O Protestantismo no BrasilCapítulo 3 de 11 ⤓ PDF
Pintura a óleo: ao centro um grupo de altas palmeiras sobre uma praça de mercado cheia de pessoas de várias origens, uma grande casa de telhado vermelho à esquerda, as muralhas baixas do castelo de Batavia ao fundo e barcos num canal à direita
CAPÍTULO 3 DE 11

A Bíblia que veio de Batávia

João Ferreira de Almeida e a Bíblia em português, antes e depois dele

Um rapaz português de catorze anos, num navio entre Batávia e Malaca, lê um livrinho em castelhano. É o começo de uma tradução que só ficou inteira mais de cem anos depois, e que mudou de mão no meio do caminho.

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Em 1642, no mar, entre Batávia e Malaca. Um rapaz português viaja nas possessões holandesas do Oriente. Tem catorze anos, segundo contaria ele mesmo, e nasceu numa família católica. Nas mãos, um livrinho em castelhano, sem nome de autor.

O livrinho é anticatólico, e o rapaz sai dele rejeitando a fé em que foi criado. Em Malaca, começa a traduzir para o português alguns evangelhos e epístolas. O nome dele é João Ferreira de Almeida. Esse livrinho, que ele traduziria depois sob o título Differença d'a Christandade, é o início de uma tradução que só ficaria inteira mais de cem anos depois, e que mudou de mão no meio do caminho. Em versões revistas, é a base das Bíblias evangélicas mais tradicionais do Brasil (ARC, ARA, ACF). Este capítulo conta de onde ela veio, o que havia antes dela e o que a Igreja Católica dizia, em cada época, sobre ler a Bíblia em língua do povo.

01 — ANTES DE ALMEIDAO que havia em português e o que Roma dizia

Antes do século XVII, a Bíblia em português quase não existe. A tese do historiador Luis Henrique Menezes Fernandes (USP, 2016) resume: as poucas versões bíblicas portuguesas anteriores ao século XVII são todas fragmentárias e, na maior parte, parafraseadas, misturadas a gêneros devocionais. Há notícia de trechos traduzidos em tempos de D. Dinis e de D. João I, mas são notícias, quase sempre de obras perdidas, e não textos conservados. Os Evangelhos e Epístolas com suas exposições em romance (Porto, 1497), por exemplo, são a tradução de um compêndio devocional, não "a Bíblia em português". A exceção humanista que Fernandes destaca é um Eclesiastes anotado do hebraico, de Damião de Góis, impresso em Veneza em 1538.

Por que tão pouco? Parte da resposta está na política de livros da Igreja e do Estado em Portugal. Convém ser exato, porque a posição de Roma mudou muito ao longo do tempo.

O Concílio de Trento, na sessão IV (1546), declarou que a antiga edição Vulgata devia ser tida como autêntica "em lições públicas, disputas, sermões e exposições", reservou à Igreja a interpretação da Escritura e exigiu licença dos superiores eclesiásticos para imprimir livros sagrados (tradução minha, a partir da versão inglesa). O decreto não proíbe expressamente as traduções para as línguas do povo. A proibição veio com os Índices de livros proibidos. Fernandes, apoiado em Jedin e Delumeau, escreve que foi só com as edições de 1559 e 1564 que se estabeleceu uma interdição total. O Índice de 1564, aprovado por Pio IV, traz a quarta regra: como a experiência mostra que, se a Bíblia em língua vulgar for permitida a todos sem distinção, a temeridade dos homens fará mais mal que bem, cabe aos bispos ou inquisidores, aconselhados pelo pároco ou confessor, permitir a leitura de Bíblias traduzidas por autores católicos "àqueles cuja fé e piedade julgarem que serão aumentadas, e não prejudicadas"; e a licença devia ser dada por escrito (tradução minha, a partir da versão inglesa de Townley, publicada por Mendham). A regra, em si, exigia licença; não dizia que ninguém podia ler.

Em Portugal, o Rol dos livros defesos de 1551, assinado pelo cardeal infante D. Henrique, inquisidor-geral, é mais seco. Na letra S do catálogo latino está uma linha que o fac-símile da Biblioteca Nacional de Portugal mostra com clareza: "Sacre scripture omnes libri in quacumque lingua vulgari", isto é, "todos os livros da Sagrada Escritura, em qualquer língua vulgar". A Inquisição portuguesa, criada em 1536, mirava, segundo Fernandes, sobretudo as práticas judaizantes dos cristãos-novos; a Reforma nunca foi uma ameaça real ali. Mas o Rol não abre exceção nesse verbete.

🏺 O que os arquivos guardam

A posição oficial de Roma, em fatos e em palavras do próprio magistério, foi mudando. Em 1757, um decreto da Congregação do Índice, aprovado por Bento XIV, passou a permitir as versões vernáculas aprovadas pela Sé Apostólica ou com notas tiradas dos Santos Padres (assim o cita Gregório XVI). Em 1844, a encíclica Inter praecipuas de Gregório XVI condenou as sociedades bíblicas, que, escreve ele, publicam a Escritura traduzida "em todo tipo de língua vulgar" para distribuição "sem discriminação" entre cristãos e não cristãos e depois "convidam todos a lê-la sem guia" (tradução minha, a partir da versão inglesa); no mesmo texto o papa nega que a Igreja tenha escondido a Escritura dos fiéis. Em 1943, Pio XII, na Divino afflante Spiritu, escreveu que o decreto de Trento também não proíbe fazer traduções em língua vulgar, "mesmo diretamente dos textos originais", com a aprovação da autoridade eclesiástica (§22; tradução minha, a partir da versão inglesa). E o Concílio Vaticano II, na Dei Verbum (1965), declara que "é preciso que os fiéis tenham acesso patente à Sagrada Escritura" (§22) e exorta "com ardor e insistência todos os fiéis" à leitura frequente (§25).

⚠️ A objeção católica do século XIX, como os próprios textos mostram, era a Bíblia sem notas, sem aprovação eclesiástica e com cânon diferente (sem os livros deuterocanônicos), vendida por estrangeiros. A objeção protestante era que, na prática, o povo não tinha acesso à Bíblia. Os dois lados têm fonte, e este livro não escolhe entre eles.

02 — O JOVEM QUE VIROU MINISTROJoão Ferreira de Almeida

Quase tudo o que se sabe da infância de Almeida é pouco, e parte é disputada. Nasceu por volta de 1628, data deduzida da idade que ele mesmo declara ter em 1644 (dezesseis anos). O lugar de nascimento ficou por séculos em Lisboa, porque um viajante holandês, Philippus Baldaeus, o escreveu assim em 1671. Em 1918, o arquivista Pedro de Azevedo achou na Torre do Tombo uma obra de 1670 escrita contra Almeida por um frade agostiniano, Jerónimo de Siqueira, que o conheceu em Batávia. Ali está: nasceu "em Torre de Tavares, de pais católicos", e foi criado em Lisboa por um tio clérigo (citado por Fernandes). Torre de Tavares é hoje concelho de Mangualde. É a única fonte documental que dá esse local, e vem de um adversário; a maioria dos estudiosos a aceita.

Almeida assinava "João Ferreira A. d'Almeida". O "A" é, segundo Herculano Alves, a abreviatura de Annes. A tradição que o faz padre católico ou jesuíta não se sustenta: vem de confusão com outro Ferreira e do título "Padre" nas folhas de rosto, que era, nas Índias holandesas, o tratamento dos ministros protestantes. Ele mesmo diz ter deixado o catolicismo aos catorze anos. Tornou-se ministro da Igreja Reformada em Batávia, na segunda metade da década de 1650 (as fontes divergem entre 1656 e 1658), e pregou no Ceilão, na costa de Tuticorin e depois em Batávia, para as comunidades de língua portuguesa. Em setembro de 1689 foi feito emérito "por causa da idade de fraqueza", e morreu em agosto de 1691.

Uma história que se repete e não tem prova: a de que a Inquisição de Goa o teria condenado em efígie e queimado o seu retrato. Baldaeus a conta; Fernandes escreve que, em boa parte porque os papéis da Inquisição de Goa foram destruídos, "não foi identificada, até o momento, qualquer prova documental que confirme definitivamente esse fato". Pode ser um homônimo.

O contexto importa. O português era a língua franca do comércio nas Índias, e a Companhia Holandesa das Índias Orientais, que não queria promover uma língua rival, foi pressionada pelos pastores, que argumentavam que, sendo o português a língua dos missionários e dos cristãos católicos da região, o Evangelho devia ser ensinado em português. A tradução nasceu aí. E nasceu em disputa: Almeida escreveu também obras de polêmica contra os católicos, Differença d'a Christandade (1668) e Duas Epístolas e Vinte Propostas (1672), e recebeu respostas de um agostiniano, de um jesuíta e de um franciscano. A Bíblia de Almeida é filha de uma controvérsia entre católicos e protestantes, e o leitor de hoje precisa saber disso.

🔎 A palavra original

Olhe a folha de rosto da primeira edição, abaixo: o título diz "O Novo Testamento" e logo em seguida explica: "Todos os Sacro Sanctos Livros e Escritos Evangelicos e Apostolicos do Novo Concerto de nosso Fiel Senhor Salvador e Redemptor Iesu Christo" (grafia da época). Almeida usou duas palavras, "testamento" e "concerto", para uma só do grego, διαθήκη (diathḗkē), que está no título grego da coleção, Καινὴ Διαθήκη. O dicionário de Strong (G1242) a define como "uma disposição, ou seja, um contrato, especialmente um testamento". A palavra é, de fato, as duas coisas na Bíblia. Em Hebreus 9, o texto brinca com os dois sentidos: "Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador" Hb 9.16. E em Hebreus 13.20 a mesma palavra é "aliança eterna" Hb 13.20. A ACF traduz por "testamento" num lugar e por "aliança" no outro. Quem compara traduções sem ver o grego pode achar que são palavras diferentes, e é uma palavra só.

Folha de rosto gravada do Novo Testamento de Almeida, 1681: um livro aberto radiante no alto, o título entre duas colunas e a indicação Em Amsterdam, por viúva de J. V. Someren, ano 1681
O Novo Testamento… agora traduzido en Portugues pelo Padre João Ferreira A d'Almeida — Amsterdã, viúva de J. V. Someren (1681); exemplar da Biblioteca Nacional de Portugal, via Wikimedia Commons. No livro aberto, no alto, estão gravados trechos do Salmo 19 e de 1 Pedro 1. Domínio público.

03 — O PRIMEIRO LIVROO Novo Testamento de 1681 e os mil e seiscentos exemplares

Almeida começou o Novo Testamento em Malaca. Ele mesmo conta, na dedicatória de 1668, que no segundo ano de sua conversão, em 1644, aos dezesseis anos, passou a traduzir todo o Novo Testamento "do latim do mui reverendo e douto padre Teodoro de Beza", com ajuda das versões espanhola, francesa e italiana (citado por Fernandes). Segundo a literatura, em 1676 ele se ofereceu para retraduzir do grego, e o consistório de Batávia recusou, mandando prosseguir a revisão do manuscrito existente. A revisão andava devagar: depois de dois anos não tinham passado do Evangelho de Marcos. Em 1678, Almeida enviou o manuscrito à Holanda, sem o consentimento do consistório. A Companhia das Índias Orientais pagou a impressão. Em Amsterdã, o texto foi revisto por dois holandeses.

A primeira edição saiu em 1681, em Amsterdã. E saiu mal. Fernandes fala de erros tipográficos e de língua em abundância. Em carta de 18 de março de 1683 às autoridades da Companhia, Almeida culpou um "judeu português convertido ao cristianismo" que fizera a revisão do português em Amsterdã e, segundo ele, deixara o texto cheio de contradições, absurdos e obscuridades. A decisão dos diretores holandeses foi drástica: destruir os exemplares, para não dar motivo às calúnias dos inimigos da fé reformada, que acusariam de patrocinar uma tradução bíblica corrompida. Mil e seiscentos exemplares foram destruídos na Holanda. A proposta de Almeida foi mais moderada: uma errata e correções à mão, com nova folha de rosto, sem o nome da Companhia nem o do tradutor. Existe na Biblioteca Nacional de Portugal um exemplar corrigido à pena, com uma Advertência ao pio leitor de 1.º de janeiro de 1683.

A segunda edição saiu em Batávia, em 1693, impressa por João de Vries. A revisão começara por volta de 1685, com o próprio Almeida e outros dois ministros, mas só foi concluída dois anos depois da morte dele, com revisão de Theodorus Zás e Jacobus op den Akker. As mudanças dessa revisão são contestadas até hoje: um exemplo é a colocação do verbo no fim da frase, como em 1 João 1.1. Uma página institucional escreve que a edição de 1693 foi a que Almeida "aprovou"; Fernandes e Scholz mostram que ela foi feita sem ele.

Que texto Almeida usou como base? A resposta curta é que ninguém sabe ao certo, e quem diz saber exagera. Ele mesmo diz que partiu do latim de Beza. Uma página institucional afirma que a base foi o Textus Receptus. O que a pesquisa mostra é que ainda faltam análises profundas e sistemáticas para decidir; que, segundo Herculano Alves, ele traduziu só indiretamente pelos originais, com forte dependência de uma Bíblia espanhola (a Biblia del Cántaro, 1602) e de versões italiana e francesa; e que não traduziu da Vulgata, ao contrário do que dizia um erudito do século XVIII, Barbosa Machado.

04 — O MITO"Almeida traduziu a Bíblia inteira"

Não traduziu. Almeida deixou completo o Novo Testamento e traduziu o Antigo até um ponto preciso, Ezequiel 48.21. A informação vem de Santos Ferreira (1906), que Fernandes cita, e de Scholz (2016). O versículo, na ACF, é este:

"E o que restou será para o príncipe; deste e do outro lado da oferta santa, e da possessão da cidade, diante das vinte e cinco mil canas da oferta, até ao termo do oriente e do ocidente, diante das vinte e cinco mil, até ao termo do ocidente, correspondente às porções, será para o príncipe; e a santa oferta e o santuário da casa estarão no meio dela." Ezequiel 48.21

Depois dali, a tradução do Antigo Testamento foi completada por um holandês, o ministro Jacobus op den Akker (1649–1731), que declarou ao consistório de Batávia, no fim de 1694, ter terminado os demais livros (segundo o viajante François Valentijn). Mas o manuscrito completo ficou guardado por décadas, e uma explicação é que o governo holandês não queria promover o português. Os luteranos dinamarqueses de Tranquebar, na Índia, publicaram partes: os Doze Profetas Menores em 1732 e os Quatro Profetas Maiores em 1751. Para não perder a honra, Batávia publicou o Antigo Testamento em dois tomos, em 1748 e 1753, "traduzidos por João Ferreira A. d'Almeida e Jacobo op den Akker". A Bíblia completa de Almeida em português só foi publicada mais de cinquenta anos depois da morte dele.

A primeira Bíblia completa de Almeida em um só volume saiu em Londres, em 1819, pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira. Fernandes observa que a folha de rosto dessa edição diz "traduzida em português pelo padre João Ferreira d'Almeida", sem mencionar Op den Akker nem Tranquebar. É provável que aí esteja a raiz do mito: a generalização levou até estudiosos a acreditarem que Almeida completara tudo. A Bíblia de Almeida também não traz os livros deuterocanônicos, o que explica por que ela é, em alguns pontos, diferente da católica.

Folha de rosto tipográfica da Bíblia Sagrada traduzida em português pelo padre João Ferreira d'Almeida, ministro pregador do Santo Evangelho em Batávia, Londres, R. e A. Taylor, 1819
A Biblia Sagrada, contendo o Novo e o Velho Testamento, traduzida em Portuguez pelo Padre João Ferreira d'Almeida — Londres, R. e A. Taylor (1819), folha de rosto; digitalização do Google Livros, via Wikimedia Commons. A folha não menciona a Sociedade Bíblica nem Op den Akker. Domínio público.

05 — A OUTRA BÍBLIA EM PORTUGUÊSFigueiredo, a Bíblia católica

Enquanto Almeida ficava no Oriente, a Bíblia católica em português nascia em Lisboa. O padre oratoriano Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797) traduziu a Escritura da Vulgata, com notas, prefácios e resumos. O Novo Testamento saiu em seis volumes, entre 1778 e 1781; o Antigo, a partir de 1782, até 1790, em 23 volumes ao todo. A obra passou pela Real Mesa Censória. O pesquisador Neves cita um parecer de censor que dizia não ser "muito conforme as regras da prudência pretender que o vulgo leia com crítica os livros sagrados", e supõe que o decreto de 1757 pode ter sido um incentivo para Figueiredo (é uma hipótese dele).

O que poucos sabem: as próprias sociedades bíblicas protestantes imprimiram Figueiredo, sem notas e sem prefácios, por ser a tradução portuguesa mais recente em circulação: a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira fez o Novo Testamento em 1818 e a Bíblia completa em 1821; a Sociedade Bíblica Americana, o Novo Testamento em 1839. Segundo Neves, isso aconteceu "não sem algumas disputas internas", porque era versão indireta, da Vulgata. As sociedades imprimiram as duas, Figueiredo e Almeida, e as mandaram ao Brasil. Foi Figueiredo o Novo Testamento que Kidder levou à Assembleia de São Paulo em 1839 (capítulo 5).

06 — AS SIGLASDe Almeida à ARA, da ACF à NVI

No Brasil, a Bíblia de Almeida foi sendo revista ao longo de dois séculos, e as siglas confundem muita gente. As datas abaixo vêm de páginas oficiais das sociedades e de estudos acadêmicos, e onde as fontes divergem o texto diz.

1898

ARC · Almeida Revista e Corrigida

Revisão pedida a partir do Rio e publicada em 1898 pelas sociedades britânica e americana. Quem revisou não está confirmado; o lugar também varia (Lisboa ou Londres, segundo as fontes).

1917

TB · Tradução Brasileira

A primeira Bíblia protestante inteira traduzida no Brasil, projeto da Sociedade Bíblica Americana, com consultores como Rui Barbosa; relançada pela SBB em 2011.

1959

ARA · Almeida Revista e Atualizada

Decidida em 1943, o Novo Testamento ficou pronto em 1951. Os revisores foram o luterano Paul Schelp e o metodista Antonio de Campos Gonçalves. A SBB data o lançamento de 1956; Scholz, de 1959.

1994

ACF · Almeida Corrigida Fiel

Bíblia completa da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, fundada em 1968. É uma entidade distinta da Sociedade Bíblica do Brasil.

2001

NVI · Nova Versão Internacional

Comissão reunida em 1990 pela Sociedade Bíblica Internacional; o prefácio é de março de 2001. Não é tradução da NIV inglesa.

2016

NVT · Nova Versão Transformadora

Projeto iniciado em 2010 pela Mundo Cristão, com a Tyndale House; primeira edição em outubro de 2016.

Ao lado dessas, a SBB publicou a Nova Almeida Atualizada (NAA, 2017) e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (2000), herdeira da Bíblia na Linguagem de Hoje (Novo Testamento em 1973, Bíblia em 1988), e a editora Vida Nova a Almeida Século 21 (2008). Entre as católicas estão a Bíblia de Jerusalém (Paulus, 1981), a Bíblia Pastoral (Paulus, 1990) e a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB, 1994), segundo a literatura.

👁️ Como era viver ali

Quem tinha uma Bíblia, no Brasil do século XIX, podia ter a de Figueiredo ou a de Almeida e não saber a diferença. Os preços ajudam a ver a distância entre as duas. Segundo Neves, que levantou os anúncios do Rio, a Bíblia protestante barata, de Figueiredo sem notas, impressa em Londres, custava 4$000; a Bíblia católica Garnier, de 1864, 30$000 em 1876 e 40$000 em 1885. Uma edição de Almeida chegou a ser anunciada, numa loja do Rio, a 2$560. A diferença não era só de doutrina, era de bolso.

🌱 Semente de sermão

"Entendes tu o que lês?" pergunta Filipe ao eunuco, e a resposta é: "Como poderei entender, se alguém não me ensinar?" At 8.30-31 Almeida traduziu para que alguém entendesse, e três séculos de tradutores depois dele ainda estão mexendo no texto para a mesma finalidade. Uma Bíblia que ninguém consegue ler é uma Bíblia fechada, mesmo aberta sobre a mesa.

LINHA DO TEMPOA Bíblia em português (1497–2017)

Datas de Fernandes, Scholz, Neves e das páginas oficiais das sociedades bíblicas. Onde há divergência, o texto diz.

1497
Os Evangelhos e Epístolas com suas exposições em romance, impressos no Porto: obra devocional com texto bíblico, não uma Bíblia.
1536 e 1546
Inquisição em Portugal; Trento (sessão IV) declara a Vulgata autêntica.
1551 e 1564
Rol português com a linha sobre a Escritura em língua vulgar; Índice de Pio IV, regra IV (licença por escrito).
1642
Almeida, aos 14 anos, entre Batávia e Malaca, lê o livrinho que o converte.
1668
Almeida publica Differença d'a Christandade em Batávia.
1681 e 1683
NT em Amsterdã; mil e seiscentos exemplares destruídos; errata e Advertência ao pio leitor.
agosto de 1691
Morre Almeida, tendo chegado a Ezequiel 48.21.
1693 e 1694
Segunda edição do NT em Batávia; Op den Akker completa o AT em manuscrito.
1748 e 1753
Batávia imprime o AT em dois tomos.
1757
Decreto aprovado por Bento XIV: versões vernáculas aprovadas ou com notas.
1778–1790
Figueiredo publica a Bíblia católica em português, a partir da Vulgata.
1819
Londres: primeira Bíblia completa de Almeida em um só volume.
1898 · 1917 · 1959
ARC; Tradução Brasileira; ARA (a SBB data o lançamento de 1956).
1994 · 2001 · 2016 · 2017
ACF completa; NVI; NVT; NAA.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🚢

1642, entre Batávia e Malaca

Um rapaz português de 14 anos lê um livrinho em castelhano e começa a traduzir.

📕

NT em 1681, AT em 1748–1753

O primeiro livro saiu com erros, e 1.600 exemplares foram destruídos. A Bíblia completa saiu mais de 50 anos depois da morte de Almeida.

✋

Parou em Ezequiel 48.21

Jacobus op den Akker completou o Antigo Testamento. "Almeida traduziu a Bíblia inteira" é mito.

⚖️

Roma mudou com o tempo

Trento (1546), o Índice (1564), o decreto de 1757, a encíclica de 1844, Pio XII (1943) e Dei Verbum (1965) dizem coisas diferentes sobre a Bíblia em língua do povo.

Próximo capítulo: enquanto Almeida e Figueiredo esperavam nas prateleiras da Europa, o Brasil continuava com as portas fechadas ao culto protestante. Elas se abrem uma fresta em 1808 e se abrem mais um pouco em 1810, com o Tratado de Strangford, e os primeiros protestantes a se instalar de novo no Brasil são ingleses e alemães.

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