Daniel está em Susã, na cidadela, junto ao rio Ulai Dn 8.2. É o terceiro ano de Belsazar Dn 8.1. Ele levanta os olhos e vê um carneiro de dois chifres, um mais alto que o outro, dando marradas para o ocidente, o norte e o sul, e nenhum animal lhe podia resistir Dn 8.3-4. Então, do ocidente, vem um bode "sobre toda a terra, mas sem tocar no chão", com um chifre notável entre os olhos Dn 8.5.
Mais de duzentos anos depois do tempo em que o livro situa a visão, Alexandre toma Susã depois de Babilônia e fica com cinquenta mil talentos que estavam no tesouro (Arriano, Anábase III, 16). Este capítulo mostra como a Bíblia fala da Grécia antes de Alexandre, o que o bode de Daniel 8 diz e o que cada leitor faz com ele, e o que Zacarias 9, de leitura tão disputada, tem a ver com a costa que Alexandre atravessou.
01 — JAVÃ ANTES DE ALEXANDREOs gregos que o Antigo Testamento já conhecia
Alexandre não é a primeira vez que a Bíblia fala dos gregos. A tabela dos povos já os cita: "os filhos de Javã são: Elisá, Társis, Quitim e Dodanim" Gn 10.4. Isaías, no fim do livro, põe Javã entre as nações distantes, "ilhas de mais longe, que não ouviram a minha fama", onde Deus enviará mensageiros Is 66.19. Ezequiel lista Javã entre os fregueses de Tiro, que "davam pessoas de homens e objetos de bronze" em troca das mercadorias Ez 27.13. E Joel acusa Tiro, Sídon e as regiões da Filístia de ter vendido "os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos, para os apartar para longe dos seus termos" Jl 3.6.
O livro de Joel não tem data certa, e as propostas dos estudiosos vão do século IX ao IV a.C. Por isso é difícil dizer em que ano os mercadores gregos comprariam escravos judeus. O que o texto mostra é que, no tempo do Antigo Testamento, o mar já levava gente para o ocidente e trazia gente de lá. Alexandre não é o começo do contato, e sim o momento em que ele muda de escala.
O hebraico chama a Grécia de Yavan (יָוָן). O dicionário de Strong anota que o nome designa os "jônios, isto é, os gregos" e o território deles. Os jônios viviam na costa da Ásia Menor, e é comum explicar que, por serem os gregos mais próximos do Oriente, o nome deles passou a designar todos. Josefo já escrevia, no século I, que "de Javã vêm a Jônia e todos os gregos" (Antiguidades I, 124, tradução minha). A forma aparece em Daniel 8.21, "o bode peludo é o rei da Grécia", em Daniel 10.20 e 11.2, e em Zacarias 9.13 e Joel 3.6.
No século IV a.C., Judá era uma província persa, Yehud, e batia moeda de prata em pequena escala. Os primeiros tipos copiavam as moedinhas de Atenas, com a cabeça de Atena e a coruja, e traziam a legenda YHD, "Yehud", em letras hebraicas antigas. Outras moedas mostram um rei persa, um falcão e o nome de um governador, Ezequias. As datas variam entre os estudiosos: o começo está entre o início do século IV a.C. e c. 350 a.C. (Gitler, Lorber e Fontanille classificaram 44 tipos de moedas de Yehud, num estudo de 2023).
⚠️ Estas moedas mostram que a Judeia usava, antes de Alexandre, o padrão do comércio do mar Egeu. Não provam o que os judeus pensavam disso, nem que houvesse muitos gregos na região.
02 — TIRO, GAZA E OS "FILHOS DA GRÉCIA"Zacarias 9, uma passagem, duas épocas
O capítulo 9 de Zacarias começa com uma lista de lugares, de Hadraque e Damasco a Tiro, Sídon, Ascalom, Gaza e Asdode Zc 9.1-6, e termina falando dos "filhos da Grécia":
Há duas maneiras principais de ler isso. A primeira é a mais difundida: os versículos 1 a 8 acompanham a marcha de Alexandre pela costa, em 333–332 a.C. (Capítulo 2), e os versículos 11 a 17, em alguns comentários, descrevem os judeus da época macabaica contra os gregos. A segunda é a de uma linha de estudiosos que datam os versículos 1 a 8 muito antes, no período assírio. A razão que eles dão é que Hadraque, a Hatarikka dos textos assírios, virou província assíria por volta de 739 a.C., e que a ordem dos nomes, Hadraque, Damasco, Hamate, bate com esse tempo. Para essa leitura, o ponto difícil é a menção à Grécia no versículo 13.
Há uma terceira camada que atravessa as duas. O versículo 9 diz: "eis que o teu rei virá a ti, justo e Salvador, pobre, e montado sobre um jumento" Zc 9.9. Os evangelistas leem aí a entrada de Jesus em Jerusalém Mt 21.5 Jo 12.15. Em muita pregação, o contraste entre o conquistador que desce a costa a cavalo e o rei humilde que entra montado num jumento é tomado como o centro do capítulo. É um contraste de pregação, que a passagem sugere, mas que o próprio texto de Zacarias não chega a escrever.
⚠️ Quem diz que Zacarias 9 "descreve" Alexandre e quem diz que não descreve estão lendo o mesmo texto com datas diferentes. Os fatos da campanha de Alexandre, vistos no Capítulo 2, não dependem de nenhuma das duas leituras.
Em Ezequiel 27 e em Joel 3, o comércio entre Tiro, a Filístia e os gregos incluía gente. Ezequiel diz que Javã dava "pessoas de homens" aos tírios, e Joel diz que Tiro, Sídon e a Filístia venderam judeus aos gregos. Quando Alexandre chegou a Tiro e a Gaza, o costume continuava. Arriano conta que uns trinta mil prisioneiros de Tiro foram vendidos e que em Gaza as mulheres e as crianças foram vendidas (Anábase II, 24; II, 27). O mundo grego e o mundo da Bíblia se conheciam, em boa parte, por meio do comércio de pessoas.
03 — O BODEDaniel 8: o carneiro, o bode e o chifre quebrado
De volta a Susã. O carneiro, diz o anjo Gabriel, "são os reis da Média e da Pérsia", e o bode peludo "é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei" Dn 8.20-21. Quando esse chifre se quebra, sobem outros quatro no lugar dele, e isso "significa que quatro reinos se levantarão da mesma nação, mas não com a força dele" Dn 8.22. É um dos poucos pontos de Daniel que o próprio texto identifica pelo nome do povo, a Grécia, e é onde as leituras mais concordam: o bode é o reino grego, o grande chifre é Alexandre e os quatro chifres são os reinos que o sucedem.
A conta se confirma de modo notável. Josefo, lendo o texto no século I, diz que o bode representa um rei vindo da Grécia, que combateria duas vezes o persa e tomaria o domínio dele, e que, quando o grande chifre é quebrado, os quatro que surgem em seu lugar são os sucessores, que não seriam nem filhos nem parentes dele (Antiguidades X, 272–274). Jerônimo diz o mesmo: o bode, que parece não tocar o chão por causa da velocidade, é Alexandre; o grande chifre é o rei; e os quatro generais que dividem o império são Ptolomeu, Filipe Arrideu, Seleuco e Antígono (Comentário a Daniel, sobre Dn 8.5-8). A campanha de Alexandre derrubou o império persa em poucos anos, em três grandes batalhas: Granico, Issos e Gaugamela. Quem acha que o livro foi escrito no século VI a.C. vê aí uma profecia. Quem acha que foi escrito em 167–164 a.C. vê um autor que já sabe o que aconteceu com Alexandre e com os sucessores dele, e escreve do ponto de vista de quem os conhece. Ambos leem o mesmo bode.
Uma nota sobre o argumento. Em Daniel 8, o carneiro é de "Média e Pérsia" juntas, um animal só, com dois chifres. Quem defende a Leitura 1 do Capítulo 4 (Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia, Roma) usa isso para dizer que o livro trata "medos e persas" como um império só. Quem defende a Leitura 2 (Babilônia, Média, Pérsia, Grécia) costuma responder que são visões diferentes, com símbolos diferentes e leitores diferentes.
O "bode" de Daniel 8.5 é tsâphîyr (צָפִיר), que o dicionário de Strong explica como "um bode macho (por pular)". Em 8.21, o anjo o chama de sâʻîyr (שָׂעִיר), "peludo" ou "felpudo", o que a ACF traduz por "bode peludo". A "cidadela" de Susã (Dn 8.2) é bîyrâh (בִּירָה), uma palavra que Strong marca como "de origem estrangeira" e traduz por "castelo ou palácio". E a Grécia, em 8.21, é Yavan: o texto não usa nenhuma palavra para Macedônia.
04 — O CHIFRE PEQUENOAntíoco, Roma ou o fim dos tempos?
De um dos quatro chifres sai "um chifre muito pequeno, o qual cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa"; ele se engrandece "até contra o exército do céu" e "contra o príncipe do exército; e por ele foi tirado o sacrifício contínuo, e o lugar do seu santuário foi lançado por terra" Dn 8.9-12. Um santo pergunta até quando, e outro responde: "Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado" Dn 8.13-14. Gabriel explica depois que, no fim do reinado desses reinos, "se levantará um rei, feroz de semblante, e será entendido em adivinhações", e que "se levantará contra o Príncipe dos príncipes, mas sem mão será quebrado" Dn 8.23-25.
Quem é esse rei? As respostas principais, com as palavras de cada uma:
Antíoco IV Epifânio. É a leitura de Porfírio, no século III, e a da maioria dos estudiosos críticos hoje. Josefo a adota no que se refere ao capítulo: "a nossa nação sofreu essas coisas sob Antíoco Epifânio, segundo a visão de Daniel" (Antiguidades X, 276, tradução minha), e Jerônimo mostra que os livros dos Macabeus e Josefo registram o rei entrando em Jerusalém e pondo no templo uma estátua de Zeus. O próprio Jerônimo, que defendia a autoria de Daniel no século VI, aplica a passagem a Antíoco, como profecia cumprida.
Roma. Na mesma passagem em que lê o capítulo 8 em Antíoco, Josefo acrescenta que "do mesmo modo Daniel escreveu também a respeito do governo dos romanos, e que o nosso país seria desolado por eles" (X, 276). Os adventistas do sétimo dia, por exemplo, leem o chifre pequeno de Daniel 8 como Roma, em sua fase pagã e depois papal, e contam as 2.300 tardes e manhãs como 2.300 anos, desde 457 a.C. (o decreto de Artaxerxes, pela conta deles) até 1844, que eles ligam à purificação do santuário celeste (crença fundamental nº 24).
Antíoco como "tipo" de um adversário final. Jerônimo, que vê em Daniel 8 o que aconteceu sob Antíoco, escreve que "a maioria dos nossos comentaristas" refere a passagem ao Anticristo, e que o que ocorreu com Antíoco foi só um tipo do que se cumprirá sob o Anticristo (Comentário a Daniel, sobre Dn 8.14, tradução minha). Leituras futuristas modernas seguem por esse caminho.
E as 2.300 tardes e manhãs? A leitura mais comum entre os estudiosos críticos conta as "tardes" e as "manhãs" separadamente, como os sacrifícios do fim e do começo do dia, e chega a 1.150 dias, pouco mais de três anos, o tempo em que o templo ficou profanado. Outros contam 2.300 dias inteiros, a partir de um marco anterior, como o assassinato do sumo sacerdote Onias III, por volta de 171 a.C., até a reconsagração do templo, em 164 a.C. Jerônimo, que também conta em dias, chega a uns seis anos e três meses. Josefo, quando resume a visão, dá outro número, mil duzentos e noventa e seis dias (X, 271). A leitura adventista conta anos. O texto de Daniel não decide.
O chifre pequeno cresce, pisa as estrelas, tira o sacrifício e lança a verdade por terra Dn 8.10-12. E termina com seis palavras: "mas sem mão será quebrado" Dn 8.25. A pedra de Daniel 2 vem "sem auxílio de mão", e o rei de Daniel 8 cai "sem mão". Os dois fins são obra de uma mão que não aparece. O poder que cresce com tanto barulho acaba, nesse livro, sem que ninguém precise levantar o braço contra ele.
05 — O PRÍNCIPE DA GRÉCIADaniel 10 e 11, de Xerxes a Alexandre
Em Daniel 10, um anjo diz ao profeta que tem de voltar a pelejar contra "o príncipe dos persas", e que, quando sair, "virá o príncipe da Grécia" Dn 10.20. O texto não explica, e leitores antigos e modernos veem aí seres celestes ligados a cada nação, como Miguel é "vosso príncipe" Dn 10.21. Jerônimo lê assim: o príncipe dos gregos entra diante de Deus para acusar o príncipe dos medos e persas, a fim de que o reino macedônio lhe suceda.
Daniel 11 recomeça pelo mesmo ponto histórico: "ainda três reis estarão na Pérsia, e o quarto acumulará grandes riquezas, mais do que todos; e, tornando-se forte, por suas riquezas, suscitará a todos contra o reino da Grécia" Dn 11.2. Jerônimo identifica esse quarto rei com Xerxes, que invadiu a Grécia e lutou em Termópilas e Salamina. E segue: "Depois se levantará um rei valente, que reinará com grande domínio... Mas, estando ele em pé, o seu reino será quebrado, e será repartido para os quatro ventos do céu; mas não para a sua posteridade" Dn 11.3-4. Quem lê Daniel 8 e Daniel 11 juntos percebe que são o mesmo cenário em dois tons: o rei valente é o grande chifre e a divisão em quatro ventos é o que acontece depois da morte de Alexandre (Capítulo 2).
Daniel 11 continua com dezenas de versículos sobre "o rei do norte" e "o rei do sul". Eles ocupam os Capítulos 7 e 8 deste livro, porque são a história dos Selêucidas e dos Ptolomeus, as duas dinastias que dividiram o império e entre as quais ficou a Judeia.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Javã já estava na Bíblia
Gênesis 10, Isaías, Ezequiel e Joel falam dos gregos, e o comércio de pessoas ligava a costa de Israel ao mar Egeu Jl 3.6.
O bode é o rei da Grécia
Daniel 8.21 diz isso com todas as letras. O grande chifre é o primeiro rei; os quatro chifres, quatro reinos Dn 8.22.
O chifre pequeno
Antíoco IV (críticos e muitos conservadores), Roma (Josefo e adventistas), um adversário final (Jerônimo e leituras futuristas). Cada leitura conta as 2.300 tardes e manhãs de um jeito.
Zacarias 9
Tiro, Gaza e Grécia. Leitura de Alexandre ou leitura do período assírio: o texto não nomeia ninguém.
Próximo capítulo: Alexandre em Jerusalém. A história de Josefo sobre o sumo sacerdote que sai ao encontro do rei, o que Arriano não diz e o que a arqueologia de Samaria e do monte Gerizim ajuda a avaliar.
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