"Porventura é para vós tempo de habitardes nas vossas casas forradas, enquanto esta casa fica deserta?" A pergunta vem num dia de lua nova, de um profeta chamado Ageu, e é dirigida ao governador Zorobabel e ao sumo sacerdote Josué Ag 1.1-4.
Ponha a câmera numa dessas casas, de paredes forradas de madeira, e deixe a pergunta bater na porta. Dezoito anos tinham passado desde o decreto de Ciro. No relato de Esdras, os alicerces do templo estavam lá, mas a obra estava parada. Este capítulo conta como ela recomeçou, com dois profetas, um governador e um rei persa que mandou procurar nos arquivos. E conta que, no fim, o templo ficou pronto.
01 — O ANO DE 520Um império em reviravolta
A data com que Ageu abre o seu livro conta o tempo pelo reinado do rei persa: "No segundo ano do rei Dario, no sexto mês, no primeiro dia do mês" Ag 1.1. Não há mais um rei de Judá para dar nome ao ano. O ano vem do império, e o mês, do calendário de Israel. Pelas contas mais comuns, é o final de agosto de 520 a.C.
Dario tinha cerca de dois anos de reinado e saía de uma crise. Em 522 a.C., depois da morte de Cambises e de uma disputa pelo trono, ele tinha tomado o poder, e passara o ano seguinte esmagando rebeliões em várias partes do império. Ele conta, na inscrição de Behistun (Capítulo 10), dezenove batalhas em cerca de um ano, e o relevo mostra nove rebeldes amarrados diante dele, com um décimo caído sob os seus pés. Alguns comentaristas leem nesse cenário o pano de fundo de frases como "Ainda uma vez, daqui a pouco, farei tremer os céus e a terra, o mar e a terra seca" Ag 2.6 e "transtornarei o trono dos reinos" Ag 2.22. É uma leitura possível, mas o texto não cita Dario nem as revoltas, e há quem prefira ver aí uma linguagem profética sobre o fim dos impérios em geral.
O título de Zorobabel também mostra a Pérsia: ele é "governador de Judá" Ag 1.1, e a palavra hebraica é peḥāh (פֶּחָה), "governador de província", geralmente tida como de origem acádica. Judá é uma província persa, e quem a governa faz parte do sistema de Dario.
02 — AGEU"Considerai os vossos caminhos"
O primeiro recado de Ageu é um balanço doméstico. "Semeais muito, e recolheis pouco; comeis, porém não vos fartais; bebeis, porém não vos saciais; vestis-vos, porém ninguém se aquece; e o que recebe salário, recebe-o num saco furado" Ag 1.6. É o retrato de anos de colheita ruim e de dinheiro que não rende. Ageu diz que tudo isso tem a ver com as prioridades: o povo cuidava das próprias casas e deixava a casa de Deus em ruínas.
E, de modo incomum, ele é obedecido. Em menos de um mês, a obra começa. O texto mostra como Deus, de novo, desperta as pessoas: "E o Senhor suscitou o espírito de Zorobabel... e o espírito de Josué... e o espírito de todo o restante do povo, e eles vieram, e fizeram a obra na casa do Senhor dos Exércitos, seu Deus" Ag 1.14.
O verbo que a ACF traduz por "suscitou" em Ageu 1.14 é, em hebraico, wayyāʿar (וַיָּעַר), do mesmo verbo ʿûr, "acordar", que vimos nos Capítulos 1 e 3. Já vimos esse verbo agir sobre os medos Jr 51.11, sobre Ciro Ed 1.1 e sobre o povo Ed 1.5. Em Ageu ele volta uma vez mais, agora sobre o governador, o sacerdote e o resto do povo. Quem lê em hebraico percebe o fio: a história da volta é, em boa parte, uma história de despertares. E em Ageu 2.23, o título que Zorobabel recebe também é uma palavra de peso: "far-te-ei como um anel de selar", de ḥôtām (חוֹתָם), "anel de selo", o objeto com que o rei assina. Há aí um eco de Jeremias 22.24, onde Deus dissera que, ainda que Conias (o rei Jeconias, de quem Zorobabel descende, segundo 1Cr 3.17-19) fosse o anel de selar na sua mão direita, ele o arrancaria. Para muitos leitores, Ageu 2.23 reverte essa rejeição na pessoa de um descendente dele.
No dia 21 do sétimo mês vem a segunda mensagem, e ela fala diretamente aos velhos que choraram em Esdras 3: "Quem há entre vós que, tendo ficado, viu esta casa na sua primeira glória? E como a vedes agora? Não é esta como nada diante dos vossos olhos, comparada com aquela?" Ag 2.3. A resposta de Deus não nega a comparação. Ele diz "esforça-te" três vezes (ao governador, ao sacerdote e ao povo), promete a sua presença Ag 2.4-5 e conclui: "A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o Senhor dos Exércitos, e neste lugar darei a paz" Ag 2.9.
Na terceira mensagem, no dia 24 do nono mês, Ageu faz perguntas aos sacerdotes sobre o que é puro e impuro, e mostra que a santidade não passa por contágio, mas a impureza passa Ag 2.11-14. Depois vem a promessa de bênção: "Considerai, pois, vos rogo, desde este dia em diante; desde o vigésimo quarto dia do mês nono, desde o dia em que se fundou o templo do Senhor" Ag 2.18. Essa frase tem uma dificuldade: Esdras 3 já tinha dito que os alicerces foram lançados anos antes, sob Ciro. Algumas leituras tratam a fala de Ageu como uma refundação, ou como o início da construção da estrutura. Outras veem aí a prova de que a verdadeira fundação foi nesse ano de 520, e de que o relato de Esdras 3 resume, em um só momento, duas fases de obra. O texto não decide.
A última palavra de Ageu, no mesmo dia, é para Zorobabel. "Tomar-te-ei, ó Zorobabel, servo meu, filho de Sealtiel, diz o Senhor, e far-te-ei como um anel de selar; porque te escolhi" Ag 2.23. É uma promessa estranha, e a Bíblia não conta como ela se cumpriu. Depois de Zacarias, o nome de Zorobabel desaparece do texto, e ninguém sabe o que lhe aconteceu. Há teorias, mas nenhuma tem fonte antiga que a sustente. É melhor ficar com o silêncio do texto.
03 — ZACARIASOito noites num só sonho
Dois meses depois de Ageu, vem outro profeta, Zacarias, "filho de Baraquias, filho de Ido" Zc 1.1. Esdras o liga a Ageu: os dois profetas "profetizaram aos judeus que estavam em Judá, e em Jerusalém" Ed 5.1. O livro começa com um convite: "Tornai-vos para mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu me tornarei para vós" Zc 1.3.
Em seguida vêm as visões, que a maioria dos comentaristas conta como oito, numa mesma noite: cavalos que percorrem a terra, quatro chifres e quatro ferreiros, um homem com uma corda de medir, o sumo sacerdote Josué, o candelabro de ouro entre duas oliveiras, um rolo voando, uma mulher dentro de um cesto e quatro carros que saem entre dois montes. São imagens estranhas, e cada uma tem sua leitura. Três cenas servem ao nosso assunto.
A roupa suja de Josué. O sumo sacerdote aparece diante do anjo do Senhor, de roupas sujas, e "Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor" Zc 3.1. A resposta é: "O Senhor te repreenda, ó Satanás, sim, o Senhor, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?" Zc 3.2. Tiram-lhe a roupa suja e lhe vestem roupas finas: "tenho feito com que passe de ti a tua iniqüidade" Zc 3.4.
O candelabro e o governador. A palavra mais citada do livro está na visão do candelabro, e é dirigida a Zorobabel: "Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos" Zc 4.6. E, a quem achava a obra pequena demais, vem a pergunta: "quem despreza o dia das coisas pequenas?" Zc 4.10. Com ela vem a promessa: "As mãos de Zorobabel têm lançado os alicerces desta casa; também as suas mãos a acabarão" Zc 4.9.
As coroas. Num gesto simbólico, Zacarias recebe a ordem de fazer coroas de prata e ouro e colocá-las "na cabeça do sumo sacerdote Josué, filho de Jozadaque" Zc 6.11. É uma cena que os leitores leram de modos diferentes, porque o governador, descendente de Davi, era Zorobabel, e quem recebe a coroa é um sacerdote. Uns veem um sinal de que sacerdócio e realeza se aproximavam; outros, um gesto que aponta para um governante ainda por vir. As tradições judaica e cristã leem esse futuro de jeitos diferentes. O texto não diz mais do que isso.
Em Zacarias 3.1, o hebraico diz wᵉhaśśāṭān (וְהַשָּׂטָן), com o artigo: "e o acusador". É um título de função, e não ainda o nome próprio que a palavra terá depois. A raiz é śāṭan, "acusar, ser adversário", a mesma da carta de acusação de Esdras 4.6, que vimos no capítulo anterior. No texto de Zacarias, trata-se de um acusador numa cena de tribunal, que é repreendido. Há acusação, defesa e veredito, e quem responde pelo acusado é o próprio Senhor.
Em dezembro de 518 a.C., no quarto ano de Dario, vem a última mensagem datada de Zacarias 1–8. Uma delegação chega a Jerusalém com uma dúvida que dá para sentir: "Chorarei eu no quinto mês, fazendo abstinência, como tenho feito por tantos anos?" Zc 7.3. Eram jejuns ligados, segundo a leitura tradicional, à queda de Jerusalém. A pergunta, depois de setenta anos, é humana: ainda precisa chorar? E a resposta final do capítulo 8 é uma das mais bonitas do livro: "Ainda nas praças de Jerusalém habitarão velhos e velhas; levando cada um, na mão, o seu bordão... E as ruas da cidade se encherão de meninos e meninas, que nelas brincarão" Zc 8.4-5. E mais adiante: os quatro jejuns "será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes" Zc 8.19.
04 — DARIO E TATENAIO governador pergunta, o rei manda procurar
Enquanto os profetas falam, a obra volta. E, como era de esperar, chama a atenção de quem governava. Esdras 5 conta: "Naquele tempo vieram a eles Tatenai, governador dalém do rio, e Setar-Bozenai, e os seus companheiros, e disseram-lhes assim: Quem vos deu ordem para reedificardes esta casa, e restaurardes este muro?" Ed 5.3. A pergunta é de funcionário. Não é perseguição, é auditoria. Os judeus respondem que são servos do Deus dos céus e da terra e apontam o decreto de Ciro Ed 5.11-13. E o texto faz uma observação que quase passa despercebida: "os olhos de Deus estavam sobre os anciãos dos judeus, e não os impediram, até que o negócio chegasse a Dario, e viesse resposta por carta sobre isso" Ed 5.5. A obra continuou enquanto a resposta não chegava.
Tatenai então escreve ao rei (Ed 5.6-17). A carta é em tom neutro: descreve o templo, "com grandes pedras, e a madeira já está sendo posta nas paredes" Ed 5.8, relata o que os anciãos disseram e sugere que se busque nos arquivos "se é verdade que se deu uma ordem pelo rei Ciro" Ed 5.17. O rei ordena a busca. Procuram nos arquivos da Babilônia, onde se guardavam os tesouros, mas é "em Acmeta, no palácio, que está na província de Média" que "se achou um rolo" Ed 6.2 com o memorial de Ciro (Capítulo 3).
A resposta de Dario é completa e favorável. Ele manda Tatenai e os seus "apartar-se dali", deixar a obra seguir, pagar a despesa "da fazenda do rei, dos tributos dalém do rio" Ed 6.8, fornecer diariamente animais, trigo, sal, vinho e azeite Ed 6.9 "para que ofereçam sacrifícios de cheiro suave ao Deus dos céus, e orem pela vida do rei e de seus filhos" Ed 6.10. E acrescenta uma pena para quem mudar a ordem: "se arrancará um madeiro da sua casa, e, levantado, o pendurarão nele, e da sua casa se fará por isso um monturo" Ed 6.11. É uma sentença dura, e vem de um rei conhecido por sua dureza com rebeldes: segundo Heródoto, depois de retomar a Babilônia, Dario mandou empalar cerca de três mil homens importantes da cidade (Histórias III, 159).
Dois achados ajudam a ver este quadro por fora. (1) Tatenai. Um contrato babilônico em tabuinha de argila, datado do vigésimo ano de Dario (502 a.C.), menciona um Tattannu, "governador de Além-do-Rio" (a mesma região que a Bíblia chama de "dalém do rio"). É o mesmo cargo e quase o mesmo nome do "Tatenai, governador dalém do rio" de Esdras 5, e ele costuma ser identificado com ele. Há um cuidado: a tabuinha é uns dezoito anos posterior à cena de Esdras 5 (c. 520–519 a.C.), e há quem o descreva, ao menos de início, como subordinado de Ushtani (Histanes), governador da Babilônia e de Além-do-Rio. A identificação é plausível, não certa. É um dos poucos funcionários persas da Bíblia que provavelmente aparecem em documento independente. Já o nome de Setar-Bozenai não foi identificado em documento externo, até onde pude conferir. (2) Udjahorresnet. No Egito, um alto funcionário chamado Udjahorresnet deixou uma estátua com uma longa inscrição. Segundo a leitura corrente, ela conta que, quando Dario o dispensou para voltar ao Egito, ele recebeu a missão de restaurar a "Casa da Vida", uma instituição ligada aos templos, e que antes, sob Cambises, ele cuidou para que o templo da deusa Neit, em Sais, fosse respeitado. A estátua, hoje no Vaticano, foi provavelmente erguida por volta de 519 a.C. O quadro não é igual ao de Esdras, mas mostra o mesmo tipo de gesto: um rei persa apoiando uma instituição religiosa local.
⚠️ Nenhum desses achados cita Jerusalém ou o decreto de Esdras 6. Eles mostram que o tipo de cena descrita (um governador provincial que pergunta, um rei que apoia o culto local) é típico do período. Não existe cópia da carta de Dario fora da Bíblia.
05 — O TEMPLO PRONTOCem novilhos e uma Páscoa
Com o apoio do rei, a obra avança, "prosperando pela profecia do profeta Ageu, e de Zacarias" Ed 6.14. E, quando acaba, o texto diz o dia: "acabou-se esta casa no terceiro dia do mês de Adar, no sexto ano do reinado do rei Dario" Ed 6.15. Isso é no inverno de 516 ou 515 a.C. (os historiadores variam um ano na conversão), cerca de setenta anos depois da queda de Jerusalém, a mesma conta de Jeremias que o Capítulo 3 mencionou.
Os números pedem comparação. Quando Salomão consagrou o primeiro templo, ofereceu "vinte e duas mil vacas e cento e vinte mil ovelhas" 1Rs 8.63. Agora são cem novilhos, duzentos carneiros e quatrocentos cordeiros. A diferença é enorme e honesta: a Bíblia não disfarça. O dado que ela destaca é outro, os doze cabritos, "segundo o número das tribos de Israel". Os que voltaram eram de Judá e Benjamim, mas ofereciam por todo o Israel.
No mês seguinte, "os filhos do cativeiro celebraram a páscoa no dia catorze do primeiro mês" Ed 6.19, depois de uma purificação coletiva: "os sacerdotes e levitas se purificaram como se fossem um só homem, todos estavam limpos" Ed 6.20. A festa dura sete dias, "com alegria; porque o Senhor os tinha alegrado, e tinha mudado o coração do rei da Assíria a favor deles" Ed 6.22.
"Rei da Assíria"? Dario era persa. Há duas explicações possíveis. A Assíria, como império, já não existia, mas o território ainda era chamado assim, e o próprio Dario inclui "Assíria" entre as terras que governava na inscrição de Behistun (§6). Outra possibilidade é que o autor use o nome do antigo opressor como símbolo, para dizer: o poder que antes oprimia agora ajudava. A Bíblia não explica, e os estudiosos se dividem.
E há uma pequena estranheza no verso 14: "conforme ao decreto de Ciro e Dario, e de Artaxerxes, rei da Pérsia". Artaxerxes só reinaria quase cinquenta anos depois. Muitos leitores entendem que o editor do livro, sabendo que esse rei também ajudou o templo e a cidade (Esdras 7), incluiu seu nome na lista, mesmo que ele não fosse contemporâneo da dedicação. É uma explicação razoável, mas o texto não a dá.
Jerusalém tinha agora um templo bem menor que o primeiro (Ageu 2.3), mas com sacerdotes, turnos de levitas e um cordeiro na Páscoa Ed 6.18-19. Pense no que isso devia significar para quem tinha nascido na Babilônia, ouvindo falar de Sião, e agora estava ali. O mais impressionante, em Esdras 6, é o tom: "fizeram a dedicação desta casa de Deus com alegria" Ed 6.16. Não há conquista nem milagre aparente no texto. Há uma casa pequena, de pé.
"Quem despreza o dia das coisas pequenas?" Zc 4.10 A Bíblia sabia que o segundo templo ia parecer pequeno diante do primeiro, e não escondeu isso. Mas disse que as pequenas obras de Deus têm uma glória própria: "não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito" Zc 4.6. Deus não mede a obra pelo tamanho que ela tem hoje, mas pelo que ele fará com ela. O texto não pede que ninguém finja grandeza; pede que não despreze o dia pequeno.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Casas forradas
Ageu pergunta se é tempo de morar bem enquanto a casa de Deus está deserta Ag 1.4. O povo obedece, e o Senhor "desperta" o espírito de todos.
Zacarias e o dia pequeno
"Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito" Zc 4.6; "quem despreza o dia das coisas pequenas?" Zc 4.10.
Tatenai e os arquivos
O governador pergunta, o rei manda procurar. O decreto de Ciro é achado em Acmeta, e Dario manda pagar a obra. Um Tattannu, governador de Além-do-Rio, aparece em tabuinha de 502 a.C. (identificação provável).
O templo pronto
Concluído em Adar do sexto ano de Dario (c. 516–515 a.C.), com doze cabritos pelas doze tribos e uma Páscoa Ed 6.15-19.
Próximo capítulo: Susã, a corte de Assuero e a rainha Ester, onde a história, a narrativa e o debate sobre o gênero do livro precisam ser separados com cuidado.
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