Babilônia, no segundo ano de Nabucodonosor. O rei acorda perturbado, sem sono, e manda chamar os magos, os astrólogos, os encantadores e os caldeus Dn 2.1-2. Quando os sábios pedem que ele conte o sonho para eles o interpretarem, ele responde que o sonho lhe escapou e que os sábios serão despedaçados se não disserem o que foi e o que significa Dn 2.5. É nessa sala que um jovem judeu exilado, Daniel, pede um prazo, ora, e volta com a resposta: "há um Deus no céu, o qual revela os mistérios" Dn 2.28.
Esta cena é de Babilônia, não da Macedônia. Mas é o livro de Daniel que dá ao mundo grego o seu lugar na profecia bíblica, e quase todo mundo que lê Daniel se pergunta onde Alexandre aparece. A resposta depende de como se contam os reinos. Este capítulo põe lado a lado as leituras principais de Daniel 2 e 7, descreve cada uma com as palavras e as fontes dela, e não decide entre elas. O Capítulo 5 faz o mesmo com Daniel 8 e 11.
01 — A ESTÁTUAQuatro metais e uma pedra
No sonho, o rei vê uma estátua imensa, de aparência terrível. Daniel descreve as partes dela:
Uma pedra, cortada "sem auxílio de mão", fere os pés, e o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro viram palha da eira que o vento leva. A pedra cresce e enche a terra Dn 2.34-35. A interpretação dá um nome só: "tu és a cabeça de ouro" Dn 2.38. Os outros reinos aparecem sem nome. Depois de Nabucodonosor se levantará "outro reino, inferior ao teu", depois "um terceiro reino, de bronze, o qual dominará sobre toda a terra" e depois "o quarto reino... forte como ferro" Dn 2.39-40. O ferro misturado com barro será "um reino dividido", em parte forte, em parte frágil, e "misturar-se-ão com semente humana, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro" Dn 2.41-43. E "nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído" Dn 2.44.
É isso que o texto diz com todas as letras. Tudo o mais, quem são o segundo, o terceiro e o quarto reinos, é interpretação. Há duas leituras antigas e duas outras mais novas.
Leitura 1 — Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia, Roma. É a que aparece em Josefo, no século I d.C., e que judeus e cristãos repetiram por séculos. Josefo, historiador judeu do século I, resume o sonho assim: a cabeça de ouro é Nabucodonosor e os reis de Babilônia antes dele; os braços de prata são os dois reis que dissolverão esse governo; "um rei que virá do ocidente, armado de bronze" o destruirá; e outro governo, "semelhante ao ferro", o sucederá e dominará toda a terra. Nesse trecho Josefo não dá nome a nenhum reino além do primeiro; que o último seja Roma ele diz em outro lugar, ao comentar o capítulo 8 (X, 276; ver Capítulo 5). Sobre a pedra, Josefo diz que não vai contar, porque só escreve sobre o passado e o presente, e manda o leitor curioso ao próprio livro de Daniel (Antiguidades X, 208–210, tradução minha). Jerônimo, por volta de 407 d.C., faz a conta por extenso: a prata é o império dos medos e persas; o bronze é o império de Alexandre e dos sucessores dele; o quarto é Roma, e a pedra é o Senhor e Salvador (Comentário a Daniel, sobre Dn 2). Calvino, no século XVI, também trata o quarto reino como o romano.
Leitura 2 — Babilônia, Média, Pérsia, Grécia. Já no século III, o filósofo Porfírio, que não era cristão, argumentou que o livro foi escrito por alguém na Judeia no tempo de Antíoco Epifânio e que o autor narrava o passado como se fosse futuro. Jerônimo lhe responde no prólogo do próprio comentário (Comentário a Daniel, prólogo). Hoje essa é a leitura da maioria dos estudiosos críticos: a data do livro seria c. 167–164 a.C., e o quarto reino seria o grego, o de Alexandre e dos sucessores, com os reis selêucidas e ptolomaicos como o ferro e o barro. Os críticos apontam, para separar a Média da Pérsia, o próprio texto de Daniel, que fala de Dario, "o medo" Dn 5.31, e do reino "dado aos medos e aos persas" Dn 5.28. Quem defende a Leitura 1 responde que "medos e persas" formam um único império, o da "lei dos medos e dos persas" Dn 6.8. Quanto a Dario, o medo, nenhum documento antigo fora da Bíblia o confirma, e isso também entra na discussão.
Leitura 3 — a historicista. Adventistas do Sétimo Dia, por exemplo, ensinam a sequência Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma, e leem os pés de ferro e barro como as nações da Europa moderna, que se "misturam" por casamentos entre as casas reais e continuam divididas, como o ferro não se mistura com o barro (lição da Escola Sabatina, ssnet.org). A pedra é o reino que Deus estabelece no fim. Leitura 4 — a futurista. Entre os dispensacionalistas, é comum ler os dez dedos como dez reis de um Império Romano reorganizado no fim dos tempos (resumo de comentários citados em preceptaustin.org).
⚠️ Atenção: são leituras de um mesmo texto, e as quatro concordam em que a cabeça de ouro é Babilônia e em que o reino final é de Deus. Elas divergem em quem é o terceiro e o quarto reino, e esta é a questão que decide onde Alexandre cabe. Na Leitura 1, ele é o bronze, o terceiro metal. Na Leitura 2, ele é o ferro, o quarto. Este livro mostra as duas.
Daniel é escrito em dois idiomas. A introdução, em Daniel 1.1 até o meio de 2.4, e os capítulos 8 a 12 estão em hebraico. De Daniel 2.4 até o fim do capítulo 7, o texto muda para o aramaico, a língua comum do império, e a ACF avisa o leitor no ponto exato da mudança: "os caldeus disseram ao rei em aramaico" Dn 2.4. Os capítulos 2 e 7, o da estátua e o das quatro feras, estão, portanto, em aramaico.
E há grego dentro de Daniel. No capítulo 3, a lista de instrumentos que tocam para a multidão se prostrar diante da estátua de ouro tem três nomes de origem grega. O dicionário de Strong anota qîythârôç (קִיתָרֹס), "de origem grega", uma lira, que vem de kithára. Anota pᵉçanṭêrîyn (פְּסַנְטֵרִין), transliteração do grego psaltḗrion. E çûwmᵉpôwnᵉyâh (סוּמְפּוֹנְיָה), "de origem grega" também, uma gaita de foles Dn 3.5. Quem acha que o livro é do século II a.C. vê aí a marca de um mundo já helenizado. Quem o data no século VI a.C. lembra que gregos e coisas gregas já circulavam pelo Oriente: o geógrafo Estrabão conta, citando o poeta Alceu, que o irmão do poeta, Antimênidas, lutou ao lado dos babilônios (Geografia XIII, 2, 3). Cada lado tem argumento. Nenhum encerra a discussão.
02 — AS QUATRO FERASUm leopardo de quatro cabeças
Em Daniel 7, o profeta mesmo tem o sonho, "no primeiro ano de Belsazar, rei de Babilônia" Dn 7.1. Os quatro ventos agitam o mar, e dele sobem quatro animais: um leão com asas de águia, um urso com três costelas entre os dentes, um leopardo e uma quarta fera, de dentes de ferro e dez chifres Dn 7.2-7. É o leopardo que nos interessa mais de perto:
Entre os dez chifres sobe um "chifre pequeno", que arranca três deles e tem "olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas" Dn 7.8. Depois vem a cena do juízo e "um como o filho do homem", a quem é dado um domínio eterno Dn 7.13-14. O texto mesmo interpreta uma parte: "estes grandes animais, que são quatro, são quatro reis" Dn 7.17, e os "santos do Altíssimo" receberão o reino Dn 7.18.
Quem é quem? Na Leitura 1 (Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia, Roma), o leão é Babilônia, o urso é a Pérsia, o leopardo é a Grécia de Alexandre e a quarta fera é Roma. Jerônimo explica o leopardo assim: é veloz e se lança de cabeça, e as quatro asas dizem que nenhuma vitória foi mais rápida que a de Alexandre, que em seis anos, escreve ele, subjugou parte da Europa e toda a Ásia; as quatro cabeças são os generais que sucederam no poder, e Jerônimo cita Ptolomeu, Seleuco, Filipe Arrideu e Antígono. Listas modernas costumam trazer outros nomes: Cassandro, Lisímaco, Seleuco e Ptolomeu, os quatro que dividem o império depois de Ipsos, em 301 a.C. (Capítulo 7). Para a quarta fera, Jerônimo vê Roma e os dez chifres como dez reis; o chifre pequeno é o Anticristo, no fim do mundo. Calvino, mais de mil anos depois, também vê Roma na quarta fera, mas identifica o chifre pequeno com Júlio César e os Césares seguintes. Ele diz que "alguns torcem isso para o Papa, outros para o Turco" (tradução minha) e rejeita as duas leituras, porque, a seu ver, a visão não descreve toda a história da Igreja, só o que viria até a primeira vinda de Cristo (Comentário a Daniel, sobre Dn 7.8).
Na Leitura 2 (Babilônia, Média, Pérsia, Grécia), o leão é Babilônia, o urso é a Média, o leopardo é a Pérsia, e as quatro cabeças podem representar os quatro reis persas que Daniel 11.2 menciona. A quarta fera é o reino grego, os dez chifres são uma série de reis selêucidas, e o chifre pequeno é Antíoco IV Epifânio. Jerônimo conta que o esquema de Porfírio era parecido, só que mais enxuto: o leopardo era o próprio Alexandre, a quarta fera eram os quatro sucessores, e os dez reis iam até Antíoco. Jerônimo refuta Porfírio ponto a ponto e defende que a quarta fera é Roma (Comentário a Daniel, sobre Dn 7.7-8).
Uma terceira questão é a do "filho do homem". Cristãos leem aí o Messias, e Jesus usa a expressão sobre si mesmo diante do Sinédrio: "vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu" Mc 14.62. Os críticos costumam ver no "povo dos santos do Altíssimo" Dn 7.27 os judeus fiéis, ou os seres celestes que os representam. Jerônimo diz que "os judeus e o ímpio Porfírio" aplicam a pedra de Daniel 2 ao povo de Israel.
Entre os manuscritos achados em Qumran, perto do mar Morto, há cópias de Daniel, e a mais antiga, chamada 4QDanc, costuma ser datada de c. 125 a.C. (pelo estilo da escrita). Oito cópias incompletas foram identificadas, e elas parecem seguir o texto de doze capítulos, sem os acréscimos que aparecem na Bíblia grega (Susana, Bel e o Dragão).
⚠️ Isso prova que Daniel já circulava, e era copiado, no fim do século II a.C., poucas décadas depois da crise de Antíoco. (Um estudo de 2025, de Popović e colegas, deu a esse manuscrito, por radiocarbono, uma faixa mais antiga, de c. 230–160 a.C., e especialistas discutem o resultado.) Mas um manuscrito não diz quando o livro foi escrito. Quem data o livro no século VI a.C. e quem o data no II usam o mesmo achado, e cada um o lê a favor de si.
Pense no jovem Daniel, um dos que, segundo a ACF, deviam ter habilidade "para assistirem no palácio do rei" e aprender "as letras e a língua dos caldeus" Dn 1.4. A corte ensinava aos exilados a língua dos vencedores, e entre os sábios dela havia magos, astrólogos e encantadores que não souberam responder ao rei Dn 2.2. Quem vivia ali sabia que a vida podia depender de uma interpretação, porque o rei ameaçou despedaçar os sábios que falhassem. Para quem data o livro no século II a.C., essas histórias foram lidas por gente que vivia um medo parecido sob outros reis, os selêucidas.
A estátua é feita de metais cada vez mais duros, e a pedra que a derruba não é de metal nenhum. Veio "sem auxílio de mão" Dn 2.34. Os reinos do mundo são obras de mão: de exércitos, de engenheiros, de generais. O reino que Deus levanta não depende dessas mãos. Quem põe a esperança numa estátua precisa lembrar que as estátuas caem; quem a põe na pedra sem mãos nunca ficará sem chão.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Uma estátua, quatro metais
Ouro é Babilônia Dn 2.38. O resto não tem nome no texto: prata, bronze, ferro, e uma pedra que vem sem mãos.
Duas contas
Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia, Roma, ou Babilônia, Média, Pérsia, Grécia. Na primeira, Alexandre é o bronze; na segunda, o ferro.
O leopardo de quatro cabeças
Para Jerônimo e a leitura tradicional, é Alexandre e as quatro cabeças são os generais; para os críticos, é a Pérsia Dn 7.6.
Cópias de Qumran
Oito manuscritos de Daniel, o mais antigo c. 125 a.C. Mostram que o livro circulava; não decidem a data da composição.
Próximo capítulo: o bode que vem do ocidente sem tocar o chão, o chifre grande quebrado e os quatro que sobem no lugar dele (Daniel 8), mais o que a Bíblia diz da Grécia antes de Alexandre.
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