Os PersasCapítulo 9 de 11 ⤓ PDF
Ruínas do portal de Persépolis, com colunas e touros alados; litografia de Eugène Flandin
CAPÍTULO 9 DE 11

Dentro do império

Estrada Real, aramaico, moeda e a colônia de Elefantina

O correio sai da cidadela de Susã com a ordem selada, e cento e vinte e sete províncias esperam por ela. Este capítulo olha o império por dentro: a estrada, a língua, o tributo, o dinheiro e a colônia judaica de Elefantina, no Egito.

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O cavalo sai da cidadela de Susã com a carta selada. "Os correios, sobre ginetes velozes, saíram apressuradamente, impelidos pela palavra do rei; e esta ordem foi publicada na fortaleza de Susã" Et 8.14. A ordem que salva os judeus precisa chegar a cento e vinte e sete províncias antes do dia treze de Adar.

Ponha a câmera no ombro desse correio. Ele não corre sozinho: quando o cavalo cansa, há outro, e outro homem, esperando num posto. Como isso era possível? Este capítulo olha o império por dentro: a estrada que deixava a ordem chegar, a língua em que ela era escrita, as províncias e os impostos, o dinheiro, e a colônia judaica de Elefantina, no Egito, cujas cartas nos deixam ver judeus do tempo persa fora da Bíblia.

01 — A ESTRADA REALNoventa dias a pé, nove a cavalo

Heródoto, que escreveu no séc. V a.C., descreve a Estrada Real do jeito de um viajante. Ela ia de Sardes, perto do Mar Egeu, até Susa, e tinha "estações reais e excelentes hospedarias", atravessando terra habitada e segura. A conta dele: cento e onze estações, quatrocentas e cinquenta parasangas, treze mil e quinhentos estádios, e, a cento e cinquenta estádios por dia, noventa dias de caminhada (Histórias V, 52-53, tradução minha). Os cálculos modernos dão uns 2.700 km para o percurso inteiro. Os guardas e portões ficavam em pontos importantes, como o rio Hális.

Para a notícia, havia um sistema mais rápido. Heródoto o descreve ao falar do mensageiro que Xerxes mandou à Pérsia depois de Salamina: "nada mortal faz uma viagem mais depressa do que estes mensageiros". Cavalos e homens eram postos em intervalos, um para cada dia de viagem, e a mensagem ia passando de um ao seguinte, como numa corrida de tochas. "Nem neve, nem chuva, nem calor, nem a escuridão da noite" os impedia (Histórias VIII, 98, tradução minha). Os persas chamavam essa corrida de angareion. Estimativas modernas falam em cerca de nove dias de Susa a Sardes para um correio a cavalo, contra noventa a pé. A estrada não era invenção só persa: arqueólogos acham que os trechos do oeste podem ter sido, em parte, assírios, e que os persas a organizaram e a aperfeiçoaram.

A Bíblia vê esse mundo pelo lado de quem recebe as cartas. Em Ester, são os "correios" a cavalo, que levam a ordem de Hamã Et 3.15 e depois a de Mardoqueu Et 8.14. Em Esdras e Neemias, as cartas do rei viajam com os homens que ele envia: Neemias pede cartas "para os governadores dalém do rio, para que me permitam passar até que chegue a Judá" Ne 2.7.

🔎 A palavra original

Os "correios" são, em hebraico, hā-rāṣîm (הָרָצִים), "os corredores", de rûṣ, "correr". A palavra "carta" nos documentos aramaicos de Esdras é ništeᵛān (נִשְׁתְּוָן), e "decreto, resposta" é pitgām (פִּתְגָּם): duas palavras geralmente tidas como de origem persa, comuns na chancelaria, que a ACF traduz "carta" e "decreto". São restos do vocabulário da administração que o aramaico da Bíblia herdou.

02 — A LÍNGUAO aramaico, de Susa ao Nilo

A estrada precisava de uma língua, e o império tinha muitas. A solução foi o aramaico. Era a língua de um povo do Levante, mas já tinha sido adotada como língua de comunicação pelos assírios e babilônios, e os persas continuaram a usá-la. O aramaico imperial aparece em ordens, contratos, cartas e inscrições, de Elefantina, no Egito, à Báctria, no Oriente. Há uma ressalva a fazer: um especialista, Richard Frye, questionou se o aramaico era "oficial" em sentido estrito, e os grandes arquivos de Persépolis são sobretudo em elamita, com algumas centenas de textos em aramaico. A forma segura de dizer é que o aramaico era a língua franca da administração. A estrada e a língua andavam juntas.

A Bíblia guarda essa realidade. O texto de Esdras mesmo diz que a carta a Artaxerxes "estava escrita em aramaico e traduzida em aramaico" (ʼărāmît, Ed 4.7; tradução minha do hebraico, pois a ACF diz "siríaco"). E o livro passa para o aramaico de 4.8 a 6.18 e de novo em 7.12-26, as cartas e decretos persas. O livro de Daniel também tem uma seção inteira em aramaico, de 2.4 a 7.28. E há restos de aramaico no meio do hebraico: uma frase de Jeremias Jr 10.11, que o texto apresenta como a frase que Israel deveria dizer aos outros povos, e duas palavras de Labão em Gênesis 31.47. Séculos depois, quando Jesus diz a uma menina "Talita cumi" Mc 5.41 e grita na cruz "Eloí, Eloí, lamá sabactâni" Mc 15.34, está falando a língua que se tornara a do império persa.

🏺 O que a pá encontrou

Um exemplo concreto: uma tradução em aramaico da inscrição de Behistun, em papiro, achada no Egito (em Elefantina, segundo a identificação corrente) e escrita no tempo de Dario II (séc. V a.C.), cerca de um século depois da inscrição original. Isso mostra que o texto do rei foi copiado e traduzido para a língua comum do império e chegou longe. Os papiros de Elefantina, que veremos adiante, vêm do mesmo lugar.

03 — AS PROVÍNCIAS E O TRIBUTOQuem pagava, e quanto

Dario dividiu o império em satrapias e fixou o tributo de cada uma. Heródoto dá a lista (Histórias III, 89-96) e as somas em talentos de prata ou de ouro. A satrapia da Babilônia era a que mais pagava. Judá aparece, sem ser nomeada, no que ele chama de quinta divisão, que ia da fronteira entre a Cilícia e a Síria até o Egito e incluía "toda a Fenícia e a Síria chamada Palestina, e Chipre", num tributo de trezentos e cinquenta talentos (III, 91, tradução minha). Os persas chamavam toda essa região de "Além-do-Rio", o Abar-Nahara que a Bíblia traduz por "dalém do rio". Dentro dela, Judá era uma província menor, com seu governador, e o texto bíblico chama os seus líderes de "governador de Judá" (Ageu, Neemias).

E o que o povo sentia? A Bíblia dá uma ideia pelo lado da cobrança. A carta contra Jerusalém em Esdras 4 fala em três tipos de pagamento: "não pagarão os direitos, os tributos e os pedágios" Ed 4.13. No aramaico, são três palavras: mindāh, o tributo em dinheiro, bᵉlô, um imposto sobre o consumo, e hălāk, o pedágio da estrada. O decreto de Artaxerxes isenta os sacerdotes e levitas das três coisas Ed 7.24. E Neemias 5 mostra o que acontecia com quem não tinha como pagar: "Tomamos emprestado dinheiro até para o tributo do rei, sobre as nossas terras e as nossas vinhas" Ne 5.4.

"Saiba o rei que os judeus, que subiram de ti, vieram a nós em Jerusalém, e reedificam aquela rebelde e malvada cidade, e vão restaurando os seus muros, e reparando os seus fundamentos. Agora saiba o rei que, se aquela cidade se reedificar, e os muros se restaurarem, eles não pagarão os direitos, os tributos e os pedágios; e assim se danificará a fazenda dos reis." Esdras 4.12-13
👁️ Como era viver ali

Pense num lavrador de Judá. A maior parte da vida girava em torno da colheita, e o tributo ao rei chegava num ano bom e num ano ruim. Quando vinha um ano ruim, a saída era emprestar, dando como garantia a terra, a vinha e, no limite, os filhos Ne 5.2-5. Esse era o outro lado de uma estrada que levava ordens com rapidez: a cobrança também chegava com rapidez. O Estado persa não era só cavalos velozes e jardins reais. Era também o cobrador na porta, e quem vivia no interior de Judá sabia disso.

04 — A MOEDAO dárico e a prata

Para pagar tudo isso, Dario organizou a moeda. Heródoto conta que ele "refinou o ouro e o fez o mais puro possível, e mandou cunhar moedas" (Histórias IV, 166, tradução minha), e que um sátrapa do Egito tentou imitá-lo com prata e foi morto, sob acusação de rebelião. A moeda de ouro persa ficou conhecida como dárico, e a de prata, siglo. Era o padrão do império.

A Bíblia a conhece pelo nome. Em Esdras 8.27, entre os objetos preciosos levados a Jerusalém há "vinte bacias de ouro, de mil dracmas". O hebraico diz ʼădarkōnîm (אֲדַרְכֹּנִים), a palavra para dáricos. A ACF a traduz "dracmas", mas o dicionário de Strong liga a palavra ao dárico, a moeda persa. Em Esdras 2.69, as contribuições para a obra do templo vêm em darkᵉmōnîm, uma forma parecida, que a ACF também verte por "dracmas".

Moeda de ouro persa, o dárico, com o rei arqueiro ajoelhado
Dárico, moeda de ouro persa — c. séc. IV a.C.; The Metropolitan Museum of Art, Nova York, doação de Edmund Kerper, 1952 (52.127.1). Mostra o rei, de coroa, com arco e lança. CC0 (Open Access do Met).

E Judá também teve a sua moeda. No séc. IV a.C., pequenas moedas de prata, com a inscrição YHD (Yehud, o nome persa da província), foram cunhadas em Judá. Uma delas traz uma figura sobre uma roda alada, que alguns leem como o Deus de Israel, embora a identificação seja incerta. Outra é lida como trazendo o nome de um governador, Ezequias, por volta de 335 a.C.

05 — ELEFANTINAUm templo de Yahu no Egito

Chegamos ao achado que mais mexe com o leitor da Bíblia. Elefantina é uma ilha do Nilo, perto de Assuã, na primeira catarata, onde havia uma guarnição de fronteira. No fim do séc. XIX e início do XX, começaram a aparecer ali papiros e fragmentos de cerâmica escritos em aramaico. Entre eles, documentos de uma comunidade de soldados judeus, com famílias, contratos e um templo ao deus Yahu (YHW), ao lado do templo egípcio do deus Khnum. Os papiros cobrem, segundo o catálogo, os anos entre c. 495 e 399 a.C., e o templo já existia, segundo a própria comunidade, quando Cambises conquistou o Egito, em 525 a.C. Não se sabe quando nem por que os judeus chegaram: as hipóteses vão de soldados de reis judeus antigos a refugiados depois de 587 a.C.

Papiro aramaico de Elefantina com lista de doadores do templo judaico, em fragmentos
Papiro aramaico de Elefantina com a lista de doadores ao templo judaico — c. 400 a.C. (1.º de junho de 400 a.C., segundo o catálogo do museu); Papyrus Berlin 13488, Ägyptisches Museum und Papyrussammlung, Staatliche Museen zu Berlin. Mais de 120 nomes, em fragmentos. Domínio público (marca de domínio público do museu).

Três documentos importam aqui.

A carta da Páscoa (419 a.C.). Uma carta em aramaico, hoje em Berlim, dá instruções à comunidade sobre a festa dos pães ázimos. A Páscoa em si não é nomeada no texto que sobreviveu, e é por isso que se diz que a carta "parece" tratar dela. Mostra uma comunidade que guarda festas do calendário israelita.

A destruição do templo (410 a.C.). Em 410, o templo de Yahu foi destruído. Segundo as cartas dos próprios judeus, a culpa foi de uma facção ligada ao sacerdócio do deus Khnum, com a participação de um comandante persa local, que teria sido subornado. As razões não são dadas com clareza, e alguns estudiosos suspeitam que os sacerdotes egípcios se incomodavam com os sacrifícios de ovelhas do templo vizinho, sobretudo na Páscoa.

A petição (407 a.C.). O mais famoso. Em 407 a.C. (20 de Marquesvã, ano 17 de Dario II), a comunidade escreveu a Bagoas (Bagohi), governador de Judá, pedindo ajuda para reconstruir o templo. Escreveram também aos filhos de Sambalate, em Samaria, e a Joanã, de Jerusalém. O governador Bagoas e Delaías, filho de Sambalate, responderam com um memorando que permitia reconstruir o templo no mesmo lugar. Há um ponto delicado, o dos sacrifícios. Um rascunho da petição fala em oferta de cereais, incenso e holocausto, e uma carta posterior, de moradores de Siene, promete só incenso e oferta de cereais, sem animais; nos dois casos, partes do texto são restaurações dos editores, e não palavra preservada por inteiro.

🏺 O que a pá encontrou

Papiros e óstracos de Elefantina estão em Berlim (a maior coleção), no Cairo, no Brooklyn Museum (onde está o arquivo de Ananias e Tamut, oito papiros que cobrem uns 47 anos de documentos de família), em Londres, Munique e Paris. O arquivo de Mibtahiah, com onze papiros comprados de comerciantes de Assuã e publicados em 1906 (por Sayce e Cowley), reúne contratos de uma mulher judia do séc. V a.C. Os documentos mostram famílias comuns, com casamentos, dotes, venda de casas e empréstimos, em aramaico, e nomes com "Yahu" por dentro. Entre os deuses citados nos papiros, ao lado de Yahu, aparecem nomes como Anat-Yahu e Ashem-Betel: os estudiosos discutem se isso mostra politeísmo na comunidade ou se são formas de falar do próprio Yahu.

⚠️ A Bíblia nunca menciona Elefantina. O que os papiros mostram é uma comunidade judaica com templo próprio, fora de Jerusalém, e que pedia autorização a Jerusalém e a Samaria. Como isso se encaixa com a ideia de que o culto devia ser centralizado em Jerusalém (Deuteronômio 12) é um debate antigo, e há leituras diversas. Também não se deve concluir nada sobre a fé de todos os judeus da época: Elefantina é um caso, e não o retrato do judaísmo inteiro.

Há um eco curioso na Bíblia. Jeremias fala de judeus que moravam em "Migdol, e em Tafnes, e em Nofe, e na terra de Patros" Jr 44.1, no Egito, e Isaías anuncia que "naquele tempo o Senhor terá um altar no meio da terra do Egito" Is 19.19. Nenhum dos dois cita Elefantina, e não se deve forçar a ligação. Mas mostram que a Bíblia sabia que havia judeus no Egito, e profetas que olhavam para eles com interesse.

🌱 Semente de sermão

A estrada, a língua e a moeda do império serviram a muita gente, e serviram também ao povo de Deus: cartas que chegaram a Judá, uma língua em que a Bíblia foi escrita em parte, um dinheiro que pagou o templo. Deus não depende de que o mundo seja justo para usar o que o mundo construiu. Os correios de Ester levaram a ordem de morte e, meses depois, a de vida, pelas mesmas estradas. A questão não é de quem é a estrada, mas que mensagem se põe no cavalo.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🐎

A Estrada Real

Cento e onze estações de Sardes a Susa; noventa dias a pé, uns nove a cavalo. "Nem neve, nem chuva": a frase é de Heródoto.

🗣️

O aramaico

A língua franca do império. Esdras e Daniel têm seções inteiras em aramaico; Jesus falava aramaico.

💰

Tributo e moeda

"Direitos, tributos e pedágios" Ed 4.13. O dárico de ouro aparece em Esdras 8.27 com o nome hebraico ʼădarkōnîm.

🏛️

Elefantina

Soldados judeus com templo de Yahu no Egito; petição de 407 a.C. a Bagoas, governador de Judá. A Bíblia não a menciona.

Próximo capítulo: o que a pá encontrou. Behistun, Persépolis, Susa, as tabuinhas de Persépolis e o Cilindro de Ciro, objeto por objeto.

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