Alexandre e a MacedôniaCapítulo 10 de 11 ⤓ PDF
As ruínas de Direkler, em Filipos, desenho de Honoré Daumet
CAPÍTULO 10 DE 11

A Macedônia no Novo Testamento

Trôade, Filipos, Tessalônica e Bereia

Paulo dorme em Trôade e vê um macedônio que lhe pede ajuda. De manhã, o relato de Atos muda de pessoa: passa a dizer "nós". Era o começo das igrejas da Macedônia.

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Trôade, à noite. Paulo e os companheiros chegaram ali depois de duas portas fechadas: o Espírito os impedira de pregar na Ásia, e depois não os deixou ir à Bitínia At 16.6-8. Dormindo, Paulo tem uma visão: "um homem da Macedônia, e lhe rogou, dizendo: Passa à Macedônia, e ajuda-nos" At 16.9. De manhã, o relato muda de pessoa. Passa a dizer "nós": "procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho" At 16.10.

O nome de Trôade guarda uma história que o texto não conta. Por volta de 306 a.C. Antígono a refundou, e em 301 a.C. Lisímaco, general de Alexandre, a rebatizou de Alexandria Trôade, em memória do rei. O leitor deste livro já sabe o que isso significa. Em 334 a.C., Alexandre atravessou da Europa para a Ásia e, na região da Trôade, atirou a lança na terra e saltou primeiro (Diodoro XVII, 17). Agora, cerca de 380 anos depois, um judeu que se diz cidadão romano At 16.37 atravessa o mesmo mar no sentido contrário, da Ásia para a Europa, atendendo ao pedido de um macedônio. Este capítulo mostra as cidades da Macedônia onde Paulo plantou igrejas: Filipos, Tessalônica e Bereia, e o que elas têm a ver com os reis dos capítulos anteriores.

01 — A TRAVESSIADe Trôade a Neápolis

O texto de Atos não diz quem era o macedônio da visão. O que diz é que, no dia seguinte, eles zarparam direto para a ilha de Samotrácia e, no outro dia, para Neápolis At 16.11, o porto de Filipos, a Kavala de hoje. A data costuma ser c. 49–50 d.C., na segunda viagem missionária de Paulo.

A Macedônia que eles encontram não é a de Filipe nem a de Alexandre. Depois da derrota do último rei, Perseu, em Pidna (168 a.C.), Roma a transformou em província, por volta de 148–146 a.C. (Capítulo 1). Ao longo dela corria a Via Egnatia, a estrada romana de Dirráquio, no Adriático, até Bizâncio, com cerca de 1.100 quilômetros, que leva o nome de um magistrado romano chamado Egnácio e passa por Neápolis, Filipos, Anfípolis, Apolônia e Tessalônica. É por ela que Paulo vai, de Filipos a Tessalônica, quando "passando por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica" At 17.1.

02 — FILIPOSA cidade de Filipe, colônia de Roma

Os leitores do Capítulo 1 conhecem o nome. Filipe II tomou a cidade de Crenides, aumentou-a e deu-lhe o próprio nome, Filipos, em 356 a.C., para explorar as minas de ouro (Diodoro XVI, 8). Em 42 a.C., na planície a oeste, Antônio e Otaviano derrotaram Bruto e Cássio. A cidade virou uma colônia de veteranos, a Colonia Iulia Philippensis, depois Augusta, governada por dois magistrados chamados duúnviros, uma "Roma em miniatura". Lucas escreve que Filipos "é a primeira cidade desta parte da Macedônia, e é uma colônia" At 16.12. O sentido exato de "primeira" é discutido, e as propostas vão de "principal" a "primeira do distrito", porque Anfípolis era a capital da região. O texto não decide.

No sábado, Paulo e os companheiros saem pelas portas, à beira do rio, onde se costumava fazer oração, e falam às mulheres que ali se juntaram At 16.13. Lucas não menciona sinagoga na cidade. Uma delas, Lídia, vendedora de púrpura, de Tiatira, "que servia a Deus", ouve, e "o Senhor lhe abriu o coração". Ela é batizada, com a casa, e os hospeda At 16.14-15. A primeira convertida que Lucas nomeia na Macedônia é uma mulher de negócios que veio da Ásia.

Gravura de Paulo e Silas pregando a mulheres à beira de um rio, com uma cidade ao fundo, uma cena de exorcismo e uma prisão
Paulo converte as mulheres de Filipos — gravura de Philips Galle a partir de desenho de Jan van der Straet (1582), da série Acta Apostolorum (n.º 26 de 34); Rijksmuseum, Amsterdã (RP-P-OB-6565). CC0.

Em seguida vem a cena que o texto conta com uma ironia fina. Uma jovem escrava, com "espírito de adivinhação", que dava muito lucro aos donos, segue Paulo e grita que eles são servos do Deus Altíssimo. Depois de muitos dias, Paulo se perturba e manda o espírito sair At 16.16-18. Os donos, vendo perdido o lucro, levam Paulo e Silas à praça, diante dos magistrados, e os acusam em termos romanos: "sendo judeus, perturbaram a nossa cidade, e nos expõem costumes que não nos é lícito receber nem praticar, visto que somos romanos" At 16.20-21. Os magistrados mandam açoitá-los com varas e prendê-los, e há o terremoto, as portas abertas e a conversão do carcereiro At 16.22-34. De manhã, os magistrados mandam soltá-los. Paulo recusa sair às escondidas: "Açoitaram-nos publicamente e, sem sermos condenados, sendo homens romanos, nos lançaram na prisão... venham eles mesmos e tirem-nos para fora". Os magistrados "temeram, ouvindo que eram romanos" At 16.37-38.

🔎 A palavra original

O "espírito de adivinhação" de Atos 16.16 é, no grego, um "espírito de Pýthōn" (Πύθων), nome ligado ao lugar de Delfos, a sede do famoso oráculo, diz o dicionário de Strong. É o oráculo que Filipe II consultou antes de morrer (Capítulo 1). A cidade que Filipe batizou com o próprio nome é aquela em que o texto usa esse termo para o espírito da jovem. Lucas não comenta a coincidência.

E os termos romanos têm nome. Os "magistrados" são stratēgoí (στρατηγοί), "generais", que Strong explica como governadores ou pretores, e os "quadrilheiros" que soltam Paulo são rhabdoûchoi (ῥαβδοῦχοι), "portadores de vara", os lictores romanos. Em Filipenses 3.20, "a nossa cidade está nos céus" é políteuma (πολίτευμα), "comunidade, cidadania" (Strong), a palavra de quem era cidadão de uma colônia romana.

🏺 O que a pá encontrou

Filipos foi explorada pela Escola Francesa de Atenas a partir de 1914, em campanhas que foram até 1937, e depois por equipes gregas, de 1958 a 1978. Os viajantes do século XIX já tinham visto as ruínas: o desenho de Honoré Daumet, de 1861, mostra as ruínas de uma grande basílica cristã, bem posterior a Paulo, que os turcos chamavam de Direkler, "as colunas". O sítio mostra o fórum, o teatro, as basílicas e um conjunto octogonal do fim do século V. Em 2016 a UNESCO inscreveu Filipos na lista do Patrimônio Mundial.

⚠️ As ruínas de Filipos são, em sua maior parte, posteriores a Paulo (o fórum visível foi construído em fases, entre Cláudio e Antonino Pio). Mostram que a cidade era uma colônia romana, o que o texto de Lucas afirma, mas não trazem o nome de Paulo, de Lídia nem do carcereiro.

🌱 Semente de sermão

A cidade nasceu das minas de ouro: Filipe a aumentou para extrair delas mais de mil talentos (Diodoro XVI, 8). Quase quatrocentos anos depois, a igreja da mesma cidade é a que sustenta o apóstolo. Ele escreve que, "no princípio do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente" Fp 4.15. E sobre as igrejas da Macedônia em geral, escreve: "em muita prova de tribulação houve abundância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza abundou em riquezas da sua generosidade" 2Co 8.2. Onde o mundo via ouro, Deus viu gente que sabia dar.

03 — TESSALÔNICAA cidade que levava o nome da irmã de Alexandre

Cassandro fundou Tessalônica por volta de 315 a.C. e lhe deu o nome da esposa, Tessalonice, filha de Filipe II e meia-irmã de Alexandre. A cidade cresceu como porto e capital da província, na Via Egnatia. É ali que Paulo chega e, como de costume, vai à sinagoga: "por três sábados disputou com eles sobre as Escrituras, expondo e demonstrando que convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos" At 17.2-3. Alguns creem, "uma grande multidão de gregos religiosos, e não poucas mulheres principais" At 17.4. Os judeus que não creram, movidos de inveja, reúnem gente do povo, causam alvoroço e assaltam a casa de Jasão, onde Paulo estava. Não o achando, levam Jasão e outros irmãos aos "magistrados da cidade" e gritam a acusação: "Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui... todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus" At 17.5-7. Recebida a garantia de Jasão e dos outros, os magistrados os soltam At 17.9.

"Outro rei" soa de outro jeito para quem leu o Capítulo 3. Num mundo que dava a reis o título de salvador e de deus, dizer que Jesus era rei, e Senhor, era uma afirmação com consequências políticas. Os tessalonicenses, diz Paulo, "dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus o seu Filho" 1Ts 1.9-10, e sofreram, como as igrejas da Judeia, "de vossos próprios concidadãos" 1Ts 2.14. A Primeira carta aos Tessalonicenses é considerada por alguns estudiosos o livro mais antigo do Novo Testamento.

🏺 O que a pá encontrou

Os politarcas. Em Atos 17.6 e 8, Lucas chama os governantes da cidade de politárchai, uma palavra grega que o dicionário de Strong explica como "magistrado de cidade". Uma inscrição do Portão do Vardar, em Tessalônica (o portão foi demolido em 1876), hoje no Museu Britânico, traz o termo. Ela costuma ser datada do século II d.C. Além disso, o cargo aparece em outras inscrições da Macedônia: a mais antiga, em Anfípolis, é do tempo do rei Perseu, e em Tessalônica as inscrições mostram cinco politarcas no tempo de Augusto e seis no de Antonino e Marco Aurélio.

⚠️ A inscrição do Vardar é, provavelmente, depois de Paulo, mas mostra que o título que Lucas usa existia e era próprio daquela região. Não prova nenhuma cena de Atos.

04 — BEREIAOs mais nobres, os que examinavam

Daquela noite os irmãos mandam Paulo e Silas a Bereia, e eles vão "à sinagoga dos judeus" At 17.10. Lucas faz um elogio raro: "estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" At 17.11. Creem muitos, entre eles "mulheres gregas da classe nobre, e não poucos homens" At 17.12. Mais tarde, quando Paulo deixa a Macedônia, o acompanha "Sópater, de Beréia" At 20.4.

Uma conexão com o capítulo anterior merece ser notada, ainda que Lucas não a diga. Os que "examinavam as Escrituras" cada dia numa cidade da Macedônia grega lidavam, com boa probabilidade, com a Bíblia que existia em grego, a Septuaginta (Capítulo 7). A afirmação é uma inferência, não um dado do texto.

👁️ Como era viver ali

Imagine as três igrejas nascendo. Em Filipos, uma colônia de veteranos de guerra, uma conversa à beira do rio e uma casa que se abre. Em Tessalônica, uma casa assaltada e um dono de casa levado aos magistrados. Em Bereia, a leitura diária das Escrituras. Nenhuma saiu barato: Paulo lembra aos tessalonicenses que, antes de chegar a eles, tinha padecido e sido agravado em Filipos 1Ts 2.2. Mesmo assim, Paulo diz dos tessalonicenses que "fostes exemplo para todos os fiéis na Macedônia e Acaia" 1Ts 1.7.

05 — O POVO DA MACEDÔNIANomes, ofertas e uma carta

Os nomes dos macedônios do Novo Testamento formam uma lista curta, e vale ler como lista. Lídia, de Tiatira, em Filipos. Jasão, em Tessalônica. O carcereiro de Filipos e a casa dele. Aristarco e Segundo, de Tessalônica, e Sópater, de Bereia, que acompanham Paulo na viagem de volta At 20.4. Gaio e Aristarco, que Lucas chama de "macedônios, companheiros de Paulo na viagem", arrastados pela multidão ao teatro de Éfeso At 19.29. Aristarco, "macedônio, de Tessalônica", que embarca com Paulo no navio rumo a Roma At 27.2. Epafrodito, enviado pelos filipenses a Paulo, "meu irmão e cooperador, e companheiro nos combates" Fp 2.25, e duas mulheres que Paulo pede que sintam o mesmo no Senhor, Evódia e Síntique Fp 4.2.

E há a oferta. Quando Paulo recolhe dinheiro para os pobres de Jerusalém, a coleta de que Romanos 15.26 diz que "pareceu bem à Macedônia e à Acaia", as igrejas da Macedônia dão "segundo o seu poder... e ainda acima do seu poder" e, escreve Paulo, "a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor" 2Co 8.3-5. Quando ele passou necessidade em Corinto, "os irmãos que vieram da Macedônia supriram a minha necessidade" 2Co 11.9.

A carta aos Filipenses, que Paulo escreve preso (em Roma, Éfeso ou Cesareia, pois isso é discutido), é a mais afetuosa. Começa saudando "todos os santos em Cristo Jesus, que estão em Filipos, com os bispos e diáconos" Fp 1.1 e fala de um hino, que alguns chamam de o hino de Cristo: "lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho... e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor" Fp 2.9-11. Em Filipos, colônia de Roma, e num mundo em que se discutia a quem se prostrar (Capítulo 3), muitos leitores veem nessa frase uma afirmação sobre quem é o verdadeiro Senhor. O texto não nomeia o imperador, e o tom é de louvor.

🔎 A palavra original

O pedido do macedônio, "ajuda-nos", é, no grego, um único verbo, boēthḗson, do verbo boētheō (βοηθέω), "ajudar ou socorrer" (Strong). É o mesmo verbo do pai que grita a Jesus "ajuda a minha incredulidade" Mc 9.24. A Macedônia, depois de dar ao mundo o general que dominou o Oriente, aparece no texto bíblico como o povo que pede socorro.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⛵

Alexandria Trôade

Trôade tinha o nome de Alexandre desde 301 a.C. Dali, Paulo atravessa para a Europa o mesmo mar que Alexandre atravessou para a Ásia At 16.9-11.

🏛️

Filipos, colônia romana

Fundada por Filipe II, colônia de veteranos desde 42 a.C. Lídia, a jovem adivinha, o carcereiro e a cidadania de Paulo At 16.37.

👑

"Outro rei, Jesus"

Em Tessalônica, a acusação é política At 17.7. Os politarcas de Lucas aparecem em inscrições da região.

🪙

Pobres que davam

"A sua profunda pobreza abundou em riquezas da sua generosidade" 2Co 8.2. A igreja da cidade das minas de ouro.

Próximo capítulo: o grego que Alexandre espalhou e que Paulo e os evangelistas usaram. Do koiné aos papiros do Egito, das cidades gregas à Alexandria, e o que muda na leitura da Bíblia depois de seguir os macedônios até aqui.

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