Alexandre e a MacedôniaCapítulo 9 de 11 ⤓ PDF
Judas Macabeu, xilogravura de Lucas van Leyden
CAPÍTULO 9 DE 11

Os Macabeus e Hanucá

Modin, Judas e a festa da dedicação

Em Modin, aldeia a oeste de Jerusalém, um velho sacerdote mata um homem sobre o altar e foge para as montanhas com os filhos. Dali nasce a guerra que a festa de Hanucá lembra até hoje.

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Modin, uma aldeia a oeste de Jerusalém, em 167 a.C. Os oficiais do rei chegam para fazer o povo sacrificar sobre o altar da aldeia. Procuram um homem de respeito, o sacerdote Matatias, pai de cinco filhos, e lhe prometem prata, ouro e o título de "amigo do rei" se ele der o primeiro exemplo. Matatias responde em voz alta que, ainda que todas as nações obedeçam ao rei, ele e os filhos andarão na aliança dos pais. Antes que ele termine, um judeu sobe ao altar, à vista de todos, para sacrificar. Matatias corre, mata o homem sobre o altar e mata também o oficial do rei, e derruba o altar (1Mc 2.15-25, resumo meu a partir da versão inglesa).

Assim começa a revolta dos macabeus. Os dois livros que a contam, Primeiro e Segundo Macabeus, estão nas Bíblias católica e ortodoxa e fora da protestante, e nenhum deles está na Bíblia hebraica. Mesmo assim, a festa que nasce dessa revolta, Hanucá, aparece no Evangelho de João, e o livro de Daniel descreve o período com tal detalhe que este capítulo precisa dos dois: o relato dos Macabeus, que conta a história, e Daniel 11 e 12, que a olha de outro ângulo.

01 — MODINCinco filhos, uma lança e uma pergunta sobre o sábado

Os cinco filhos de Matatias são João (Gadis), Simão (Tasi), Judas (Macabeu), Eleazar (Auran) e Jônatas (Afus) (1Mc 2.2-5). Josefo acrescenta que Matatias era filho de João, filho de Simeão, filho de Asamoneu, sacerdote da ordem de Joiaribe, daí o nome "asmoneus" ou "hasmoneus", que passou à dinastia (Antiguidades XII, 265–266). O primeiro livro compara o gesto de Matatias ao de Finéias, o sacerdote que atravessou com a lança um israelita e uma midianita Nm 25.7-8: "Assim procedeu ele com zelo pela lei de Deus, como Finéias fez com Zambri" (1Mc 2.26, tradução minha). Depois, ele sai gritando pela cidade: "Todo aquele que é zeloso da lei e mantém a aliança, siga-me" (2.27), e foge com os filhos para os montes.

Logo vem uma decisão difícil. Um grupo que fugira para o deserto foi atacado num sábado e, segundo o livro, preferiu não reagir: cerca de mil pessoas morreram, com as mulheres e os filhos (1Mc 2.31-38). Matatias e seus amigos concluíram: "se todos fizermos como nossos irmãos, e não lutarmos por nossas vidas e leis contra os gentios, eles nos extirparão da terra". Decretaram então que, se alguém viesse lutar contra eles no sábado, eles lutariam (2.39-41). Depois, vieram os "assideus", homens poderosos de Israel e devotados à lei (2.42). Os assideus, do hebraico hasidim, "os piedosos", reaparecem em Primeiro Macabeus 7.13, onde são os primeiros a procurar a paz com os sírios. Dois séculos depois, Jesus dirá a um público que discutia o sábado: "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" Mc 2.27.

🔎 A palavra original

"Macabeu" é o apelido de Judas, e ninguém sabe ao certo o que ele quer dizer. Uma explicação comum o liga ao aramaico maqqaba, "martelo". Outra vê nele uma sigla de uma frase de Êxodo 15.11, "Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses?", que a tradição popular judaica diz ter sido o grito de guerra do grupo, e uma terceira o liga ao hebraico maqqab-Yahu, "o designado por Deus". O próprio nome passou depois a designar todos os hasmoneus que lutaram na revolta. Quanto a Hanucá, o nome vem do hebraico chănukkâh (חֲנֻכָּה), "dedicação, consagração" (Strong), da raiz chânak, "iniciar" ou "treinar". No Evangelho de João, a festa tem o nome grego enkaínia (ἐγκαίνια), "renovação", e o dicionário de Strong anota, expressamente, "renovação dos serviços religiosos depois da interrupção antioquena".

02 — A GUERRADo deserto a Emaús

Matatias morre logo, e Judas assume. Primeiro Macabeus conta a guerra em ondas, com um padrão: o rei manda um general, Judas o enfrenta com poucos homens e vence. Isso aconteceu com Apolônio e com Séron (1Mc 3.10-24), e depois com Nicanor e Górgias, perto de Emaús (3.38–4.25), e com Lísias, que veio com um exército grande e foi rechaçado perto de Bete-Sur (4.26-35). Daniel 11.34, para quem lê o livro assim, diz o que isso significava: "E, caindo eles, serão ajudados com pequeno socorro; mas muitos se ajuntarão a eles com lisonjas". O "pequeno socorro" é entendido por muitos leitores como a revolta dos macabeus, e a ressalva sobre os que se juntam "com lisonjas" é entendida como os oportunistas que vieram atrás.

É importante dizer que a ajuda não foi só militar. Judas procurou aliança fora: em 161 a.C., mandou a Roma dois enviados, Eupolemo e Jasão, para fazer "aliança de amizade e de confederação", porque via que o reino dos gregos oprimia Israel (1Mc 8.17-20). É a primeira vez que um tratado entre judeus e romanos aparece em fontes antigas. O livro registra o texto, escrito, diz, em tábuas de bronze (8.22).

03 — O ALTAR NOVOQuisleu, 25: a purificação do templo

Em dezembro de 164 a.C., Judas decide subir a Jerusalém para purificar o santuário. Quando chegam ao monte Sião, "viram o santuário desolado, e o altar profanado, e as portas queimadas, e arbustos crescendo nos pátios como numa floresta" (1Mc 4.38, tradução minha). Rasgam as roupas, jogam cinza na cabeça, tocam as trombetas e gritam para o céu (4.39-40). Judas põe homens para combater os que estavam na fortaleza (a Acra) enquanto purifica o santuário, e escolhe sacerdotes "de conduta irrepreensível" (4.41-42). Eles tiram as pedras manchadas. O altar dos holocaustos, que fora profanado, é desmontado, e as pedras ficam guardadas no monte do templo "até que viesse um profeta para mostrar o que fazer com elas" (4.44-46). Constroem um altar novo com pedras inteiras, "segundo a lei", refazem os vasos, trazem de volta o candelabro, o altar do incenso e a mesa, acendem as lâmpadas, põem os pães (4.47-51).

E então: "no dia vinte e cinco do nono mês, que é chamado Quisleu, no ano cento e quarenta e oito, madrugaram e ofereceram sacrifício, segundo a lei, no novo altar dos holocaustos". Foi no mesmo dia em que os gentios o tinham profanado, e a consagração foi feita com cânticos, cítaras, harpas e címbalos. Por oito dias o povo festejou e, naquele dia, Judas e os irmãos decretaram que a dedicação fosse guardada todo ano, oito dias, a partir do dia vinte e cinco de Quisleu (1Mc 4.52-59, tradução minha). O Segundo livro acrescenta que celebraram os oito dias "como a festa das Tendas", lembrando que pouco antes tinham vivido nos montes como animais, e levaram ramos, folhas e palmas (2Mc 10.6-7).

📜 Segundo a tradição

A história mais conhecida de Hanucá, a do óleo, não está em Primeiro nem em Segundo Macabeus, nem em Josefo. Josefo chama a festa de "Luzes" e explica, com cautela, que talvez o nome venha da liberdade inesperada, "além das nossas esperanças", que se mostrou aos judeus (Antiguidades XII, 323–325). O milagre do óleo vem do Talmude, no tratado Shabbat (21b), que cita o Megillat Taanit: quando os gregos entraram no santuário, contaminaram todos os óleos; quando os asmoneus venceram, só acharam um pote, selado pelo sumo sacerdote, com óleo para um dia, e dele se acendeu o candelabro por oito dias. No ano seguinte, os sábios fizeram desses dias uma festa de louvor.

⚠️ Isso é tradição rabínica, não Escritura. Hanucá, como festa, pode ser rastreada até Primeiro e Segundo Macabeus. O milagre do óleo, só ao Talmude.

Lâmpada de Hanucá em prata: uma placa de fundo com flores e coroa, e uma fileira de oito pequenos receptáculos para óleo na base
Lâmpada de Hanucá, em prata — Johannes van der Lely (1706), Metropolitan Museum of Art, Nova York. Oito receptáculos de óleo, um para cada dia da festa. CC0.

No Novo Testamento, a festa aparece uma vez: "E em Jerusalém havia a festa da dedicação, e era inverno. E Jesus andava passeando no templo, no alpendre de Salomão" Jo 10.22-23. A menção de que "era inverno" combina com um festejo de dezembro, e é nesse alpendre que os judeus o cercam e perguntam se ele é o Cristo Jo 10.24.

04 — A MORTE DO REITrês relatos e um capítulo de Daniel

Que fim teve Antíoco IV? Há três relatos antigos, e eles não combinam. Primeiro Macabeus diz que o rei, viajando pelas regiões altas, soube que Elimaida, na Pérsia, era uma cidade cheia de ouro, com um templo rico, e tentou saqueá-la. Os moradores resistiram, e ele fugiu para a Babilônia. Lá chegou a notícia de que os exércitos tinham sido postos em fuga na Judeia, de que os judeus tinham derrubado "a abominação" e cercado o santuário com muros. O rei adoeceu de tristeza e, no leito, confessou: "agora me lembro dos males que fiz em Jerusalém". Morreu ali, no ano 149 (1Mc 6.1-16, resumo meu).

Segundo Macabeus diz que o rei entrou em Persépolis para roubar o templo e foi expulso, e que em Ecbátana recebeu a notícia da derrota dos seus generais e ordenou ao cocheiro que corresse, jurando fazer de Jerusalém um cemitério dos judeus. Foi então que "o Senhor Todo-Poderoso" o feriu com uma doença incurável nas entranhas. Caiu do carro e foi carregado numa liteira, os vermes saíam do corpo dele, e o mau cheiro era insuportável ao exército (2Mc 9.1-10). O livro também põe a dedicação do templo (10.1-8) depois da morte do rei, ao contrário do primeiro. Políbio, que não é judeu nem escreve para judeus, diz só que o rei quis arranjar dinheiro saqueando o santuário de Ártemis em Elimaida, os bárbaros da vizinhança não permitiram, e na volta ele morreu em Tabas, na Pérsia, "tomado de loucura, como alguns dizem, por causa de sinais da ira divina" (XXXI, 9, tradução minha). Em resumo: os três concordam que morreu fora da Judeia, no leste, depois de uma tentativa frustrada de saquear um templo, e que a morte foi vista como castigo. Mas diferem na ordem dos fatos, e é por isso que a cronologia da revolta tem tantas dúvidas.

Daniel 11 termina de outro jeito: "E armará as tendas do seu palácio entre o mar grande e o monte santo e glorioso; mas chegará ao seu fim, e não haverá quem o socorra" Dn 11.45. O "mar grande" é, em geral, o Mediterrâneo, e o "monte santo", Sião. As leituras principais são duas.

Leitura 1 — o capítulo todo é sobre Antíoco IV. Foi a leitura de Porfírio, no século III, que Jerônimo nos conta: Porfírio aplicava a Antíoco o capítulo até o fim, inclusive os versículos 36 a 45 e as campanhas contra o Egito e a morte em Tabas, que ele explicava lendo "os dois mares" como os rios Tigre e Eufrates (Comentário a Daniel, sobre Dn 11.44-45). Jerônimo responde que não se pode mostrar nenhum monte santo ali nem dois mares. A maior parte dos estudiosos críticos de hoje também lê o capítulo como sobre Antíoco, e nota que a descrição do fim, entre o mar e o monte santo, não bate com a morte na Pérsia. Concluem, muitos deles, que o autor escreveu antes de saber como o rei morreu, em c. 165–164 a.C. Esse é um dos argumentos que ligam o livro a essa data.

Leitura 2 — a partir de certo ponto, é sobre um adversário final. Jerônimo aceita que Daniel 11 segue Antíoco até certo ponto, mas aplica os versículos finais ao Anticristo, que viria "da nação judaica", com a tenda em Apedno, perto de Nicópolis, a antiga Emaús (Comentário a Daniel, sobre Dn 11.44-45). E acrescenta uma frase que vale como método: mesmo que se prove que esses versículos falam de Antíoco, isso não prejudica a fé cristã. Alguns leitores modernos seguem esse caminho e entendem Antíoco como uma figura do adversário final, e não como o único referente.

"E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno." Daniel 12.2

O capítulo seguinte, Daniel 12, traz o que costuma ser apontado como a afirmação mais clara de ressurreição do Antigo Testamento Dn 12.1-3. É difícil ler isso sem pensar nos mártires da perseguição. O Segundo livro de Macabeus faz o segundo dos sete irmãos dizer, ao morrer: "o Rei do mundo nos ressuscitará, a nós que morremos por suas leis, para a vida eterna" (2Mc 7.9, tradução minha), e o quarto: "é bom, morrendo pela mão dos homens, esperar de Deus ser levantado por ele" (7.14). E a carta aos Hebreus diz, numa lista de fé, que "as mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição" Hb 11.35. Muitos comentaristas leem na primeira parte desse versículo o filho de Sarepta e o da sunamita, e na segunda os mártires macabeus. É uma leitura frequente, não uma certeza.

Painel de vitral com cena de rei sentado, soldados e uma mãe com os sete filhos à esquerda; ao alto, cenas de martírio numa paisagem, e uma legenda em latim embaixo
Antíoco prende os sete irmãos e a mãe — painel de vitral de Dirck Vellert (c. 1530–35), Metropolitan Museum of Art (The Cloisters), Nova York. A legenda cita 2 Macabeus. Domínio público.

05 — DEPOIS DE JUDASDos Macabeus aos hasmoneus

Judas morre em 160 a.C., em Elasa. Seus irmãos Jônatas e depois Simão continuam a guerra, e o último vê chegar, em 142 a.C., o que os livros chamam de fim do jugo dos gentios: "foi tirado o jugo dos gentios de Israel, no ano cento e setenta", e o povo começou a datar os contratos "no primeiro ano de Simão, o sumo sacerdote, governador e líder dos judeus" (1Mc 13.41-42, tradução minha). É o começo do reino hasmoneu, que dura até a chegada de Roma, em 63 a.C. Simão, segundo Josefo, expulsou os moradores da Acra, arrasou a fortaleza e mandou rebaixar a colina para que ela não ficasse acima do templo (Antiguidades XIII, 215–217), mas Primeiro Macabeus não registra a demolição.

🏺 O que a pá encontrou

Onde ficava a Acra? Ninguém sabe ao certo. Primeiro Macabeus a põe na "Cidade de Davi", ao sul do templo, e Josefo, na Cidade Baixa, num ponto alto sobre o templo. Várias propostas já foram feitas, do ângulo sudeste do monte do templo à colina ocidental. Em novembro de 2015, a Autoridade de Antiguidades de Israel anunciou que escavações no estacionamento de Givati, ao sul do monte do templo, tinham achado muralhas, uma torre de vigia, flechas, pedras de funda e pedras de balista com o tridente marcado, emblema de Antíoco IV, além de moedas e asas de ânforas de Rodes. Arqueólogos como Leen Ritmeyer questionaram: o local fica uns duzentos metros ao sul do monte do templo da época e bem mais baixo, e a Acra, segundo Josefo, dominava o templo.

⚠️ O achado, se a identificação se confirmar, seria uma prova material importante da guarnição selêucida em Jerusalém. Mas a identificação com a Acra é discutida, e a localização continua em aberto.

👁️ Como era viver ali

Pense em quem voltou ao templo em Quisleu de 164. Durante três anos, o culto fora um altar de ídolos, e o altar antigo foi desmontado com cuidado e guardado "até que viesse um profeta" (1Mc 4.46), porque as pedras eram sagradas e estavam impuras. Os sacerdotes foram escolhidos por não terem mancha, e a Acra continuava de pé, com soldados dentro, enquanto o culto era refeito (4.41). A vitória não era total, e o texto não esconde isso. O que a festa celebra é um recomeço feito debaixo de ameaça.

🌱 Semente de sermão

"E, caindo eles, serão ajudados com pequeno socorro" Dn 11.34. Daniel não promete a grande ajuda, só o pequeno socorro, e a história dos macabeus, com seus erros e suas mortes, mostra que foi suficiente para acender de novo as lâmpadas. Josefo, ao explicar o nome da festa, disse que a liberdade apareceu "além das nossas esperanças". O que Deus manda é, quase sempre, menos do que a gente pediu e mais do que a gente esperava.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⚔️

Modin e o zelo

Matatias mata o judeu que sacrifica e o oficial do rei, como Finéias Nm 25.7-8; depois decide lutar no sábado (1Mc 2).

🕯️

Hanucá

Dedicação do altar em 25 de Quisleu de 164 a.C., oito dias. João 10.22 a chama "festa da dedicação". O milagre do óleo é do Talmude.

💀

Três mortes de Antíoco

Primeiro Macabeus, Segundo Macabeus e Políbio: no leste, depois de tentar saquear um templo. Daniel 11.45 diz outra coisa.

🌅

A ressurreição

Daniel 12.2 e Segundo Macabeus 7: a esperança dos mártires. Hebreus 11.35 fala de "uma melhor ressurreição".

Próximo capítulo: a Macedônia no Novo Testamento. Paulo sonha com um macedônio, desembarca em Filipos, passa por Tessalônica e Bereia, e as cidades que levam os nomes de Filipe e Cassandro recebem o evangelho.

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