O Gólgota, perto do meio-dia. Alguém sobe uma escada e prega, no alto da cruz, uma tábua escrita por Pilatos: "JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS". João acrescenta um detalhe de cartório: "muitos dos judeus leram este título; porque o lugar onde Jesus estava crucificado era próximo da cidade; e estava escrito em hebraico, grego e latim" Jo 19.19-20. Três línguas na mesma tábua. O hebraico era o da lei, o latim o do governo, e o grego era o que qualquer pessoa, do Egito à Síria, conseguia ler.
Esse grego, a koiné, foi o legado mais duradouro de Alexandre. Este último capítulo reúne o que os dez anteriores deixam à mostra: a língua, as cidades, o que a arqueologia achou e confirmou, onde ela se calou, e oito versículos que parecem outros depois de passar pelos macedônios.
01 — A LÍNGUADo acampamento de Alexandre à tábua da cruz
A koiné, o grego "comum", nasceu, segundo a explicação mais aceita, nos exércitos de Alexandre, a partir do dialeto ático de Atenas, com marcas do jônico e de outras variedades que a mistura de soldados e administradores foi nivelando. Depois das conquistas, ela se espalhou do Egito dos Ptolomeus ao império selêucida, da Mesopotâmia, e virou língua de uso comum em boa parte do Mediterrâneo e do Oriente Médio. É o grego da Septuaginta, que o Capítulo 7 contou, e do Novo Testamento. Os melhores testemunhos dela são os papiros e as inscrições, que mostram a língua como as pessoas a escreviam de verdade.
No começo do século XX, o teólogo alemão Adolf Deissmann, em Licht vom Osten (1908; em inglês, Light from the Ancient East, 1910), mostrou que o grego do Novo Testamento era, em boa medida, esse grego do dia a dia dos papiros, e não uma língua sagrada à parte. A discussão não parou: os estudiosos debatem quanto das marcas semíticas do texto vem de traduções de hebraico e aramaico, ou de judeus que falavam aramaico e escreviam em grego. E os autores do Novo Testamento seguem a Septuaginta em mais da metade das citações que fazem do Antigo Testamento, mas não em todas.
O Novo Testamento está cheio de sinais de um mundo de língua grega. Há uma "murmuração dos gregos contra os hebreus" na igreja de Jerusalém, porque as viúvas deles eram deixadas de lado At 6.1. Entre os judeus de Jerusalém há uma sinagoga de alexandrinos At 6.9. O tribuno romano pergunta a Paulo: "Sabes o grego?" At 21.37. E, na festa, "alguns gregos" procuram Filipe, "que era de Betsaida da Galileia", e pedem: "queríamos ver a Jesus" Jo 12.20-21. Filipe tem nome grego, e é o nome do pai de Alexandre. O dicionário de Strong o explica como "amigo de cavalos". André, que leva o recado junto, também tem nome grego, "viril" Jo 12.22.
"Koiné" (koinḗ) quer dizer "a comum", do adjetivo koinós (κοινός), "comum, compartilhado por todos" (Strong), a mesma raiz de koinōnía (κοινωνία), "comunhão, participação". O grego dos judeus que falavam grego tem um nome no Novo Testamento: Hellēnistḗs (Ἑλληνιστής), "um judeu de língua grega" (Strong), que a ACF traduz por "gregos" em Atos 6.1. É o oposto de "hebreu", o judeu que falava aramaico e hebraico na Judeia.
Como as pessoas escreviam em grego no cotidiano? Um dos papiros mais conhecidos, de Oxirrinco, no Egito, é do ano 1 a.C. (P.Oxy. IV 744). Um homem chamado Hilarião, que trabalha em Alexandria, escreve à mulher ou irmã, Alis, que está grávida: se for menino, que o deixe viver; se for menina, que a exponha. É uma carta de família, cheia de recomendações e saudações, num grego sem enfeites, e mostra duas coisas ao mesmo tempo: como o grego era a língua de todo dia, e quão comum era o abandono de meninas recém-nascidas. Os estudiosos discutem pequenas leituras do trecho. O sentido geral da frase, porém, é claro.
02 — AS CIDADESO mapa que Alexandre e os sucessores desenharam
As cidades fundadas ou refundadas pelos sucessores de Alexandre são o cenário de boa parte do Novo Testamento. Alexandria, no Egito, a cidade que o rei marcou com cevada (Capítulo 2), é o berço da Septuaginta e a terra de Apolo, "judeu... natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras" At 18.24. Um navio de Alexandria, "que tinha por insígnia Castor e Pólux", leva Paulo de Malta a Roma At 28.11.
Antioquia, na Síria, foi fundada por Seleuco I, por volta de 300 a.C., e os estudiosos modernos ligam o nome da cidade ao pai dele, Antíoco. Ali o evangelho passou a ser anunciado aos gregos, quando alguns homens de Chipre e Cirene "falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus", e "em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos" At 11.20-26. Laodiceia, no vale do Lico, foi fundada por Antíoco II, c. 261–253 a.C., em honra da esposa, Laódice, e é a cidade da carta lida em voz alta Cl 4.16 e da igreja "morna" Ap 3.14-16. E a Decápolis, o grupo de dez cidades de cultura grega, quase todas a leste do Jordão e ligadas ao mundo helenístico, é a terra onde o homem curado dos demônios "começou a anunciar em Decápolis quão grandes coisas Jesus lhe fizera" Mc 5.20, e de onde vêm multidões que seguem Jesus Mt 4.25.
E há Filipos, Tessalônica e Trôade, de que o Capítulo 10 falou, que levam os nomes de Filipe, da irmã de Alexandre e do próprio Alexandre. O mapa grego do Novo Testamento é, em grande parte, o mapa de nomes dinásticos: Alexandre, Seleuco, Antíoco, Laódice, Filipe.
03 — O QUE A PÁ ENCONTROUO balanço do livro
Ao longo deste livro, a arqueologia entrou em cada capítulo, e vale juntar tudo numa lista só, com o que cada achado prova e o que ele não prova.
⚠️ Em resumo: a arqueologia confirma, com firmeza, o mundo em que a Bíblia foi escrita: os reis, as cidades, as línguas, os títulos. Ela é muito mais reticente quanto aos episódios individuais, como a ida de Alexandre a Jerusalém, o milagre de Heliodoro ou a data de Daniel.
04 — COMO ISSO MUDA SUA LEITURAPassagens que ganham sentido novo
Alguns exemplos do que muda quando se conhece o mundo de Alexandre. "O bode" de Daniel é o rei da Grécia, e o grande chifre é o primeiro rei Dn 8.21. "Quitim" é o oeste distante: Primeiro Macabeus o aplica à Macedônia, e em Daniel 11.30 muitos leitores veem Roma. O "pequeno socorro" de Daniel 11.34 é lido por muitos como a revolta dos macabeus. A "abominação da desolação" que Jesus cita Mt 24.15 vem de um altar que foi posto em Jerusalém em dezembro de 167 a.C. A "festa da dedicação" de João 10.22 é Hanucá. O "corpo me preparaste" de Hebreus 10.5 vem da Bíblia grega. O "macedônio" da visão de Paulo tem atrás de si a casa de Filipe. E a questão de quem merece os títulos de salvador e de senhor, de 1 Coríntios 8.5-6, de Atos 12.22 e de Tessalônica, ganha o peso que tinha numa época em que reis aceitavam esses títulos.
Alexandre atravessou o mundo em doze anos e morreu sem herdeiro adulto. Quando perguntaram a quem deixava o reino, diz uma tradição, respondeu: "Ao melhor" (Capítulo 2). Daniel já tinha contado que o grande chifre seria quebrado, e que quatro subiriam no lugar dele Dn 8.8. Mas o que ficou dele não foram os reinos: foi a língua. Alexandre não pediu para trabalhar pelo evangelho. Mesmo assim, o grego que ele espalhou levou o evangelho mais longe do que qualquer exército, e foi em grego, entre o hebraico e o latim, que se escreveu na cruz o título de um rei que ele nunca conheceu.
PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos-chave
CURIOSIDADESPequenos achados do livro
Quatro Alexandres e um Filipe
O nome Alexandre aparece no Novo Testamento em quatro pessoas, e nenhuma é o rei Mc 15.21. O apóstolo Filipe leva o nome do pai dele.
Reis hasmoneus de nome grego
A dinastia que nasceu de uma revolta contra o helenismo teve reis chamados Aristóbulo e Alexandre (Jerônimo, Comentário a Daniel, sobre Dn 9).
Um navio e uma cidade
Trôade, de onde parte a visão do macedônio, tem o nome de Alexandre desde 301 a.C. At 16.8-9.
Setenta e cinco almas
Estêvão segue a Septuaginta, não o hebraico: setenta e cinco, não setenta At 7.14.
O Hanucá de Jesus
Em dezembro, no alpendre de Salomão, Jesus anda no templo purificado pelos macabeus Jo 10.22-23.
Daqui a série segue por onde a Macedônia levou o mundo: a Pérsia, de quem Alexandre herdou o império; Roma, que herdou a Macedônia e o grego; e a filosofia grega, que Alexandre espalhou e que Paulo encontrou em Atenas. A série tem um livro para cada um.
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