Os PersasCapítulo 4 de 11 ⤓ PDF
Daniel na cova dos leões, sob um feixe de luz; gravura de Gustave Doré
CAPÍTULO 4 DE 11

Daniel entre medos e persas

A cova, as visões e o debate sobre Dario, o medo

Um rei sela a pedra da cova com o próprio anel, preso a uma lei que ele mesmo assinou. Este capítulo segue Daniel sob os medos e os persas: a cova, o debate sobre quem foi "Dario, o medo" e as visões em que a Pérsia é um carneiro de dois chifres.

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Uma pedra é trazida e posta sobre a boca da cova. O rei a sela com o próprio anel, e com o anel dos seus senhores, "para que não se mudasse a sentença acerca de Daniel" Dn 6.17. Depois volta ao palácio e passa a noite sem comer, sem música, sem sono Dn 6.18.

É um rei poderoso, preso a uma lei que ele mesmo assinou. A cena é a mais famosa do livro de Daniel sob o domínio dos medos e dos persas, e este capítulo começa por ela. Depois vêm duas perguntas que cada leitor atento acaba fazendo: quem foi esse "Dario, o medo", e o que dizem as visões em que a Pérsia aparece como um carneiro de dois chifres. Em ambas, a Bíblia e a história se encontram de um jeito que pede cuidado.

01 — A LEIO rei que não podia desfazer

Na noite em que Belsazar morreu, o texto diz: "E Dario, o medo, ocupou o reino, sendo da idade de sessenta e dois anos" Dn 5.31. O novo rei organiza o governo à sua maneira: "cento e vinte príncipes" sobre o reino e "três presidentes" sobre eles, um dos quais é Daniel Dn 6.1-2. A razão da hierarquia vem no mesmo verso: "para que o rei não sofresse dano", isto é, para que os governadores prestassem contas e nada se perdesse no caminho do tributo. Daniel se destaca, e os colegas, com inveja, procuram um defeito nele. Não acham nenhum, a não ser a fé dele. Então preparam uma armadilha.

"Todos os presidentes do reino, os capitães e príncipes, conselheiros e governadores, concordaram em promulgar um edito real e confirmar a proibição que qualquer que, por espaço de trinta dias, fizer uma petição a qualquer deus, ou a qualquer homem, e não a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões." Daniel 6.7

O decreto tem uma cláusula que os conspiradores citam duas vezes, e que atravessa a Bíblia persa: o edito é "conforme a lei dos medos e dos persas, que não se pode revogar" Dn 6.8. Dario assina. Quando percebe o que fez, tenta salvar Daniel o dia inteiro, mas os homens o lembram da regra: "nenhum edito ou decreto, que o rei estabeleça, se pode mudar" Dn 6.15.

A mesma ideia aparece em Ester, quando o rei autoriza os judeus a se defenderem: "o documento que se escreve em nome do rei, e que se sela com o anel do rei, não se pode revogar" Et 8.8. Fora da Bíblia, um escritor grego, Diodoro Sículo, conta algo parecido sobre o último rei persa: Dario III mandou matar um conselheiro grego num acesso de raiva e logo se arrependeu, mas, diz Diodoro, nem todo o seu poder real conseguiu desfazer o que fora feito (Biblioteca Histórica XVII, 30, em resumo meu). Isso não prova uma "lei" escrita: mostra que a ideia de que um ato do rei, uma vez feito, não se desfazia circulava também entre os gregos que escreviam sobre a corte persa.

👁️ Como era viver ali

Imagine servir a esse tipo de rei. A palavra dele cria a lei, e a lei o prende. Quem está por perto precisa conhecer o humor do palácio melhor do que o texto das ordens. Daniel, que estava na Babilônia desde jovem (Daniel 1), mantém o mesmo hábito:"três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças diante do seu Deus, como também antes costumava fazer" Dn 6.10, numa casa em que havia "janelas abertas do lado de Jerusalém". Não foi um gesto contra o rei. Foi uma rotina que não mudou quando a lei mudou. O que o texto mostra é um homem que não negocia a oração, nem faz dela um protesto.

02 — A COVA"O teu Deus, a quem tu continuamente serves"

O resto da cena é conhecido. Daniel é lançado aos leões. O rei, antes de ir, lhe diz uma frase que, na boca de um monarca, soa como esperança:"O teu Deus, a quem tu continuamente serves, ele te livrará" Dn 6.16. De manhã, ao romper do dia, corre à cova e chama "com voz triste" Dn 6.20. A resposta vem de dentro: "O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; e também contra ti, ó rei, não tenho cometido delito algum" Dn 6.22. Repare: Daniel afirma a inocência diante de Deus e diante do rei. Ele não precisa escolher entre as duas lealdades, porque a ordem que o rei assinou é que as separou.

E o rei escreve uma carta ao império. É um texto de louvor impressionante, vindo de um monarca estrangeiro:

"Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre, e o seu reino não se pode destruir, e o seu domínio durará até o fim." Daniel 6.26

É o mesmo gênero dos louvores de Nabucodonosor no livro (Daniel 3 e 4): o rei do império, no fim da cena, reconhece o Deus de Israel. Aqui também a Bíblia não diz que Dario se converteu. Ela diz que ele escreveu, para todos os povos, que o Deus de Daniel é vivo, e termina com uma nota de tempo que será importante a seguir: "Este Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa" Dn 6.28.

Daniel na cova dos leões, pintura de Peter Paul Rubens
Daniel na cova dos leões — Peter Paul Rubens (c. 1614–1616), National Gallery of Art, Washington. Daniel de mãos postas, cercado por leões, diante da boca da cova. CC0 (Open Access da National Gallery of Art).
🌱 Semente de sermão

O rei sela a pedra com o seu anel e com o anel dos nobres Dn 6.17: ninguém pode mexer. Mas o texto mostra que o selo mais forte não foi o do rei. Deus "enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões" Dn 6.22. A lei dos homens pode selar uma pedra; não consegue selar a boca de quem Deus mandou calar os leões. E a pergunta que sobra para o leitor é a que Daniel respondeu antes de ser jogado na cova: quem recebe a minha oração das três da tarde, quando uma lei diz que não deveria?

03 — QUEM FOI "DARIO, O MEDO"?Um nome que a história não registra

Aqui precisamos ser claros sobre um ponto. Nenhum texto fora da Bíblia fala de um rei chamado "Dario, o medo". Os documentos da época, que são muitos, registram assim a queda da Babilônia: o exército de Ciro entra na cidade em outubro de 539 a.C., sem batalha, e o próprio Ciro chega semanas depois; o governador de Ciro instala administradores na Babilônia. Nenhum rei intermediário entre o último rei babilônio e Ciro aparece. Mesmo assim, Daniel fala de Dario nos capítulos 5, 6, 9 e 11 Dn 5.31, Dn 11.1 e dá detalhes: tinha sessenta e dois anos, era "filho de Assuero, da linhagem dos medos", "constituído rei sobre o reino dos caldeus" Dn 9.1.

Os leitores propõem respostas, e é útil conhecer as principais.

🏺 O que a pá encontrou

A Crônica de Nabonido, do Museu Britânico, é a fonte principal sobre a queda de 539 a.C. Ela diz que Ugbaru, governador de Gútio, entrou na Babilônia com o exército de Ciro "sem batalha" no 16º dia do mês de Tashritu; que Ciro entrou no 3º dia do mês de Arahsamna; que o governador de Ciro instalou administradores na cidade; e que Ugbaru morreu na noite de 11 de Arahsamna. Outros documentos babilônicos, dos anos seguintes, trazem um Gubaru como governador. Nenhuma tabuinha cita "Dario, o medo". O Cilindro de Ciro, por sua vez, chama o próprio Ciro de "rei da Babilônia". Em resumo: o rastro documental não tem esse nome.

⚠️ Isso não prova que o personagem não existiu: os arquivos que temos são poucos e fragmentários. Também não prova que existiu. O que se pode dizer é que ele não é atestado fora do livro de Daniel.

As propostas se organizam em quatro grupos.

1. Um governador chamado Gubaru (ou Ugbaru). Os documentos babilônicos trazem dois nomes parecidos, Ugbaru e Gubaru, que os gregos escreveram como "Gobrias". Discute-se se são duas pessoas ou uma só. Intérpretes que defendem a historicidade de Daniel propõem que "Dario, o medo" seria um título ou um segundo nome de um desses generais, posto por Ciro à frente da Babilônia. A dificuldade: nas fontes eles são governadores, nunca "reis", e o texto de Daniel diz que Dario "ocupou o reino" e que seu pai era Assuero.

2. Um rei medo, Ciáxares II. O escritor grego Xenofonte, numa obra que se parece mais com um romance do que com história (a Ciropédia), conta que o rei dos medos, Astíages, teve um filho chamado Ciáxares, que reinou depois dele e passou o reino a Ciro. Josefo, no séc. I, diz que o Dario que tomou a Babilônia com seu parente Ciro era filho de Astíages e tinha outro nome entre os gregos (Antiguidades Judaicas X, 11, 4, em resumo). Jerônimo e, mais tarde, comentaristas como João Calvino e James Ussher costumam ser associados a essa linha. A dificuldade: nenhum documento do tempo confirma esse Ciáxares como rei na Babilônia, e a Crônica de Nabonido diz que Astíages foi entregue a Ciro, sem mencionar herdeiro.

3. O próprio Ciro. Aqui o argumento é gramatical: o último verso de Daniel 6 pode ser lido como "no reinado de Dario, isto é, o reinado de Ciro, o persa", com "Dario" como outro nome de Ciro. É uma leitura defendida por alguns estudiosos, como D. J. Wiseman, mas outros a consideram improvável, porque Daniel 9.1 dá a "Dario" um pai, Assuero, e uma linhagem meda que Ciro não tem.

4. Uma figura literária ou uma confusão histórica. Esta é a posição da maioria dos pesquisadores acadêmicos de hoje, como H. H. Rowley, em 1935, e John Collins. Para eles, o autor de Daniel, que escreveria séculos depois, tomou o nome de Dario I (o rei persa que viria depois) e o pôs numa fase "meda" imaginada, talvez confundindo os fatos de 539 a.C. com os de c. 520 a.C. Alguns acrescentam que isso combinaria com as profecias que falavam dos medos como destruidores da Babilônia (Is 13.17; Jr 51.11). Nessa leitura, o livro é uma narrativa edificante, e não um relatório de chancelaria.

Cada grupo tem pontos fortes e fracos, e a escolha costuma acompanhar uma pergunta mais ampla: quando e como o livro de Daniel foi escrito. A tradição judaica e cristã antiga e muitos leitores de fé datam o livro no séc. VI a.C., e leem os detalhes como história do tempo do exílio. A maioria dos estudiosos acadêmicos o data no séc. II a.C. (c. 167–164), na crise de Antíoco IV, por razões que incluem a língua, a ausência do livro entre os Profetas e a precisão crescente das visões dos caps. 10–12 sobre esse período. Os manuscritos de Qumran, com cópias de Daniel a partir de c. 125 a.C., mostram que o livro já circulava e era respeitado cedo. Eles não resolvem a data da composição.

04 — AS VISÕESO carneiro de dois chifres e "o príncipe do reino da Pérsia"

O livro de Daniel não conta só histórias de corte. Ele traz visões, e a Pérsia aparece nelas três vezes. A primeira é a visão do carneiro. Daniel está "na cidadela de Susã, na província de Elão" Dn 8.2 e vê um animal "diante do rio, o qual tinha dois chifres; e os dois chifres eram altos, mas um era mais alto do que o outro; e o mais alto subiu por último" Dn 8.3. O próprio texto dá a chave: "Aquele carneiro que viste com dois chifres são os reis da Média e da Pérsia" Dn 8.20. Os dois chifres, um que cresce depois do outro, combinam bem com a história: os persas, que surgem depois dos medos, acabam maiores. O carneiro dá marradas para o ocidente, o norte e o sul Dn 8.4, direções que costumam ser ligadas às conquistas de Ciro, Cambises e Dario. O bode que o derruba é "o rei da Grécia" Dn 8.21, e o Capítulo 11 volta a ele.

A segunda aparição vem em Daniel 10–12, e é mais difícil. Em "no terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia" Dn 10.1, c. 536 a.C., Daniel jejua três semanas à beira do Tigre (o "grande rio Hidequel", Dn 10.4) e recebe uma visita. O mensageiro diz que foi retido: "o príncipe do reino da Pérsia me resistiu vinte e um dias, e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me" Dn 10.13. Mais adiante: "tornarei a pelejar contra o príncipe dos persas; e, saindo eu, eis que virá o príncipe da Grécia" Dn 10.20.

Quem é esse "príncipe"? Uma leitura muito antiga e comum, entre judeus e cristãos, é que se trata de um ser espiritual, uma força ligada ao reino da Pérsia, como Miguel é o "príncipe" de Israel (Dn 10.21). Um dado do texto apoia isso: a palavra hebraica é a mesma, śar (שַׂר), "príncipe", tanto para o "príncipe da Pérsia" quanto para Miguel, "um dos primeiros príncipes". Outros intérpretes preferem ver governantes humanos. A discussão não é pequena, e as duas tradições concordam num ponto: o texto afirma que a história dos impérios tem um lado que não se vê da mesa do rei. Como cada igreja entende esse "lado" varia, e vale não ir além do que o texto diz.

A terceira aparição é uma lista. "Eis que ainda três reis estarão na Pérsia, e o quarto acumulará grandes riquezas, mais do que todos; e, tornando-se forte, por suas riquezas, suscitará a todos contra o reino da Grécia" Dn 11.2. A leitura mais comum identifica o quarto rei com Xerxes I, que montou o enorme exército contra a Grécia, em 480 a.C. Os três antes dele seriam Cambises, o falso Esmérdis (ou Bardiya) e Dario I, embora a contagem varie. Repare que o texto "pula" de Ciro para Xerxes e não cita Artaxerxes nem os reis posteriores. Alguns críticos veem nisso uma compressão feita por quem escreveu muito depois, com pouca informação sobre os reis persas. Os leitores tradicionais veem um resumo deliberado, que vai direto ao rei que importa para o que vem em seguida.

Uma última observação: o mesmo problema da sequência de reinos reaparece nas visões dos capítulos 2 e 7. Muitos leitores cristãos e judeus leem Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. A maioria dos intérpretes acadêmicos lê Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. Em ambas as leituras a Pérsia ocupa um dos lugares, e a diferença está em quem completa a sequência.

⚠️ As visões de Daniel foram lidas de muitos modos ao longo dos séculos. O que este capítulo oferece é o mapa das leituras, e não uma escolha entre elas.

🔎 A palavra original

Em Daniel 5.25-28 há um jogo de palavras que diz respeito à Pérsia. A escrita na parede é, em aramaico, mᵉnēʼ mᵉnēʼ tᵉqēl ûfarsîn (מְנֵא מְנֵא תְּקֵל וּפַרְסִין). Daniel explica cada palavra. Mene vem de "contar": Deus contou o reino e o acabou. Tequel vem de "pesar": foste pesado e achado em falta. E então, para a última palavra, ele muda a forma e diz pᵉrēs (פְּרֵס), "dividido", e acrescenta que o reino foi "dado aos medos e aos persas" Dn 5.28. O verbo "dividir" tem as mesmas consoantes que o nome Parās, Pérsia, e o texto aramaico joga com esse som: "dividido" e "Pérsia" quase se confundem ao ouvido.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🔏

A lei que não se revoga

O edito "dos medos e dos persas, que não se pode revogar" prende o próprio rei Dn 6.8. Ester diz o mesmo Et 8.8.

🦁

Daniel e o decreto de Dario

O rei escreve a todos os povos que o Deus de Daniel é "o Deus vivo" Dn 6.26, mas a Bíblia não diz que ele se converteu.

❓

Dario, o medo

Nenhum documento fora de Daniel traz esse nome. As leituras: Gubaru, Ciáxares II, Ciro ou uma figura literária.

🐏

Carneiro, príncipe e quatro reis

Dois chifres para Média e Pérsia Dn 8.20, um "príncipe do reino da Pérsia" Dn 10.13 e quatro reis, o último, em geral, Xerxes Dn 11.2.

Próximo capítulo: o decreto vira estrada. Quem voltou, quem ficou, o primeiro altar em Jerusalém e a obra do templo que esbarrou nos vizinhos.

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