SOBRE ESTE LIVROA Pérsia da Bíblia, em poucos minutos
No salão do banquete, uns dedos de mão de homem escrevem na parede, e ninguém na Babilônia sabe ler o que está escrito. Daniel lê, e a última palavra é a que interessa a este livro.
Aquela noite abre a história que este livro conta: quem eram os persas, no que acreditavam, cada vez que eles cruzaram o caminho do povo de Deus, de Ciro a Alexandre, e o que a pá dos arqueólogos tirou da terra. Se você ler só esta página, já sai com o essencial.
Quem eram. Vieram de um planalto alto, seco e cercado de montanhas, o do atual Irã. Foram vassalos dos medos até que um rei de uma terra pequena, Ciro, de Anshan, derrubou o rei medo, em c. 550 a.C., conquistou a Lídia e entrou na Babilônia sem batalha, em outubro de 539. Seus herdeiros, Dario, Xerxes e Artaxerxes, fizeram, segundo os historiadores, o maior império que o mundo tinha visto até então: do vale do Indo ao Egito, em satrapias ligadas por uma estrada real, uma língua, o aramaico, e uma moeda de ouro, o dárico. A Bíblia dá nome a quatro reis persas: Ciro, Dario, Assuero e Artaxerxes.
No que acreditavam. O Grande Rei não era deus, como o Faraó. Dizia reinar "pela graça de Aúra-Masda", o "Senhor Sábio", e convivia com magos, fogo e outros deuses. Se os reis eram "zoroastrianos", e quando viveu Zoroastro, são perguntas em aberto, e se a Pérsia moldou a fé de Israel é um debate honesto, sem resposta provada.
Cada vez que cruzam a Bíblia. Isaías chama Ciro de "meu pastor" e "ungido", mesmo ele não conhecendo o Senhor Is 45.1-4. O decreto que abre Esdras manda o povo voltar Ed 1.2-3, e a obra do templo para e recomeça, pela voz de Ageu e Zacarias, até que um rei, Dario, manda buscar o decreto nos arquivos e ordena que a casa seja terminada Ed 6.1-2. Daniel cai na cova dos leões pela "lei dos medos e persas, que não se revoga" Dn 6.8, e há um debate sobre quem foi "Dario, o medo". Em Susã, uma jovem órfã chamada Ester enfrenta o poder de Hamã: "quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?" Et 4.14. E dois homens, o escriba Esdras e o copeiro Neemias, voltam a Jerusalém com cartas do rei. Neemias reconstrói o muro em cinquenta e dois dias Ne 6.15.
O que a pá encontrou. Uma boa parte do cenário é confirmada: o Cilindro de Ciro mostra a política de devolver deuses e povos, mas não cita Jerusalém; uma tabuinha de 502 a.C. traz o governador Tattannu, que costuma ser identificado com o Tatenai de Esdras; as cartas de uma colônia judaica em Elefantina, no Egito, falam com Bagoas, governador de Judá, e com os filhos de Sambalate; a inscrição de Behistun e as tabuinhas de Persépolis mostram o império por dentro. Mas nenhum texto persa fala de Esdras, de Neemias ou de Ester, e o livro de Ester, em particular, divide os estudiosos entre relato histórico, novela histórica e lenda de Purim. O livro mostra sempre as posições e não fecha o que a Bíblia não fecha.
Como isso muda sua leitura. Você vai notar que o hebraico usa o mesmo verbo, "despertou", para os medos, para Ciro e para o povo. Vai ver "dalém do rio" como o nome de uma região persa e "floresta do rei" como o pardēs de onde vem a palavra "paraíso". Vai ler a Bíblia hebraica terminar com um convite de um rei persa, "e suba" 2Cr 36.23. E vai perceber que a Pérsia não é o Egito que esmaga nem a Babilônia que destrói, e sim um império comum, que manda voltar e cobra impostos, e dentro do qual Deus age. No fim, Alexandre quebra os dois chifres do carneiro de Daniel, e uns magos do oriente chegam a Jerusalém.
ANTES DE COMEÇARO mapa para não se perder
Na ACF, "Pérsia" e "persas" aparecem umas trinta vezes, nos livros de Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Ezequiel e Daniel. Quase tudo o que a Bíblia conta do período entre 539 e 330 a.C. se passa sob o domínio deles. Antes de entrar nas cenas, fixe estes seis cartões.
Onde
O planalto do Irã: a região de Fars (os persas), o noroeste (os medos) e o sudoeste (Elão, com a cidade de Susa). O império foi do vale do Indo ao Egito e à Trácia.
Quando
Ciro governa Anshan em 559 a.C. e toma a Babilônia em 539. O império cai diante de Alexandre em 330 a.C., depois de uns dois séculos.
Por que importa na Bíblia
É o império que manda os exilados voltarem, deixa reconstruir o templo e o muro e dá o cenário de Esdras, Neemias, Ester, Ageu, Zacarias e Daniel.
O momento mais famoso
O decreto de Ciro Ed 1.1-4 e a cova dos leões Dn 6. Em Ester, o dia em que a ordem de matar vira ordem de defesa.
Quatro reis com nome
Ciro, Dario, Assuero (Xerxes) e Artaxerxes. Cambises, filho de Ciro, não aparece. "Dario, o medo" é um enigma.
A prova fora da Bíblia
O Cilindro de Ciro, no Museu Britânico, prova uma política de restauração de cultos, não o decreto de Esdras 1.
O hebraico chama a Pérsia de Paras (פָּרַס) e a Média de Madai (מָדַי). Os persas dão nome a muita coisa que o hebraico e o aramaico bíblicos emprestaram: dāt, "lei" ou "decreto"; ʼăḥašdarpĕnîm, "sátrapas"; pardēs, "parque real". E o verbo ʿûr, "despertar", reaparece quando a Bíblia explica como os medos, Ciro e os judeus se puseram em movimento.
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