A Filosofia GregaCapítulo 10 de 11 ⤓ PDF
Fotografia de um códice grego antigo aberto sobre um suporte, com colunas de letras maiúsculas em tinta marrom sobre pergaminho claro; na página da direita, a primeira linha de um novo texto começa com uma letra inicial maior
CAPÍTULO 10 DE 11

O Verbo e a sabedoria do mundo

João 1, Paulo em Corinto e o aviso de Colossenses

Em Corinto, Paulo diz que os gregos buscam sabedoria e que a cruz lhes parece loucura. João abre o evangelho com o Verbo, e Colossenses avisa contra as filosofias. Os três textos mexem com os gregos de modos diferentes, e pedem cuidado antes de se tirar conclusões.

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Corinto, depois de Atenas. Paulo chega e procura trabalho. Encontra um casal de judeus vindos de Roma, Áquila e Priscila, que têm o mesmo ofício dele, e fica na casa deles.

"E depois disto partiu Paulo de Atenas, e chegou a Corinto. E, achando um certo judeu por nome Áqüila, natural do Ponto, que havia pouco tinha vindo da Itália, e Priscila, sua mulher (pois Cláudio tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma), ajuntou-se com eles, E, como era do mesmo ofício, ficou com eles, e trabalhava; pois tinham por ofício fazer tendas." Atos 18.1-3

Corinto era uma cidade de comércio, refundada por Roma como colônia depois de ter sido destruída em 146 a.C. Paulo ficou ali "um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus" At 18.11, e foi para essa igreja que escreveu as páginas mais diretas da Bíblia sobre a sabedoria humana. Este capítulo reúne três textos que mexem com a filosofia grega: Paulo em Coríntios, o prólogo do Evangelho de João e o aviso de Colossenses. Cada um diz "sim" e "não" a seu modo, e os três pedem cuidado antes de se tirar conclusões.

42 — A LOUCURA DA CRUZO que os gregos buscam

Paulo escreve a essa igreja, e uma frase resume o problema:

"Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus." 1 Coríntios 1.22-24

"Os gregos buscam sabedoria": é a definição de filo-sofia que vimos no capítulo 1. A palavra de Paulo para "sabedoria" é σοφία (sophía), que Strong define como "sabedoria (superior ou inferior, mundana ou espiritual)", e "loucura" é μωρία, da família de μωρός, "embotado, estúpido, absurdo" (Strong). Paulo diz que um Messias crucificado soa, aos ouvidos gregos, como absurdo.

Ele apoia o argumento em textos de Israel: "Destruirei a sabedoria dos sábios" 1Co 1.19, que cita Isaías Is 29.14, e "Ele apanha os sábios na sua própria astúcia" 1Co 3.19, que cita Jó Jó 5.13. Mas não é uma crítica da inteligência: "Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo" 1Co 2.6. Paulo contrapõe duas sabedorias, e não sabedoria e ignorância.

De que "sabedoria" se trata em Corinto? Duas hipóteses são citadas. Uma vê, atrás da igreja dividida em partidos de Paulo, Apolo e Cefas 1Co 1.12, o modelo dos sofistas, que o capítulo 3 apresentou: mestres de retórica a quem os alunos se apegavam. Bruce Winter defendeu essa leitura em 1997, e ela dá sentido ao "não fui com sublimidade de palavras" 1Co 2.1. Outra lembra que Apolo, que depois ensinou em Corinto 1Co 3.6, era "natural de Alexandria, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras" At 18.24, e liga a sabedoria coríntia ao judaísmo alexandrino do capítulo 8. Uma não exclui a outra, e o texto de Paulo não dá nomes.

📜 Posições em debate

O que está claro: Paulo coloca a cruz contra uma "sabedoria" que os coríntios admiravam. O que se discute: se essa sabedoria era retórica grega, filosofia, ensino judaico helenizado ou uma mistura. E há uma segunda pergunta, que atravessa este capítulo: quando Paulo diz que "o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria" 1Co 1.21, e em Atenas diz que Deus quis que os povos "tateando, o pudessem achar" At 17.27, são afirmações que se completam, ou que puxam em direções opostas? Há quem veja tensão, e há quem veja dois lados do mesmo argumento.

⚠️ Debate aberto entre comentaristas de todas as tradições.

43 — NO PRINCÍPIO ERA O VERBOJoão 1 e a palavra que Heráclito já usava

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens." João 1.1-4

João abre o seu evangelho com as mesmas duas palavras gregas que abrem Gênesis na Septuaginta, ἐν ἀρχῇ (capítulo 2), e põe como sujeito ὁ λόγος, "o Verbo". No capítulo 2, vimos o logos de Heráclito, e no capítulo 7 o dos estóicos: razão que ordena o mundo. No capítulo 8, o de Fílon: o "primogênito" e o "segundo Deus". João usa a palavra sem defini-la. Strong anota que, "com o artigo em João", ela é "a Expressão Divina (isto é, Cristo)".

🔎 A palavra original

O hebraico דָּבָר (dâbâr) é, em Strong, "palavra; por implicação, assunto ou coisa". A mesma palavra serve para o que se diz e para o que acontece. A criação começa com Deus dizendo, "E disse Deus: Haja luz; e houve luz" Gn 1.3. O salmo diz: "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus" Sl 33.6, e Isaías, que a palavra de Deus "não voltará para mim vazia" Is 55.11. O grego λόγος é o termo que a Septuaginta costuma usar para traduzir dâbâr, e trazia sentidos filosóficos que o hebraico não tinha, como razão e ordem. João escreve em grego, e a palavra que escolhe carrega os dois mundos.

Há também uma sutileza gramatical. João escreve θεὸς ἦν ὁ λόγος, "Deus era o Verbo", com theós sem artigo, enquanto "com Deus" leva o artigo, πρὸς τὸν θεόν. Lembre o jogo de Fílon com ho theós e theós (capítulo 8). Os gramáticos discutem o que a ausência do artigo significa: E. C. Colwell (1933) tratou da definição, Philip Harner (1973) sustentou que a força é qualitativa, e Daniel Wallace a segue. Entre as traduções, a ACF diz "o Verbo era Deus", a New English Bible diz "o que Deus era, o Verbo era", e a Nova Tradução do Mundo, das Testemunhas de Jeová, diz "o Verbo era um deus". Os estudiosos em geral rejeitam a última, mas divergem sobre se o melhor rótulo para o grego é "qualitativo" ou "definido".

De onde João tirou o logos? Cinco candidatos são citados: a Palavra de Deus hebraica (acima); a Sabedoria personificada, que, em Provérbios 8, está com Deus na criação, e, na Sabedoria de Salomão, é a oração a um Deus "que fizeste todas as coisas com a tua palavra e ordenaste o homem com a tua sabedoria" (Sabedoria 9.1-2; tradução minha, a partir da versão inglesa antiga); o Memra, "palavra" em aramaico, que os targuns, traduções aramaicas da Bíblia, usam ao falar de Deus; o logos de Fílon; e o dos estóicos.

📜 Posições em debate

Rudolf Bultmann via, no prólogo, um hino de fundo gnóstico, anterior ao evangelho. C. H. Dodd, em 1953, deu peso a Fílon e a outros textos helenísticos, sem excluir o fundo judaico. J. Rendel Harris, em 1917, levou o prólogo à literatura da Sabedoria. Daniel Boyarin, em 2001, defendeu que o logos de João tem raízes judaicas, na linha do Memra. Cada um destaca um fio, e o texto de João não cita nenhuma fonte.

⚠️ Debate acadêmico aberto: não há consenso sobre a fonte, e há bons estudiosos de todas as tradições em cada posição.

O que não tem paralelo nesses textos, segundo os que os comparam, é o versículo 14: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" Jo 1.14. A diferença apontada é esta: o logos de Fílon é intermediário entre Deus e o mundo, e o de João "se fez carne". "Carne" é σάρξ (sárx), que Strong glosa como "o corpo, a natureza humana com as suas fraquezas".

🔎 A palavra original

"Habitou" é ἐσκήνωσεν (eskḗnōsen), de σκηνόω, "armar tenda", que Strong lembra ser o que "Deus fez no Tabernáculo de antigamente". Na Sabedoria personificada de Sirácida, ela busca onde repousar, e o Criador diz: "Que a tua habitação seja em Jacó" (Sirácida 24.8; tradução minha, a partir da versão inglesa antiga). O grego de Sirácida usa κατασκήνωσον, da mesma família. Muitos veem aí um eco, e outros o tratam como um motivo comum, sem empréstimo direto.

📜 Segundo a tradição

Irineu, bispo no fim do século II, escreve que João, o discípulo do Senhor, "publicou ele mesmo um Evangelho durante sua residência em Éfeso, na Ásia" (Contra as heresias III, 1, 1; tradução minha, a partir da série Ante-Nicene Fathers). Éfeso é a cidade de Heráclito. Isso é tradição, e a autoria do evangelho é outra pergunta debatida. Não há prova de que João tenha lido Heráclito, e o fato de a cidade ser a mesma não prova nada.

🌱 Semente de sermão

No Timeu, Platão diz que achar o Pai e Fazedor do universo é difícil, e que, tendo-o achado, é impossível anunciá-lo a todos (28c; capítulo 5). João termina o prólogo assim: "Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou" Jo 1.18. "Revelou" é ἐξηγήσατο (exēgḗsato), de ἐξηγέομαι, "expor em voz alta, desdobrar" (Strong), e daí vem a nossa palavra "exegese". O filósofo diz que não se pode anunciá-lo a todos. O evangelista diz que o Filho o expôs.

44 — A SABEDORIA "CRIADA"Provérbios 8 e a primeira grande briga

Em Provérbios 8, a Sabedoria fala: "O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos" Pv 8.22, e depois, "Então eu estava com ele, e era seu arquiteto" Pv 8.30. Paulo chama Cristo de "sabedoria de Deus" 1Co 1.24, e escreve que ele é "o primogênito de toda a criação" Cl 1.15, e que "nele foram criadas todas as coisas" Cl 1.16. Os cristãos antigos ligaram essas frases a Provérbios 8, e isso trouxe um problema de tradução.

🔎 A palavra original

O hebraico de "possuiu" é קָנָה (qânâh), que Strong define como "erguer, isto é, criar; por extensão, adquirir, especialmente por compra; por implicação, possuir". A Septuaginta pôs ἔκτισέν με, "criou-me". Segundo comentaristas, Áquila, Símaco e Teodócio, outros tradutores judeus do grego, preferiram "possuiu" (ἐκτήσατο). Quando, no século IV, Ário e os seus ensinavam que o Filho foi criado, tinham em mãos o verbo da Septuaginta, e os defensores de Niceia tiveram de responder. O capítulo 11 volta a essa disputa.

Sirácida 24 usa o mesmo molde: a Sabedoria diz "Saí da boca do Altíssimo" (24.3) e "Ele me criou desde o princípio, antes do mundo, e eu nunca falharei" (24.9; tradução minha, a partir da versão inglesa antiga), e o autor acrescenta que "tudo isto é o livro da aliança do Deus Altíssimo, a lei que Moisés ordenou" (24.23). Para esse autor judeu, a Sabedoria personificada se identifica com a Torá. Os cristãos passaram a ver nela uma figura de Cristo, e o capítulo 11 mostra como a igreja discutiu isso. O texto é uma ponte entre as duas tradições, e um ponto em que elas se separam.

45 — "CUIDADO COM A FILOSOFIA"O aviso de Colossenses

O único lugar em que a palavra "filosofia" aparece em todo o Novo Testamento é um aviso. Colossos ficava no vale do rio Lico, na região que hoje é a Turquia, perto de Laodiceia e Hierápolis. Epafras, que Paulo diz ser "dos vossos", tem "grande zelo por vós, e pelos que estão em Laodicéia, e pelos que estão em Hierápolis" Cl 4.12-13.

"Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade;" Colossenses 2.8-9
🔎 A palavra original

"Filosofias" traduz φιλοσοφίας (philosophías), "amor à sabedoria", que Strong define com uma glosa própria: "filosofia, isto é, especialmente, sofisma judaico". A glosa mostra como um dicionarista do século XIX lia o contexto: o que Paulo critica, em Colossenses, mistura elementos judaicos (festas, luas novas, sábados Cl 2.16), culto de anjos Cl 2.18 e ascetismo Cl 2.21. Para muitos estudiosos, o quadro tem pouco de aula sobre Platão, embora a palavra seja grega. "Rudimentos" é στοιχεῖα (stoicheîa), em Strong "algo ordenado em série, um componente básico, uma proposição, um princípio". É a palavra que Platão usa, no Timeu 48b, para os "elementos" do universo (capítulo 3).

📜 Posições em debate

Três leituras de "rudimentos do mundo" circulam. Uma vê os elementos físicos do cosmo, como terra, ar, fogo e água. Outra, forças ou espíritos cósmicos associados a esses elementos. Uma terceira, ensinos elementares, como o "abecê" de uma disciplina. A mesma expressão está em Gálatas: "primeiros rudimentos do mundo" Gl 4.3, e, a quem antes "servíeis aos que por natureza não são deuses" Gl 4.8, Paulo pergunta como podem voltar "a esses rudimentos fracos e pobres" Gl 4.9. Alguns estudiosos notam que as leituras não se excluem. A carta é atribuída a Paulo pela tradição, e parte da pesquisa discute a autoria.

⚠️ Debate acadêmico aberto: o aviso é contra "filosofias" que fazem presa dos crentes "segundo a tradição dos homens". Não diz que todo pensamento filosófico seja um erro.

O contexto limita o aviso. O mesmo capítulo diz, de Cristo, que "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência" Cl 2.3. Quem usa o verso 8 contra toda filosofia precisa explicar o verso 3.

46 — O QUE A RAZÃO PODE SABERRomanos 1 e a "teologia natural"

"Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;" Romanos 1.19-20

É o texto que fica no centro de uma das maiores discussões cristãs: se a razão, olhando a criação, chega a conhecer Deus. Paulo diz que "se entendem" e "se vêem", e conclui que os homens ficam "inescusáveis". Em Romanos 2, acrescenta que os gentios, "não tendo eles lei, para si mesmos são lei", e mostram "a obra da lei escrita em seus corações" Rm 2.14-15, em que a "consciência" lembra o que vimos no capítulo 7. E logo depois escreve que "tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus" Rm 1.21: o conhecimento existiu, e não foi bem usado.

📜 Posições em debate

A Igreja Católica, no Concílio Vaticano I, ensinou que Deus pode ser conhecido com certeza, a partir das coisas criadas, pela luz natural da razão humana, e cita Romanos 1.20 (constituição Dei Filius, 1870, cap. 2). Na tradição reformada, João Calvino fala de um "senso de divindade" que todos têm, e que o pecado não apaga, mas corrompe. Karl Barth, em 1934, respondeu a Emil Brunner com o texto Nein!, recusando uma "teologia natural" como ponto de partida. Eles divergiam sobre o que sobrevive do conhecimento natural de Deus depois do pecado.

⚠️ Debate aberto, e as posições acima são de tradições diferentes. Esta obra não escolhe entre elas.

Em Atos 14.17 e em Atos 17, Paulo fala de um Deus que não se deixou sem testemunho. Em Romanos 1, de um conhecimento que existe e não foi bem usado. Em 1 Coríntios, de uma sabedoria que não levou o mundo a conhecer a Deus. Cada texto pede o seu contexto: a quem Paulo fala, e para quê.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⛺

Palavra e tenda

"Habitou entre nós" em João 1.14 vem de "armar tenda". Sirácida 24.8 usa um verbo da mesma família para a Sabedoria que busca onde habitar.

🔤

Verbo, logos, dâbâr

O mesmo termo que Heráclito e os estóicos usavam traduz o dâbâr hebraico. As fontes de João 1 são debatidas.

⚖️

Dois avisos, um contexto

Paulo opõe duas sabedorias em Coríntios e avisa contra "filosofias" em Colossos, mas diz também que em Cristo estão "todos os tesouros da sabedoria e da ciência".

🧭

Teologia natural

Romanos 1.19-20 está no centro de um debate entre católicos, reformados e Barth sobre o que a razão pode saber de Deus.

Próximo capítulo: os Pais da igreja começam a falar grego de verdade. Justino, Clemente, Orígenes, Agostinho e Tomás decidem o que fazer com Platão e Aristóteles, e uma pergunta, "a igreja se helenizou?", fica em aberto até hoje.

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