Os PersasCapítulo 10 de 11 ⤓ PDF
O monte Bisutun, com a parede de rocha onde Dario mandou gravar sua inscrição; litografia de Eugène Flandin
CAPÍTULO 10 DE 11

O que a pá encontrou

Behistun, Persépolis, Susa e o Cilindro

Dario mandou cortar o degrau da rocha para que ninguém tocasse no seu texto. Este capítulo percorre, objeto por objeto, o que a arqueologia achou da Pérsia, com a pergunta de sempre: o que cada achado mostra, e o que não mostra.

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Os escultores terminam o relevo e os escribas, o texto. Então vem uma ordem curiosa: cortar fora o degrau de rocha que ficava embaixo da inscrição. Depois disso ninguém mais poderia chegar perto para ler, ou para raspar uma palavra.

É assim que os historiadores explicam por que a inscrição de Dario, em Behistun, ficou protegida e tão difícil de ler. Ela fica a uns cem metros acima da antiga estrada que ligava a Babilônia a Ecbatana, e o rei queria que fosse vista de longe e jamais tocada. Quase 2.400 anos depois, um oficial britânico escalou a rocha para copiá-la, e foi dali, em boa parte, que o mundo voltou a ler as línguas de cunha. Este capítulo percorre, um a um, os achados mais importantes sobre a Pérsia. Para cada um, a pergunta é a mesma: o que ele mostra, e o que não mostra.

01 — BEHISTUNA rocha que Dario mandou escrever

🏺 O que a pá encontrou

O monumento. Em Bisotun, no oeste do Irã, uma parede de calcário traz um grande relevo e um texto de Dario I (522–486 a.C.), em três línguas ao mesmo tempo: persa antigo, elamita e babilônico. Segundo a leitura corrente, foi gravado depois da vitória de Dario sobre as rebeliões de 522–521 a.C., com acréscimos feitos em c. 520–519 a.C. O relevo mede cerca de 5,5 por 3 metros. Mostra Dario de pé, com dois ajudantes atrás, uma fila de nove prisioneiros presos por uma corda no pescoço e um décimo caído sob os pés do rei. Por cima de todos paira o símbolo alado, muitas vezes lido como Aúra-Masda.

O que o texto diz. Dario conta que oito homens da sua família foram reis antes dele e que ele é o nono; que Cambises matou o irmão Bardiya em segredo; que um mago, Gaumata, se passou por Bardiya e tomou o trono; que ele, Dario, o matou, por graça de Aúra-Masda, e restaurou os templos que o mago destruíra (§§ 10-14). E depois lista as rebeliões que esmagou, entre elas as da Babilônia, do Elão e da Média, e outras províncias (§§ 16-21): dezenove batalhas em cerca de um ano.

O que ele prova. Que Dario subiu ao trono num momento de crise; que o império se agitou por um ano inteiro; e que a corte persa usava a religião de Aúra-Masda como argumento político. Isso dá o pano de fundo do tempo de Ageu e Zacarias (Capítulo 6).

O que ele não prova. Que a história seja exatamente como Dario conta. Muitos historiadores desconfiam de que o episódio do falso Bardiya foi usado pelo próprio Dario para justificar um golpe, e que Bardiya talvez fosse o verdadeiro irmão de Cambises, morto por Dario e seus aliados. A discussão é antiga, e a resposta não é segura.

O monumento ficou esquecido para o Ocidente. A decifração começou com cópias de Carsten Niebuhr, que Georg Grotefend usou, por volta de 1802, para ler cerca de dez dos trinta e sete sinais do persa antigo. Em 1835, Henry Rawlinson começou a trabalhar no próprio local e subiu a rocha para copiar o texto persa; em 1847 mandou para a Europa uma cópia completa. Com o persa antigo, o caminho se abriu para o elamita e o babilônico, e daí para as tabuinhas da Assíria e da Babilônia. É por isso que Behistun é muitas vezes chamada de "a Pedra de Roseta" da escrita cuneiforme. Sem ela, a Crônica de Nabonido e o Cilindro de Ciro, citados neste livro, estariam mudos.

Desenho do relevo de Behistun: Dario diante dos rebeldes presos, com o símbolo alado acima; Eugène Flandin
O relevo de Behistun — desenho de Eugène Flandin, Voyage en Perse (1851); exemplar da New York Public Library. Dario, à esquerda, diante dos reis rebeldes amarrados, sob o símbolo alado de Aúra-Masda; abaixo, as colunas do texto. Domínio público.

02 — PERSÉPOLISA cidade que a Bíblia não nomeia

Persépolis foi fundada por Dario como centro de cerimônias e recepções, e a primeira fase de obras, segundo os especialistas, pode ter ido de c. 518 a c. 490 a.C. Xerxes completou o trabalho do pai e acrescentou muito, e Artaxerxes I terminou o Salão das Cem Colunas. O Apadana, a grande sala de audiências, tinha setenta e duas colunas de uns vinte a vinte e cinco metros, conforme a fonte, e treze ainda estão de pé. Nas escadarias dele, os povos do império desfilam com seus presentes, cada um com sua roupa, em relevos que são o retrato mais vivo da Pérsia. O Portão de Todas as Nações, guardado por touros alados, leva o nome de uma inscrição de Xerxes. E o Tesouro guardava o tributo que chegava das satrapias.

Uma curiosidade importante para este livro: a Bíblia nunca nomeia Persépolis. A capital persa que o texto bíblico conhece é Susã. Persépolis era um centro de cerimônias e também de administração regional, ao que tudo indica, e não a sede do governo diário. Isso mostra, de novo, como a Bíblia olha o império do ponto de vista de quem vive nas províncias ou na corte, e não de quem estuda as ruínas.

🏺 O que a pá encontrou

As tabuinhas. Entre 1931 e 1939, escavadores do Instituto Oriental de Chicago, com Ernst Herzfeld e Friedrich Schmidt, trabalharam em Persépolis. Nas muralhas de fortificação (daí o nome) acharam um arquivo imenso: entre 25 e 30 mil tabuinhas e fragmentos em elamita, que registram a economia local até 493 a.C., com pagamentos em mercadoria (cevada, vinho, frutas) a trabalhadores, viajantes e funcionários, e rações para sacrifícios. Cerca de dois mil textos foram publicados. Há também 139 tabuinhas do Tesouro, que registram pagamentos em prata entre 492 e 458 a.C. Segundo os registros, 1.348 pessoas trabalhavam no Tesouro em 467 a.C.

Esse arquivo é a razão de sabermos tanto do funcionamento do império: como um jornaleiro era pago, como um viajante recebia ração, como se registrava uma oferta aos deuses. Mas é um arquivo de uma região específica e de um período de c. 509 a 493 a.C. O que ele não traz é nenhuma menção a Judá, a Jerusalém, a Esdras, a Neemias ou a Ester.

Pequena tabuinha de argila com escrita elamita e impressões de selo
Tabuinha administrativa em elamita, com impressões de selos — Império Aquemênida, c. 500 a.C., argila (3,4 cm), de um tipo parecido com os arquivos de Persépolis; The Metropolitan Museum of Art, Nova York, Rogers Fund, 1936 (36.30.62). CC0 (Open Access do Met).

E o fim da cidade? Em 330 a.C., Alexandre, o Grande, tomou Persépolis. Em abril, mandou destruir vários edifícios do palácio. Os historiadores divergem sobre o motivo: uns falam de uma decisão calculada (o tesouro era grande demais para ser deixado ali), outros de um ato de vingança pela destruição de Atenas, em 480 a.C. Os relatos antigos também divergem: autores como Diodoro e Plutarco descrevem um incêndio provocado numa noite de festa, e há fonte que diz que o rei, depois, se arrependeu. O Palácio de Xerxes foi o mais atingido, e partes da cidade continuaram habitadas. O que foi queimado, e por quê, é uma das perguntas mais discutidas da história de Alexandre (Capítulo 11).

03 — O CILINDRO E AS CRÔNICASOnde a Bíblia e as pedras se tocam

Dois documentos já apareceram neste livro e merecem aqui o seu lugar no quadro. O Cilindro de Ciro (Capítulo 3), achado em 1879 em Babilônia e hoje no Museu Britânico, mostra a política persa de devolver deuses e povos a seus lugares, e não cita Jerusalém. A Crônica de Nabonido registra a entrada de Ciro na Babilônia "sem batalha" em outubro de 539 a.C. e a morte de Ugbaru poucos dias depois. Fora isso, os achados mais próximos do mundo da Bíblia são os que já visitamos: a tabuinha de Tattannu, governador de "Além-do-Rio" (Capítulo 6); a estátua de Udjahorresnet, no Vaticano (Capítulo 6); e os papiros de Elefantina (Capítulo 9).

O Cilindro de Ciro, de argila, coberto de escrita cuneiforme, no Museu Britânico
O Cilindro de Ciro — argila cozida, escrita cuneiforme em acádio, Babilônia, c. 539–530 a.C.; Museu Britânico (BM 90920). Fotografia de Daderot (2024), liberada em CC0. CC0.

Em Pasárgada, a primeira capital de Ciro, ficam os restos de um parque com pavilhões e o pequeno túmulo de pedra que a maioria dos estudiosos atribui a ele. Alexandre mandou fazer reparos nele em janeiro de 324 a.C. Não há nenhuma inscrição de Ciro ali que mencione os judeus.

04 — O QUADROO que cada achado mostra, e o que não mostra

Para fechar a parte da arqueologia, um quadro simples. Em cada cartão: o objeto, o que ele mostra e o que ele não mostra.

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Behistun

Mostra: a crise de 522–521 a.C., Dario no poder, a religião a serviço do trono. Não mostra: que Bardiya fosse mesmo um impostor.

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Cilindro de Ciro

Mostra: a política de devolver deuses e povos na Mesopotâmia. Não mostra: o decreto de Esdras 1, nem judeus, nem Jerusalém.

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Tabuinhas de Persépolis

Mostram: a economia e o culto reais, com ofertas a vários deuses. Não mostram: nada sobre os judeus.

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Tattannu (502 a.C.)

Mostra: um governador de "Além-do-Rio" com o nome do Tatenai bíblico. Não mostra: a carta de Esdras 5.

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Papiros de Elefantina

Mostram: judeus no império, com templo, e cartas a Bagoas e Sambalate. Não mostram: Jerusalém por dentro.

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Moedas YHD

Mostram: Judá como província com moeda própria no séc. IV a.C. Não mostram: quem era Zorobabel ou Neemias.

"Então o rei Dario deu ordem, e buscaram nos arquivos, onde se guardavam os tesouros em babilônia. E em Acmeta, no palácio, que está na província de Média, se achou um rolo, e nele estava escrito um memorial que dizia assim:" Esdras 6.1-2
🏺 O que a pá não achou

Vale a honestidade: nenhuma inscrição persa conhecida cita Esdras, Neemias, Ester, Zorobabel, Mardoqueu ou o decreto de Ciro sobre o templo. Não se achou o Templo de Zorobabel: a esplanada onde ele ficava não pode ser escavada à vontade, e o que se sabe da Jerusalém persa vem de poucos achados pequenos. Também não se achou o arquivo de Ecbatana onde, segundo Esdras 6.2, estava o decreto. Isso não é um argumento contra a Bíblia: a maior parte dos arquivos reais persas se perdeu. Mas é um limite que o leitor deve conhecer. Os achados apoiam o cenário (os cargos, os nomes de lugares e pessoas, a língua, o modo de governar) mais do que os episódios.

🌱 Semente de sermão

Dario mandou cortar o degrau da rocha para que ninguém tocasse na sua versão da história. Ela se conservou, mas ficou ilegível por séculos, a cem metros do chão. O decreto de Ciro, por sua vez, estava num rolo esquecido num palácio de Ecbatana, e foi achado no momento certo Ed 6.2. Os monumentos de quem quer ser lembrado duram na pedra; o que Deus quer lembrar muitas vezes está guardado num rolo comum, e aparece quando é preciso. A Bíblia chegou até nós por cópia atrás de cópia, de mão em mão, e não gravada num penhasco.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⛰️

Behistun

Dario, em três línguas, a cem metros do chão. Decifrá-la abriu o persa antigo, o elamita e o babilônico.

🏛️

Persépolis

Apadana, Portão de Todas as Nações e 25 a 30 mil tabuinhas em elamita. A Bíblia nunca nomeia a cidade.

⚖️

Prova e limite

Os achados confirmam o cenário (cargos, nomes, língua, administração) mais do que os episódios.

❓

O que falta

Nenhum texto persa cita Esdras, Neemias, Ester ou o decreto de Ciro; o Templo de Zorobabel não foi escavado.

Último capítulo: o fim do império, de Dario III a Alexandre, os magos de Mateus 2, a Pérsia no Novo Testamento e o que muda na sua leitura.

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