Os PersasCapítulo 5 de 11 ⤓ PDF
A reconstrução do templo de Jerusalém, com operários e um sacerdote orando sobre uma pedra; gravura de Gustave Doré
CAPÍTULO 5 DE 11

A volta e o templo parado

Sesbazar, Zorobabel e uma obra que esbarrou nos vizinhos

Os alicerces do templo acabam de ser lançados, e ninguém distingue o choro da alegria. Este capítulo conta quem voltou, o altar levantado antes do templo, os vizinhos recusados e as cartas que fizeram a obra parar.

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O som é estranho. Ninguém consegue dizer se é riso ou choro. Os alicerces do templo acabaram de ser lançados, os sacerdotes estão de trombeta na mão e os levitas, de címbalos, e o povo grita de alegria. Mas ali perto, "muitos dos sacerdotes, e levitas e chefes dos pais, já idosos, que viram a primeira casa, choraram em altas vozes" Ed 3.12.

Ponha a câmera no ombro de um desses velhos. Ele viu o templo de Salomão, ou conheceu quem viu, e agora olha para uma linha de pedras no chão. O texto diz que "não discernia o povo as vozes do júbilo de alegria das vozes do choro do povo" Ed 3.13. É a cena mais humana do livro de Esdras, e este capítulo conta o que levou até ali e o que veio depois: quem voltou, o altar levantado antes do templo, os alicerces, os vizinhos que quiseram ajudar e foram recusados, e as cartas que pararam a obra.

01 — O DECRETO VIRA ESTRADAQuem subiu, e quantos

O decreto de Ciro Ed 1.1-4 ainda era papel. Para virar caminho, era preciso gente. E o texto diz como a coisa começou: "Então se levantaram os chefes dos pais de Judá e Benjamim, e os sacerdotes e os levitas, com todos aqueles cujo espírito Deus despertou, para subirem a edificar a casa do Senhor" Ed 1.5. Os vizinhos ajudaram com prata, ouro e gado Ed 1.6. E o próprio Ciro entregou os utensílios do templo que Nabucodonosor levara: "pela mão de Mitredate, o tesoureiro, que os entregou contados a Sesbazar, príncipe de Judá" Ed 1.8.

Esse nome, Sesbazar, aparece pouco e levanta perguntas. Ele é chamado "príncipe de Judá" Ed 1.8 e depois "governador" Ed 5.14; recebe os utensílios, e uma carta posterior diz que foi ele quem "pôs os fundamentos da casa de Deus" Ed 5.16. Mas, quando a obra de fato começa, quem aparece à frente são Zorobabel, filho de Sealtiel, e o sacerdote Jesuá, filho de Jozadaque Ed 3.2, Ed 3.8. Quem era quem? Os estudiosos propõem três saídas. Uma, que os dois nomes são da mesma pessoa. Outra, que Sesbazar é, na verdade, Senazar, um tio de Zorobabel (1Cr 3.18). Outra, ainda, que Sesbazar começou a obra e Zorobabel a continuou. O texto não decide, e vale guardar as três.

🔎 A palavra original

Duas palavras de Esdras 1–2 mostram a Pérsia por dentro. A primeira: "Estes são os filhos da província, que subiram do cativeiro" Ed 2.1. "Província" é mᵉdînāh (מְדִינָה), a mesma palavra das "cento e vinte e sete províncias" de Ester. Judá é uma unidade administrativa do império, com nome oficial, e a Bíblia a chama assim. A segunda: depois da lista, um problema sobre quem pode comer das ofertas sagradas é resolvido por hat-tirshāthāʼ (הַתִּרְשָׁתָא), que a ACF traduz "o governador" Ed 2.63. Tirshāthāʼ é um título persa dado ao governador, provavelmente de uma palavra de sentido honorífico. O título aparece em Esdras e Neemias, e só nesses livros.

Segue a lista dos que voltaram, que ocupa o capítulo 2. Chegou-se a um total de "quarenta e dois mil trezentos e sessenta", fora servos e cantores Ed 2.64-65. A lista aparece quase igual em Neemias 7, onde Neemias a descreve como "o livro da genealogia dos que subiram primeiro" Ne 7.5.

🏺 O que a pá encontrou

O número desperta uma pergunta, porque os arqueólogos fazem outra conta. Pelas escavações e levantamentos de superfície, as estimativas para toda a província persa de Yehud (Judá) ficam em torno de 12 mil habitantes, na visão mais baixa (Finkelstein), a uns 30 mil, na mais alta (Lipschits); os totais mudam também conforme o território que cada autor inclui na província. Para Jerusalém, as estimativas vão de poucas centenas a algumas milhares de pessoas. O quadro é o de uma província pequena, onde o templo e a vida da cidade giravam em torno de poucos milhares de moradores. Os números não batem com 42 mil voltando.

⚠️ Há várias formas de entender isso, e este livro não escolhe. (a) A lista seria um resumo de levas que voltaram ao longo de décadas, e não de uma só viagem. (b) Seria o censo da população de Judá em uma data posterior, como alguns propõem a partir de Neemias 7. (c) O número teria valor simbólico ou arredondado. (d) A arqueologia ainda estima mal as populações antigas. O que se pode dizer é que a Bíblia e a pá não dão o mesmo total, e que as estimativas dos arqueólogos variam bastante entre si.

02 — O ALTAR PRIMEIROSacrifícios antes de paredes

A primeira coisa que Zorobabel e Jesuá fazem em Jerusalém não é o templo. É o altar. "E firmaram o altar sobre as suas bases, porque o terror estava sobre eles, por causa dos povos das terras; e ofereceram sobre ele holocaustos ao Senhor, holocaustos pela manhã e à tarde" Ed 3.3. Note a razão que o texto dá: o medo dos povos da terra. No sétimo mês celebram a festa dos tabernáculos Ed 3.4. E o texto diz, com precisão de contabilista: "Desde o primeiro dia do sétimo mês começaram a oferecer holocaustos ao SENHOR; porém ainda não estavam postos os fundamentos do templo do SENHOR" Ed 3.6.

Em seguida vem o dinheiro: pagam pedreiros e carpinteiros, e dão comida, bebida e azeite aos sidônios e aos tírios, "para trazerem do Líbano madeira de cedro ao mar, para Jope, segundo a concessão que lhes tinha feito Ciro, rei da Pérsia" Ed 3.7. O quadro lembra o tempo de Salomão, quando Hirão de Tiro mandou o cedro (1Rs 5; 2Cr 2.16), e muitos comentaristas notam o paralelo: de novo o cedro do Líbano, de novo o mar até Jope, agora com a permissão de um rei persa. A palavra "concessão" confirma o ponto prático: o império podia autorizar, e o império podia tolher.

03 — OS ALICERCESChoro e alegria no mesmo som

No segundo ano da chegada, no segundo mês, a obra começa. Os levitas de vinte anos para cima dirigem os trabalhos Ed 3.8. Quando os alicerces estão postos, vem a cerimônia que abre este capítulo: sacerdotes com trombetas e levitas com címbalos louvam "conforme à instituição de Davi, rei de Israel" Ed 3.10. Cantam um refrão conhecido dos salmos, como o 136: "porque é bom; porque a sua benignidade dura para sempre sobre Israel" Ed 3.11.

"Porém muitos dos sacerdotes, e levitas e chefes dos pais, já idosos, que viram a primeira casa, choraram em altas vozes quando à sua vista foram lançados os fundamentos desta casa; mas muitos levantaram as vozes com júbilo e com alegria." Esdras 3.12

É preciso notar o que o texto não faz. Não condena os que choram nem diz que estavam errados em lembrar. O choro e a festa convivem, e o autor registra os dois no mesmo versículo e os mistura no seguinte. Mais tarde o profeta Ageu vai pegar exatamente esse sentimento dos velhos e dar uma resposta de Deus a ele (Capítulo 6).

👁️ Como era viver ali

Pense em quem voltou. Ou nasceu em Babilônia e conhecia Jerusalém só de ouvir contar, ou saiu criança, ou era um dos velhos que viram o templo antigo queimar. O texto diz que cada um voltou "para a sua cidade" Ed 2.1, isto é, para povoados espalhados por Judá e Benjamim, e Jerusalém era um conjunto de ruínas. Tudo indica que os recursos eram poucos, o império cobrava tributo e os vizinhos eram hostis Ed 4.4. Nesse cenário, levantar um altar, celebrar a festa das cabanas e lançar alicerces tinha o peso de uma decisão de vida. Quem chorava talvez soubesse melhor do que os outros o tamanho do que faltava.

🌱 Semente de sermão

Choro e júbilo, no mesmo som. A Bíblia não obriga ninguém a escolher um dos dois. Quem chorou viu a perda; quem exultou viu a promessa. Uma obra de Deus costuma despertar as duas respostas ao mesmo tempo, e as duas vêm de gente que ama o lugar. Quem lidera precisa saber distinguir quando o choro de alguns é falta de fé e quando é memória que ainda dói. Em Esdras 3, o texto não corrige nenhum dos dois.

04 — OS VIZINHOS"Deixai-nos edificar convosco"

A notícia chega aos ouvidos de quem morava na região. Eles são chamados de "adversários de Judá e Benjamim" Ed 4.1, e vêm com uma proposta que soa amistosa:

"Chegaram-se a Zorobabel e aos chefes dos pais, e disseram-lhes: Deixai-nos edificar convosco, porque, como vós, buscaremos a vosso Deus; como também já lhe sacrificamos desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria, que nos fez subir aqui." Esdras 4.2

A recusa é seca: "Não convém que nós e vós edifiquemos casa a nosso Deus; mas nós sozinhos a edificaremos ao Senhor Deus de Israel, como nos ordenou o rei Ciro, rei da Pérsia" Ed 4.3. Duas coisas valem ser notadas. Primeira: o texto diz que esses povos tinham vindo na época da Assíria. É uma referência aos deslocamentos de povos que o império assírio fazia, como o que 2 Reis 17.24 conta, quando o rei da Assíria "trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e Sefarvaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria". Segunda: a razão da recusa é o decreto de Ciro. Eles dizem que a ordem para construir era de Judá, e que não podem dividi-la.

Aqui é preciso cuidado, porque o episódio é lido de formas diferentes. Os samaritanos, que hoje são uma comunidade pequena, se veem como descendentes de israelitas do norte que nunca deixaram a terra, e contam a história de outro jeito. Uma tradição antiga, judaica e cristã, os associa aos povos trazidos pela Assíria. Historiadores debatem a origem dos samaritanos e a data da separação entre os dois grupos, e a data não se fixa nessa cena de Esdras. O que o texto bíblico diz é que a oferta foi recusada e que a recusa teve custo: "o povo da terra debilitava as mãos do povo de Judá, e inquietava-os no edificar" Ed 4.4.

E a oposição não ficou na intimidação. Eles "alugaram contra eles conselheiros, para frustrarem o seu plano, todos os dias de Ciro, rei da Pérsia, até ao reinado de Dario" Ed 4.5. Alugar conselheiros, no mundo persa, sugere gente com acesso à corte: quem chegava ao ouvido do governador, ou do rei, ou aos arquivos, podia moldar a política.

05 — AS CARTAS"Escreveram uma acusação"

Depois de falar da oposição de Ciro a Dario, o texto faz algo que confunde a ordem dos fatos: dá exemplos de oposição em reinados posteriores. "No reinado de Assuero, no princípio do seu reinado, escreveram uma acusação contra os habitantes de Judá e de Jerusalém" Ed 4.6. Depois vem outra carta, no tempo de Artaxerxes, escrita por Reum e Sinsai e assinada por um grupo de povos do entorno: "dinaítas, afarsaquitas, tarpelitas, afarsitas, arquevitas, babilônios, susanquitas, deavitas, elamitas" Ed 4.9.

A ordem estranha tem explicação. Assuero (Xerxes, 486–465 a.C.) e Artaxerxes I (465–424) reinaram depois de Dario, mas o texto os coloca antes de Dario porque está agrupando a oposição por tema, e não por data. O verso 24 retoma a linha do tempo: "Então cessou a obra da casa de Deus... e cessou até ao ano segundo do reinado de Dario, rei da Pérsia" Ed 4.24. A leitura comum é que o autor usa as cartas posteriores como exemplo do que a hostilidade era capaz de fazer, e depois volta ao fio.

🔎 A palavra original

A "acusação" contra Judá em Esdras 4.6 é, em hebraico, śiṭnāh (שִׂטְנָה), uma palavra que, como substantivo comum, só aparece aí na Bíblia hebraica (em Gênesis 26.21 ela é o nome de um poço, Sitna). Ela vem da mesma raiz que dá "Satanás", śāṭān: śāṭan, "acusar, atacar, ser adversário". Em Esdras, é só uma carta de acusação política, e a palavra não fala de um ser sobrenatural. Mas é interessante ver que "acusar" é o sentido original da raiz de onde sai o nome "o adversário".

Outra marca da Pérsia: a carta a Artaxerxes "estava escrita em caracteres siríacos, e na língua siríaca" Ed 4.7. Na ACF, "siríaco" traduz o aramaico (ʼărāmît), a língua da chancelaria do império. E a partir de Esdras 4.8, o livro muda de língua: o texto passa do hebraico para o aramaico e fica nele até 6.18. A parte em aramaico reúne as cartas e os decretos persas, o que combina com o fato de o aramaico ser a língua da administração do império.

O conteúdo da acusação é revelador. Reum, "o chanceler", e Sinsai, "o escrivão" Ed 4.8, escrevem ao rei que os judeus "reedificam aquela rebelde e malvada cidade, e vão restaurando os seus muros" Ed 4.12, e que, se ela for reconstruída, "eles não pagarão os direitos, os tributos e os pedágios; e assim se danificará a fazenda dos reis" Ed 4.13. A acusação não fala de religião. Fala de imposto e de rebelião, as duas coisas que mais assustavam o Estado. O rei manda procurar nos arquivos, acha que a cidade tem história de rebeliões e de reis poderosos que dominaram a região Ed 4.19-20 e ordena: "dai ordem para impedirdes aqueles homens, a fim de que não se edifique aquela cidade, até que eu dê uma ordem" Ed 4.21. A resposta é pronta: "apressadamente foram eles a Jerusalém, aos judeus, e os impediram à força e com violência" Ed 4.23.

Muitos estudiosos ligam essa ordem sobre os muros à situação que Neemias vai encontrar décadas depois, "o muro de Jerusalém fendido e as suas portas queimadas a fogo" Ne 1.3. É uma conexão plausível, mas o texto não a faz de modo explícito. A Bíblia mostra o fio e deixa o leitor puxá-lo.

Quanto à cena, vale lembrar o que isso diz sobre o império. Ela mostra um sistema em que a petição e a resposta correm pela burocracia, com cópia, leitura pública, busca nos arquivos e ordem escrita. Os arquivos persas existiram de verdade: milhares de tabuinhas administrativas foram achadas em Persépolis (Capítulo 10). Em Esdras, a Pérsia aparece como um país de papéis.

🌱 Semente de sermão

A obra parou, e a Bíblia diz quanto: "cessou até ao ano segundo do reinado de Dario" Ed 4.24. Foram vários anos de canteiro parado. Mas o verbo "cessou" tem prazo. O texto não diz "acabou", diz "até". O tempo de uma obra parada não é a última palavra sobre ela. A obra que parou numa carta recomeçou, no versículo seguinte, com a voz de dois profetas Ed 5.1.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

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Quem subiu

Os que Deus "despertou" Ed 1.5, com Sesbazar, Zorobabel e Jesuá. Os 42.360 de Esdras 2 não batem com as estimativas arqueológicas, e há várias leituras possíveis.

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O altar primeiro

Antes dos alicerces, o altar, por medo dos povos da terra Ed 3.3. O cedro vem de Tiro e Sidom, com concessão de Ciro.

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Choro e júbilo

Os velhos que viram a primeira casa choram; outros gritam de alegria; ninguém distingue o som Ed 3.12-13.

✉️

As cartas

A oferta de ajuda é recusada, e a oposição escreve ao rei. A acusação fala de tributo e de rebelião. A obra cessa "até ao ano segundo de Dario".

Próximo capítulo: Dario, o rei que manda procurar o decreto nos arquivos, e os dois profetas, Ageu e Zacarias, que põem a obra de volta em marcha.

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