Babilônia, junho de 323 a.C. Os soldados ouviram dizer que o rei estava morto, e que os generais escondiam a notícia. Não adiantou barrar a porta do palácio. Eles a forçaram e entraram, um a um, sem manto e sem armas, para ver o rei com os próprios olhos. Plutarco conta que passaram devagar diante do leito (Alexandre 76). Arriano acrescenta que o rei já não conseguia falar. Mesmo assim cumprimentou cada soldado com a mão direita, erguendo a cabeça com esforço e fazendo um sinal com os olhos (Anábase VII, 26).
Tinha trinta e dois anos e oito meses. Reinava havia doze anos e oito meses (Arriano, Anábase VII, 28). Este capítulo conta o que aconteceu no meio. Daniel o descreve sem dizer o nome dele, e o primeiro livro de Macabeus o nomeia logo na primeira linha. E duas das cidades que ele tomou, Tiro e Gaza, tinham sido citadas por profetas séculos antes.
O nome dele, Aléxandros (Ἀλέξανδρος), quer dizer "defensor de homens" (é o que o dicionário de Strong anota). O mesmo nome aparece no Novo Testamento em cinco versículos, que Strong distribui por quatro pessoas, e nenhuma é o rei: um filho de Simão de Cirene Mc 15.21, um dos reunidos em torno do sumo sacerdote At 4.6, um judeu de Éfeso At 19.33, e, em duas cartas, um homem que Paulo entregou a Satanás 1Tm 1.20 e um "latoeiro" que lhe fez muito mal 2Tm 4.14, que podem ser o mesmo. Meio milênio depois do rei, o nome ainda era comum entre judeus e gregos.
01 — O REI DE VINTE ANOSTebas, o Granico e um nó
Alexandre recebe um reino ameaçado de todos os lados, como vimos. Plutarco conta que ele reage com rapidez e dureza. Marcha até o Danúbio, derrota os bárbaros do norte e, quando Tebas se rebela, desce ao sul. A cidade é tomada, saqueada e arrasada. Os mortos foram mais de seis mil, e os vendidos como escravos, mais de trinta mil, diz Plutarco (Alexandre 11). A mensagem aos gregos era clara.
Em 334 a.C. ele atravessa o Helesponto, o estreito que separa a Europa da Ásia, e vence os sátrapas persas no rio Granico, a primeira grande batalha (Arriano, Anábase I, 13–16). No ano seguinte, em Górdio, na Frígia, mostram-lhe o carro de um rei antigo, preso ao jugo por um nó de casca de cornizo, sem ponta visível. Dizia-se que quem o desatasse reinaria sobre a Ásia. Arriano conta duas versões. Numa, Alexandre corta o nó com a espada. Na outra, arranca o pino da barra do carro e solta tudo. E o historiador conclui, com uma frase que o leitor deste livro vai querer guardar: "Como ele fez com esse nó, não posso afirmar com certeza" (Anábase II, 3, tradução minha).
02 — ISSOSO rei que vence e a família que fica
Em novembro de 333 a.C., na Cilícia, Alexandre enfrenta Dario III em pessoa, e Dario foge. No acampamento persa ficam a mãe, a esposa e os filhos do Grande Rei. Arriano, que segue aqui Ptolomeu e Aristóbulo, conta que Alexandre manda dizer às mulheres que Dario está vivo, que elas manterão o título e o séquito de rainhas e que ele não fez a guerra por ódio, mas pelo império da Ásia (Anábase II, 12). Há outra versão, a da mãe de Dario que se prostra diante do homem errado, e Arriano a registra sem garantir que seja verdadeira.
Pouco depois chegam mensageiros de Dario com uma proposta: dez mil talentos pela família, todo o território a oeste do Eufrates e a mão de uma filha. Parmênio, o velho general, diz que aceitaria. Alexandre responde, segundo a tradição, que também aceitaria, se fosse Parmênio. Mas ele era Alexandre (II, 25).
03 — TIROA ilha que não quis abrir a porta
De Issos Alexandre desce a costa fenícia. Biblos e Sídon abrem as portas. Tiro também manda embaixadores, mas quando o rei diz que quer entrar na cidade para sacrificar a Héracles, o grande deus de Tiro, que Arriano distingue do Héracles dos gregos, o povo decide aceitar qualquer ordem, menos receber persas ou macedônios dentro dos muros (Arriano, Anábase II, 15–16). Alexandre volta a mandá-los embora, furioso, e convoca o conselho.
A cidade ficava numa ilha, a uns quatro estádios, cerca de oitocentos metros, da costa (Diodoro XVII, 40). Alexandre decide ligar a ilha à terra. Diodoro conta que ele manda demolir "a chamada Tiro Velha", na margem, e põe dezenas de milhares de homens a carregar as pedras para um aterro de uns sessenta metros de largura (XVII, 40). O cerco dura sete meses, segundo Diodoro e Plutarco. A cidade cai em julho de 332 a.C. Arriano dá, para o fim, cerca de oito mil tírios mortos e uns trinta mil vendidos, contra uns quatrocentos macedônios mortos (II, 24). Diodoro dá números menores: mais de sete mil mortos e mais de treze mil prisioneiros, e acrescenta que Alexandre mandou crucificar os homens em idade de combate (XVII, 46). Os números mudam de autor para autor e nenhum deles é fruto de contagem que possamos conferir.
Em hebraico, Tiro é Tsor (צֹר), e o dicionário de Strong liga o nome à palavra "rocha". Gaza é ʻAzzah (עַזָּה), e Strong a liga ao adjetivo "forte". Duas cidades que se chamavam "rocha" e "forte" foram tomadas por quem se chamava "defensor de homens". Isaías já tinha anunciado, no "peso de Tiro", que os navios de Társis uivariam, porque a cidade estava assolada Is 23.1.
É aqui que a Bíblia entra na conversa. Ezequiel anuncia o fim de Tiro em termos que parecem descrever uma cena como esta: Deus fará subir "muitas nações" contra a cidade Ez 26.3, e lançarão "no meio das águas as tuas pedras, e as tuas madeiras, e o teu pó" Ez 26.12. Diodoro conta justamente que o aterro de Alexandre foi feito com as ruínas de Tiro Velha. Muitos leitores veem aí uma segunda onda de cumprimento. Mas o mesmo capítulo diz que quem vem contra Tiro é "Nabucodonosor, rei de Babilônia" Ez 26.7, e que o Senhor diz à cidade: "nunca mais serás edificada" Ez 26.14. Tiro foi reconstruída, e Jesus esteve em suas terras Mc 7.24, e Paulo desembarcou nela At 21.3. Anos depois do cerco babilônico, o próprio Ezequiel diz que o exército de Nabucodonosor "não teve paga" de Tiro Ez 29.18.
Há duas leituras principais. Comentaristas conservadores costumam ver um cumprimento em camadas: Nabucodonosor toma a cidade da costa, e Alexandre completa o que o profeta descreveu, quando atira as ruínas ao mar. Críticos leem Ezequiel 26.1-14 como a previsão de que Nabucodonosor tomaria Tiro, e veem em Ezequiel 29.17-20 o próprio profeta admitindo que o resultado ficou aquém do anunciado. O que as fontes antigas mostram é que Alexandre usou as pedras de Tiro Velha e tomou a ilha, e que Tiro existia de novo no tempo do Novo Testamento.
⚠️ O que o aterro de Alexandre prova: que as ruínas da cidade da costa foram atiradas à água. O que não prova: que Ezequiel 26 fala só dele, nem que fala só de Nabucodonosor. A discussão é sobre o que o texto quis anunciar.
04 — GAZAO eunuco Batis e o ombro ferido
Tiro cai, e só uma cidade barra o caminho do Egito: Gaza, a última antes do deserto. Quem a governa é um eunuco chamado Batis, que contratara mercenários árabes e juntara comida para um cerco longo, certo de que ninguém tomaria a cidade (Arriano, Anábase II, 25). Josefo, que conta a mesma campanha séculos depois, dá outro nome ao governador, Babemeses (Antiguidades XI, 320), e a diferença fica sem explicação.
Gaza ficava sobre um monte alto, e os engenheiros disseram que não dava para tomá-la à força. Alexandre ordenou um aterro em volta da cidade, para levar as máquinas até a altura dos muros. Quando ele oferecia o primeiro sacrifício, uma ave de rapina deixou cair uma pedra na cabeça dele. O adivinho Aristandro disse que ele tomaria a cidade, mas que devia se cuidar naquele dia. O rei ficou longe da frente por um tempo, até que numa saída dos sitiados ele correu para socorrer os seus e um projétil de catapulta lhe atravessou o escudo e a couraça e o feriu no ombro. Ao ver que o adivinho acertara, ele se alegrou, diz Arriano, porque também a cidade cairia (II, 26–27). No quarto assalto os macedônios subiram pelas brechas. Os defensores lutaram até morrer, cada um no posto, e as mulheres e crianças foram vendidas. Alexandre repovoou a cidade com gente dos arredores e a usou como posto fortificado.
É difícil ler essas linhas e não pensar em Alexandre. O capítulo começa pela lista de lugares: Hadraque, Damasco, Hamate, Tiro, Sidom, Ascalom, Gaza, Ecrom, Asdode Zc 9.1-6. Muitos comentaristas leem esse trecho como o mapa da marcha de Alexandre pela costa, em 333–332 a.C., e a mesma passagem fala dos "filhos da Grécia" no versículo 13 Zc 9.13. Mas o texto não nomeia Alexandre, e há quem date o oráculo muito antes: uma linha de estudiosos lembra que Hadraque (a Hatarikka dos documentos assírios) virou província assíria por volta de 739 a.C., e que a ordem dos nomes, Hadraque, Damasco, Hamate, combina com essa época. O Capítulo 5 volta ao assunto. Por ora, fique com a pergunta: um texto que descreve a costa sendo tomada de norte a sul só pode ser sobre a campanha de 332? Quem responde "sim" e quem responde "não" leem o mesmo versículo.
Imagine ser um morador de Tiro ou de Gaza em 332 a.C. A guerra não era só um exército do outro lado do muro. Era o aterro que crescia dia após dia em direção à sua casa, os mercenários que você via do alto da muralha e a certeza de que a rendição também tinha preço. Os tírios, conta Arriano, tinham capturado macedônios no mar e os mataram sobre o muro, à vista do acampamento, jogando os corpos na água (II, 24). Quando a cidade caiu, o preço foi cobrado em dobro. O texto antigo registra os números, mas não os nomes de quem os pagou.
05 — EGITO E ALEXANDRIASete dias de Gaza ao Nilo
De Gaza ao Egito são sete dias de marcha, diz Arriano (Anábase III, 1). O sátrapa persa, Mazaces, entrega o país sem lutar. Em Mênfis, Alexandre sacrifica ao boi Ápis e aos demais deuses e promove jogos à moda grega. Depois navega pelo rio até o mar, perto do lago Mareótis, e escolhe o lugar de uma cidade que levará seu nome. Ele mesmo marca o traçado: onde ficará a ágora, onde serão os templos dos deuses gregos, e um, especial, para a deusa egípcia Ísis. Como não havia com que riscar o chão, conta Arriano, um dos construtores espalhou no terreno a cevada que os soldados carregavam, para desenhar o muro. O adivinho Aristandro leu aí que a cidade seria rica, sobretudo em frutos da terra (III, 1–2). É Alexandria, onde, menos de um século depois, começará a nascer a Bíblia grega, e que voltará a aparecer no Novo Testamento At 6.9 At 18.24.
Aqui há uma lacuna que vai importar. Josefo coloca em algum ponto entre a queda de Gaza e a marcha ao Egito uma visita de Alexandre a Jerusalém, e Arriano diz que ele partiu de Gaza e chegou ao Egito no sétimo dia. O Capítulo 6 examina as duas versões com cuidado.
06 — GAUGAMELA, BABILÔNIA E SUSAO império que trocou de dono
Em 331 a.C., Alexandre vira o rosto para o interior. Antes de Gaugamela, na Mesopotâmia, Arriano conta que ele fez a infantaria parar e reuniu o conselho. A maioria queria atacar logo. Parmênio queria acampar e examinar o terreno, por medo de fossos e estacas escondidos, e a opinião dele prevaleceu (Anábase III, 9). Depois do combate, Dario escapa de novo, pelas montanhas da Armênia rumo à Média, enganado ao pensar que Alexandre marcharia sobre Susa e Babilônia (III, 16).
Alexandre marcha direto para Babilônia, e os babilônios saem ao seu encontro em massa, com sacerdotes e autoridades. Arriano conta que ele manda reconstruir os templos que Xerxes destruíra, especialmente o de Belo, a quem os babilônios veneram mais que a qualquer deus, e que ele próprio sacrifica a Belo segundo a instrução dos caldeus (III, 16). Dali vai a Susa, a cidade da fortaleza onde Daniel recebera a visão do bode e do carneiro Dn 8.2, e toma o tesouro: cinquenta mil talentos. Em Persépolis, queima o palácio real, contra o conselho de Parmênio, dizendo que queria vingar as destruições de Xerxes na Grécia. Arriano, que admira Alexandre, comenta que não considera isso uma atitude prudente (III, 18).
07 — A ÍNDIA E O FIMO motim do rio Hífase
Dario é assassinado por Bessos, um de seus comandantes (Arriano III, 21), e Alexandre continua. Anos depois chega à Índia e ao rio Hífase. Ele quer cruzá-lo, mas o exército não quer. Arriano conta que o velho oficial Cenos tomou a palavra e disse ao rei, com cuidado, que os macedônios e gregos que haviam saído com ele eram poucos. Muitos tinham morrido em combate ou de doença, outros estavam inválidos pelas feridas, e os que sobravam queriam rever os pais, as mulheres e os filhos, voltando "como ricos, em vez de pobres" (tradução minha). Alexandre, irritado, se trancou na tenda por três dias, esperando que mudassem de ideia. Eles não mudaram, e ele deu ordem de voltar (Anábase V, 25–28).
Ele nunca conseguiu voltar para casa. Em Babilônia, depois de dias de banquetes e de febre, morreu. O "Diário Real", que Plutarco e Arriano citam, registra a doença em detalhes: o rei bebe, toma banho, faz os sacrifícios de todo dia, dá ordens para a viagem seguinte e a cada dia está pior. Quando perguntaram a quem deixava o reino, alguns dizem que ele respondeu: "Ao melhor" (Arriano VII, 25–26, tradução minha). Houve rumores de veneno, que Arriano diz que não considera dignos de crédito, e Plutarco lembra que a maioria dos escritores os considerava invenção (Alexandre 77). O "Diário" diz que ele morreu no 28º dia do mês macedônio Daísio, e o dia exato no nosso calendário, em junho de 323 a.C., é discutido.
Primeiro Macabeus, escrito por um judeu que viu de perto os herdeiros dele, resume tudo em nove versículos. Alexandre derrotou Dario, reinou, fez muitas guerras e tomou fortalezas, chegou aos confins da terra e despojou nações, e a terra se calou diante dele. Então ficou doente, percebeu que ia morrer e repartiu o reino entre os servos que tinham crescido com ele. Depois da morte, todos se coroaram, e os males se multiplicaram na terra (1Mc 1.1-9, resumo meu a partir de uma tradução inglesa do texto grego). Esse "males se multiplicaram" é o assunto dos próximos capítulos.
08 — AS FONTESQuem conta a história de Alexandre?
Aqui vai um aviso de professor. Nenhuma história de Alexandre escrita no tempo dele chegou até nós. Arriano, que escreveu na época do Império Romano (séc. II d.C.), diz que se apoia em Ptolomeu e Aristóbulo, dois homens que estavam lá, mas cujos livros se perderam. Plutarco escreveu por volta do ano 100 d.C., e Diodoro, no século I a.C. Todos os relatos se parecem em muita coisa e discordam em muita outra: o nome do governador de Gaza, o número de mortos em Tiro, o jeito de cortar o nó. Este livro sempre diz de que autor vem cada afirmação.
O Mosaico de Alexandre. Foi achado em 1831 na Casa do Fauno, em Pompeia, e hoje está no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Mede 272 por 513 centímetros e costuma ser datado de c. 120–100 a.C. Mostra um rei jovem a cavalo, de cabelo ao vento, lançando-se contra um carro persa, e a cena costuma ser lida como a batalha de Issos. Acredita-se que seja a cópia, feita para uma casa romana, de uma pintura grega do fim do século IV ou do começo do III a.C., talvez de Filoxeno de Erétria, de quem Plínio, o Velho, diz que pintou uma batalha de Alexandre e Dario para o rei Cassandro (História Natural XXXV, 110).
⚠️ O mosaico tem uns duzentos anos de distância da batalha, e a atribuição da pintura original é hipótese. Mostra como Alexandre era lembrado, mais do que como foi.
Dario ofereceu dez mil talentos, metade do império e uma filha. Alexandre respondeu que já era dono de tudo isso. Nove anos depois, a mesma mão que não aceitava metade não conseguiu escrever um nome de herdeiro. Quando perguntaram a quem deixava o reino, a resposta, se é verdadeira, foi: "Ao melhor". Séculos antes, o salmista tinha dito: "Os reis da terra se levantam, e os governos consultam juntamente contra o Senhor" Sl 2.2. Quem se apossa de tudo ainda precisa de um herdeiro que ele não escolhe.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Doze anos que mudaram o mapa
Granico (334), Issos (333), Tiro e Gaza (332), Gaugamela (331), Hífase (326) e Babilônia (323): do Egeu à Índia.
Tiro e Gaza na Bíblia
Ezequiel e Zacarias falam dessas cidades. Quem lê o texto como previsão de Alexandre e quem o lê de outro modo partem do mesmo versículo Zc 9.4-5.
Um rei, vários relatos
Nenhuma história escrita no tempo dele chegou até nós. Arriano, Plutarco e Diodoro divergem em números, nomes e detalhes.
"Ao melhor"
Alexandre morre sem herdeiro adulto. Primeiro Macabeus resume: o reino foi repartido, e "os males se multiplicaram".
Próximo capítulo: no que os macedônios e seus reis acreditavam, de Zeus e Dioniso aos reis que aceitaram ser tratados como deuses, e o que a Bíblia diz diante disso.
Leve este capítulo com você
Baixe o Capítulo 2 — Alexandre, o Grande em PDF — diagramado, com as obras de arte e as 4 camadas de estudo, pronto pra ler offline, imprimir ou usar no preparo do sermão.
🔒 PDF do capítulo