Jerusalém, no tempo do rei Herodes. Uns estrangeiros chegam à cidade fazendo uma pergunta que ninguém esperava ouvir: "Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo" Mt 2.2. O texto os chama "magos" Mt 2.1, e diz que o rei Herodes, ouvindo isso, "perturbou-se, e toda Jerusalém com ele" Mt 2.3.
É o último encontro da Bíblia com o mundo que o Capítulo 2 descreveu, o dos magos persas. Entre a queda do império e esse dia passaram mais de três séculos. Este capítulo fecha o livro. Primeiro, o fim da Pérsia, nas mãos de Alexandre. Depois, a Pérsia no Novo Testamento: o que é certo, e o que é debate, sobre os magos. E, por fim, o que muda na sua leitura, com os versículos que o Império Persa explica e as curiosidades para levar.
01 — O FIMDe Dario III a Alexandre
O Império Persa durou pouco mais de dois séculos. Entre 336 e 330 a.C. reinou Dario III, o último rei da dinastia. Contra ele veio Alexandre, o rei da Macedônia, que atravessou o Helesponto em 334 a.C. e venceu três grandes batalhas: no rio Granico (334), em Issos (333) e em Gaugamela (331). Persépolis foi tomada em 330 a.C. e parte dos seus palácios foi destruída (Capítulo 10). Dario III fugiu para o leste e foi morto por um dos seus sátrapas, Bessus, ainda em 330 a.C. Era o fim da dinastia aquemênida, e o começo de outra era para os judeus, tema de outro livro desta série.
A Bíblia tinha uma imagem para isso. Daniel, na visão do carneiro, vê que "um bode vinha do ocidente sobre toda a terra, mas sem tocar no chão", que se dirige ao carneiro de dois chifres, e "ferindo-o quebrou-lhe os dois chifres, pois não havia força no carneiro para lhe resistir" Dn 8.5-7. O texto explica: "o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei" Dn 8.21. O grande chifre é quebrado e quatro outros sobem no lugar Dn 8.8. Na leitura comum, entre estudiosos de várias linhas, o primeiro rei é Alexandre, e os quatro chifres são os reinos em que o império dele se dividiu depois da sua morte. Daniel 11 repete a cena em outras palavras: "Depois se levantará um rei valente, que reinará com grande domínio... Mas, estando ele em pé, o seu reino será quebrado, e será repartido para os quatro ventos do céu" Dn 11.3-4.
Duas observações sobre o fim. A primeira: a Bíblia hebraica quase não fala dos últimos reis persas. Depois de Artaxerxes I, o texto não nomeia mais nenhum deles, a não ser pelo "Dario, o persa" de Neemias 12.22, que pode ser Dario II ou Dario III. O silêncio, aqui, é um dado: a Bíblia conta a Pérsia onde ela toca o povo de Deus, e deixa o resto de fora. A segunda: a Pérsia reaparece uma última vez, de forma indireta, nas profecias de Ezequiel. Em Ezequiel 38.5, os "persas" estão entre os aliados de Gogue, "príncipe e chefe de Meseque e de Tubal" Ez 38.1-5. A profecia de Gogue e Magogue tem sido lida de muitos modos ao longo dos séculos (como acontecimento histórico, como figura do fim dos tempos, ou as duas coisas), e este livro não escolhe entre eles. O que se vê é que, até na profecia, os persas são lembrados como guerreiros de escudo e capacete, os mesmos de Ezequiel 27.10, ainda antes de Ciro.
As moedas ajudam a contar o fim. Costuma-se observar que, depois de 330 a.C., o ouro que circulava nas terras do antigo império passa a ser o de Alexandre e dos seus sucessores, com a cabeça de Atena de capacete, como nos estáteres de ouro da Macedônia da época. O dárico de ouro, que Dario tinha feito o padrão do mundo, vai saindo de cena. É uma troca de imagem que acompanha a troca de poder: o arqueiro persa dá lugar à deusa grega.
02 — A PÉRSIA NO NOVO TESTAMENTOO que é certo, e o que é debate
Uma curiosidade: na ACF, a palavra "Pérsia" não aparece no Novo Testamento. Quando Lucas lista, em Atos 2.9, os visitantes de Jerusalém no Pentecostes, o que se lê é "Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia" At 2.9. Na época, a Pérsia era governada pelos partos, e os nomes "medos" e "elamitas" são nomes de regiões antigas. A vizinhança do velho império está ali, em forma de nomes de povo. E há o caso dos magos.
Mateus os apresenta sem pressa e sem número: "uns magos vieram do oriente" Mt 2.1. O texto não diz que eram três (essa conta vem dos três presentes, "ouro, incenso e mirra", Mt 2.11), nem que eram reis, nem dá nomes. Diz que acharam o menino "na casa", e não numa manjedoura, e que, "prostrando-se, o adoraram" Mt 2.11. Voltaram "por outro caminho" Mt 2.12, avisados num sonho.
"Magos" é, no grego de Mateus, mágoi (μάγοι), plural de mágos. A palavra vem do persa antigo maguš, o nome dos especialistas religiosos que vimos no Capítulo 2. Depois, em grego, passou a servir para qualquer tipo de sábio oriental, e também de feiticeiro. Em Atos aparece nos dois sentidos: o "mágico" Barjesus, também chamado Elimas, em Pafos At 13.6. Por isso a palavra, sozinha, não diz de onde eram os visitantes de Mateus. Note que o hebraico do Antigo Testamento não usa essa palavra: os "magos" do Egito, no Êxodo, e os de Daniel, na Babilônia, que a ACF chama assim, são outras profissões, com outras palavras em hebraico e aramaico. A palavra de Mateus é, por origem, persa.
De onde vinham? Há três respostas principais, e nenhuma é segura.
1. Da Pérsia, ou da Pártia. É a mais difundida. Como mágoi vem do nome dos sacerdotes iranianos, e a Pártia, que dominava o Irã no séc. I, era de cultura iraniana, muitos pensam em sacerdotes ou sábios de lá. Um texto apócrifo cristão tardio, o chamado Evangelho Árabe (ou Siríaco) da Infância, diz que eles seguiam uma profecia de Zoroastro. E a arte cristã mais antiga e a bizantina os vestem com roupa persa: calças e gorro frígio, como no mosaico de Ravena, de c. 565. Isso mostra como leitores antigos os imaginavam, e não prova de onde vinham.
2. Da Babilônia. O historiador Jona Lendering, em um texto sobre os magos, lembra que quem observava os astros na Mesopotâmia se chamava, em grego, "caldeus" ou "astrólogos", e que "mago" foi ficando a palavra para o sábio oriental em geral. Se foi assim com Mateus, os visitantes podiam ser astrólogos da Mesopotâmia.
3. Da Arábia. A leitura aponta para os presentes: "todos virão de Sabá; ouro e incenso trarão" Is 60.6, e os "reis de Sabá e de Seba oferecerão dons" Sl 72.10. Sabá fica no sul da Arábia. Os dois salmos e profecias, porém, falam de reis, e Mateus não.
E o que a tradição fez com eles? Por volta do ano 500, a tradição já os chamava de reis, por influência de salmos como o 72. Orígenes lia os presentes como símbolos: ouro para o rei, incenso para o que é Deus, mirra para o que é mortal (Contra Celso). O número três se fixou no Ocidente por causa dos três presentes, e os nomes que a tradição ocidental fixou aparecem em textos latinos do séc. VIII: o Excerpta Latina Barbari, traduzido de um original grego mais antigo, traz formas como Bithisarea, Melichior e Gathaspa. As tradições dos cristãos sírios dão aos magos outros nomes, de tipo persa (Larvandad, Gushnasaph e Hormisdas). Alguns estudiosos veem o relato como lenda ou como teologia, e outros, como memória histórica. Nada aqui é sustentado por fonte externa.
⚠️ O que o texto de Mateus afirma: uns magos do oriente, uma estrela, a pergunta em Jerusalém, a casa, a adoração, os presentes, o sonho, o outro caminho. O que a tradição acrescentou (três, reis, nomes, a viagem de camelo) vem depois e é rotulado como tradição.
Um último ponto. Em Ester, Mardoqueu "não se inclinava nem se prostrava" diante de Hamã Et 3.2. Em Mateus, uns sábios do oriente chegam a uma casa e, "prostrando-se, o adoraram" Mt 2.11. As duas cenas usam a mesma ideia, o gesto de quem se joga ao chão. Uma recusa, outra faz, e o que as separa é diante de quem. O leitor que viu o Capítulo 2 sabe que, para os persas, a prostração era etiqueta. Para Mateus, ela vira reconhecimento de um rei, e Herodes, que dizia querer ir adorá-lo Mt 2.8, é o único que mente com essa palavra.
"Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído" Dn 2.44. A Pérsia caiu, como caíram o Egito, a Assíria e a Babilônia, e a Bíblia não esconde isso: Daniel já o viu num carneiro de dois chifres quebrado por um bode. Os impérios mais bem organizados da história também acabam; o que a Escritura promete é um reino que não passa. Judeus e cristãos leem esse reino de modos diferentes, e a pergunta que fica serve para todos: em qual reino eu estou investindo?
03 — PASSAGENS QUE GANHAM SENTIDO NOVOOito versículos que você não vai ler igual
Tudo o que vimos serve para abrir o texto. Estes oito versículos ganham outra cor quando você conhece a Pérsia:
"Despertou o Senhor o espírito de Ciro" Ed 1.1
O mesmo verbo, ʿûr, "acordar", aparece para os medos, para Ciro, para o povo e para o governador. A volta do exílio é uma história de despertares.
"Dalém do rio" Ed 5.3
Os textos falam em "além do rio", a região que o império chamava de Abar-Nahara. Judá é uma província persa, e a Bíblia sabe disso.
"Rei dos reis" Ed 7.12
Uma tigela de prata atribuída a Artaxerxes I traz o título gravado em persa antigo (peça sem escavação, com autenticidade discutida). Os decretos de Esdras falam como a corte falava.
"A lei dos medos e dos persas" Dn 6.8
O edito do rei que prende o próprio rei, em Daniel e em Ester. A ideia aparece também num relato grego sobre Dario III.
"A floresta do rei" Ne 2.8
O hebraico diz pardēs, palavra persa para parque real. É a origem remota de "paraíso".
"Não se inclinava nem se prostrava" Et 3.2
Para os persas, a prostração era etiqueta de hierarquia, segundo muitos historiadores. O texto mostra Mardoqueu recusando, e os servos o entendem como desafio.
"Uns magos vieram do oriente" Mt 2.1
"Mago" é uma palavra persa para uma casta de sacerdotes. O texto não diz quantos eram, nem que eram reis.
"E suba" 2Cr 36.23
É a última palavra da Bíblia hebraica, na ordem em que Crônicas fica no fim. Termina com o convite de um rei persa para voltar para casa.
04 — O QUE A PÉRSIA DEIXOUEstrada, jardim, língua e uma Bíblia
O que a Pérsia deixou ao mundo é mais concreto do que parece. Deixou o modelo de um Estado grande governado por províncias, com impostos, estradas e correios; a moeda de ouro que Dario padronizou; o aramaico como língua de comunicação, de Elefantina à Báctria; e o parque real, o pardēs, que passou ao grego como paradeisos e daí ao nosso "paraíso". A religião de Aúra-Masda continuou, de forma transformada, em comunidades zoroastrianas que existem até hoje, como a dos parses, na Índia. E as ruínas de Persépolis são hoje um sítio protegido da UNESCO.
Para a Bíblia, o legado é mais discreto, e mais profundo. A Pérsia é o pano de fundo de uma parte grande do Antigo Testamento tardio: Esdras, Neemias, Ester, Ageu, Zacarias e a ambientação de partes de Daniel. A volta do exílio e a reconstrução do templo acontecem por ordem persa. O povo que sai desse período já se chama "judeus", a lei é lida em voz alta numa praça Ne 8.1-3, e o aramaico faz parte da língua dos seus livros. E o último versículo da Bíblia hebraica, na ordem judaica dos livros, é o convite de um rei persa. Não é pouca coisa que um império que não era de Israel tenha aberto a porta.
Isso muda a leitura. A Bíblia não trata a Pérsia como o Egito, que é o inimigo que esmaga, nem como a Babilônia, que é o inimigo que destrói. A Pérsia é a Pérsia que manda voltar, e que depois cobra impostos, escuta cartas de acusação, nomeia governadores e deixa uma província frágil. É um império comum, nem herói nem vilão, e a Bíblia mostra Deus agindo por dentro dele, sem esconder o que ele é.
VOCÊ SABIA?Curiosidades sobre a Pérsia na Bíblia
Quatro reis com nome
Ciro, Dario, Assuero e Artaxerxes. Cambises, filho de Ciro, e a maioria dos outros reis persas não aparecem.
Persépolis não existe na Bíblia
A cidade mais famosa do império persa nunca é citada. A capital bíblica é Susã.
O único "ungido" estrangeiro
Costuma-se dizer que Ciro é o único não israelita a quem a Bíblia hebraica chama de māšîaḥ Is 45.1.
Oito "despertares"
O verbo ʿûr aparece, entre outros, em Isaías 13.17; 41.2; 41.25; 45.13; Jeremias 51.11; Esdras 1.1 e 1.5; e Ageu 1.14, na maioria das leituras ligado aos medos, a Ciro ou ao retorno.
Aramaico no meio do hebraico
Esdras 4.8–6.18 e 7.12-26, Daniel 2.4–7.28, uma frase de Jeremias Jr 10.11 e duas palavras de Labão em Gênesis 31.47.
O dárico em Esdras
Esdras 8.27 usa ʼădarkōnîm, a moeda de ouro persa, que a ACF traduz "dracmas".
Ester sem Deus
O nome de Deus não aparece em Ester. A tradição judaica lê isso como providência escondida.
Judeus no Egito, sob a Pérsia
Uma colônia de soldados em Elefantina tinha um templo de Yahu e pediu ao governador de Judá, em 407 a.C., licença para reconstruí-lo.
PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos-chave
PARA FIXARO que ficou do capítulo
O fim
Alexandre vence em Granico (334), Issos (333) e Gaugamela (331); Persépolis cai em 330. Daniel vê um bode que quebra os dois chifres do carneiro.
Os magos
A palavra é persa. O texto não diz quantos eram nem de onde. Persas, babilônios ou árabes: três hipóteses, nenhuma segura.
O legado
Estradas, moeda, aramaico, parque real e o cenário de metade do Antigo Testamento tardio.
Um império comum
Nem Egito nem Babilônia: a Pérsia manda voltar e depois cobra imposto. E Deus age por dentro.
Fim do livro. Os outros volumes da série Povos e Mundos da Bíblia contam, do mesmo modo, os impérios e povos que cruzaram a Bíblia, e a história segue com Alexandre e a Macedônia.
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