É assim que Josefo conta a cena, no século I d.C. Uma procissão sai de Jerusalém ao encontro do exército de Alexandre, até um lugar chamado Sapha, de onde se vê a cidade e o templo. Todos vêm de branco. Os sacerdotes estão de linho, e o sumo sacerdote veste púrpura e escarlate, com a mitra e, na testa, a lâmina de ouro em que está gravado o nome de Deus. Os fenícios e caldeus que acompanham o rei esperam ver o saque da cidade e a morte do sacerdote. Mas Alexandre, ao ver a multidão de longe, avança sozinho, adora aquele Nome e cumprimenta o sumo sacerdote primeiro (Antiguidades XI, 329–331).
Parmênio, o velho general, pergunta ao rei por que ele, a quem todos adoram, adora o sumo sacerdote dos judeus. É um episódio que judeus e cristãos contaram durante séculos, e é o mais discutido deste livro. Este capítulo tem uma regra: Bíblia, história e tradição aparecem separadas. A Bíblia não conta nada disso. A fonte é Josefo. A história é o que podemos conferir com outras fontes. O resto é tradição.
01 — O RELATO DE JOSEFODo cerco de Tiro ao Gerizim
Josefo (por volta de 93 d.C.) conta a história em Antiguidades dos Judeus XI, 304–347. A ordem dele é esta. Quando Alexandre cerca Tiro, manda ao sumo sacerdote Jadua uma carta pedindo tropas e provisões e dizendo que mande a ele, e não a Dario, os presentes que mandava antes. Jadua responde que tem um juramento a Dario e que não o rompe enquanto Dario estiver vivo. Alexandre promete castigá-lo quando tomar Tiro (XI, 317–319). Quando toma Tiro e Gaza, depois de sete meses e dois meses de cerco, ele sobe a Jerusalém (XI, 325). Jadua, aterrorizado, manda o povo orar e oferecer sacrifícios. Em sonho, Deus o manda ter coragem, enfeitar a cidade, abrir os portões e sair de branco ao encontro do rei (XI, 326–328).
Na cena do encontro, Alexandre explica a Parmênio por que se curvou: "Eu não adorei o homem, mas o Deus que o honrou com o sumo sacerdócio. Pois vi este mesmo homem em sonho, com esta mesma roupa, quando eu estava em Dio, na Macedônia, e me exortava a não demorar a passar o mar para a Ásia, porque ele conduziria o meu exército e me daria o domínio sobre os persas" (XI, 333–334, tradução minha). Ele entra no templo e sacrifica, segundo as instruções do sumo sacerdote. Então mostram-lhe o livro de Daniel, onde se diz que um grego destruiria o império dos persas, e ele entende que é ele (XI, 337). No dia seguinte ele concede o que pedem: que os judeus vivam segundo as leis dos pais e não paguem tributo no sétimo ano, e que os judeus da Babilônia e da Média também possam viver segundo as suas leis. Muitos se alistam no exército dele, com a condição de continuar vivendo segundo as leis dos pais (XI, 338–339).
Falta um lado. Josefo conta que os samaritanos, de Siquém, ao ver como Alexandre honrou os judeus, foram ao rei e pediram a mesma isenção do sétimo ano. Alexandre perguntou quem eram, e eles disseram que eram hebreus que se chamavam sidônios. Quando ele perguntou se eram judeus e eles disseram que não, ele respondeu: "foi aos judeus que concedi esse privilégio" (XI, 340–344). Antes disso, Josefo tinha contado que o governador de Samaria, Sambalate, desertou de Dario e levou sete mil homens a Alexandre, e que ele recebeu permissão para construir um templo no monte Gerizim, com o genro Manassés, irmão de Jadua, como sacerdote (XI, 321–324).
Josefo diz que o lugar do encontro se chama Sapha, "que em grego quer dizer 'vista', porque dali se vê Jerusalém e o templo" (XI, 329). Costuma-se ligar o nome ao hebraico tsâphâh (צָפָה), "olhar ao longe, vigiar" (Strong), de que vem Tsôphîym, "vigias". Costuma-se identificar o lugar com o monte Scopus, cujo nome vem do grego skopós, "vigia". A lâmina de ouro é a do sumo sacerdote: "uma lâmina de ouro puro, e nela gravarás... SANTIDADE AO SENHOR" Êx 28.36. E o nome do sumo sacerdote, Jadua (Yaddûwaʻ, יַדּוּעַ, "conhecido", segundo Strong), é o último da lista de sumos sacerdotes de Neemias: "Joiada gerou a Jônatas, e Jônatas gerou a Jadua" Ne 12.11.
02 — A OUTRA VERSÃOSimão, o Justo, e o Talmude
Os rabinos contam o mesmo tipo de encontro com outro sumo sacerdote. No tratado Yoma (69a), de uma tradição ligada ao Megillat Taanit (uma antiga lista de dias festivos), o dia 25 de Tevet é o "dia do monte Gerizim", e a história é esta: os samaritanos pediram a Alexandre a casa do Senhor para destruí-la, e ele lhes deu permissão. O sumo sacerdote Simão, o Justo, vestiu-se com as vestes sacerdotais, e os notáveis o acompanharam com tochas. Caminharam a noite toda, de um lado, enquanto o exército de Alexandre e os samaritanos vinham do outro. Ao amanhecer, perto de Antipátris, Alexandre desceu do carro e se curvou diante dele. Os cortesãos estranharam, e Alexandre respondeu que a imagem do rosto daquele homem ia à frente dele nas batalhas. Os judeus explicaram que os samaritanos queriam destruir o templo, e Alexandre os entregou nas mãos deles, que os arrastaram até o Gerizim, o arrasaram, e o semearam de alho-poró.
As diferenças são grandes. O sumo sacerdote tem outro nome (Simão em vez de Jadua). O lugar é outro (Antipátris, no litoral, em vez de Sapha). A razão da visita também é outra: aqui, o perigo é a intriga dos samaritanos, não a ira do rei por ter recusado ajuda. O livro de Daniel não aparece. E o Gerizim é destruído, o que, pelo relato de Josefo, não acontece. Já Jerônimo, por volta de 407 d.C., aceita o relato de Josefo sem reservas: escreve que Alexandre, no tempo de Jadua, "veio a Jerusalém e ofereceu sacrifícios de sangue no templo" (Comentário a Daniel, sobre Dn 9). E a Enciclopédia Judaica (1901–06), no verbete sobre Jadua, conclui que o ato de Alexandre "parece ser apenas uma lenda" (tradução minha).
03 — O QUE OS OUTROS HISTORIADORES DIZEMArriano, Curtius e um silêncio
Arriano, o historiador mais completo da campanha que chegou até nós, escreve, quando Alexandre se prepara para atacar Gaza, que "todas as outras partes da chamada Síria Palestina já se haviam rendido a ele" (Anábase II, 25, tradução minha). Depois da queda de Gaza, diz que Alexandre foi a Pelúsio, no Egito, e chegou no sétimo dia (III, 1). Nenhuma palavra sobre Jerusalém ou sobre um sumo sacerdote.
Quinto Cúrcio Rufo, um historiador romano de Alexandre (século I d.C., datação incerta), também fala da Síria nesse ponto, e traz uma história que vai à direção contrária da de Josefo. Alexandre está no Egito, depois de fundar Alexandria, quando recebe a notícia da morte de Andrômaco, a quem ele deixara à frente da Síria: "os samaritanos o tinham queimado vivo". Ele corre para vingá-lo, e os autores do crime lhe são entregues (Histórias de Alexandre IV, 8, 9–11, tradução minha). A data, pela cronologia comum, é 331 a.C. Cúrcio diz só "os samaritanos" e não conta nada sobre Jerusalém.
⚠️ O silêncio de Arriano e de Cúrcio sobre Jerusalém é um argumento, não uma prova. Os historiadores antigos selecionavam o que contavam, e uma visita a uma cidade de montanha, sem batalha, podia não interessar. Mas o silêncio pesa, porque Arriano é detalhista nessa parte da campanha, e porque, na conta dele, entre a queda de Gaza e a chegada ao Egito passam só sete dias.
04 — O QUE BATE E O QUE NÃO BATESambalate, Jadua, Daniel e o Gerizim
Há detalhes em Josefo que parecem verdadeiros, e outros que criam problemas. A sequência de sumos sacerdotes dele (Eliasibe, Judas, João, Jadua) segue a lista de Neemias (Eliasibe, Joiada, Jônatas, Jadua) Ne 12.10-11, e Neemias 12.22 diz que o registro vai "até ao reinado de Dario, o persa", sem dizer qual Dario: pode ser Dario II ou Dario III, o último, que Alexandre derrotou. Até aqui, nada impede que Jadua fosse sumo sacerdote por volta de 332 a.C.
O problema começa com Sambalate. O Sambalate que a Bíblia conhece é o "horonita" que se opôs a Neemias, por volta de 445 a.C. Ne 2.10 Ne 2.19. Cartas dos judeus de Elefantina, no Egito, de c. 407 a.C., citam os filhos dele, Delaías e Selemias. Josefo põe um Sambalate no tempo de Dario III, cem anos depois. Uma explicação frequente é que existiu mais de um governador com esse nome na família: dois selos de Wadi Daliyeh, no vale do Jordão, trazem a legenda "Sambalate, governador de Samaria", de um membro mais novo, que governou pouco antes da conquista de Alexandre. Então o Sambalate de Josefo pode ser esse. Mas a história de Manassés, genro de Sambalate e irmão do sumo sacerdote, expulso por causa do casamento Ne 13.28, lembra a de Neemias, que diz que "um dos filhos de Joiada, filho de Eliasibe, o sumo sacerdote, era genro de Sambalate, o horonita, por isso o afugentei de mim". Alguns estudiosos concluem que Josefo contou, num tempo mais novo, a história que a Bíblia põe na época de Neemias. É uma suposição.
O segundo problema é o templo do Gerizim. Josefo o faz nascer com a permissão de Alexandre, em 332 a.C. As escavações de Yitzhak Magen, de 1983 a 2006, o levaram a datar o primeiro santuário em meados do século V a.C. Essa datação é a mais citada, mas não é unânime: Eran Arie propõe uma origem ainda na Idade do Ferro II, e outros estudiosos, como John Merrill, que se apoia nos papiros de Wadi Daliyeh, acham mais plausível uma data de fins do século IV a.C.
O terceiro é o livro de Daniel. Quem data o livro em c. 167–164 a.C. diz que ele não podia ser mostrado a Alexandre em 332, e que esse detalhe é uma adição de quem escreveu depois. Quem o data no século VI a.C. não vê problema. Aqui a discussão sobre Daniel (Capítulos 4 e 5) decide a conta.
Wadi Daliyeh. Em 1962, beduínos acharam numa caverna do vale do Jordão papiros e selos. O arqueólogo Frank Moore Cross comprou o material e, em 1963–64, escavou a caverna, chamada Mughâret Abū Shinjeh. Os papiros são documentos legais em aramaico, escritos em Samaria no século IV a.C. (contratos de venda, entre eles de escravos). Dois selos trazem a legenda "Sambalate, governador de Samaria". A caverna tinha também restos humanos. Os papiros estão hoje no Museu Rockefeller, em Jerusalém.
A hipótese mais citada é que eram nobres samaritanos que fugiram para lá depois da revolta de 331 a.C., quando Andrômaco foi morto. É uma hipótese, e não há consenso.
O Gerizim. Magen achou um santuário e, ao lado, uma cidade fortificada. O santuário foi reconstruído no começo do século II a.C., no tempo de Antíoco III, e destruído por João Hircano em c. 111–110 a.C. Há cerca de quatrocentas inscrições fragmentadas, em hebraico antigo, aramaico e samaritano, e uma delas traz o Tetragrama.
⚠️ Wadi Daliyeh confirma que havia governadores de Samaria chamados Sambalate na época persa tardia, e que a região viveu convulsões. Não confirma um encontro de Alexandre com um sumo sacerdote. O Gerizim mostra que o templo samaritano é mais velho que Alexandre. Não diz nada sobre Jerusalém.
A promessa que Josefo põe na boca de Alexandre, de isentar os judeus do tributo no sétimo ano, fala de uma preocupação real. A Lei manda que a terra descanse no sétimo ano Lv 25.4, e no tempo de Neemias o povo prometeu que "no sétimo ano deixaríamos descansar a terra, e perdoaríamos toda e qualquer cobrança" Ne 10.31. Para um agricultor da Judeia, o ano sabático significava um ano sem colheita, mas com o imposto do império batendo na porta. Qualquer rei novo que quisesse a boa vontade dos judeus tinha de levar isso em conta.
05 — ENTÃO, O QUE ACONTECEU?O que se pode afirmar
O que se pode dizer com firmeza é pouco. Alexandre passou pela Síria e pela Palestina em 332 a.C., tomou Tiro e Gaza e seguiu para o Egito, e Arriano diz que o resto da região já tinha se rendido. É possível que uma delegação judaica tenha ido ao encontro dele ou de seus oficiais, e é possível que os judeus tenham recebido alguma garantia de que seguiriam as suas leis. Que o encontro tenha sido como Josefo o descreve, com sonho, lâmina de ouro e livro de Daniel, é muito mais incerto, e a versão rabínica, com outro sumo sacerdote e outro lugar, mostra que a tradição mudou conforme quem a contava.
Para quem lê a Bíblia, o interesse da história está em como os judeus se lembravam de si mesmos diante do império. Nas duas versões, o rei estrangeiro se curva, e o que ele reconhece é o Nome ou o rosto do sacerdote, não o poder de armas. Mesmo que Jerusalém nunca tenha visto Alexandre, ela viu depois os sucessores dele. E aí a história foi bem diferente.
"Eu não adorei o homem, mas o Deus que o honrou." É a resposta que a tradição põe na boca de Alexandre quando o general o questiona. Se a cena é história ou lenda, o que ela ensina é uma distinção que vale para qualquer púlpito: o que se honra no ministro não é o ministro. A lâmina de ouro na testa de Arão dizia "SANTIDADE AO SENHOR" Êx 28.36, e não o nome de quem a usava. Quem recebe respeito por causa do cargo que serve deve lembrar de quem é a lâmina.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Uma história de Josefo
O sumo sacerdote Jadua sai de branco ao encontro de Alexandre, que se curva diante do Nome. Está em Antiguidades XI, 304–345, e não na Bíblia.
Duas versões
Josefo: Jadua, Sapha, ira do rei. Talmude: Simão, o Justo, Antipátris, intriga dos samaritanos e Gerizim destruído.
O silêncio de Arriano
De Gaza ao Egito, sete dias. Nem uma palavra sobre Jerusalém. Cúrcio fala só da revolta samaritana de 331.
Wadi Daliyeh e o Gerizim
Selos de "Sambalate, governador de Samaria" e um templo samaritano que o escavador data do século V a.C.: mostram a região, não o encontro.
Próximo capítulo: Alexandre morre, os generais se matam, e a Judeia passa de mão em mão entre os Ptolomeus do Egito e os Selêucidas da Síria. É nessa disputa que a Bíblia em grego, a Septuaginta, começa a ser escrita em Alexandria.
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