Corinto, depois de Atenas. Paulo chega e procura trabalho. Encontra um casal de judeus vindos de Roma, Áquila e Priscila, que têm o mesmo ofício dele, e fica na casa deles.
Corinto era uma cidade de comércio, refundada por Roma como colônia depois de ter sido destruída em 146 a.C. Paulo ficou ali "um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus" At 18.11, e foi para essa igreja que escreveu as páginas mais diretas da Bíblia sobre a sabedoria humana. Este capítulo reúne três textos que mexem com a filosofia grega: Paulo em Coríntios, o prólogo do Evangelho de João e o aviso de Colossenses. Cada um diz "sim" e "não" a seu modo, e os três pedem cuidado antes de se tirar conclusões.
42 — A LOUCURA DA CRUZO que os gregos buscam
Paulo escreve a essa igreja, e uma frase resume o problema:
"Os gregos buscam sabedoria": é a definição de filo-sofia que vimos no capítulo 1. A palavra de Paulo para "sabedoria" é σοφία (sophía), que Strong define como "sabedoria (superior ou inferior, mundana ou espiritual)", e "loucura" é μωρία, da família de μωρός, "embotado, estúpido, absurdo" (Strong). Paulo diz que um Messias crucificado soa, aos ouvidos gregos, como absurdo.
Ele apoia o argumento em textos de Israel: "Destruirei a sabedoria dos sábios" 1Co 1.19, que cita Isaías Is 29.14, e "Ele apanha os sábios na sua própria astúcia" 1Co 3.19, que cita Jó Jó 5.13. Mas não é uma crítica da inteligência: "Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo" 1Co 2.6. Paulo contrapõe duas sabedorias, e não sabedoria e ignorância.
De que "sabedoria" se trata em Corinto? Duas hipóteses são citadas. Uma vê, atrás da igreja dividida em partidos de Paulo, Apolo e Cefas 1Co 1.12, o modelo dos sofistas, que o capítulo 3 apresentou: mestres de retórica a quem os alunos se apegavam. Bruce Winter defendeu essa leitura em 1997, e ela dá sentido ao "não fui com sublimidade de palavras" 1Co 2.1. Outra lembra que Apolo, que depois ensinou em Corinto 1Co 3.6, era "natural de Alexandria, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras" At 18.24, e liga a sabedoria coríntia ao judaísmo alexandrino do capítulo 8. Uma não exclui a outra, e o texto de Paulo não dá nomes.
O que está claro: Paulo coloca a cruz contra uma "sabedoria" que os coríntios admiravam. O que se discute: se essa sabedoria era retórica grega, filosofia, ensino judaico helenizado ou uma mistura. E há uma segunda pergunta, que atravessa este capítulo: quando Paulo diz que "o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria" 1Co 1.21, e em Atenas diz que Deus quis que os povos "tateando, o pudessem achar" At 17.27, são afirmações que se completam, ou que puxam em direções opostas? Há quem veja tensão, e há quem veja dois lados do mesmo argumento.
⚠️ Debate aberto entre comentaristas de todas as tradições.
43 — NO PRINCÍPIO ERA O VERBOJoão 1 e a palavra que Heráclito já usava
João abre o seu evangelho com as mesmas duas palavras gregas que abrem Gênesis na Septuaginta, ἐν ἀρχῇ (capítulo 2), e põe como sujeito ὁ λόγος, "o Verbo". No capítulo 2, vimos o logos de Heráclito, e no capítulo 7 o dos estóicos: razão que ordena o mundo. No capítulo 8, o de Fílon: o "primogênito" e o "segundo Deus". João usa a palavra sem defini-la. Strong anota que, "com o artigo em João", ela é "a Expressão Divina (isto é, Cristo)".
O hebraico דָּבָר (dâbâr) é, em Strong, "palavra; por implicação, assunto ou coisa". A mesma palavra serve para o que se diz e para o que acontece. A criação começa com Deus dizendo, "E disse Deus: Haja luz; e houve luz" Gn 1.3. O salmo diz: "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus" Sl 33.6, e Isaías, que a palavra de Deus "não voltará para mim vazia" Is 55.11. O grego λόγος é o termo que a Septuaginta costuma usar para traduzir dâbâr, e trazia sentidos filosóficos que o hebraico não tinha, como razão e ordem. João escreve em grego, e a palavra que escolhe carrega os dois mundos.
Há também uma sutileza gramatical. João escreve θεὸς ἦν ὁ λόγος, "Deus era o Verbo", com theós sem artigo, enquanto "com Deus" leva o artigo, πρὸς τὸν θεόν. Lembre o jogo de Fílon com ho theós e theós (capítulo 8). Os gramáticos discutem o que a ausência do artigo significa: E. C. Colwell (1933) tratou da definição, Philip Harner (1973) sustentou que a força é qualitativa, e Daniel Wallace a segue. Entre as traduções, a ACF diz "o Verbo era Deus", a New English Bible diz "o que Deus era, o Verbo era", e a Nova Tradução do Mundo, das Testemunhas de Jeová, diz "o Verbo era um deus". Os estudiosos em geral rejeitam a última, mas divergem sobre se o melhor rótulo para o grego é "qualitativo" ou "definido".
De onde João tirou o logos? Cinco candidatos são citados: a Palavra de Deus hebraica (acima); a Sabedoria personificada, que, em Provérbios 8, está com Deus na criação, e, na Sabedoria de Salomão, é a oração a um Deus "que fizeste todas as coisas com a tua palavra e ordenaste o homem com a tua sabedoria" (Sabedoria 9.1-2; tradução minha, a partir da versão inglesa antiga); o Memra, "palavra" em aramaico, que os targuns, traduções aramaicas da Bíblia, usam ao falar de Deus; o logos de Fílon; e o dos estóicos.
Rudolf Bultmann via, no prólogo, um hino de fundo gnóstico, anterior ao evangelho. C. H. Dodd, em 1953, deu peso a Fílon e a outros textos helenísticos, sem excluir o fundo judaico. J. Rendel Harris, em 1917, levou o prólogo à literatura da Sabedoria. Daniel Boyarin, em 2001, defendeu que o logos de João tem raízes judaicas, na linha do Memra. Cada um destaca um fio, e o texto de João não cita nenhuma fonte.
⚠️ Debate acadêmico aberto: não há consenso sobre a fonte, e há bons estudiosos de todas as tradições em cada posição.
O que não tem paralelo nesses textos, segundo os que os comparam, é o versículo 14: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" Jo 1.14. A diferença apontada é esta: o logos de Fílon é intermediário entre Deus e o mundo, e o de João "se fez carne". "Carne" é σάρξ (sárx), que Strong glosa como "o corpo, a natureza humana com as suas fraquezas".
"Habitou" é ἐσκήνωσεν (eskḗnōsen), de σκηνόω, "armar tenda", que Strong lembra ser o que "Deus fez no Tabernáculo de antigamente". Na Sabedoria personificada de Sirácida, ela busca onde repousar, e o Criador diz: "Que a tua habitação seja em Jacó" (Sirácida 24.8; tradução minha, a partir da versão inglesa antiga). O grego de Sirácida usa κατασκήνωσον, da mesma família. Muitos veem aí um eco, e outros o tratam como um motivo comum, sem empréstimo direto.
Irineu, bispo no fim do século II, escreve que João, o discípulo do Senhor, "publicou ele mesmo um Evangelho durante sua residência em Éfeso, na Ásia" (Contra as heresias III, 1, 1; tradução minha, a partir da série Ante-Nicene Fathers). Éfeso é a cidade de Heráclito. Isso é tradição, e a autoria do evangelho é outra pergunta debatida. Não há prova de que João tenha lido Heráclito, e o fato de a cidade ser a mesma não prova nada.
No Timeu, Platão diz que achar o Pai e Fazedor do universo é difícil, e que, tendo-o achado, é impossível anunciá-lo a todos (28c; capítulo 5). João termina o prólogo assim: "Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou" Jo 1.18. "Revelou" é ἐξηγήσατο (exēgḗsato), de ἐξηγέομαι, "expor em voz alta, desdobrar" (Strong), e daí vem a nossa palavra "exegese". O filósofo diz que não se pode anunciá-lo a todos. O evangelista diz que o Filho o expôs.
44 — A SABEDORIA "CRIADA"Provérbios 8 e a primeira grande briga
Em Provérbios 8, a Sabedoria fala: "O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos" Pv 8.22, e depois, "Então eu estava com ele, e era seu arquiteto" Pv 8.30. Paulo chama Cristo de "sabedoria de Deus" 1Co 1.24, e escreve que ele é "o primogênito de toda a criação" Cl 1.15, e que "nele foram criadas todas as coisas" Cl 1.16. Os cristãos antigos ligaram essas frases a Provérbios 8, e isso trouxe um problema de tradução.
O hebraico de "possuiu" é קָנָה (qânâh), que Strong define como "erguer, isto é, criar; por extensão, adquirir, especialmente por compra; por implicação, possuir". A Septuaginta pôs ἔκτισέν με, "criou-me". Segundo comentaristas, Áquila, Símaco e Teodócio, outros tradutores judeus do grego, preferiram "possuiu" (ἐκτήσατο). Quando, no século IV, Ário e os seus ensinavam que o Filho foi criado, tinham em mãos o verbo da Septuaginta, e os defensores de Niceia tiveram de responder. O capítulo 11 volta a essa disputa.
Sirácida 24 usa o mesmo molde: a Sabedoria diz "Saí da boca do Altíssimo" (24.3) e "Ele me criou desde o princípio, antes do mundo, e eu nunca falharei" (24.9; tradução minha, a partir da versão inglesa antiga), e o autor acrescenta que "tudo isto é o livro da aliança do Deus Altíssimo, a lei que Moisés ordenou" (24.23). Para esse autor judeu, a Sabedoria personificada se identifica com a Torá. Os cristãos passaram a ver nela uma figura de Cristo, e o capítulo 11 mostra como a igreja discutiu isso. O texto é uma ponte entre as duas tradições, e um ponto em que elas se separam.
45 — "CUIDADO COM A FILOSOFIA"O aviso de Colossenses
O único lugar em que a palavra "filosofia" aparece em todo o Novo Testamento é um aviso. Colossos ficava no vale do rio Lico, na região que hoje é a Turquia, perto de Laodiceia e Hierápolis. Epafras, que Paulo diz ser "dos vossos", tem "grande zelo por vós, e pelos que estão em Laodicéia, e pelos que estão em Hierápolis" Cl 4.12-13.
"Filosofias" traduz φιλοσοφίας (philosophías), "amor à sabedoria", que Strong define com uma glosa própria: "filosofia, isto é, especialmente, sofisma judaico". A glosa mostra como um dicionarista do século XIX lia o contexto: o que Paulo critica, em Colossenses, mistura elementos judaicos (festas, luas novas, sábados Cl 2.16), culto de anjos Cl 2.18 e ascetismo Cl 2.21. Para muitos estudiosos, o quadro tem pouco de aula sobre Platão, embora a palavra seja grega. "Rudimentos" é στοιχεῖα (stoicheîa), em Strong "algo ordenado em série, um componente básico, uma proposição, um princípio". É a palavra que Platão usa, no Timeu 48b, para os "elementos" do universo (capítulo 3).
Três leituras de "rudimentos do mundo" circulam. Uma vê os elementos físicos do cosmo, como terra, ar, fogo e água. Outra, forças ou espíritos cósmicos associados a esses elementos. Uma terceira, ensinos elementares, como o "abecê" de uma disciplina. A mesma expressão está em Gálatas: "primeiros rudimentos do mundo" Gl 4.3, e, a quem antes "servíeis aos que por natureza não são deuses" Gl 4.8, Paulo pergunta como podem voltar "a esses rudimentos fracos e pobres" Gl 4.9. Alguns estudiosos notam que as leituras não se excluem. A carta é atribuída a Paulo pela tradição, e parte da pesquisa discute a autoria.
⚠️ Debate acadêmico aberto: o aviso é contra "filosofias" que fazem presa dos crentes "segundo a tradição dos homens". Não diz que todo pensamento filosófico seja um erro.
O contexto limita o aviso. O mesmo capítulo diz, de Cristo, que "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência" Cl 2.3. Quem usa o verso 8 contra toda filosofia precisa explicar o verso 3.
46 — O QUE A RAZÃO PODE SABERRomanos 1 e a "teologia natural"
É o texto que fica no centro de uma das maiores discussões cristãs: se a razão, olhando a criação, chega a conhecer Deus. Paulo diz que "se entendem" e "se vêem", e conclui que os homens ficam "inescusáveis". Em Romanos 2, acrescenta que os gentios, "não tendo eles lei, para si mesmos são lei", e mostram "a obra da lei escrita em seus corações" Rm 2.14-15, em que a "consciência" lembra o que vimos no capítulo 7. E logo depois escreve que "tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus" Rm 1.21: o conhecimento existiu, e não foi bem usado.
A Igreja Católica, no Concílio Vaticano I, ensinou que Deus pode ser conhecido com certeza, a partir das coisas criadas, pela luz natural da razão humana, e cita Romanos 1.20 (constituição Dei Filius, 1870, cap. 2). Na tradição reformada, João Calvino fala de um "senso de divindade" que todos têm, e que o pecado não apaga, mas corrompe. Karl Barth, em 1934, respondeu a Emil Brunner com o texto Nein!, recusando uma "teologia natural" como ponto de partida. Eles divergiam sobre o que sobrevive do conhecimento natural de Deus depois do pecado.
⚠️ Debate aberto, e as posições acima são de tradições diferentes. Esta obra não escolhe entre elas.
Em Atos 14.17 e em Atos 17, Paulo fala de um Deus que não se deixou sem testemunho. Em Romanos 1, de um conhecimento que existe e não foi bem usado. Em 1 Coríntios, de uma sabedoria que não levou o mundo a conhecer a Deus. Cada texto pede o seu contexto: a quem Paulo fala, e para quê.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Palavra e tenda
"Habitou entre nós" em João 1.14 vem de "armar tenda". Sirácida 24.8 usa um verbo da mesma família para a Sabedoria que busca onde habitar.
Verbo, logos, dâbâr
O mesmo termo que Heráclito e os estóicos usavam traduz o dâbâr hebraico. As fontes de João 1 são debatidas.
Dois avisos, um contexto
Paulo opõe duas sabedorias em Coríntios e avisa contra "filosofias" em Colossos, mas diz também que em Cristo estão "todos os tesouros da sabedoria e da ciência".
Teologia natural
Romanos 1.19-20 está no centro de um debate entre católicos, reformados e Barth sobre o que a razão pode saber de Deus.
Próximo capítulo: os Pais da igreja começam a falar grego de verdade. Justino, Clemente, Orígenes, Agostinho e Tomás decidem o que fazer com Platão e Aristóteles, e uma pergunta, "a igreja se helenizou?", fica em aberto até hoje.
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