SOBRE ESTE LIVROA Macedônia da Bíblia, em poucos minutos
Daniel está em Susã, junto ao rio Ulai, e levanta os olhos. Do ocidente vem um bode correndo sobre a terra toda, sem tocar o chão.
O anjo explica: "o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei" Dn 8.21. A Bíblia hebraica nunca escreve o nome de Alexandre, o Grande. Mas a vida dele, o império que se partiu e a língua que ele espalhou atravessam o Antigo e o Novo Testamento. Este livro conta tudo isso em onze capítulos. Se ler só esta página, você já sai com o essencial.
Quem eram. A Macedônia era um reino de montanheses e cavaleiros, no norte da Grécia, que os próprios gregos discutiam se era grega. Filipe II, que subiu ao trono em 359 a.C., fez dela uma potência, com um exército de falange e as minas de ouro da cidade que ele rebatizou de Filipos. Foi assassinado em 336 a.C. e deixou o exército ao filho de vinte anos. Alexandre derrubou o império persa, tomou Tiro e Gaza, entrou no Egito, foi até a Índia e morreu na Babilônia, em junho de 323 a.C., aos trinta e dois anos, sem herdeiro adulto.
No que acreditavam. Zeus, o rei dos deuses, tinha culto na Macedônia; Héracles era o antepassado da casa real; no Egito, Alexandre foi consultar o oráculo de Amon. Depois da morte dele, os reis passaram a aceitar títulos de salvador e de deus, e Antíoco IV pôs Theós Epiphanés, "deus manifesto", nas moedas. A Bíblia responde a isso do seu jeito: quando o povo grita a um rei "Voz de Deus, e não de homem" At 12.22, o anjo do Senhor o fere, "porque não deu glória a Deus" At 12.23.
Daniel. O livro de Daniel dá à Grécia um lugar na profecia: a estátua de quatro metais Dn 2, as quatro feras, com um leopardo de quatro cabeças Dn 7, o bode de Daniel 8 e a guerra entre o rei do sul e o rei do norte Dn 11. As leituras divergem, e o livro as descreve sem escolher. A leitura tradicional, que Jerônimo e Calvino defendem e que Josefo já resume em parte, vê Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. A leitura crítica moderna, que retoma de Porfírio, filósofo do século III, a ideia de um livro escrito no tempo de Antíoco IV, vê Babilônia, Média, Pérsia e Grécia, e data o livro de c. 167–164 a.C. Adventistas e futuristas têm, cada um, a sua leitura.
Alexandre em Jerusalém. Josefo conta que o sumo sacerdote saiu de branco ao encontro do rei, que se curvou diante do Nome de Deus. Arriano e Cúrcio, que contam a campanha, não falam disso, e o Talmude traz outra versão, com outro sumo sacerdote. É tradição, e o livro a mostra como tradição.
Os sucessores. Quando Alexandre morre, os generais dividem o império, e a Judeia fica entre o Egito dos Ptolomeus e a Síria dos Selêucidas. Em Alexandria, a lei de Moisés é traduzida para o grego, a Septuaginta, a Bíblia que os apóstolos citam. Em c. 200 a.C., Jerusalém passa aos Selêucidas, e em 175 a.C. um sumo sacerdote compra o cargo e funda um ginásio na cidade.
Antíoco IV e os Macabeus. Em dezembro de 167 a.C., o rei Antíoco IV Epifânio profana o templo e proíbe a religião dos judeus. O sacerdote Matatias e seus filhos se levantam em Modin, e em 25 de Quisleu de 164 a.C. o altar é purificado: é Hanucá, a "festa da dedicação" que aparece em João 10.22. Primeiro e Segundo Macabeus, livros que católicos e ortodoxos incluem na Bíblia e protestantes não, contam essa história.
No Novo Testamento. Paulo vê de noite um macedônio que pede ajuda At 16.9 e atravessa o mar a partir de Trôade. Em Filipos, cidade de Filipe, ele recebe Lídia, açoites e uma prisão. Em Tessalônica, acusam os cristãos de dizer que há "outro rei, Jesus" At 17.7. Em Bereia, os ouvintes examinam as Escrituras. E das igrejas da Macedônia, Paulo escreve que "a sua profunda pobreza abundou em riquezas da sua generosidade" 2Co 8.2.
O que a pá encontrou. A arqueologia confirma partes desse mundo: as tumbas reais de Vergina, as moedas dos sucessores com o rosto de Alexandre e os chifres de Amon, os papiros que mostram a Escritura e a vida cotidiana em grego, a inscrição de Heliodoro e os títulos que Lucas usa em Tessalônica e em Filipos. Ela cala, ou fica dividida, sobre outros pontos: de quem são os ossos da tumba II de Vergina, se Alexandre foi mesmo a Jerusalém, onde ficava a fortaleza selêucida da cidade e quando Daniel foi escrito.
Como isso muda sua leitura. Você vai ler "Javã" e "Quitim" sabendo que apontam para o mundo grego e para o oeste. Vai ler "abominação da desolação" sabendo que o texto de Daniel foi lido, desde cedo, à luz de um altar profanado em dezembro de 167 a.C. E vai ver que o grego do Novo Testamento é uma herança de Alexandre: o título da cruz foi escrito em hebraico, grego e latim Jo 19.20.
ANTES DE COMEÇARO mapa para não se perder
Na Almeida Corrigida Fiel, a palavra "Macedônia" só aparece no Novo Testamento, a partir de Atos 16, e o nome "Alexandre" pertence a homens que não são o rei. O Antigo Testamento chama os gregos de Javã e o oeste distante de Quitim. Ainda assim, poucos mundos pesam tanto na Bíblia inteira: de Daniel a Atos, de Hanucá ao grego do Novo Testamento. Antes de entrar nas cenas, fixe estes seis cartões.
Onde
No norte da Grécia, entre o monte Olimpo e o mar Egeu. A região histórica se divide hoje entre a Grécia, a Macedônia do Norte e a Bulgária. As capitais antigas foram Egas e Pela.
Quando
Filipe II reina de 359 a 336 a.C.; Alexandre, de 336 a 323. Depois vêm os sucessores, e o reino da Macedônia cai diante de Roma em Pidna, em 168 a.C.
Por que importa na Bíblia
Daniel 2, 7, 8 e 11, os livros dos Macabeus, Hanucá, a Septuaginta, o grego do Novo Testamento e as igrejas de Filipos, Tessalônica e Bereia.
O momento mais famoso
O bode que vem do ocidente sem tocar o chão Dn 8.5 e o macedônio da visão que pede: "Passa à Macedônia e ajuda-nos" At 16.9.
Um debate que não se resolve
Quando Daniel foi escrito: no século VI a.C. ou em c. 167–164 a.C. O livro mostra as duas leituras, sem decidir por você.
Uma tumba, duas hipóteses
Em Vergina, onde ficava Egas, uma tumba real tinha um cofre de ouro com ossos. Eram de Filipe II ou de Filipe III? Os estudiosos ainda discordam.
O hebraico não tem a palavra "Macedônia". Ele chama o mundo grego de Yavan (יָוָן), nome de um filho de Jafé Gn 10.2, e o oeste distante de Kittim (כִּתִּים), "Quitim" na ACF Gn 10.4. O grego do Novo Testamento, em compensação, tem Makedonía (Μακεδονία), a região, e Makedṓn (Μακεδών), o habitante. Segundo o dicionário de Strong, a origem dessa segunda palavra é incerta.
Leve o livro com você
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