Alexandre e a MacedôniaCapítulo 7 de 11 ⤓ PDF
O Farol de Alexandria, gravura de Philips Galle a partir de Maarten van Heemskerck
CAPÍTULO 7 DE 11

Os sucessores

O império em pedaços, os Ptolomeus e a Bíblia em grego

O corpo de Alexandre sai da Babilônia rumo à Macedônia e nunca chega. Os generais que o seguiram dividem o império, e a Judeia fica no meio.

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Um cortejo fúnebre sai da Babilônia rumo à Macedônia. Alguns macedônios receberam a tarefa de levar o corpo de Alexandre a Egas, onde dorme a casa real (Capítulo 1). Pausânias conta que Ptolomeu os convenceu a entregar o corpo a ele. Ptolomeu o leva para o Egito e o enterra em Mênfis, segundo os ritos macedônios (Descrição da Grécia I, 6, 3, tradução minha). O corpo do rei nunca chegou à Macedônia.

Esse gesto tinha peso político, e mostra o que veio depois: cada general queria ser o herdeiro do rei morto. Neste capítulo, os generais de Alexandre dividem o império, o Egito dos Ptolomeus recebe a Judeia, uma colônia de judeus cresce em Alexandria e, ali, a lei de Moisés é traduzida para o grego, a base da Bíblia que os apóstolos citarão. No fim, o livro de Daniel conta a mesma história, de um jeito que ainda hoje divide os leitores.

01 — A PARTILHAOs diádocos e os quatro ventos

Quando Alexandre morre, ninguém tem a força de assumir tudo. Josefo resume o que acontece: "Antígono obteve a Ásia, Seleuco a Babilônia; e das outras nações que ali havia, Lisímaco governou o Helesponto, e Cassandro possuiu a Macedônia; assim como Ptolomeu, filho de Lago, tomou o Egito" (Antiguidades XII, 2, tradução minha). Pausânias descreve as brigas dos generais, as alianças e as traições. Antígono é morto numa batalha contra Lisímaco, Cassandro e o exército de Seleuco, e Pausânias julga que o pior dos vencedores foi Cassandro, que recuperara o trono da Macedônia com a ajuda do próprio Antígono (I, 6). A batalha costuma ser datada de 301 a.C., em Ipsos, e deixa quatro herdeiros principais: Cassandro na Macedônia, Lisímaco na Trácia e na parte ocidental da Ásia Menor, Seleuco na Síria e no Oriente, e Ptolomeu no Egito.

Esses homens, que se chamam em grego diádocos, "sucessores", são, na leitura mais comum, os "quatro ventos" de Daniel: "o seu reino será quebrado, e será repartido para os quatro ventos do céu; mas não para a sua posteridade" Dn 11.4. Primeiro Macabeus os descreve numa frase curta: Alexandre, ao morrer, repartiu o reino entre os servos criados com ele. "E depois da morte dele todos puseram coroas sobre si, e seus filhos depois deles por muitos anos; e os males se multiplicaram na terra" (1Mc 1.8-9, tradução minha a partir da versão inglesa).

🔎 A palavra original

"Diádoco" é a palavra grega diádochos (διάδοχος), "sucessor no cargo" (Strong), do verbo diadéchomai, "receber em seguida, suceder". Ela aparece uma só vez no Novo Testamento, e num contexto sem glória: "Félix teve por sucessor a Pórcio Festo" At 24.27. É o mesmo termo que os historiadores usam para os generais de Alexandre.

02 — O EGITO DOS PTOLOMEUSQuem governava a Judeia

No jogo entre os sucessores, a Judeia ficava no meio: entre o Egito de Ptolomeu, ao sul, e a Síria de Seleuco, ao norte. Jerônimo, comentando Daniel 11, nota que a Escritura só registra os outros reinos quando eles tocam Israel, porque a Judeia estava "numa posição intermediária" e era ocupada ora por um grupo de reis, ora por outro (Comentário a Daniel, sobre Dn 11.5). Depois de Ipsos, Ptolomeu I e os sucessores dele ficaram com ela por cerca de um século (c. 301–200 a.C.).

Josefo conta como começou. Ptolomeu, diz ele, tomou Jerusalém por engano, num sábado, entrando como se fosse sacrificar, e os judeus, que descansavam e não o tinham por inimigo, não resistiram. Josefo cita o historiador Agatárquides de Cnido, que zombava dos judeus pela "superstição inoportuna" de não pegar em armas no sábado. Ptolomeu levou muitos cativos ao Egito. Josefo diz que o rei, sabendo que os de Jerusalém eram fiéis aos juramentos, pôs muitos deles em guarnições e deu, segundo Josefo, aos judeus de Alexandria direitos iguais aos dos macedônios (XII, 3–8). A Carta de Aristeas, um texto judeu que a maioria dos estudiosos data do século II a.C., traz números maiores: diz que Ptolomeu levou cem mil judeus ao Egito, armou trinta mil e deixou os velhos, as mulheres e as crianças como escravos, porque os soldados os reclamaram como prêmio (§§ 12–14). Os números são redondos e a carta tem a intenção de elogiar o segundo Ptolomeu, que teria libertado esses cativos. É prudente não os tomar ao pé da letra.

🏺 O que a pá encontrou

Os papiros de Zenão. Em 1914–1915, perto de Kom el-Kharaba, no Egito, apareceu o arquivo de Zenão de Kaunos, secretário de Apolônio, o ministro das finanças de Ptolomeu II Filadelfo (285–246 a.C.). São mais de duas mil peças, em grego e demótico. Zenão viajou pela Síria-Palestina entre 259 e 258 a.C., e passou por Jerusalém, Jericó, a Transjordânia e o território de Tuvia (Tobias), família ligada aos tobíadas de Josefo. Os papiros falam de grãos, azeite e betume do mar Morto que saíam da região, e de crianças compradas na Iduméia para casas egípcias e que fugiram e foram recapturadas.

⚠️ Os papiros mostram um país organizado em função do Egito, com funcionários gregos, comércio e gente comprada e vendida. Não mostram o que os judeus pensavam disso, e não confirmam as histórias de Josefo sobre os tobíadas.

👁️ Como era viver ali

O imposto era o assunto. Josefo conta, numa narrativa sobre uma família importante de Jerusalém, os tobíadas, que todo ano o rei vendia o direito de cobrar os tributos de cada região aos homens mais poderosos de cada cidade. Quando Ptolomeu abriu o leilão, a soma das taxas da Celessíria, da Fenícia, da Judeia e de Samaria chegou a oito mil talentos, e o jovem José, sobrinho do sumo sacerdote Onias, ofereceu o dobro e ganhou o contrato. Para cobrar, levou dois mil soldados do rei e matou os principais de Ascalom e de Citópolis (Bete-Sã) que se recusaram a pagar (Antiguidades XII, 169–183). A cronologia dessa narrativa é discutida: Josefo a põe no tempo de um Ptolomeu "Euergetes", mas mistura nomes e reinados. A história mostra, porém, como o povo se lembrava dessa época: um imposto a que só os poderosos sobreviviam.

03 — A BÍBLIA EM GREGOSetenta e dois homens e uma ilha

Em Alexandria, os judeus passam a falar grego. A Carta de Aristeas conta como isso levou à tradução da lei. Demétrio de Falero, o responsável pela biblioteca do rei, dizia que o acervo já passava de duzentos mil volumes e que ele queria chegar a quinhentos mil. E sugere que as leis dos judeus mereciam um lugar ali, mas precisavam ser traduzidas, porque os judeus tinham alfabeto e dialeto próprios. O rei manda uma carta ao sumo sacerdote Eleazar (§§ 9–11). Eleazar manda setenta e dois homens, seis de cada tribo, com seus nomes (§§ 47–50), e eles trabalham numa casa tranquila na ilha de Faros, a do farol, e o trabalho termina em setenta e dois dias. Quando a obra é lida à comunidade judaica de Alexandria, os sacerdotes e anciãos dizem que, de tão boa, não deve mais ser mudada, e amaldiçoam quem lhe acrescentar ou tirar alguma coisa (§§ 301–311). Daí vem o nome: a "Septuaginta", do latim "setenta", abreviada como LXX.

Os estudiosos modernos não aceitam esse relato ao pé da letra. A visão corrente é que a tradução do Pentateuco foi feita em Alexandria, em meados ou no fim do século III a.C., por judeus que já falavam grego, e que os outros livros foram traduzidos no século II a.C. Uma testemunha direta é o neto de Jesus Ben Sirá, que traduziu o livro do avô para o grego e conta no prólogo que chegou ao Egito no 38º ano do rei Euergetes, o que dá 132 a.C. Ele pede desculpa se as palavras às vezes escorregam, porque "as mesmas coisas ditas em hebraico, e traduzidas para outra língua, não têm a mesma força; e não só estas, mas a própria lei, e os profetas, e o resto dos livros, têm grande diferença quando são ditos na sua própria língua" (Prólogo de Sirácida, tradução minha a partir da versão inglesa). A frase sugere que, em 132 a.C., a lei, os profetas e outros livros já existiam em grego. E os nomes da lista de Aristeas mostram que a comunidade já se movia entre as duas línguas: ao lado de Samuel, Judas e Simão há Teodósio, Jasão, Dositeu e Teófilo (§§ 47–50).

🏺 O que a pá encontrou

Entre os manuscritos mais antigos da Bíblia grega está o Papiro Rylands 458, hoje na John Rylands Library, em Manchester: oito fragmentos do Deuteronômio em grego, datados do século II a.C. Fragmentos gregos de Levítico e de Deuteronômio, do século II ou do século I a.C., estão entre os textos mais antigos da Septuaginta. Os códices grandes, como o Vaticano e o Sinaítico, são do século IV d.C.

⚠️ Os papiros mostram que a lei circulava em grego perto de 150 a.C. Não provam a história dos setenta e dois tradutores, que é de Aristeas.

Por que isso importa para a leitura do Novo Testamento? Porque os autores do Novo Testamento, com frequência, citam a Bíblia nessa versão grega, embora não só nela. Dois exemplos mostram as diferenças. O Salmo diz: "os meus ouvidos abriste" Sl 40.6. A carta aos Hebreus cita o mesmo salmo, e diz: "corpo me preparaste" Hb 10.5, que é a forma da versão grega. E Estêvão diz que a família de Jacó que desceu ao Egito "era de setenta e cinco almas" At 7.14, enquanto o texto hebraico de Gênesis diz setenta Gn 46.27. A Septuaginta, nesse versículo, traz setenta e cinco, e comentaristas do século XIX, como Barnes e Clarke, explicam que Estêvão seguiu essa contagem. Os livros que católicos e ortodoxos têm no Antigo Testamento, e protestantes não, como Sabedoria, Sirácida e Macabeus, chegaram às igrejas pela tradição da Septuaginta.

🔎 A palavra original

A palavra "Bíblia" vem do grego ta biblía, "os livros". O dicionário de Strong explica biblíon (βιβλίον) como "um rolo", diminutivo de bíblos, "a casca interna da planta do papiro". É a palavra que Paulo usa ao pedir a Timóteo: "traze... os livros, principalmente os pergaminhos" 2Tm 4.13. O nome de um livro e o de um material da escrita do Egito caminham juntos.

04 — DANIEL 11O rei do sul e o rei do norte

É nesse jogo de dois reinos que Daniel 11 se encaixa. O texto fala de um "rei do sul" (Egito) e de um "rei do norte" (Síria), e a Judeia aparece no meio como "a terra gloriosa" Dn 11.16. Jerônimo, no século V, e Porfírio, no III, concordam que Daniel 11 segue a ordem histórica de reis do Egito e da Síria até Seleuco IV (v. 20) e a subida de Antíoco IV (v. 21-24), ainda que discordem em detalhes, como a identidade do rei do v. 20; daí em diante, Porfírio aplica o resto do capítulo a Antíoco IV, e Jerônimo o aplica ao Anticristo, com Antíoco como figura dele (Comentário a Daniel, sobre Dn 11; veja o Capítulo 8). A identificação mais comum é esta:

Dn 11.5 — "o rei do sul... e um dos seus príncipes"
Ptolomeu I é o rei do sul. Jerônimo identifica o "príncipe" mais forte com Ptolomeu II Filadelfo, e muitos comentaristas modernos preferem Seleuco I, que fora um general de Ptolomeu. Reinos em formação, depois de Ipsos.
Dn 11.6 — "a filha do rei do sul virá ao rei do norte"
Berenice, filha de Ptolomeu II, casa com Antíoco II, da Síria, no meio do século III a.C. O casamento acaba em intrigas: Antíoco volta à primeira esposa, Laódice, e Berenice é morta (Jerônimo).
Dn 11.7-9 — "um renovo das raízes dela"
O irmão de Berenice, Ptolomeu III Euergetes, invade a Síria e leva para o Egito os deuses e objetos preciosos, segundo Jerônimo, imagens que o persa Cambises tinha levado antes; por isso os egípcios o chamaram "Euergetes", benfeitor.
Dn 11.10-16 — o rei do norte avança sobre a "terra gloriosa"
Antíoco III, o Grande, derrota o general egípcio Escopas perto das fontes do Jordão (Panion, c. 200 a.C.; Josefo XII, 132), e a Judeia passa dos Ptolomeus aos Selêucidas.
Dn 11.17 — "lhe dará uma filha das mulheres"
Antíoco III dá a filha, Cleópatra, ao rei do Egito. Josefo diz que o rei da Síria a deu "como dote" com a Celessíria, Samaria, Judeia e Fenícia (Antiguidades XII, 154).
Dn 11.18-19 — "um príncipe fará cessar o seu opróbrio"
Antíoco, que se volta para as "ilhas", isto é, a Grécia e a Ásia Menor, enfrenta os romanos e é derrotado. Primeiro Macabeus o lembra: o grande rei da Ásia, com cento e vinte elefantes, "foi vencido" pelos romanos, que o tomaram vivo e lhe impuseram tributo e reféns (1Mc 8.6-8).
Dn 11.20 — "quem fará passar um arrecadador pela glória do reino"
Seleuco IV Filopátor, filho de Antíoco III, que Jerônimo diz ter morrido "sem batalha". O "arrecadador" costuma ser ligado ao ministro Heliodoro (Capítulo 8).

⚠️ Quem acha que Daniel é do século VI vê aí uma profecia com precisão histórica. Quem o data em c. 167–164 a.C. vê uma história escrita depois dos fatos, no estilo de uma profecia, até a crise de Antíoco IV. A ordem dos reis, nos dois casos, é a mesma. A discordância está em quando e por quem o texto foi escrito.

🌱 Semente de sermão

Berenice e Antíoco, Ptolomeu e Cleópatra: casamentos de rei, feitos para "fazer um tratado" Dn 11.6 e "para corrompê-la" Dn 11.17, e que acabam em veneno e em guerra. O texto não deixa nenhuma aliança de poder em paz. Enquanto isso, num canto da biblioteca de Alexandria, setenta e dois homens passam setenta e dois dias traduzindo uma lei que nenhum desses reis escreveu. Os reinos mudam de mão a cada geração; a Palavra, passando de uma língua para outra, atravessa todos.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⚰️

O corpo roubado

Ptolomeu desvia o caixão de Alexandre e o enterra no Egito. Quem tem o corpo, herda o rei (Pausânias I, 6).

🌬️

Os quatro ventos

Cassandro, Lisímaco, Seleuco e Ptolomeu, depois de Ipsos (301 a.C.). Daniel 8.8 e 11.4: "os quatro ventos do céu".

📜

A Septuaginta

Lei traduzida em Alexandria no século III a.C., segundo os estudiosos; setenta e dois tradutores e setenta e dois dias, segundo Aristeas.

⚔️

Norte e sul

Daniel 11 conta as guerras de Seleucidas e Ptolomeus pela "terra gloriosa". Os reis são os mesmos nas duas leituras; muda a data do livro.

Próximo capítulo: em c. 200 a.C. a Judeia passa dos Ptolomeus aos Selêucidas, o grego chega ao ginásio de Jerusalém e Antíoco IV Epifânio sobe ao trono, o rei que Daniel 8 e 11 descrevem com mais detalhe.

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