Um campo perto do mar. Um homem de manto de filósofo procura um lugar quieto, e um velho de aparência serena o segue a pouca distância. "Você me conhece?", pergunta o velho. "Não." Os dois conversam, e o velho pergunta como os filósofos podem julgar a respeito de Deus sem tê-lo visto nem ouvido.
É a cena com que Justino, que morreria em Roma por volta de 165, abre o relato da sua conversão no Diálogo com Trifão (cap. 3-8). Se aconteceu assim ou é recurso literário, os estudiosos discutem. O que importa aqui é o que Justino diz ter feito antes: procurou um estoico, depois um peripatético, depois um pitagórico, e por fim um platônico, cuja filosofia "dava asas" à sua mente. Foi com essas ideias na cabeça que ele leu os profetas. Este último capítulo segue o que os cristãos fizeram, durante mais de mil anos, com as ideias que os capítulos anteriores apresentaram.
47 — JUSTINOAs sementes do Verbo
Justino conta que passou por quatro escolas. O estoico dizia que aprender sobre Deus era desnecessário; o peripatético pediu logo o pagamento; o pitagórico exigiu antes música, astronomia e geometria. Com o platônico foi diferente: "a contemplação das ideias dava asas à minha mente, e esperava ver a Deus logo, pois esse é o fim da filosofia de Platão" (Diálogo 2; tradução minha, a partir da versão da série Ante-Nicene Fathers). O velho do mar, ao contrário, aponta para os profetas, "mais antigos que todos os que são tidos por filósofos". Justino conclui: "achei só esta filosofia segura e proveitosa. Assim, e por isso, sou filósofo" (cap. 8).
No começo do Diálogo, Trifão o aborda como "filósofo" justamente por causa do manto (cap. 1). E, ao escrever aos imperadores, Justino defendeu que Cristo é o Verbo de que todo o gênero humano participou, "e os que viveram segundo a razão são cristãos, ainda que tenham sido tidos por ateus, como entre os gregos Sócrates e Heráclito" (Primeira Apologia 46). Sócrates, diz ele em outro lugar, foi acusado "dos mesmos crimes que nós", a saber, de introduzir "novos deuses" (Segunda Apologia 10), e é a acusação de Atenas que lemos no capítulo 4.
Justino fala em "verbo seminal", σπερματικὸς λόγος (spermatikòs lógos), expressão que ecoa o estoicismo. No capítulo 7 vimos Diógenes Laércio resumir a doutrina estoica de um Deus que é o "princípio seminal do mundo". Justino aplica a imagem ao Verbo de João 1: "cada um falou bem na medida da parte que tinha do verbo seminal, vendo o que lhe era aparentado" (Segunda Apologia 13). Mas acrescenta que as doutrinas de Platão e as de Cristo "não são em tudo semelhantes", e que quem se contradiz nos pontos principais parece "não ter possuído a sabedoria celeste". Ele distingue a semente do fruto: "uma coisa é a semente e a imitação, outra a própria coisa" (cap. 13).
48 — CLEMENTE, ORÍGENES E TERTULIANODespojos do Egito, e uma pergunta
Em Alexandria, Clemente escreve que, antes de Cristo, "a filosofia era necessária aos gregos para a justiça", e que ela foi "um pedagogo, para levar a mente helênica a Cristo, como a lei levou os hebreus" (Stromata I, 5; tradução minha, a partir da versão inglesa). A alusão é a Gálatas 3.24, em que a lei "serviu de aio" (paidagōgós, em grego) Gl 3.24. No mesmo livro, Clemente cita Numênio, um filósofo pitagórico: "Que é Platão senão Moisés falando em grego ático?" (I, 22). Já vimos o outro lado desse espelho no capítulo 8, com Fílon.
Orígenes, que ensinou em Alexandria e depois em Cesareia, escreveu por volta de 235 a Gregório, seu aluno: "gostaria que tomasses da filosofia dos gregos o que pode servir de estudos preparatórios para o cristianismo". E propõe: "os filhos dos filósofos dizem que geometria, música, gramática, retórica e astronomia são auxiliares da filosofia; do mesmo modo podemos falar da própria filosofia em relação ao cristianismo" (Carta a Gregório 1; tradução minha, a partir da versão inglesa). A imagem que ele escolhe vem do Êxodo:
Para Orígenes, o ouro dos egípcios serviu para fazer a arca e o candelabro, e assim o saber do mundo pode servir ao culto de Deus. Mas ele também avisa: "poucos tomaram as coisas úteis do Egito e saíram dele", e muitos "fundando-se em algum saber grego, produziram ideias heréticas". Agostinho, mais de um século e meio depois, usa a mesma imagem: os platônicos e os outros têm "ouro e prata" que "escavaram das minas da providência de Deus", e o cristão deve tomá-los "para uso na pregação do evangelho" (Sobre a doutrina cristã II, 40, 60).
Do lado de fora, Porfírio, filósofo pagão que escreveu contra os cristãos, falava de um Orígenes que, "nas suas opiniões sobre as coisas materiais e a Divindade, era como um grego, misturando ensinos gregos com fábulas estrangeiras" (citado por Eusébio, História eclesiástica VI, 19; tradução minha). Eusébio identifica esse Orígenes com o cristão, e alguns estudiosos modernos duvidam. De qualquer modo, a acusação de misturar o grego e o estrangeiro já vinha também de fora.
E houve quem recusasse a ponte. Tertuliano, cartaginês, escreveu por volta de 200, citando Colossenses 2.8 e lembrando que Paulo "esteve em Atenas": "Que tem Atenas a ver com Jerusalém? Que concórdia há entre a Academia e a Igreja?" E ainda: "Fora com todas as tentativas de produzir um cristianismo matizado de composição estóica, platônica e dialética!" (Prescrição contra os hereges 7; tradução minha, a partir da versão inglesa). O alvo dele são os hereges, que, segundo ele, bebiam em Zenão, Heráclito e Aristóteles. Justino e Tertuliano respondem de modos diferentes à mesma pergunta: o que se pode tomar de Atenas.
49 — NICEIAUma palavra grega que não está na Bíblia
Em 325, o Concílio de Niceia ensinou que o Filho é ὁμοούσιος (homoousios) com o Pai, "de uma só substância". A palavra junta ὁμός, "mesmo", e οὐσία, "ser, substância". É uma palavra do vocabulário da filosofia grega, e não está na Bíblia. Os arianos, que ensinavam que o Filho foi criado, e que liam em Provérbios 8.22 o verbo "criou-me" (capítulo 10), reclamaram. Atanásio, bispo de Alexandria, resume a queixa: "Por que os Pais de Niceia usaram termos que não estão na Escritura, 'da essência' e 'de uma só essência'?" (Sobre os decretos de Niceia 1; tradução minha, a partir da série Nicene and Post-Nicene Fathers).
A resposta de Atanásio é que, "mesmo que as expressões não estejam nas Escrituras em tantas palavras, contêm o sentido das Escrituras" (Sobre os decretos 21). Ele não nega que a palavra seja nova, e diz que o sentido é o do texto. Em outro ponto, ele vira o argumento contra os arianos: "sem origem" ("Unoriginated", na versão inglesa) é "palavra dos gregos que não conhecem o Filho", e "Pai" é o nome que o próprio Senhor ensinou (Sobre os decretos 31). Ou seja, o debate em Niceia já era também sobre quais palavras gregas o cristão pode aceitar.
Uma leitura vê em Niceia a tradução fiel do que a Bíblia já dizia, em outra língua. Outra, a de Harnack (ver abaixo), vê no vocabulário o começo de uma metafísica que se sobrepôs ao Evangelho. Uma terceira diz que Niceia usou palavras gregas para defender o Evangelho e, ao fazê-lo, mudou o sentido delas.
⚠️ Debate aberto. O Credo de Niceia é aceito por católicos, ortodoxos e pela maior parte dos protestantes, e a discussão é sobre a relação entre o vocabulário e a mensagem, e não sobre a doutrina.
50 — AGOSTINHOO que os platônicos tinham e o que não tinham
Em Milão, pouco antes da conversão, em 386, Agostinho leu "livros dos platônicos, traduzidos do grego para o latim". E conta, nas Confissões: "li ali, não com as mesmas palavras, mas com o mesmo sentido, apoiado em muitas razões, que No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". Mas continua: "que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, isso não li ali" (VII, 9; tradução minha, a partir da versão inglesa). É o que vimos no capítulo 10: ele achou ali os versículos 1 a 5 e 9, e não achou o 14.
Em A cidade de Deus, ele escreve que, entre todos os filósofos, "é evidente que nenhum chega mais perto de nós do que os platônicos" (VIII, 5), e logo depois, que o cristão, mesmo sem conhecer o nome dos platônicos, "está de guarda" contra os que filosofam "segundo os elementos deste mundo", e cita Colossenses 2.8 (VIII, 10). O aviso e a ponte moram no mesmo livro.
Agostinho conta a sua leitura em duas partes: primeiro o que ele encontrou nos platônicos, "No princípio era o Verbo", e depois o que não encontrou, "o Verbo se fez carne". Quem prega para quem já leu outros livros pode seguir essa ordem: reconhecer o que o ouvinte já achou, e dizer, com clareza, o que ele ainda não achou. É a ordem do discurso de Paulo em Atenas (capítulo 9) e da leitura de João 1 (capítulo 10).
51 — TOMÁSAristóteles volta ao Ocidente
Por séculos, o Ocidente latino conheceu pouco de Aristóteles. Nos séculos XII e XIII, suas obras voltaram em traduções do árabe e do grego para o latim. Nas universidades, foi um choque: algumas teses aristotélicas, como a da eternidade do mundo, pareciam contrariar o Gênesis. Em 1277, três anos depois da morte de Tomás de Aquino, o bispo de Paris, Étienne Tempier, condenou 219 proposições, e algumas delas tocavam ensinamentos de Tomás, segundo os historiadores.
Tomás usou Aristóteles e, ao mesmo tempo, distinguiu os dois campos. Na Suma teológica, pergunta se, além da filosofia, é preciso outra ciência, e responde que sim: "foi necessário para a salvação do homem que houvesse uma ciência revelada por Deus, além da ciência filosófica construída pela razão humana" (I, q. 1, a. 1; tradução minha, a partir da versão inglesa). E, na questão sobre os nomes de Deus, escreve que "este nome QUEM É é o mais próprio de Deus", porque não significa uma forma, "mas simplesmente o próprio existir" (I, q. 13, a. 11). O texto de apoio é Êxodo 3.14, que vimos no capítulo 3, em que o grego da Septuaginta tem ὁ ὤν. Mas ele acrescenta que, quanto ao objeto significado, o nome "Deus" é mais próprio ainda, e o Tetragrama, o mais próprio de todos. Tomás também comentou os Nomes divinos do Pseudo-Dionísio, que a Idade Média lia como obra do Areopagita de Atos 17.34 (capítulo 9).
52 — A PERGUNTAA igreja se helenizou?
Em 1517, Martinho Lutero propôs uma disputa contra a teologia escolástica. A tese 50 diz: "Em resumo, todo Aristóteles está para a teologia como as trevas para a luz". Em 1518, na Disputa de Heidelberg, a tese 29 diz que quem quiser filosofar em Aristóteles sem perigo precisa antes "tornar-se bem tolo em Cristo" (as versões em inglês variam). O alvo declarado era a teologia escolástica.
No século XIX, Adolf von Harnack escreveu que o dogma, "na sua concepção e desenvolvimento, é obra do espírito grego sobre o solo do Evangelho". No século XX, Jaroslav Pelikan, em 1971, sustentou que o dogma é mais bem entendido como uma "des-helenização" da teologia anterior, e Robert Wilken propôs falar, em vez de helenização do cristianismo, em "cristianização do helenismo". Em 2006, em Regensburg, Bento XVI chamou a aproximação entre a fé bíblica e a investigação filosófica grega de "um evento de importância decisiva" e sustentou a tese de que "o patrimônio grego, criticamente purificado, forma parte integrante da fé cristã". Ele descreveu três etapas de uma "des-helenização" do cristianismo: a Reforma, a teologia liberal de Harnack e a atual (tradução minha, a partir do texto inglês do Vaticano).
O que está claro: os Pais usaram vocabulário grego, de logos a homoousios, e os autores gregos citados por Lucas e por Paulo mostram que a ponte já existia no Novo Testamento. O que se discute: se isso foi uma perda do sentido original (Harnack), uma transformação do que foi tomado (Pelikan, Wilken), ou o desdobramento de algo que a própria Bíblia já fazia, na Septuaginta e em João 1 (Bento XVI). Para Lutero, a pergunta era se a teologia escolástica ainda era bíblica. Em 1998, João Paulo II abriu a encíclica Fides et ratio com a imagem de que a fé e a razão são "como duas asas".
⚠️ Debate aberto, entre católicos, ortodoxos, protestantes e historiadores seculares. Esta obra não escolhe um lado, e as posições acima aparecem com os nomes dos que as defenderam.
VOCÊ SABIA?Curiosidades sobre a filosofia e a Bíblia
"Filosofia" e "filósofos"
No Novo Testamento, "filosofia" aparece uma só vez, em Colossenses 2.8, e "filósofos", só em Atos 17.18.
Javã e Quitim
Javã, o nome hebraico dos gregos, é filho de Jafé Gn 10.2, e Quitim, filho de Javã Gn 10.4, é o nome bíblico da cidade de Zenão, fundador do estoicismo.
Um verso de Arato em Atos
"Pois somos também sua geração" At 17.28 é, em grego, o verso de um poema sobre as estrelas.
A mesma acusação
Atenas acusou Sócrates de introduzir "novos deuses", e os filósofos chamam Paulo de "pregador de deuses estranhos" At 17.18.
O Pseudo-Dionísio
Escritos de c. 500, assinados com o nome do convertido de Atos 17.34, foram lidos por séculos como dele. Hoje se fala em "Pseudo-Dionísio".
PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos-chave
PARA FIXARO que ficou do livro
Do espanto à pergunta
A filosofia nasce na costa da Jônia, com Tales e a pergunta "do que tudo é feito?". Os hebreus tinham outra pergunta, "quem fez?", e as duas se encontram em Atos 17.
Pontes antes de Paulo
A Septuaginta, Fílon, a Sabedoria de Salomão e Eclesiastes mostram judeus lendo a Bíblia em grego muito antes de Atenas.
Sim e não
Paulo cita poetas gregos, e escreve que "o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria". Colossenses avisa contra "filosofias", e Cristo tem "todos os tesouros da sabedoria".
Pergunta em aberto
A igreja se helenizou? Harnack, Pelikan, Wilken, Bento XVI e os reformadores respondem de modos diferentes, e o debate segue.
A série "Povos e Mundos da Bíblia" segue com outros mundos que a Bíblia encontra, e cada um deles chega à Bíblia por uma porta própria. A porta dos gregos era a pergunta.
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