Mieza, na Macedônia, por volta de 343 a.C. Um bosque consagrado às ninfas, com bancos de pedra e alamedas à sombra. O rei Filipe o dá ao mestre e ao filho: Aristóteles, de uns quarenta e um anos, e Alexandre, adolescente. Plutarco, mais de quatrocentos anos depois, diz que ainda se mostravam ao visitante "os bancos de pedra e as alamedas à sombra de Aristóteles" (Alexandre 7, 3; tradução minha).
Alexandre teria uns treze anos, na conta mais usada hoje. Diógenes Laércio, citando o cronista Apolodoro, dá quinze (Vidas V, 10). O que Aristóteles ensinou ao menino é matéria de conjectura. Plutarco conta que, anos depois, já na Ásia, Alexandre soube que o mestre publicara tratados que deviam ser só de escola e lhe escreveu: "Em que superarei os outros, se os ensinamentos em que fui treinado se tornarem comuns a todos? Prefiro me destacar pelo conhecimento das melhores coisas do que pelo poder" (7, 4). É uma carta que Plutarco copia e cuja autenticidade os estudiosos discutem. O mesmo Plutarco diz que Alexandre amava Aristóteles mais do que o pai, porque o pai lhe dera a vida, e o mestre, uma vida nobre (8, 3).
Este capítulo conta o que o discípulo de Platão, que nunca foi cristão e viveu três séculos antes de Cristo, pensou, e por que um dia Tomás de Aquino o chamaria simplesmente de "o Filósofo". Quatro ideias interessam aqui: o que é uma coisa, o deus que só pensa, a vida boa e o que ele disse sobre escravos. A Bíblia toca as quatro.
24 — DE ESTAGIRA AO LICEUUma vida em quatro cidades
Aristóteles nasceu em 384 a.C. em Estagira, na costa norte do Egeu. O pai, Nicômaco, era médico e amigo do rei da Macedônia, Amintas. Aos dezessete anos Aristóteles foi para Atenas e entrou na Academia de Platão, onde ficou vinte anos, até a morte do mestre, por volta de 348-347 a.C. (Vidas V, 1-10). Depois deixou Atenas, passou por Atarneu e Mitilene e chegou à corte de Filipe, em Mieza. Voltou a Atenas em 335 a.C. e dirigiu durante treze anos uma escola num ginásio chamado Liceu. Diógenes diz que ficou conhecido como "peripatético" porque ensinava passeando, peripatos, ou, segundo outra versão, porque acompanhava Alexandre, convalescente, numa caminhada (V, 2).
Quando Alexandre morreu, em 323 a.C., Atenas se levantou contra os macedônios. Aristóteles, ligado ao rei e a Antípatro, o general que governava, foi acusado de impiedade. Segundo Diógenes, o acusador foi Eurimedonte, sacerdote dos mistérios de Elêusis. Segundo Favorino, que Diógenes cita, foi um tal Demófilo, por causa de um hino que Aristóteles escrevera em honra de Hérmias, tirano de Atarneu, seu sogro ou parente (V, 5-6). Retirou-se para Cálcis, na ilha de Eubeia, e morreu em 322 a.C., com cerca de 63 anos, de doença, segundo Apolodoro (V, 10). Demóstenes, o grande orador antimacedônio, morreu no mesmo ano.
O Aristóteles de que dispomos é um Aristóteles de aula. Os tratados que sobreviveram, a Metafísica, a Física, a Ética a Nicômaco, Sobre a alma, a Política, parecem anotações de um professor, e não obras terminadas para o público. Os diálogos que ele publicou, elogiados na Antiguidade, perderam-se, salvo fragmentos. Por isso o estilo é seco, e os leitores medievais tiveram de aprender a lê-lo com paciência.
Um livro da escola de Aristóteles voltou do Egito. A Constituição dos Atenienses, que descreve como Atenas se governava, estava perdida: não fazia parte dos manuscritos medievais. Em 1879 apareceram, no Faium, duas folhas de um códice de papiro com um trecho. Em 1890, um missionário americano comprou no Egito um rolo de papiro mais extenso, vindo de Hermópolis, e o Museu Britânico o adquiriu naquele ano. Frederic Kenyon publicou a primeira edição em janeiro de 1891. O papiro está hoje na Biblioteca Britânica (Papiro 131).
⚠️ A obra é de Aristóteles ou de um aluno do Liceu, e a autoria exata é discutida. O catálogo das obras de Aristóteles em Diógenes Laércio inclui constituições de 158 cidades (Vidas V, 27), e quase todas se perderam. Esta é a que o chão do Egito devolveu.
25 — O QUE É UMA COISA?Matéria, forma e as quatro causas
Aristóteles começou discordando do mestre. Diz que as Formas separadas de Platão não explicam nada: "dizer que as Formas são modelos, e que as outras coisas participam delas, é usar frases vazias e metáforas poéticas; pois o que é que fabrica as coisas segundo o modelo das Ideias?" (Metafísica I, 9, 991a; tradução minha). Em outro lugar, ao criticar as Formas, escreve que, sendo os dois queridos, a piedade exige honrar a verdade acima dos amigos (Ética a Nicômaco I, 6). A frase latina "amigo de Platão, mas mais amigo da verdade" é mais tardia, e não está nessas palavras em Aristóteles.
Para ele, a realidade que importa é a coisa individual, esta estátua, este homem, e cada coisa é composta de matéria e forma. A matéria é aquilo de que a coisa é feita, o bronze. A forma é aquilo que ela é, o que a faz ser estátua e não bloco. E para saber o que algo é, é preciso saber suas causas. Na Física (II, 3), ele distingue quatro: o de que algo é feito (o bronze), a forma (o desenho da estátua), o agente (o escultor) e o fim, "aquilo para o que" a coisa é feita. O exemplo dele é a saúde: "Por que ele passeia? Para ser saudável", e, tendo dito isso, achamos que demos a causa.
Releia o Fédon à luz disso. Sócrates reclamava que Anaxágoras explicava sua posição na cela pelos ossos e tendões e esquecia a razão verdadeira, a decisão. Em termos aristotélicos, os ossos seriam a causa material e a decisão, a causa final. Nenhuma das duas basta sozinha. O mundo, para ele, é cheio de causas "para quê".
A Bíblia fala de causas à sua maneira. "Toda a casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus" Hb 3.4: é o agente. "Tudo foi criado por ele e para ele" Cl 1.16: o agente e o fim. O vocabulário não é o de Aristóteles, e os autores bíblicos não o citam. Mas a pergunta, "por quem e para quê existe isto?", é a mesma, e foi nesses termos que, mais tarde, a teologia cristã passou a falar de Deus como causa.
Aristóteles dá a ἐνέργεια (enérgeia) um sentido técnico: "atualidade", em oposição a δύναμις, "potência" (Metafísica IX; dicionário de Liddell e Scott). Em geral, a palavra quer dizer "atividade, operação", já na Ética (I, 7). O Novo Testamento a usa para a ação de Deus. O dicionário de Liddell e Scott cita Efésios 1.19 sob "ação divina ou sobrenatural": "a operação da força do seu poder" Ef 1.19. E o verbo da mesma raiz aparece em "Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar" Fp 2.13, em grego ὁ ἐνεργῶν. Strong define enérgeia como "eficiência (energia)".
Nada disso quer dizer que Paulo leu Aristóteles. A palavra era de uso comum no grego do tempo, e o NT a aplica a Deus sem a filosofia por trás. Mas o vocabulário em que a teologia depois falou de Deus como "ato puro" é o de Aristóteles, e é útil ver de onde ele vem.
A mesma ideia de forma e matéria vale para o ser humano. Em Sobre a alma (II, 1), ele diz que a alma é "substância no sentido da forma de um corpo natural que tem vida em potência" (412a; tradução minha). A alma não é um passageiro do corpo, como em Platão: é o que faz do corpo um corpo vivo. Mas, num trecho curto e difícil (III, 5), ele diz que o intelecto, "quando separado, aparece como o que é e nada mais, e só isto é imortal e eterno". O que ele quis dizer com isso se discute desde a Antiguidade: se esse intelecto é de cada pessoa, ou um só para todos, ou o próprio Deus. Os comentadores gregos, árabes e latinos deram respostas diferentes, e o Capítulo 11 volta a isso.
26 — O DEUS QUE SÓ PENSAO Primeiro Motor
No livro XII da Metafísica, Aristóteles chega a Deus por um argumento. Se há movimento eterno, tem de haver algo que mova sem ser movido. E como move? "Como objeto de amor" (1072b; tradução minha): o desejado e o pensado movem sem ser movidos. O Primeiro Motor não empurra o mundo. Atrai.
E o que ele faz? Pensa. A vida dele é a melhor que conhecemos, só que sem pausa: "A atividade do pensamento é vida, e Deus é essa atividade; a atividade essencial de Deus é vida ótima e eterna. Afirmamos, pois, que Deus é um vivente eterno, ótimo" (1072b). Mas o que pensa um pensamento perfeito? Só pode pensar o que há de melhor, e o melhor é ele mesmo: "o pensamento pensa a si mesmo, se é o que há de mais excelente, e o seu pensar é pensamento de pensamento" (1074b; tradução minha).
Esse deus não cria o mundo, que para Aristóteles é eterno. No Sobre o céu (I, 10-12), ele argumenta que o céu não foi gerado e não perecerá. Também não diz, no texto da Metafísica, que ele conheça ou cuide de nós. Os intérpretes discutem se Aristóteles achava que o Primeiro Motor sabe algo além de si mesmo, e a leitura mais comum é que não.
A distância para a Bíblia é grande, e os pontos de contato, também. "Deus é um vivente eterno, ótimo" lembra a vida de Deus de que a Bíblia fala. Mas a Bíblia diz: "No princípio criou Deus o céu e a terra" Gn 1.1, e "nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados" Mt 10.29-30. O deus de Aristóteles é o objeto mais alto do pensamento. O Deus da Bíblia cria, conhece e ama o que criou. O Capítulo 11 mostra como Tomás de Aquino usou o primeiro raciocínio de Aristóteles, o do movimento, e como Lutero reagiu a ele.
Na Metafísica (VI, 1, 1026a), Aristóteles diz que há "três filosofias teóricas: matemática, física e teologia" (θεολογική), e que a mais honrosa ciência trata da mais honrosa classe de objetos, o divino. Para ele, "teologia" é parte da filosofia, o estudo das substâncias eternas e imóveis. Platão, na República, já usara a palavra no sentido de "o jeito de falar dos deuses". Quando os cristãos adotaram "teologia", herdaram um termo cujo sentido tinha sido fixado pela filosofia, e o usaram para falar do Deus que se revelou. É um empréstimo de nome, não de conteúdo.
27 — A VIDA BOAFelicidade, hábito e imortalidade
A Ética a Nicômaco pergunta qual é o fim da vida humana. A resposta é εὐδαιμονία (eudaimonía), "felicidade" ou "florescimento". Ele a define pela função própria do ser humano, a razão: "o bem humano é atividade da alma segundo a virtude", e "numa vida completa, porque uma andorinha não faz verão, nem um dia" (I, 7; tradução minha). Não é um sentimento passageiro, é uma vida inteira bem vivida.
E como se ganha a virtude? Pelo hábito. "Tornamo-nos construtores construindo e citaristas tocando a cítara; assim nos tornamos justos praticando atos justos, moderados praticando atos moderados, corajosos praticando atos corajosos" (II, 1; tradução minha). A virtude, para ele, é um meio-termo entre dois excessos: a coragem, entre a covardia e a temeridade. É uma ética de formação do caráter, e foi retomada na ética cristã, sobretudo por Tomás de Aquino.
No fim da Ética, ele diz que a vida mais feliz é a da contemplação, a atividade do intelecto, parte divina em nós. E dá um conselho que soa estranho a ouvidos cristãos: não devemos seguir os que mandam, sendo homens, pensar em coisas humanas e, sendo mortais, em coisas mortais, "mas, tanto quanto possível, tornar-nos imortais" e esforçar-nos para viver segundo o que há de melhor em nós (X, 7; tradução minha). A Bíblia fala de imortalidade como algo que se recebe: "que isto que é mortal se revista da imortalidade" 1Co 15.53. Em Aristóteles, a imortalidade é um esforço da razão. Em Paulo, é dom na ressurreição.
No livro IV da Ética, Aristóteles descreve o μεγαλόψυχος (megalópsychos), o "magnânimo", como aquele que "se julga digno de grandes coisas, sendo digno delas" (IV, 3, 1123b). É o homem de grande alma, cheio de honra. Jesus diz de si: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração" Mt 11.29. A palavra é ταπεινός (tapeinós), "humilde".
O dicionário de Liddell e Scott mostra que, em grego antigo, tapeinós tem dois sentidos morais: "mau, mesquinho, abjeto" (por exemplo, em Platão, Leis 791d) ou "bom, modesto, humilde" (por exemplo, em Platão, Leis 716a, e no Novo Testamento). Costuma-se dizer que a humildade como virtude é novidade cristã. O dicionário mostra que a história é menos simples: a palavra já podia ser elogio. O que o Novo Testamento acrescenta é o exemplo: quem se apresenta como "humilde de coração" é o próprio Jesus.
Aristóteles define a felicidade como o florescimento de quem tem virtude, tempo e amigos. Jesus abre o Sermão do Monte com outra palavra para "feliz": μακάριοι, que Strong traduz por "supremamente abençoados". "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados" Mt 5.3-4. Felizes os pobres e os que choram. Para Aristóteles, a felicidade também precisa de bens externos: amigos, recursos, filhos que vivam bem (Ética I, 8). Para Jesus, a bênção vem de quem vai receber o reino. O texto não diz que a pobreza é boa. Diz que Deus chama de bem-aventurados os que não têm o que Aristóteles contava como condições.
28 — O QUE ELE DISSE SOBRE ESCRAVOSE o que o seu testamento diz
Um livro para pastores e professores precisa dizer isto. No livro I da Política, Aristóteles defende que há seres humanos escravos por natureza: "é escravo por natureza quem é capaz de pertencer a outro, e por isso pertence, e participa da razão apenas na medida de percebê-la, mas não de possuí-la" (Política I, 5, 1254b; tradução minha). Para ele, a escravidão, nesses casos, é "útil e justa" (1255a). Reconhece que há quem diga o contrário e que existe escravidão apenas por lei, por conquista de guerra, e a admite como discutível (1255a). Mas a tese da escravidão natural é dele, e foi usada por séculos.
Em 1550-1551, num debate famoso em Valladolid, na Espanha, o humanista Juan Ginés de Sepúlveda recorreu a Aristóteles para dizer que certos povos indígenas das Américas eram sujeitos à escravidão por incapacidade de governar a si mesmos. Bartolomeu de las Casas, frade dominicano, respondeu que a definição aristotélica de bárbaro e de escravo natural não se aplicava aos indígenas, que eram plenamente capazes de razão e deviam ser levados ao cristianismo sem coerção. O mesmo texto serviu aos dois lados. O que Las Casas fez foi dizer que o texto de Aristóteles não se aplica.
E o homem Aristóteles? O testamento que Diógenes Laércio preservou (Vidas V, 11-16) tem um tom que surpreende. Ele pede que nenhum dos rapazes que o serviam seja vendido: "os meus executores podem usá-los e, quando crescerem, devem libertá-los, se o merecerem". Manda libertar Ambracis, dar-lhe quinhentas dracmas e uma criada, e libertar Tíquion quando a filha dele se casar. Pede que os ossos de Pítias, a falecida mulher, sejam enterrados com ele, "como ela mesma recomendou", e cuida de Herpílis, a companheira, para que não lhe falte nada. O homem que escreveu a teoria da escravidão natural libertou escravos no testamento. As duas coisas são verdade, e nenhuma anula a outra.
A Bíblia fala de escravidão em muitos lugares e de muitos modos, e isso é tema de outro livro. Aqui, dois pontos. Primeiro, o Novo Testamento não escreve uma teoria da escravidão natural: diz que "não há servo nem livre... todos vós sois um em Cristo Jesus" Gl 3.28, e manda os senhores tratarem os servos com justiça, "sabendo que também tendes um Senhor nos céus" Cl 4.1. Segundo, a carta a Filemom, que Paulo escreve a propósito de Onésimo, diz:
⚠️ Os estudiosos discutem o que Paulo pede em Filemom: se uma libertação explícita, se um acolhimento que a torna natural, ou apenas a recepção como irmão. O texto não diz "liberte-o". Diz o que está nos versículos 15 e 16, e cada tradição leu o resto.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Mieza
O bosque das ninfas onde Aristóteles ensinou Alexandre, segundo Plutarco, ainda mostrava os bancos de pedra no século II d.C.
Forma e matéria
Cada coisa é matéria e forma, e tem quatro causas. A Bíblia fala de Deus como agente e fim Cl 1.16, sem o vocabulário de Aristóteles.
O deus que pensa
Um vivente eterno, "pensamento de pensamento". Não cria o mundo, e o texto não diz que cuida dele.
Escravos por natureza
A tese está na Política, e o testamento o desmente em parte. Em 1550, em Valladolid, o texto serviu a Sepúlveda e a Las Casas.
Próximo capítulo: Alexandre morre em 323 a.C. e o mundo das cidades gregas acaba. A filosofia sai da cidade e vira um jeito de viver. Dois homens abrem escolas em Atenas na virada do século: Zenão de Cítio, num pórtico pintado, e Epicuro, num jardim. É a Atenas em que Paulo vai entrar.
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