aos judeus, "nada se fez a não ser proibir a blasfêmia", e que se estabeleceu a regra de que seus criados e criadas não poderiam ser cristãos. Um caso singular consta do relatório de Stetten: em 26 de janeiro de 1636, uma jovem de uns dezoito anos, Judit, filha de pais que haviam sido cristãos-novos e voltado a ser judeus, pediu para se unir à fé cristã, foi instruída por ele durante oito semanas, examinada pelo conselho e batizada com o nome de Christina.

05 — O FIMTaborda, Flatbush e o poço

Em 26 de janeiro de 1654, os holandeses assinaram a capitulação no Campo do Taborda. Schalkwijk escreve "26 de fevereiro", mas as outras fontes dizem janeiro, e o texto adota esta data. Com a saída dos holandeses, escreve ele, a missão reformada ficou impossível, porque "não havia lugar para qualquer igreja evangélica debaixo da hegemonia ibérica". Os pastores voltaram à Holanda. Stetten, preso em 1647 e levado à Bahia, foi enviado a Portugal em 1651. Sua viúva, Raquel, recebeu ajuda na Holanda até morrer, em 1665. Johannes Theodorus Polhemius, vindo do Palatinado, saiu do Brasil e apareceu em Nova Holanda em 1654, servindo em Midwout (Flatbush, hoje no Brooklyn). A Classe de Amsterdã escreveu em 1656 que ele "perdera a sua paróquia por causa do triste fracasso da Companhia".

Muitos indígenas fugiram a pé para a Serra de Ibiapaba, no Ceará, mais de 750 quilômetros de sertão. Antônio Paraupaba foi à Holanda e apresentou em agosto de 1654 uma "Remonstrância" aos Estados Gerais. Na segunda, vinte meses depois, escreveu: "Ajudem agora! A luz da Palavra de Deus será apagada por falta de pastores". Schalkwijk afirma que, se tivesse existido liberdade religiosa, Ibiapaba poderia ter ficado como a primeira igreja indígena evangélica das Américas. Os jesuítas retomaram a região. O que ficou desta igreja no Brasil não foi uma instituição, mas um conjunto de documentos: o relatório de Stetten, as atas de Amsterdã, as cartas de Poti e a lista de um armazém.

🌱 Semente de sermão

"Qual é a tua única consolação, na vida e na morte?" A pergunta de Heidelberg foi feita em tupi, numa aldeia de palha, a uma criança que mal tinha um livro. Quem a respondeu estava num país em que a igreja que lhe ensinou a resposta estaria fora dali em poucos anos. Uma consolação que cabe numa pergunta não precisa de uma bandeira para continuar sendo verdadeira.

LINHA DO TEMPOA Igreja Reformada no Brasil holandês

Datas de Schalkwijk, de Ribas e das atas de Amsterdã (Hastings). Onde as fontes divergem, o texto diz.

1621
Criação da Companhia das Índias Ocidentais.
1624–1625
Salvador sob domínio holandês; seis potiguaras vão à Holanda.
16 de fevereiro de 1630
Conquista de Olinda; começa o domínio no Nordeste.
25 de dezembro de 1635
📖 Primeira Ceia na Paraíba (Stetten).
1636
Soler parte de Amsterdã (24 de janeiro); primeira reunião da Classe do Brasil.
1637–1644
Governo de Maurício de Nassau. Em 1637 sai a Statenvertaling.
julho de 1640 (provável)
Primeira Ceia entre indígenas, em Massurepe, na aldeia de Pedro Poti.
1641
Dois professores indígenas começam a trabalhar; o catecismo trilíngue fica pronto.
1642
Reunião preparatória do Sínodo (12 de novembro); o catecismo chega ao Recife; faltam Bíblias grandes.
31 de outubro de 1645
Carta de Pedro Poti a Filipe Camarão, em tupi.
26 de janeiro de 1654
Capitulação do Campo do Taborda.
1654–1655
Polhemius chega a Nova Holanda; Paraupaba apresenta suas Remonstrâncias.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🔔

Natal de 1635, Paraíba

A primeira Ceia, com mais de sessenta nomes, e um sino pequeno que o dos conventos abafava.

📚

22 igrejas, ~50 pastores

Classe e Sínodo; "a primeira igreja reformada das Américas" tem concorrentes, mas o tamanho é indiscutível.

🌴

Escola e catecismo em tupi

Professores indígenas desde 1641; nenhum exemplar do catecismo foi achado, e uma Bíblia completa em tupi não está provada.

⚖️

Limites da igreja

Liberdade dos indígenas defendida pelos pastores; a escravidão africana, não. Católicos e judeus com restrições ao culto.

Próximo capítulo: a Bíblia em português. Quase na mesma época em que o catecismo trilíngue era impresso em Enkhuizen, um jovem português convertido à fé reformada traduzia o Novo Testamento em Batávia, do outro lado do mundo, para uma Igreja holandesa, e essa tradução chegaria ao Brasil dois séculos depois.

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