Alexandre e a MacedôniaCapítulo 11 de 11 ⤓ PDF
O templo circular de Baalbek, litografia de David Roberts
CAPÍTULO 11 DE 11

O que Alexandre deixou

A koiné, as cidades gregas e o que a pá achou

No alto da cruz, uma tábua escrita por Pilatos em três línguas. A que qualquer pessoa, do Egito à Síria, conseguia ler era a que Alexandre e seus sucessores espalharam.

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O Gólgota, perto do meio-dia. Alguém sobe uma escada e prega, no alto da cruz, uma tábua escrita por Pilatos: "JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS". João acrescenta um detalhe de cartório: "muitos dos judeus leram este título; porque o lugar onde Jesus estava crucificado era próximo da cidade; e estava escrito em hebraico, grego e latim" Jo 19.19-20. Três línguas na mesma tábua. O hebraico era o da lei, o latim o do governo, e o grego era o que qualquer pessoa, do Egito à Síria, conseguia ler.

Esse grego, a koiné, foi o legado mais duradouro de Alexandre. Este último capítulo reúne o que os dez anteriores deixam à mostra: a língua, as cidades, o que a arqueologia achou e confirmou, onde ela se calou, e oito versículos que parecem outros depois de passar pelos macedônios.

01 — A LÍNGUADo acampamento de Alexandre à tábua da cruz

A koiné, o grego "comum", nasceu, segundo a explicação mais aceita, nos exércitos de Alexandre, a partir do dialeto ático de Atenas, com marcas do jônico e de outras variedades que a mistura de soldados e administradores foi nivelando. Depois das conquistas, ela se espalhou do Egito dos Ptolomeus ao império selêucida, da Mesopotâmia, e virou língua de uso comum em boa parte do Mediterrâneo e do Oriente Médio. É o grego da Septuaginta, que o Capítulo 7 contou, e do Novo Testamento. Os melhores testemunhos dela são os papiros e as inscrições, que mostram a língua como as pessoas a escreviam de verdade.

No começo do século XX, o teólogo alemão Adolf Deissmann, em Licht vom Osten (1908; em inglês, Light from the Ancient East, 1910), mostrou que o grego do Novo Testamento era, em boa medida, esse grego do dia a dia dos papiros, e não uma língua sagrada à parte. A discussão não parou: os estudiosos debatem quanto das marcas semíticas do texto vem de traduções de hebraico e aramaico, ou de judeus que falavam aramaico e escreviam em grego. E os autores do Novo Testamento seguem a Septuaginta em mais da metade das citações que fazem do Antigo Testamento, mas não em todas.

O Novo Testamento está cheio de sinais de um mundo de língua grega. Há uma "murmuração dos gregos contra os hebreus" na igreja de Jerusalém, porque as viúvas deles eram deixadas de lado At 6.1. Entre os judeus de Jerusalém há uma sinagoga de alexandrinos At 6.9. O tribuno romano pergunta a Paulo: "Sabes o grego?" At 21.37. E, na festa, "alguns gregos" procuram Filipe, "que era de Betsaida da Galileia", e pedem: "queríamos ver a Jesus" Jo 12.20-21. Filipe tem nome grego, e é o nome do pai de Alexandre. O dicionário de Strong o explica como "amigo de cavalos". André, que leva o recado junto, também tem nome grego, "viril" Jo 12.22.

🔎 A palavra original

"Koiné" (koinḗ) quer dizer "a comum", do adjetivo koinós (κοινός), "comum, compartilhado por todos" (Strong), a mesma raiz de koinōnía (κοινωνία), "comunhão, participação". O grego dos judeus que falavam grego tem um nome no Novo Testamento: Hellēnistḗs (Ἑλληνιστής), "um judeu de língua grega" (Strong), que a ACF traduz por "gregos" em Atos 6.1. É o oposto de "hebreu", o judeu que falava aramaico e hebraico na Judeia.

👁️ Como era viver ali

Como as pessoas escreviam em grego no cotidiano? Um dos papiros mais conhecidos, de Oxirrinco, no Egito, é do ano 1 a.C. (P.Oxy. IV 744). Um homem chamado Hilarião, que trabalha em Alexandria, escreve à mulher ou irmã, Alis, que está grávida: se for menino, que o deixe viver; se for menina, que a exponha. É uma carta de família, cheia de recomendações e saudações, num grego sem enfeites, e mostra duas coisas ao mesmo tempo: como o grego era a língua de todo dia, e quão comum era o abandono de meninas recém-nascidas. Os estudiosos discutem pequenas leituras do trecho. O sentido geral da frase, porém, é claro.

02 — AS CIDADESO mapa que Alexandre e os sucessores desenharam

As cidades fundadas ou refundadas pelos sucessores de Alexandre são o cenário de boa parte do Novo Testamento. Alexandria, no Egito, a cidade que o rei marcou com cevada (Capítulo 2), é o berço da Septuaginta e a terra de Apolo, "judeu... natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras" At 18.24. Um navio de Alexandria, "que tinha por insígnia Castor e Pólux", leva Paulo de Malta a Roma At 28.11.

Antioquia, na Síria, foi fundada por Seleuco I, por volta de 300 a.C., e os estudiosos modernos ligam o nome da cidade ao pai dele, Antíoco. Ali o evangelho passou a ser anunciado aos gregos, quando alguns homens de Chipre e Cirene "falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus", e "em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos" At 11.20-26. Laodiceia, no vale do Lico, foi fundada por Antíoco II, c. 261–253 a.C., em honra da esposa, Laódice, e é a cidade da carta lida em voz alta Cl 4.16 e da igreja "morna" Ap 3.14-16. E a Decápolis, o grupo de dez cidades de cultura grega, quase todas a leste do Jordão e ligadas ao mundo helenístico, é a terra onde o homem curado dos demônios "começou a anunciar em Decápolis quão grandes coisas Jesus lhe fizera" Mc 5.20, e de onde vêm multidões que seguem Jesus Mt 4.25.

E há Filipos, Tessalônica e Trôade, de que o Capítulo 10 falou, que levam os nomes de Filipe, da irmã de Alexandre e do próprio Alexandre. O mapa grego do Novo Testamento é, em grande parte, o mapa de nomes dinásticos: Alexandre, Seleuco, Antíoco, Laódice, Filipe.

03 — O QUE A PÁ ENCONTROUO balanço do livro

Ao longo deste livro, a arqueologia entrou em cada capítulo, e vale juntar tudo numa lista só, com o que cada achado prova e o que ele não prova.

Cap. 1 — Vergina (Egas), 1977
Tumba real do século IV a.C. Prova riqueza e arte de nível altíssimo. Não prova de quem são os ossos (Filipe II ou Filipe III, debatido).
Cap. 2 — Mosaico de Alexandre, Pompeia
Cópia romana (c. 120–100 a.C.) de uma pintura grega. Prova como Alexandre era lembrado. Não prova detalhes da batalha.
Cap. 3 — Moedas de Filipe II e de Lisímaco
Prova que, uma geração depois, reis usavam o rosto de Alexandre com os chifres de Amon. Não prova que ele pediu para ser adorado.
Cap. 4 — Manuscritos de Daniel, Qumran
Cópias de c. 125 a.C. em diante. Provam que o livro circulava. Não decidem a data da composição.
Cap. 6 — Wadi Daliyeh e Gerizim
Selos de "Sambalate, governador de Samaria" e um templo samaritano que o escavador data do século V a.C. Mostram a região. Não provam o encontro de Alexandre com o sumo sacerdote.
Cap. 7 — Papiros de Zenão e Rylands 458
Mostram o controle egípcio da Palestina e a lei em grego no século II a.C. Não provam a história dos setenta e dois tradutores.
Cap. 8 e 9 — Estela de Heliodoro e a Acra
Uma carta de 178 a.C. e um possível forte selêucida (Givati, 2015). Confirmam o ministro e o ambiente. A localização da Acra segue em debate.
Cap. 10 — Filipos e os politarcas
Uma colônia romana e um título de Lucas atestado nas inscrições da Macedônia. Confirmam o cenário. Não trazem o nome de Paulo.

⚠️ Em resumo: a arqueologia confirma, com firmeza, o mundo em que a Bíblia foi escrita: os reis, as cidades, as línguas, os títulos. Ela é muito mais reticente quanto aos episódios individuais, como a ida de Alexandre a Jerusalém, o milagre de Heliodoro ou a data de Daniel.

04 — COMO ISSO MUDA SUA LEITURAPassagens que ganham sentido novo

Alguns exemplos do que muda quando se conhece o mundo de Alexandre. "O bode" de Daniel é o rei da Grécia, e o grande chifre é o primeiro rei Dn 8.21. "Quitim" é o oeste distante: Primeiro Macabeus o aplica à Macedônia, e em Daniel 11.30 muitos leitores veem Roma. O "pequeno socorro" de Daniel 11.34 é lido por muitos como a revolta dos macabeus. A "abominação da desolação" que Jesus cita Mt 24.15 vem de um altar que foi posto em Jerusalém em dezembro de 167 a.C. A "festa da dedicação" de João 10.22 é Hanucá. O "corpo me preparaste" de Hebreus 10.5 vem da Bíblia grega. O "macedônio" da visão de Paulo tem atrás de si a casa de Filipe. E a questão de quem merece os títulos de salvador e de senhor, de 1 Coríntios 8.5-6, de Atos 12.22 e de Tessalônica, ganha o peso que tinha numa época em que reis aceitavam esses títulos.

🌱 Semente de sermão

Alexandre atravessou o mundo em doze anos e morreu sem herdeiro adulto. Quando perguntaram a quem deixava o reino, diz uma tradição, respondeu: "Ao melhor" (Capítulo 2). Daniel já tinha contado que o grande chifre seria quebrado, e que quatro subiriam no lugar dele Dn 8.8. Mas o que ficou dele não foram os reinos: foi a língua. Alexandre não pediu para trabalhar pelo evangelho. Mesmo assim, o grego que ele espalhou levou o evangelho mais longe do que qualquer exército, e foi em grego, entre o hebraico e o latim, que se escreveu na cruz o título de um rei que ele nunca conheceu.

PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos-chave

Daniel 8.21"Mas o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei."
Daniel 11.32"E aos violadores da aliança ele com lisonjas perverterá, mas o povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e fará proezas."
João 10.22"E em Jerusalém havia a festa da dedicação, e era inverno."
Atos 12.22"E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem."
Atos 16.9"E Paulo teve de noite uma visão, em que se apresentou um homem da Macedônia, e lhe rogou, dizendo: Passa à Macedônia, e ajuda-nos."
Atos 17.11"Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim."
1 Tessalonicenses 1.9"Porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos para convosco, e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro."
2 Coríntios 8.2"Como em muita prova de tribulação houve abundância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza abundou em riquezas da sua generosidade."

CURIOSIDADESPequenos achados do livro

🏷️

Quatro Alexandres e um Filipe

O nome Alexandre aparece no Novo Testamento em quatro pessoas, e nenhuma é o rei Mc 15.21. O apóstolo Filipe leva o nome do pai dele.

👑

Reis hasmoneus de nome grego

A dinastia que nasceu de uma revolta contra o helenismo teve reis chamados Aristóbulo e Alexandre (Jerônimo, Comentário a Daniel, sobre Dn 9).

📚

"Bíblia" é grego

Vem de ta biblía, "os livros", e de bíblos, a casca do papiro (Strong) 2Tm 4.13.

⚓

Um navio e uma cidade

Trôade, de onde parte a visão do macedônio, tem o nome de Alexandre desde 301 a.C. At 16.8-9.

🧮

Setenta e cinco almas

Estêvão segue a Septuaginta, não o hebraico: setenta e cinco, não setenta At 7.14.

🕯️

O Hanucá de Jesus

Em dezembro, no alpendre de Salomão, Jesus anda no templo purificado pelos macabeus Jo 10.22-23.

Daqui a série segue por onde a Macedônia levou o mundo: a Pérsia, de quem Alexandre herdou o império; Roma, que herdou a Macedônia e o grego; e a filosofia grega, que Alexandre espalhou e que Paulo encontrou em Atenas. A série tem um livro para cada um.

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