Alexandre e a MacedôniaCapítulo 3 de 11 ⤓ PDF
A entrada de Alexandre na Babilônia, pintura de Charles Le Brun
CAPÍTULO 3 DE 11

No que acreditavam

Zeus, Amon e os reis que viraram deuses

Antes de partir para a Ásia, o rei oferece nove dias de festa a Zeus e às Musas. O exército que ele leva é também uma procissão religiosa em marcha.

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Dion, na Macedônia, antes da partida para a Ásia. O exército está reunido, as naus esperam e o rei ainda não partiu. Antes, ele faz sacrifícios a Zeus. Diodoro conta que ele mandou celebrar durante nove dias os jogos que um antepassado, o rei Arquelau, tinha criado em honra de Zeus e das Musas, dando a cada dia o nome de uma Musa. Mandou armar uma tenda para cem leitos de banquete e convidou oficiais, amigos e embaixadores das cidades (Biblioteca Histórica XVII, 16, tradução minha).

Pouco depois, ao tocar a costa da Ásia, ele atira do navio uma lança, que se crava na terra, e é o primeiro macedônio a saltar. Diodoro diz que o gesto significava receber a Ásia dos deuses "como prêmio ganho pela lança" (XVII, 17). Aquele exército era uma máquina de guerra, mas era também uma procissão religiosa em movimento. Este capítulo mostra no que os macedônios e seus reis acreditavam, e como a Bíblia olha para isso.

01 — OS DEUSES DA CASAZeus, Héracles, Apolo e Dioniso

A religião dos macedônios era grega. O deus maior era Zeus, e o grande santuário dele ficava em Dion, aos pés do Olimpo. Dos pés da montanha à mesa do rei, os rituais mudavam pouco. Os reis diziam descender de Héracles, o herói que virou deus, e Arriano conta que Alexandre queria seguir os passos dele e de Perseu (Anábase III, 3). Apolo, em Delfos, era o oráculo que os reis consultavam. Filipe, como vimos, perguntou ao oráculo se venceria a Pérsia, na véspera de morrer (Diodoro XVI, 91).

E havia Dioniso, o deus do vinho e do êxtase, de quem as mulheres da região eram devotas desde muito tempo. Plutarco conta que Olímpias, mãe de Alexandre, era mais zelosa que as outras nesses ritos e levava para as procissões grandes serpentes domesticadas, que saíam da hera e dos cestos sagrados e se enrolavam nos bastões e nas guirlandas das mulheres, assustando os homens (Alexandre 2). Era a Macedônia que Alexandre levava na cabeça. Plutarco passa adiante também histórias sobre a concepção do rei: uma serpente vista deitada ao lado de Olímpias e um oráculo de Delfos que mandou Filipe sacrificar a Amon, porque o deus, em forma de serpente, teria dividido o leito com a rainha (Alexandre 2–3). São tradições que ele relata, não fatos.

🔎 A palavra original

Quando Paulo e Barnabé curam um coxo em Listra, a multidão grita: "Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens, e desceram até nós". E chama Barnabé de "Júpiter" e Paulo de "Mercúrio" At 14.11-12. A ACF usa os nomes latinos. No grego do texto estão os nomes gregos, Zeús (Ζεύς) e Hermês (Ἑρμῆς), que o dicionário de Strong registra como "Júpiter" e "Mercúrio". É o mesmo panteão de Dion, de Pela e de Alexandre.

A palavra do Novo Testamento para o que a Bíblia chama de falso deus é eídōlon (εἴδωλον), "uma imagem para adoração" (Strong). É o que os crentes de Tessalônica deixaram para trás. Paulo lhes escreve que "dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro" 1Ts 1.9.

👁️ Como era viver ali

Para um soldado macedônio, a religião era sobretudo rotina e sinal. Havia sacrifícios todos os dias e o adivinho do rei, Aristandro, de Telmesso, interpretava sonhos, sacrifícios e presságios (Plutarco, Alexandre 2; Arriano II, 26). O que acontecia antes de uma batalha ou de um cerco era lido como resposta dos deuses. Em Gaza, uma ave deixou cair uma pedra na cabeça do rei, e o adivinho disse que a cidade cairia, mas que o rei se guardasse naquele dia (Arriano II, 26). No deserto do oráculo de Amon, corvos guiaram o exército, diz Aristóbulo, ou serpentes, diz Ptolomeu (III, 3). E em Alexandria, aves vindas do rio devoraram a cevada com que se riscava o traçado, e os adivinhos disseram que era bom sinal (Plutarco 26). Até doente, Alexandre fazia os sacrifícios do dia, sendo carregado numa liteira para o altar (Arriano VII, 25).

02 — O FILHO DE AMONSiuá, o oráculo e uma letra a menos

Depois de fundar Alexandria, Alexandre quis ver o oráculo de Amon, no oásis de Siuá, na Líbia. A razão, diz Arriano, era imitar Perseu e Héracles, que tinham consultado o deus, e confirmar a própria origem: ele fazia remontar sua linhagem também a Amon, "para saber com mais certeza quem era seu pai, ou ao menos poder dizer que o soubera" (Anábase III, 3, tradução minha). A viagem pelo deserto de areia foi dura. Arriano conta duas versões de como o exército se orientou, com serpentes ou com corvos, e diz que não pode garantir nenhuma (III, 3). Do oráculo, ele registra só que Alexandre "ouviu o que lhe agradava, como ele mesmo disse" (III, 4).

Plutarco entra em mais detalhes e mostra que já no século I d.C. havia versões demais. O profeta do santuário teria saudado o rei como um filho. Alexandre perguntou se algum dos assassinos de seu pai escapara, e foi mandado vigiar a língua, pois seu pai não era mortal. Então perguntou se todos os assassinos de Filipe tinham sido punidos e se lhe era dado ser senhor de toda a humanidade, e a resposta foi sim às duas. Outra tradição, que Plutarco também registra, diz que o profeta, falando mal grego, quis dizer "ó paidíon" (meu filho), mas trocou a última letra e disse "ó paidiós", e a frase virou, na boca do povo, "ó filho de Zeus" (Alexandre 27). O próprio Alexandre, diz Plutarco, escreveu à mãe que recebera respostas secretas, que só diria a ela.

O que ele pensava de si mesmo, ninguém sabe. Plutarco conta que, ferido por uma flecha, ele disse aos amigos: "Isto que corre aqui, amigos, é sangue, e não ícor, o líquido que escorre das veias dos deuses bem-aventurados" (Alexandre 28, tradução minha). E que, quando um sofista lhe perguntou se ele, filho de Zeus, saberia trovejar assim, ele riu. O próprio Plutarco conclui que o rei não se deixou enganar pela ideia da própria divindade, mas a usou para submeter os outros.

03 — UM HOMEM, UMA CERIMÔNIAA prostração e o filósofo que disse não

A pergunta sobre divinizar o rei ficou famosa por uma noite de bebida. Arriano conta que o sofista Anaxarco começou a argumentar, à mesa, que Alexandre merecia ser tido como deus, mais que Dioniso e Héracles, e que os macedônios o honrariam como deus depois de morto, então melhor fazê-lo em vida. Os que estavam combinados com ele aplaudiram e queriam começar logo a prostração, o gesto persa de se curvar diante do rei. A maioria dos macedônios ficou irritada e calada (Anábase IV, 10–11).

Quem respondeu foi Calístenes, filósofo que estudara com Aristóteles e cronista da expedição. Ele concordou que nenhuma honra era grande demais para Alexandre, desde que fosse compatível com ser homem. E explicou a diferença: aos deuses se constroem templos, se oferecem sacrifícios e libações e se cantam hinos. Aos homens, elogios. E a maior distinção é a prostração. "Não é razoável confundir tudo", resumiu (IV, 11, tradução minha). Alexandre mandou suspender o assunto entre os macedônios. Os persas mais nobres se prostraram. Calístenes acabou preso numa conspiração de pajens, e Arriano diz que as fontes discordam do fim dele: Aristóbulo diz que morreu doente, acorrentado; Ptolomeu, que foi torturado e enforcado (IV, 14).

Em 323 a.C., Arriano registra ainda uma cena curiosa: embaixadas da Grécia chegam a Babilônia e se aproximam de Alexandre com coroas na cabeça, coroando-o com coroas de ouro, "como se fossem enviados para prestar honras divinas" (VII, 23). Aquele "como se" é de Arriano e mostra que ele não estava certo do que o gesto significava. Os historiadores modernos discutem se Alexandre exigiu, aceitou ou só tolerou esse tipo de honra, e as fontes antigas não decidem.

Filipe, o pai, já tinha dado um passo semelhante. No dia do casamento da filha, conta Diodoro, o rei desfilou no teatro com as estátuas dos doze deuses e, depois delas, uma décima terceira, "digna de um deus", que era a dele mesmo, "de modo que o rei se mostrava entronizado entre os doze deuses" (XVI, 92). Horas depois estava morto.

🔎 A palavra original

Arriano chama o gesto persa de proskýnēsis, e o verbo é proskynéō (προσκυνέω). O dicionário de Strong o explica como "curvar-se, prostrar-se em homenagem", com a imagem de um cão que lambe a mão do dono. É o mesmo verbo que o Novo Testamento usa para a adoração a Deus, "Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás" Mt 4.10, e para a homenagem dos magos ao menino, "viemos a adorá-lo" Mt 2.2. A palavra, portanto, cobria uma faixa larga, da reverência a um rei à adoração a Deus. Foi isso que Calístenes quis separar, e é uma das razões pelas quais é difícil dizer o que um gesto significava.

04 — OS SUCESSORES E OS DEUSES NOVOSQuando a cidade vota um salvador

Depois da morte de Alexandre, a ideia de rei-deus virou política. Em 307 a.C., conta Plutarco, os atenienses libertados por Demétrio, filho do general Antígono, passaram a dar a ele e ao pai o título de "Deuses Salvadores". Passaram a eleger um sacerdote desses deuses cada ano e a usar o nome dele para datar os documentos, no lugar do arconte. Mandaram bordar as figuras dos dois no manto sagrado, ao lado das dos deuses, e criaram um altar no lugar onde Demétrio desceu do carro. Chamaram o mês Muníquion de "Demetrion" (Demétrio 10–12).

Um poeta de Atenas, Filípides, escreveu versos contra o autor desses decretos. Diziam, em resumo, que ele tinha dado aos homens as honras dos deuses (Demétrio 12). O mesmo Plutarco descreve a última proposta, a de enviar alguém ao "deus salvador" para perguntar como recolocar as oferendas em Delfos, e conclui que a adulação desse jeito acabou de desencaminhar o homem (Demétrio 13). Outros reis seguiram o caminho. Antíoco IV, o rei que vai profanar o templo de Jerusalém, usou nas moedas o título Theós Epiphanḗs, "deus manifesto", e recebeu o apelido de Epimanḗs, o "louco", segundo Políbio (livro XXVI, citado por Ateneu). O Capítulo 8 conta o resto.

🏺 O que a pá encontrou

Duas moedas de prata. A da esquerda é um tetradracma de Filipe II (c. 359–355 a.C.), com a cabeça de Zeus. A da direita, de Lisímaco, general de Alexandre que virou rei da Trácia (297–281 a.C.), mostra a cabeça de Alexandre com os chifres de carneiro de Amon e, no verso, Atena sentada. Ambas estão hoje no Metropolitan Museum de Nova York. Entre uma e outra passam cerca de sessenta anos. O pai põe Zeus no dinheiro. Os sucessores do filho põem o filho, com os chifres do deus.

⚠️ As moedas mostram que, uma geração depois, reis macedônios usavam o rosto divinizado de Alexandre para legitimar o próprio poder. Não provam que o próprio Alexandre pediu para ser adorado em vida, nem que foi tratado como deus em todas as cidades. Os historiadores discutem isso.

Duas moedas de prata lado a lado: à esquerda a cabeça barbada de Zeus; à direita um jovem de perfil com chifres de carneiro enrolados sobre as orelhas
Tetradracma de Filipe II (c. 359–355 a.C.), com Zeus, e tetradracma de Lisímaco (297–281 a.C.), com Alexandre e os chifres de Amon — Metropolitan Museum of Art, Nova York (acessos 2021.40.81 e 05.44.430). Domínio público (Met Open Access).

05 — A RESPOSTA DA BÍBLIAQuem se engrandece sobre todo deus

A Bíblia não escreve nenhuma linha sobre Alexandre rei-deus. Mas fala dos reis que se engrandecem, e o livro de Daniel faz isso olhando para o mundo grego. Depois de descrever as guerras entre os reis do norte e do sul, o texto avisa que um rei "fará conforme a sua vontade, e levantar-se-á, e engrandecer-se-á sobre todo deus; e contra o Deus dos deuses falará coisas espantosas" Dn 11.36. Muitos intérpretes veem aí Antíoco IV, e outros veem um adversário futuro, ou Roma. Os capítulos 5 e 8 mostram as leituras. O que importa aqui é o contraste: no mundo de Daniel, dar a um rei o título de deus era moeda corrente.

O Novo Testamento volta ao assunto. Em Cesareia, o rei Herodes Agripa I faz um discurso vestido de roupa real, e o povo grita: "Voz de Deus, e não de homem". Lucas diz que "no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus" At 12.21-23. Aos crentes de Corinto, Paulo escreve que há "muitos deuses e muitos senhores", mas que, "para nós, há um só Deus, o Pai... e um só Senhor, Jesus Cristo" 1Co 8.5-6. E aos de Tessalônica, uma cidade fundada por Cassandro, um dos sucessores de Alexandre, ele diz que o testemunho deles é conhecido por toda parte: eles se converteram "dos ídolos... para servir o Deus vivo e verdadeiro" 1Ts 1.9.

Os dois lados, o filósofo grego e o texto bíblico, traçam uma linha entre o que se dá a um homem e o que se dá a Deus. Mas traçam essa linha em lugares diferentes. Calístenes aceitava um panteão cheio de deuses e heróis e só pedia que não se confundisse um homem com eles. A Bíblia afirma um só Deus, e por isso cada título de deus dado a um rei é, para ela, uma questão de fidelidade.

🔎 A palavra original

Dois títulos desse mundo reaparecem nas páginas do Novo Testamento. O primeiro é sōtḗr (σωτήρ), "salvador" (Strong: "um libertador"), um título que as cidades gregas davam a reis, como os "Deuses Salvadores" de Atenas, e que o evangelho dá a Jesus: "vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor" Lc 2.11. O segundo é epipháneia (ἐπιφάνεια), "manifestação, aparição" (Strong), da mesma família do Epiphanes de Antíoco. É a palavra do "aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo" Tt 2.13. Alguns estudiosos veem nisso uma resposta deliberada aos títulos dos reis, e outros veem só vocabulário que as pessoas do tempo usavam. Os textos não dizem qual das duas é a certa.

🌱 Semente de sermão

Atenas votou, Cesareia gritou, os embaixadores coroaram. Todo rei teve alguém para lhe dizer que a voz dele era voz de deus. Em Atos 12, a multidão grita "voz de Deus, e não de homem", e Lucas dá a razão do desfecho em seis palavras: "porque não deu glória a Deus" At 12.23. O elogio é o que mais custa para quem o recebe, porque ele nunca é de graça. Quem recebe a glória que não é sua já está devendo.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🏛️

Um panteão grego

Zeus em Dion, Héracles como antepassado, Apolo em Delfos e Dioniso nas procissões de Olímpias. O exército era uma procissão em marcha.

🐏

Siuá e os chifres de Amon

Alexandre consultou o oráculo de Amon. O que ouviu, ninguém sabe; cerca de trinta anos depois, os sucessores o põem no dinheiro com chifres de carneiro.

🙇

A prostração

Calístenes disse que templos e hinos eram para deuses, e elogios eram para homens. Alexandre recuou entre os macedônios.

📜

A resposta bíblica

"Voz de Deus, e não de homem" At 12.22; "dos ídolos vos convertestes a Deus" 1Ts 1.9; "há um só Deus, o Pai" e "um só Senhor, Jesus Cristo" 1Co 8.6.

Próximo capítulo: o livro de Daniel. A estátua de quatro metais e as quatro feras, o que cada leitura propõe e onde a Grécia e a Macedônia aparecem nelas.

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