Os PersasCapítulo 3 de 11 ⤓ PDF
Ciro devolve os utensílios do templo aos judeus; gravura de Gustave Doré
CAPÍTULO 3 DE 11

Ciro, o ungido

Isaías, o Cilindro e o fim do exílio

As portas da Babilônia se abrem sem batalha, como o profeta tinha dito. Este capítulo fica na virada do exílio: o rei chamado de "ungido", o cilindro em que ele mesmo conta a conquista e o decreto de Esdras 1, com o que cada documento prova e o que não prova.

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Portas. Uma cidade com muralhas enormes, e portas que um rei não precisou arrombar. Era o que o profeta tinha dito:"para abrir diante dele as portas, e as portas não se fecharão" Is 45.1. Quando o exército de Ciro entrou na Babilônia, em outubro de 539 a.C., a Crônica de Nabonido anota, seca, que a entrada se deu sem batalha.

É a cena em que o povo de Deus deixa de ser prisioneiro do império que o levou. Este capítulo fica ali, na virada: o profeta que dá nome a Ciro, o cilindro de argila em que o próprio rei conta a conquista, o decreto de Esdras 1 e a pergunta mais séria de todas, o que cada documento prova e o que não prova.

01 — O NOME NO TEXTO"Chamei-te pelo teu nome"

Poucas passagens da Bíblia chamam um rei estrangeiro pelo nome de modo tão direto. Isaías cita Ciro duas vezes, e as duas são extraordinárias:

"Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado." Isaías 44.28
"Assim diz o SENHOR ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações diante de sua face, e descingir os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas, e as portas não se fecharão." Isaías 45.1

Mais adiante o texto volta ao assunto, com uma frase que muita gente lê devagar: "Eu te chamei pelo teu nome, pus o teu sobrenome, ainda que não me conhecesses" Is 45.4. O rei que vai libertar o povo de Deus não é um fiel. O Senhor o escolhe por amor a Jacó, "por amor de meu servo Jacó, e de Israel, meu eleito", e não por mérito de Ciro.

🔎 A palavra original

Três palavras merecem um olhar. "Pastor" é rōʿî (רֹעִי), "meu pastor", título que a Bíblia usa para Deus e para os líderes do povo, aplicado aqui a um estrangeiro. "Ungido" é māšîaḥ (מָשִׁיחַ), literalmente "o que recebeu óleo", palavra usada para reis e sacerdotes de Israel. Costuma-se dizer que Ciro é o único não israelita a quem a Bíblia hebraica dá esse título. E aqui ele não tem o sentido de "o Messias" que esperamos em Jesus: é um rei escolhido para uma tarefa. Por fim, "pus o teu sobrenome" traduz o verbo kānāh (כָּנָה), "dar um título honroso". Deus lhe dá um título, e Ciro, diz o texto, "não me conhecias" (lōʾ yᵉdaʿtānî).

E o verbo da escolha é o mesmo do Capítulo 1: ʿûr, "despertar". Em Isaías 41.2 e 41.25 Deus diz que "suscitou" alguém do oriente e do norte; em Isaías 45.13, "Eu o despertei em justiça"; em Esdras 1.1, "despertou o SENHOR o espírito de Ciro". E em Esdras 1.5 o mesmo verbo volta para o povo: os que sobem são "todos aqueles cujo espírito Deus despertou". Deus desperta o rei e desperta o povo. Guarde isso para a "Semente de sermão".

Aqui o leitor encontra um ponto sobre o qual há mais de uma posição, e é bom conhecê-las antes de seguir. A leitura tradicional, das tradições judaica e cristã por séculos, vê o livro todo como obra do profeta Isaías, do séc. VIII a.C., e entende o nome de Ciro como profecia dada com mais de um século de antecedência. O historiador judeu Josefo, no séc. I d.C., conta que Ciro soube disso: "leu o livro que Isaías deixou" e quis cumprir o que estava escrito (Antiguidades Judaicas XI, 1, 2, tradução minha, em resumo). A leitura crítica, que nasceu no séc. XVIII (Döderlein, 1775) e ganhou forma com Bernhard Duhm, atribui os capítulos 40–55 a um profeta anônimo que escrevia no exílio, entre c. 550 e 539 a.C., quando Ciro já subia. Os argumentos: o texto pressupõe Jerusalém já destruída, o nome de Isaías some depois do capítulo 39 e o estilo muda. Há ainda leituras que cuidam da unidade do livro, vendo nele uma meditação única sobre o destino de Jerusalém, sem decidir sobre autoria.

⚠️ Essa é uma discussão de séculos, e este livro não a resolve. O que se pode dizer com segurança é que o Grande Rolo de Isaías, de c. 150–100 a.C., achado entre os Manuscritos do Mar Morto, traz quase o livro inteiro e é substancialmente igual ao texto que lemos hoje. Ele mostra que a passagem já estava ali no séc. II a.C., e não resolve quando ela foi composta.

02 — O CILINDROO que o próprio Ciro mandou escrever

🏺 O que a pá encontrou

Em março de 1879, o arqueólogo Hormuzd Rassam, trabalhando para o Museu Britânico, achou em Babilônia um cilindro de argila cozida, com uns 22 cm de comprimento, coberto de escrita cuneiforme em acádio. Rassam deu relatos diferentes sobre o ponto exato do achado. A peça estava quebrada desde a antiguidade, e um fragmento, que estava em Yale, só foi identificado como parte dele nos anos 1970. Hoje é o Cilindro de Ciro, no Museu Britânico (BM 90920), datado de depois da conquista de 539 a.C. O que ele diz, em resumo:

(1) O rei Nabonido, da Babilônia, teria desprezado Marduk, o deus principal da cidade, e oprimido o povo. (2) Marduk procurou por toda parte um príncipe justo. Nas palavras do texto, ele "o tomou pela mão" e chamou Ciro, rei de Anshan, "pelo nome" (linha 12, tradução minha). (3) Ciro entrou na Babilônia sem batalha, e o povo o recebeu bem. (4) O rei se apresenta com títulos babilônicos ("rei do mundo, rei da Babilônia, rei de Sumer e Acad") e diz ser filho de Cambises e descendente de Teispes. (5) Em seguida vem a passagem que mais interessa a quem lê Esdras: de uma lista de cidades que incluem Assur, Susa, Acade, Esnuna e outras do outro lado do Tigre, ele diz, nas palavras do texto, que "os deuses que moravam neles" foram reconduzidos aos seus lugares, e que "todos os seus habitantes" foram reunidos e devolvidos às suas moradas (linhas 30–32, tradução minha).

Repare no vocabulário do item 2. Marduk "toma pela mão" e "chama pelo nome". Isaías diz do Senhor: "a quem tomo pela mão direita" e "chamei-te pelo teu nome". As duas linguagens descrevem a mesma coisa: um deus que escolhe um rei. Isso mostra que o discurso da escolha divina era corrente na época. Não prova que um texto dependa do outro.

Aqui é essencial ser exato sobre o que o Cilindro prova e o que não prova.

O que ele prova. Que Ciro, ao conquistar a Babilônia, apresentou-se como protegido do deus local e como restaurador de santuários e de povos deslocados. Que isso era uma política concreta, ao menos na Mesopotâmia: devolver imagens de deuses aos seus templos e pessoas às suas terras. E que ela se parece com o que Esdras 1 conta de Judá, o que torna o relato bíblico historicamente plausível. Um decreto que mandasse reconstruir um santuário e devolver os utensílios do culto não seria uma novidade absurda: seria o tipo de gesto que o próprio Ciro dizia fazer.

O que ele não prova. O Cilindro não cita os judeus, Jerusalém, o Senhor, um templo ou qualquer decreto parecido com o de Esdras. A lista de cidades é toda da Mesopotâmia e das terras a leste do Tigre. Por isso, historiadores como Amélie Kuhrt, Bob Becking e Lester Grabbe lembram que a política de Ciro seguia a de reis assírios e babilônios antes dele e que o texto fala dos deuses e dos povos daquelas cidades. Dizer que o Cilindro "confirma" Esdras 1 vai além do que ele diz.

E há um terceiro aviso, sobre uma fama moderna. Nos anos 1960 e 1970, o último xá do Irã apresentou o Cilindro como a "primeira carta de direitos humanos". Uma réplica foi dada à ONU e continua lá. A maioria dos historiadores considera essa leitura anacrônica: o texto é uma peça de legitimação do rei, no estilo das inscrições de fundação da Mesopotâmia, e não uma declaração de direitos. Circulou também uma falsa "tradução" que atribui ao Cilindro a abolição da escravidão, coisa que o texto não diz.

03 — O DECRETODuas versões, uma pergunta

A Bíblia guardou o decreto de Ciro duas vezes, e as duas são diferentes. A primeira abre o livro de Esdras. É uma proclamação em hebraico, feita "por todo o seu reino, como também por escrito" Ed 1.1:

"Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá. Quem há entre vós, de todo o seu povo, seja seu Deus com ele, e suba a Jerusalém, que está em Judá, e edifique a casa do Senhor Deus de Israel (ele é o Deus) que está em Jerusalém." Esdras 1.2-3

O mesmo texto, quase igual, termina o livro de 2 Crônicas 2Cr 36.22-23. E a ordem dos livros na Bíblia hebraica faz disso algo notável: Crônicas é o último livro da Bíblia dos judeus, e a última palavra dele é "e suba". A história inteira termina com um convite para voltar para casa.

A segunda versão aparece em Esdras 6, e é de outro tipo. Quando os vizinhos questionam a obra, o rei Dario manda procurar o decreto de Ciro nos arquivos. Acham-no em Acmeta, na Média Ed 6.2, e ele vem em aramaico, a língua da chancelaria, como um memorial, quase uma nota de arquivo:

"No primeiro ano do rei Ciro, este baixou o seguinte decreto: A casa de Deus, em Jerusalém, se reedificará para lugar em que se ofereçam sacrifícios, e seus fundamentos serão firmes; a sua altura de sessenta côvados, e a sua largura de sessenta côvados; Com três carreiras de grandes pedras, e uma carreira de madeira nova; e a despesa se fará da casa do rei." Esdras 6.3-4

A diferença é grande. A primeira versão é uma proclamação religiosa, no estilo hebraico, com Deus falando por Ciro. A segunda é um documento burocrático: medidas, material, quem paga, e a devolução dos utensílios Ed 6.5. É assim que um escritório real registraria uma ordem. Há quem explique a diferença assim: uma seria a proclamação lida em voz alta aos judeus, e a outra, o registro interno da chancelaria, dois documentos de natureza diferente sobre a mesma ordem.

A discussão sobre sua autenticidade é real. Alguns pesquisadores, como Lester Grabbe, acham que os documentos persas de Esdras podem ter uma base genuína, mas foram retrabalhados por autores de épocas posteriores. Outros, como H. G. M. Williamson e Richard Steiner, tratam os documentos como composições autênticas do período persa. Entre os dois grupos fica a observação prática de que o Cilindro mostra a política, não o texto. A confirmação direta do decreto de Esdras 1 não existe fora da Bíblia.

Resta a pergunta que qualquer leitor faz: como o Ciro do Cilindro, que atribui tudo a Marduk, pode ser o Ciro de Esdras, que fala do "Senhor Deus dos céus"? Há pelo menos duas hipóteses razoáveis. A primeira é que a chancelaria persa escrevia para cada povo na língua religiosa dele, como o próprio Cilindro faz com os babilônios. A segunda é que o texto de Esdras foi redigido por judeus, a partir de uma ordem real, com a voz de Ciro. Em nenhum dos dois casos a Bíblia afirma que Ciro se converteu: o que ela diz é que um Deus que ele não conhecia o moveu Is 45.4.

👁️ Como era viver ali

Os judeus que estavam na Babilônia não viviam, em geral, numa prisão. Cerca de duzentas tabuinhas de argila, as tabuinhas de Al-Yahudu ("a cidade de Judá"), mostram uma comunidade de deportados em povoados do sul da Mesopotâmia, entre 572 e 477 a.C. (a maior parte do período persa, sobretudo do tempo de Dario I). São contratos de gente comum: arrendamento de terras, em troca de serviço, onde se plantavam tâmaras e cevada. Os nomes têm o "Yahu" do Deus de Israel por dentro. A condição era de gente humilde, mas integrada à economia do lugar. Isso ajuda a entender uma coisa que a Bíblia sugere e Josefo diz: quando o decreto saiu, nem todos subiram. Muitos estavam enraizados ali.

04 — OS SETENTA ANOSUma conta que depende de onde se começa

Esdras diz que o decreto veio "para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias" Ed 1.1. Jeremias tinha falado em setenta anos duas vezes: "estas nações servirão ao rei de babilônia setenta anos" Jr 25.11 e "passados setenta anos em babilônia, vos visitarei" Jr 29.10. A pergunta é: de quando a quando?

Há duas contagens principais. Na primeira, os setenta anos vão de c. 605 a.C., quando Nabucodonosor assume o poder e leva a primeira leva de deportados, até 539–538 a.C., quando Ciro derruba a Babilônia e emite o decreto. Na segunda, vão de 586 a.C., destruição do templo, até c. 516–515 a.C., quando o templo reconstruído é terminado (Capítulo 6). Cada contagem conta o mesmo número a partir de um evento diferente, e as duas têm defensores. Alguns leitores preferem ainda ver "setenta" como número redondo de um período longo. A Bíblia não escolhe, e este livro também não.

🌱 Semente de sermão

Deus "despertou" duas vezes. Primeiro o espírito do rei Ed 1.1. Depois o espírito do povo: "todos aqueles cujo espírito Deus despertou, para subirem a edificar a casa do Senhor" Ed 1.5. O decreto de um rei abriu a porta, mas porta aberta não leva ninguém a andar. Muitos ficaram. Uma providência pode abrir o caminho; só um despertar interior faz alguém se levantar e ir. A pergunta que Esdras deixa não é "o caminho está aberto?", e sim "meu espírito foi despertado para subir?".

PARA FIXARO que ficou do capítulo

📛

O nome, o pastor, o ungido

Isaías chama Ciro de "meu pastor" e "meu ungido" Is 44.28 Is 45.1, "ainda que não me conhecesses". Quando o livro foi escrito é discussão antiga.

🏺

O Cilindro de Ciro

Prova uma política: deuses e povos devolvidos em cidades da Mesopotâmia. Não cita judeus, Jerusalém nem o Senhor, e não é uma "carta de direitos humanos".

📜

Duas versões do decreto

Uma proclamação em hebraico (Ed 1) e um memorial em aramaico (Ed 6). Os dois são tratados como genuínos por uns e retrabalhados por outros.

⏳

Setenta anos, duas contas

De 605 a 539 ou de 586 a 516. A Bíblia não escolhe, e muitos ficaram na Babilônia mesmo com a porta aberta.

Próximo capítulo: Daniel entre medos e persas, a cova dos leões, o debate sobre "Dario, o medo" e as visões em que o carneiro de dois chifres é a Pérsia.

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