Os três irmãos pedem o pagamento. Trabalham na casa do rei, nas montanhas da Macedônia, e o rei não tem dinheiro para pagá-los. Então aponta para o círculo de sol que desce pela abertura da fumaça e diz: "Este é o salário que vocês merecem, e é este que eu dou" (Heródoto, Histórias VIII, 137, tradução minha).
Os dois mais velhos ficam parados. O mais novo, Perdicas, tira uma faca, risca no chão o contorno da mancha de luz, junta o sol três vezes nas dobras da roupa e sai. "Aceitamos o que dás, ó rei", diz ele. É assim que Heródoto conta a origem da casa real da Macedônia. É a história que a própria dinastia contava de si, e não um fato que a pá possa conferir.
O povo que descende dessa história vai atravessar a Bíblia duas vezes. Primeiro como o "bode" de Daniel, que vem do ocidente sem tocar o chão. Depois como as cidades de Filipos, Tessalônica e Bereia, onde Paulo planta igrejas. Este capítulo mostra quem eram: o reino, a casa real, o rei que fez o exército e a pergunta que os próprios gregos faziam, se aquele povo era grego. No fim, uma linha do tempo marca onde a Bíblia cruza cada época do livro.
01 — A TERRA DOS MONTANHESESEntre o Olimpo e o mar
A Macedônia antiga ficava no norte do que hoje é a Grécia. A região histórica com esse nome hoje se reparte entre a Grécia, a Macedônia do Norte e a Bulgária, e o centro do reino antigo estava na parte grega. Era uma terra de montes e planícies. Ao sul, o Olimpo, a montanha onde os gregos punham seus deuses. A leste, o mar Egeu. No meio, rios que cortam as planícies. Era também uma terra de pastores e cavaleiros: na história de Heródoto, os três irmãos da lenda cuidam de cavalos, bois e ovelhas na casa do rei.
O rei morava primeiro em Egas, a Vergina de hoje, aos pés dos montes Piérios e junto ao rio Haliacmon. A UNESCO a descreve como a primeira capital do reino. No começo do século IV a.C. a corte ganhou uma cidade nova, Pela, onde nasceram Filipe e Alexandre. Egas continuou sendo o lugar de enterrar os reis. Os arqueólogos gregos escavam Pela desde 1957 e acharam casas grandes com pátios de colunas e pisos de mosaico. Uma delas tem o desenho de Dioniso montado numa pantera, feito, pelos cálculos dos escavadores, por volta de 325–300 a.C.
No Novo Testamento, a região é Makedonía (Μακεδονία) e cada habitante é um Makedṓn (Μακεδών). O dicionário de Strong anota que a origem do nome é incerta. Uma explicação frequente liga a palavra ao adjetivo grego makednós, "alto", e faria dos macedônios "os altos" ou "os montanheses". É uma sugestão, não uma certeza.
No Antigo Testamento ninguém escreve "Macedônia". Os autores hebreus chamam o mundo grego de Yavan (יָוָן) e as terras do ocidente distante de Kittim (כִּתִּים), "Quitim" na ACF. A tabela dos povos diz que Quitim é filho de Javã Gn 10.4. Josefo explica o nome no século I d.C.: Quitim era a ilha de Chipre, e ali ainda existia uma cidade que guardava o nome, Cítio (Antiguidades I, 128). Com o tempo, diz o dicionário de Strong, a palavra passou a nomear "os gregos ou romanos" das costas em frente à Palestina. Por isso o livro de 1 Macabeus (um livro que católicos e ortodoxos incluem na Bíblia e protestantes não) abre dizendo que Alexandre, filho de Filipe, veio "da terra de Quitim" (1Mc 1.1) e chama Perseu, o último rei da Macedônia, de "rei dos Quitins" (1Mc 8.5, tradução minha). Já em Daniel, os "navios de Quitim" que fazem um rei do norte recuar Dn 11.30 são lidos por muitos intérpretes como navios de Roma. O Capítulo 8 volta a isso.
02 — A CASA DE PERDICASA dinastia que se dizia de Hércules
A dinastia se chamava argéada, de Argos, a cidade grega de onde, segundo Heródoto, os três irmãos tinham fugido. Heródoto os faz descendentes de Têmeno, de Argos. Plutarco diz que Alexandre contava Héracles (Hércules) entre os antepassados do lado do pai, por meio de Carano (Alexandre 2.1). Essa árvore genealógica tinha um uso prático: era a prova de que o rei era grego.
Heródoto mostra o uso. Um rei anterior, também chamado Alexandre, quis correr nos jogos de Olímpia, e os outros corredores tentaram barrá-lo, dizendo que a prova era para gregos e não para estrangeiros. Os juízes ouviram a história da família, aceitaram que ele era argivo e o deixaram correr. Ele terminou empatado em primeiro lugar (Histórias V, 22). O mesmo Heródoto conta que o pai desse Alexandre, Amintas, entregou terra e água aos enviados do rei persa Dario, o gesto que significava submissão (V, 17–18). Antes de ser a potência que derrubou a Pérsia, a Macedônia foi uma terra que a Pérsia tinha o poder de cobrar.
03 — FILIPE IIO rei que fez o exército
Quando Filipe chega ao trono, em 359 a.C., a Macedônia está de joelhos. O historiador Diodoro da Sicília, que escreve no século I a.C., diz que Filipe pegou a Macedônia quando ela era "escrava" dos ilírios, um povo do oeste, e a deixou senhora de muitos povos. Em vinte e quatro anos, diz ele, fez dela "o maior dos domínios da Europa" (Biblioteca Histórica XVI, 1, tradução minha). Antes, ainda jovem, Filipe tinha vivido como refém em Tebas, então a maior potência militar da Grécia, e Diodoro diz que ali foi criado junto de Epaminondas, o general tebano (XVI, 2).
Quando assume o reino, Diodoro conta que ele reúne os macedônios em assembleias, dá ânimo a todos e põe o exército para treinar sem parar, em manobras e competições (XVI, 3). Diodoro o chama de primeiro a organizar a falange macedônia, uma massa de soldados a pé, ombro a ombro, que avançava com lanças compridas. A arma mais famosa dela, a sarissa, costuma ser atribuída a Filipe. As reconstruções modernas dão uns cinco a seis metros de comprimento, e nenhuma sobreviveu para conferir, porque a madeira apodreceu. Por isso os historiadores discutem o tamanho exato e se ele cresceu depois de Alexandre.
O dinheiro vem de baixo da terra. Diodoro conta que Filipe tomou uma cidade chamada Crenides, aumentou-a com mais moradores e mudou seu nome para Filipos, dando-lhe o próprio nome. Depois, ao redor, ele melhorou tanto as minas de ouro que passaram a render mais de mil talentos, e com o ouro cunhou moedas que ficaram conhecidas como "filipeus" (XVI, 8). Esse nome volta em Atos, quando Paulo desembarca na Macedônia At 16.12.
Os gregos o temiam e o odiavam. O orador ateniense Demóstenes, em 341 a.C., disse sobre ele que não era só "grego" que Filipe deixava de ser: nem sequer era "um bárbaro de algum lugar que se possa nomear com honra, mas um miserável da Macedônia, de onde nunca se pôde comprar um escravo decente" (Terceira Filípica, IX, 31, tradução minha). Em 338 a.C., em Queroneia, Filipe derrotou Atenas e Tebas. Plutarco diz que Alexandre, com 18 anos, estava lá (Alexandre 9). Pouco depois os gregos o escolheram chefe da guerra contra a Pérsia, diz Diodoro (XVI, 91). Ele mandou na frente dois generais, Átalo e Parmênio, para libertar as cidades gregas da Ásia Menor.
E aí o rei morre. É 336 a.C., em Egas, no casamento da filha Cleópatra com o rei do Epiro, e a cidade está cheia de convidados, bandas e banquetes. Diodoro conta que, antes de partir para a guerra, Filipe tinha perguntado ao oráculo de Delfos se venceria o rei persa, e a resposta fora: "O touro está coroado. Tudo está feito. Há quem o fira" (XVI, 91). Filipe entendeu que o touro era o rei da Pérsia. De manhã, no teatro, ele entra com um manto branco e a guarda mantida a distância, para mostrar que o amor dos gregos bastava para protegê-lo. Um guarda-costas chamado Pausânias, da região de Orestis, o vê sozinho, corre e o fere nas costelas. Segundo Diodoro, o rancor tinha uma causa pessoal: Pausânias tinha sido humilhado por Átalo e não obteve justiça de Filipe (XVI, 93–94). Plutarco acrescenta que muitos culpavam Olímpias, mãe de Alexandre, e que o próprio Alexandre também foi acusado (Alexandre 10). Não há como saber. Josefo, que escreveu sobre isso séculos depois, só registra que Filipe foi "morto à traição em Egas" por Pausânias e que o filho Alexandre o sucedeu (Antiguidades XI, 304). Alexandre tinha vinte anos e herdou um reino cercado de inimigos (Plutarco, Alexandre 11).
A tumba de Vergina. Em 1977, o arqueólogo grego Manolis Andronikos abriu, sob uma grande colina artificial em Vergina, a antiga Egas, uma tumba com fachada de templo dórico, com friso pintado. Dentro, um cofre de ouro maciço, a larnax, guardava ossos queimados e uma coroa de ouro de folhas de carvalho. Andronikos a atribuiu a Filipe II. A UNESCO, que inscreveu o sítio na lista do Patrimônio Mundial em 1996, escreve que uma das tumbas reais do Grande Túmulo "é identificada" como a de Filipe II.
⚠️ Nenhum osso traz nome. Em 2000, Antonis Bartsiokas defendeu na revista Science que o esqueleto de Tumba II seria o de Filipe III Arrideu, meio-irmão de Alexandre. Em 2010, Musgrave, Prag, Neave e outros responderam, no International Journal of Medical Sciences, que os argumentos dele não se sustentam e que o caso de Filipe III sai mais fraco, e não mais forte, depois do exame. O achado prova que a Macedônia tinha reis ricos, com uma arte de altíssimo nível. Não prova, por si só, quem está enterrado na Tumba II. O debate continua.
A vida da corte passava pela mesa. Quando Amintas recebe os enviados persas, ele responde que, entre os macedônios, "homens e mulheres sentam separados" (Heródoto V, 18). O banquete era lugar de alianças, de brindes e de brigas. Foi num banquete de casamento que Átalo, bêbado, pediu aos macedônios que rogassem aos deuses por um herdeiro legítimo do rei. Alexandre lhe jogou uma taça. Filipe se levantou de espada na mão, tropeçou e caiu, e Alexandre zombou: "Olhem! Este quer passar da Europa para a Ásia e cai tentando ir de um sofá a outro" (Plutarco, Alexandre 9, tradução minha).
04 — O PROFESSOR E O PRÍNCIPEAristóteles em Mieza
Filipe queria que o filho fosse mais que um guerreiro. Segundo Plutarco, mandou buscar "o mais famoso e sábio dos filósofos", Aristóteles, e lhe pagou um salário nobre. Também reergueu Estagira, a cidade natal de Aristóteles, que ele mesmo tinha destruído. Como escola, deu a mestre e aluno um recanto de ninfas perto de Mieza, onde, diz Plutarco, ainda se mostravam, no tempo dele, os bancos de pedra e os passeios à sombra (Alexandre 7). Alexandre levou na campanha uma edição da Ilíada revisada por Aristóteles e a guardava, com o punhal, debaixo do travesseiro (Alexandre 8). O príncipe que vai invadir o Oriente é, antes disso, alguém que leu Homero e ouviu um filósofo.
Esse é o primeiro sinal de uma coisa que os próximos capítulos vão mostrar: o que a Macedônia levou ao mundo não foi só a espada. Levou uma língua, uma escola e um jeito de pensar a cidade.
05 — GREGOS OU NÃO?A pergunta que os gregos faziam
Os macedônios eram gregos? Demóstenes dizia que não. Os reis diziam que sim, e Heródoto, como vimos, registra o aval dos juízes de Olímpia. A resposta, na época, era uma disputa política. Hoje há dois campos de evidência: a língua e a cultura.
Na língua, a peça mais citada é a lâmina de chumbo de Pela. Foi achada em 1986 numa tumba da cidade, é de c. 380–350 a.C. e foi publicada em 1993. É uma maldição de amor: uma mulher invoca um morto chamado Macron e os "daimones" para que Dionisofonte se case com ela, e não com Tetima. O texto está num grego de tipo dórico, e estudiosos como Olivier Masson o usam para dizer que o macedônio era um dialeto grego do noroeste. Mas o argumento tem limites: é um único documento, alguns nomes estão danificados e há influência do ático.
⚠️ Este livro não decide a questão. O que se pode dizer com segurança é que a corte macedônia escrevia e falava em grego nas inscrições que chegaram até nós e que seus reis queriam ser vistos como gregos. Quanto à língua dos camponeses das montanhas, a discussão continua.
"Quem despreza o dia das coisas pequenas?" Zc 4.10. A casa real que um dia mandaria no mundo começa, na lenda, com um menino, uma faca e um círculo de sol no chão. E a história real de Filipe começa com uma Macedônia que, segundo um historiador antigo, era escrava dos vizinhos. Os próximos capítulos mostram o contrário na outra ponta: um império que cresceu depressa e se partiu depressa. O que Deus começa pequeno ele sustenta; o que o homem faz grande demais ele deixa quebrar.
LINHA DO TEMPOA Macedônia inteira, com a Bíblia marcada
Datas aproximadas, na cronologia convencional dos historiadores gregos e romanos. O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico cruza com cada época.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Um reino de montanheses
Pastores, cavaleiros e uma casa real que se dizia de Hércules. A Macedônia foi vassala da Pérsia antes de derrubá-la.
Filipe fez o exército
Falange, sarissa e minas de ouro: em 24 anos, o rei fez de um reino quebrado o senhor da Grécia.
O túmulo de Vergina
Um cofre de ouro e uma coroa de carvalho. O que a pá acha não diz o nome do morto, e o debate continua.
Quitim e Javã
O hebraico chama os gregos de Javã e o oeste distante de Quitim. 1 Macabeus põe Alexandre vindo de Quitim Gn 10.4.
Próximo capítulo: Alexandre, o jovem que herdou esse exército aos vinte anos, as batalhas que mudaram o mapa e as duas cidades da costa, Tiro e Gaza, que ele atravessou a caminho do Egito.
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