Atenas, a prisão, a última tarde de Sócrates, em 399 a.C. Os amigos estão sentados ao redor dele. Faltam horas para a cicuta, e ele conta uma história da própria juventude. Um dia, diz, ouviu alguém ler um livro de Anaxágoras. Dizia que é a Mente quem arruma e causa todas as coisas. E ele se alegrou.
É a cena do Fédon de Platão (97b-99a), e ela é literária: o que Platão põe na boca de Sócrates é obra dele, e não ata. Mas a história é o melhor jeito de entrar neste capítulo. Sócrates pensou: se a Mente arruma tudo, arruma do melhor jeito. Bastaria saber o que é melhor para cada coisa para saber por que ela é como é. Pegou os livros com avidez e leu depressa, "e a minha esperança gloriosa me foi arrebatada". Anaxágoras não usava a Mente para nada. Dava como causas "ar, éter, água e muitas outras absurdidades" (Fédon 98c; tradução minha).
E Sócrates explica o que lhe parecia falso com um exemplo. É como se alguém dissesse que ele está sentado ali, na cela, porque o corpo dele tem ossos e tendões que dobram. Isso é verdade, mas deixa de fora a causa verdadeira: "os atenienses decidiram que era melhor condenar-me, e por isso eu decidi que era melhor ficar sentado aqui e suportar a pena que ordenarem" (98e). Os ossos são condição. A causa é uma decisão sobre o bem.
Este capítulo percorre os pensadores que vieram entre Heráclito e Sócrates: aqueles que fizeram a pergunta sobre o que é e o que muda, os que puseram uma Mente no começo, os que reduziram tudo a átomos e os que mudaram o assunto para o homem. É também o capítulo em que a filosofia grega esbarra em assuntos que a Bíblia já tratava à sua maneira, como o nome de Deus e a origem do mundo.
10 — O QUE É, ÉParmênides, Zenão e o impasse do movimento
Heráclito dissera que tudo muda. Parmênides, de Eleia, no sul da Itália, ativo na primeira metade do século V a.C., respondeu com um poema difícil e austero. Ele começa como uma viagem. Um jovem é levado num carro puxado por éguas, guiado pelas filhas do Sol, até as portas dos caminhos da noite e do dia. Uma deusa o recebe e lhe fala (fr. 1; tradução do poema no verbete de Parmênides da Stanford Encyclopedia of Philosophy). O que a deusa diz é uma das primeiras grandes argumentações da filosofia ocidental.
Ela mostra duas vias de pesquisa: "uma, que é e que não é possível não ser, é a via da convicção, pois acompanha a verdade; a outra, que não é e que é preciso não ser, essa, digo-te, é via inteiramente sem notícia: pois nem poderias conhecer o que não é, nem indicá-lo" (fr. 2; tradução minha). Se só o que é pode ser pensado, o que é não pode ter nascido (nasceria do nada) nem pode perecer (iria para o nada). O mundo da mudança e da multiplicidade, em que os mortais "vagam de duas cabeças" (fr. 6), é opinião. A deusa promete mostrar também esse mundo, mas avisa que é uma "ordem enganosa de versos" (fr. 8).
Os estudiosos discordam sobre o que Parmênides quis dizer. Para uns, ele foi um monista radical: só existe um ser, imóvel e único. Para outros, o poema trata de problemas de lógica sobre o que se pode dizer do "não ser". Há quem pergunte se ele considerava o mundo cotidiano ilusão ou apenas uma explicação inferior. A pergunta é aberta, e é isso que a torna fecunda: os principais filósofos que vieram depois tiveram de responder a ele.
Seu discípulo Zenão, também de Eleia, defendeu o mestre com paradoxos. Aristóteles descreve quatro, e o mais famoso é o de Aquiles: numa corrida, o mais rápido nunca alcança o mais lento, porque precisa antes chegar ao ponto de onde o outro saiu, e o outro já avançou (Física VI, 9, 239b). Diógenes Laércio diz que Zenão era filho adotivo de Parmênides e que morreu depois de conspirar contra um tirano (Vidas IX, 25-29; as versões da morte variam entre as fontes). O que os paradoxos mostram é que a pergunta sobre o movimento é mais difícil do que parece. Nenhum filósofo da época tinha uma resposta definitiva.
A pergunta sobre o ser tem um paralelo na Bíblia, no momento em que Moisés pede um nome a Deus:
O verbo hebraico, na forma ʼehyeh, é hâyâh (הָיָה), que Strong define como "existir, isto é, ser ou tornar-se, acontecer (sempre enfático, e não uma mera cópula ou auxiliar)". Quando a Septuaginta traduziu a frase para o grego, escreveu ἐγώ εἰμι ὁ ὤν, "eu sou o que é", com o particípio que os filósofos gregos usavam para "o ser", τὸ ὄν.
O que isso quer dizer é discutido. Uma tradição, que no século XX teve em Étienne Gilson um defensor famoso, vê no versículo uma afirmação do próprio Ser de Deus, a "metafísica do Êxodo". Muitos exegetas do hebraico preferem uma leitura de ação e presença: a edição Jewish Study Bible sugere "Serei o que serei", isto é, minha natureza ficará clara pelo que farei. As duas leituras estão em uso. O Capítulo 11 volta ao assunto, com Tomás de Aquino.
11 — A MENTE E AS RAÍZESEmpédocles e Anaxágoras
Depois de Parmênides, o desafio era salvar o mundo sem negar o argumento. A saída foi dizer que nada nasce nem morre de fato: o que há são misturas e separações de coisas que sempre existiram. Empédocles de Acragas, na Sicília, ensinou que os elementos são quatro, fogo, ar, água e terra. Aristóteles diz que foi ele o primeiro a afirmá-lo (Metafísica I, 4, 985a-b). O que move esses elementos são duas forças, Amor e Discórdia, que ora juntam, ora separam. Aristóteles ainda nota que o Amor é causa do bem e a Discórdia, do mal (Metafísica I, 4, 985a).
No Timeu, Platão observa que costumam tratar fogo, água, ar e terra como "princípios" e "elementos" do universo, στοιχεῖα (stoicheîa), embora, diz ele, não mereçam nem ser comparados a sílabas (Timeu 48b). A palavra é a mesma que Paulo usa em Colossenses 2.8. O Capítulo 10 retoma essa coincidência.
Anaxágoras de Clazômenas foi mais longe. Ele vinha da Jônia, ficou cerca de trinta anos em Atenas, segundo Diógenes Laércio, e foi amigo de Péricles. Seu livro começava, diz Diógenes, com uma frase que ficou: "Todas as coisas estavam juntas; então veio a Mente e as pôs em ordem" (Vidas II, 6; tradução minha). Essa Mente (noûs) é a novidade. Aristóteles aplaude: quando alguém disse que há mente na natureza, como nos animais, "pareceu um homem sensato diante das afirmações ao acaso dos anteriores" (Metafísica I, 4, 984b). Mas Aristóteles também reclama, como Sócrates, que Anaxágoras usava a Mente como um recurso de emergência, "quando não sabe explicar uma consequência" (Metafísica I, 4, 985a).
Anaxágoras ensinava que o Sol era uma massa de ferro em brasa, maior que o Peloponeso, e que a Lua tinha casas e colinas. Isso lhe custou caro. Diógenes Laércio reúne várias versões do processo. Numa, o acusador é Cléon, por impiedade, e Péricles o defende; ele é multado em cinco talentos e banido. Noutra, o acusador é Tucídides, por impiedade e "medismo", e a pena é de morte, à revelia. Numa terceira, ele é preso e Péricles o salva (Vidas II, 12-14). As fontes discordam entre si. Em todas, ele é processado em Atenas, e acaba em Lâmpsaco, onde morreu.
A palavra grega para "mente" é νοῦς (noûs). Strong a define como "o intelecto, isto é, mente (divina ou humana; no pensamento, no sentimento ou na vontade)". O Novo Testamento a usa em passagens que cabem neste livro: "Mas nós temos a mente de Cristo" 1Co 2.16, e "sede transformados pela renovação do vosso entendimento" Rm 12.2. Para os gregos, o noûs era a parte mais alta do homem e, em Anaxágoras, o princípio de ordem do cosmos. Para Paulo, é algo que Deus renova. Palavra igual, antropologia diferente: não é a mesma coisa pensar que a mente é divina por natureza e pensar que ela precisa ser transformada.
Sócrates queria saber por que as coisas são como são, e a resposta que esperava era "porque é o melhor". O Gênesis diz que, a cada passo da criação, "viu Deus que era bom" Gn 1.10, e no fim "viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom" Gn 1.31. O sábio de Provérbios diz que "o Senhor, com sabedoria fundou a terra" Pv 3.19. Há uma diferença: Sócrates procurava uma razão e Anaxágoras não a deu. O texto bíblico não apresenta a bondade como conclusão de um argumento. Apresenta como o olhar de quem fez.
12 — ÁTOMOS E VAZIOLeucipo, Demócrito e "nada vem do nada"
Enquanto Anaxágoras punha uma Mente a ordenar o mundo, outros o explicaram sem mente alguma. Leucipo, de pátria incerta, e seu discípulo Demócrito, de Abdera, na Trácia, ensinaram que os elementos são o Cheio e o Vazio, que Aristóteles chama de "o que é" e "o que não é" (Metafísica I, 4, 985b). O cheio são os átomos, em número infinito, e ἄτομος significa "indivisível". Eles se distinguem por forma, ordem e posição. Aristóteles dá um exemplo de escola: A difere de N pela forma, AN de NA pela ordem, Z de N pela posição. O mundo é como um texto escrito com letras que só variam de arranjo.
O resumo que Diógenes Laércio dá das doutrinas de Demócrito é impressionante (Vidas IX, 44-45). Átomos e vazio são o princípio do universo; os mundos são infinitos, nascem e perecem; nada vem do nada nem se reduz a nada; tudo acontece por necessidade; a alma e a mente são a mesma coisa. E o bem maior é a "alegria serena" (εὐθυμία, euthymía), um estado em que a alma vive tranquila, "sem ser perturbada por medo, superstição ou outra paixão". Esse é um ideal que Epicuro retomará, no Capítulo 7.
Repare em "nada vem do nada". Para o grego, a regra era evidente: só se faz algo de algo. A Bíblia fala de um Deus que "chama as coisas que não são como se já fossem" Rm 4.17 e diz que "aquilo que se vê não foi feito do que é aparente" Hb 11.3. A doutrina de que Deus criou do nada (creatio ex nihilo) foi formulada com clareza por autores cristãos do século II. A questão é o quanto ela já está no texto bíblico, e os estudiosos se dividem.
Uma posição, defendida por Gerhard May em Schöpfung aus dem Nichts (1978; edição inglesa, 1994), diz que a doutrina é um desenvolvimento pós-bíblico, formulado no século II em debate com a filosofia platônica e os gnósticos. Outra, defendida por Paul Copan e William Lane Craig em Creation Out of Nothing (2004), diz que o conceito já estava em textos judaicos e cristãos dos dois últimos séculos antes de Cristo e dos dois primeiros depois, mesmo sem a fórmula. O texto mais citado em favor dessa segunda é 2 Macabeus 7.28, que católicos e ortodoxos aceitam como Escritura e protestantes não.
⚠️ É debate aberto entre os estudiosos. As grandes tradições católica, ortodoxa e protestante ensinam hoje a criação do nada, e não é isso que está em disputa. O que se discute é de onde vem a fórmula: do próprio texto, ou do diálogo com a filosofia grega.
Em 15 de janeiro de 1962, arqueólogos encontraram em Dérveni, perto de Salônica, no norte da Grécia, os restos carbonizados de um rolo de papiro, num túmulo de nobre. Foi salvo do tempo pelo fogo da pira funerária, que o carbonizou sem destruir. É o chamado papiro de Dérveni, de cerca de 340 a.C., e é considerado o manuscrito mais antigo da Europa. Contém um comentário a um poema órfico sobre o nascimento dos deuses. O autor tenta mostrar que o poema não diz o que parece dizer, e o lê como alegoria. Uma das colunas citaria Heráclito. O papiro está no Museu Arqueológico de Salônica e só foi publicado por inteiro em 2006.
⚠️ O papiro mostra que, na Macedônia do século IV a.C., havia quem lesse os poemas de mistérios com as ferramentas da filosofia. Não prova que Demócrito, Anaxágoras ou Heráclito conheciam esse texto, e a reconstrução de várias colunas é muito discutida. A Macedônia é a mesma terra de Filipos e Tessalônica, onde Paulo pregará.
13 — O HOMEM, MEDIDA DE TODAS AS COISASOs sofistas e o preço da sabedoria
Na segunda metade do século V a.C. aparece em Atenas um novo tipo de mestre. Chama-se sophistés, "sábio", e viaja de cidade em cidade ensinando os jovens a falar e a argumentar, por dinheiro. Platão os cita pelo nome na Apologia: Górgias de Leontinos, Pródico de Ceos e Hípias de Élis, que "podem ir a qualquer cidade e persuadir os jovens" a deixar de conviver de graça com os seus concidadãos e a pagar para estar com eles (Apologia 19e-20a). Sócrates conta que perguntou a um rico ateniense, Cálias, que gastara mais com sofistas do que todos os outros juntos, quanto custava um mestre da "excelência de homem e de cidadão". A resposta: Eveno de Paros, cinco minas (20a-b).
O mais famoso foi Protágoras, de Abdera, que Diógenes Laércio diz ter sido discípulo de Demócrito, o primeiro a cobrar dos alunos (cem minas, segundo ele) e a ensinar que em toda questão há dois lados opostos (Vidas IX, 50-52). Platão cita a frase pela qual ele ficou conhecido: "o homem é a medida de todas as coisas, das que são, que são, e das que não são, que não são" (Teeteto 152a; tradução minha). Sócrates a explica: as coisas são, para mim, como me parecem, e para você, como lhe parecem. Para Protágoras, não há verdade acima da perspectiva humana.
A segunda frase que Diógenes lhe atribui é a mais comentada: "Quanto aos deuses, não posso saber se existem ou se não existem. Muitas coisas impedem de saber: a obscuridade do assunto e a brevidade da vida humana" (Vidas IX, 51; tradução minha). Diógenes acrescenta que, por isso, os atenienses o baniram e queimaram seus livros na praça. Outros autores falam de um julgamento, e a maioria dos relatos é bem posterior ao fato.
⚠️ A imagem dos sofistas como charlatães vem de Platão e de Aristóteles, que os combatiam. Muitos historiadores modernos acham que ela é injusta: eles ensinavam uma habilidade útil numa cidade onde o cidadão falava por si no tribunal e na assembleia, e alguns tinham ideias sérias sobre linguagem, leis e costumes. O capítulo apresenta os dois lados porque as fontes antigas são, em grande parte, de adversários.
Imagine Atenas no tempo de Péricles. Não existiam advogados nem promotores: o cidadão acusado falava por si diante de um júri de centenas de cidadãos, e a sorte de um processo dependia de quem falava melhor. Na assembleia, também. Um pai rico que queria ver o filho brilhar na cidade pagava um mestre de retórica. É nesse mercado que os sofistas trabalham. Sócrates, que andava pela ágora fazendo perguntas de graça, diz na Apologia que não cobra de ninguém e que a sua pobreza é a testemunha (Apologia 19d-e e 31c).
Na Atenas de Protágoras a sabedoria tinha tabela: cinco minas, cem minas. Na Bíblia, o convite é outro: "os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço" Is 55.1. E Jesus manda os discípulos: "de graça recebestes, de graça dai" Mt 10.8. Convém ler as duas coisas com cuidado: o texto não diz que ensinar não possa ser sustentado Mt 10.10. Diz que a graça não se vende.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Parmênides: o que é, é
Se só o que é pode ser pensado, nada nasce nem morre. O mundo da mudança é "opinião". O Êxodo responde à pergunta sobre o nome de Deus com um verbo, hâyâh Êx 3.14, e a Septuaginta o traduz com "o que é".
Anaxágoras e a Mente
"Então veio a Mente e as pôs em ordem." Sócrates se encantou e se decepcionou: a Mente não explicava por que o melhor é melhor.
Demócrito e os átomos
Átomos e vazio, sem Mente nem propósito. O bem é a alegria serena, sem medo nem superstição. Epicuro retomará esse ideal.
Os sofistas
Mestres de retórica pagos, para quem "o homem é a medida". Platão os combateu. Os historiadores modernos discutem se foram tão ruins quanto ele diz.
Próximo capítulo: Sócrates. Ele passou a vida fazendo perguntas na ágora de Atenas e foi condenado, em 399 a.C., por não reconhecer os deuses da cidade e por introduzir divindades novas. Quase 450 anos depois, na mesma Atenas, dirão de Paulo que "parece que é pregador de deuses estranhos" At 17.18.
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