Paulo espera. Deixou Silas e Timóteo na Macedônia, foi levado por amigos até Atenas e mandou dizer aos dois que o alcançassem o mais depressa possível At 17.14-15. Sozinho numa das cidades mais famosas do mundo, faz o que um visitante faz: anda. E Lucas anota o que o atinge enquanto ele anda.
Este é o capítulo para o qual os anteriores caminharam: um judeu de Tarso, seguidor de Jesus, de pé diante de gregos cultos, falando do Deus de Israel e da ressurreição. Lucas conta tudo em dezenove versículos. Eles são discutidos há séculos, e aqui vamos separar o que o texto diz, o que a história de Atenas esclarece e o que os intérpretes não resolvem.
37 — A CIDADE DOS ALTARESAtenas por volta do ano 50
Atenas já não mandava em ninguém. Roma dominava a Grécia desde 146 a.C., e o general Sula tinha saqueado a cidade em 86 a.C. Mas ela continuava a ser a cidade da memória: o Partenon na colina e as escolas de que falamos nos capítulos 5 a 7. Os epicureus e estóicos que Lucas encontra são herdeiros do Jardim e do Pórtico.
E era uma cidade religiosa. Pausânias, um autor grego do século II d.C. que percorreu a Grécia descrevendo o que via, escreve que os atenienses são "muito mais devotos da religião do que os outros homens" (Descrição da Grécia I, 24, 3; tradução minha, a partir da versão de W. H. S. Jones). Na praça, diz ele, havia um altar da Misericórdia, honrada só pelos atenienses entre os gregos, e outros ao Pudor, ao Rumor e ao Esforço (I, 17, 1). Perto do porto de Falero, registra "altares dos deuses chamados Desconhecidos" (I, 1, 4). Ele escreve mais de cem anos depois de Paulo, mas confirma o quadro que Lucas pinta.
Lucas diz que Paulo viu a cidade κατείδωλον (kateídōlon), "totalmente idólatra" no dicionário de Strong, de κατά, que reforça, e εἴδωλον, "imagem, ídolo". É uma palavra rara, a única do tipo no Novo Testamento. "Se comovia" traduz παρωξύνετο (parōxýneto), de παροξύνω, "afiar ao lado" e daí "exasperar", a mesma raiz de "paroxismo". O que Paulo sente diante de Atenas é irritação, e não só curiosidade de turista.
Pelo relato de Pausânias, a praça tinha, ao lado de templos e estátuas, altares a abstrações como o Pudor e o Esforço. Para um judeu para quem os ídolos "têm boca, mas não falam" Sl 115.5, tanta coisa para adorar era uma afronta. Para os atenienses, segundo o próprio Pausânias, era sinal de piedade, e quem se destaca nela é recompensado pela boa sorte (I, 17, 1).
38 — A PRAÇA E OS FILÓSOFOS"Que quer dizer este paroleiro?"
Na sinagoga, Paulo discute com judeus e com gentios que temem a Deus. E "todos os dias na praça", a ἀγορά, onde Sócrates conversava com quem passasse (capítulo 4). O verbo de Lucas, διελέγετο (dielégeto), vem de διαλέγομαι, "dizer a fundo, discutir" (Strong). É o mesmo que Lucas usou para Paulo em Tessalônica At 17.2, e dele vêm "diálogo" e "dialética".
Aparecem dois grupos: "alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele" At 17.18. Pelo capítulo 7, as razões para estranhar eram diferentes. Para o epicureu, os deuses não julgam ninguém e a morte é o fim de tudo, de modo que juízo e ressurreição soavam duas vezes estranhos. O estoico estava mais perto: para ele, Deus penetra o mundo e o governa por um logos. Mas um dia marcado e um homem ressuscitado não estavam no seu sistema. Lucas registra duas reações: uns dizem "Que quer dizer este paroleiro?", outros que ele parece "pregador de deuses estranhos", "porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição" At 17.18.
"Paroleiro" traduz σπερμολόγος (spermológos), de σπέρμα, "semente", e λέγω, "dizer": "catador de sementes (como o corvo)" e, figuradamente, "parasita, vadio, fofoqueiro", segundo Strong. É o pássaro que bica grãos no chão da praça, alguém que junta pedaços de ideias alheias. Já "deuses estranhos", ξένων δαιμονίων, lembra a acusação contra Sócrates: introduzir "novos daimónia" (capítulo 4).
João Crisóstomo, por volta de 400, explica o plural "deuses": "supunham que Anastasis (a Ressurreição) fosse alguma divindade, estando acostumados a adorar também divindades femininas" (Homilias sobre os Atos 38; tradução minha, a partir da série Nicene and Post-Nicene Fathers). Os atenienses teriam ouvido "Jesus" e "Ressurreição" como um casal de divindades estrangeiras. É uma leitura antiga e engenhosa, mas é de Crisóstomo, e não de Lucas, que só diz "deuses estranhos".
39 — O ÁREÓPAGOA colina de Ares e o conselho que leva o mesmo nome
Os filósofos levam Paulo ao Areópago: "Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois coisas estranhas nos trazes aos ouvidos; queremos pois saber o que vem a ser isto" At 17.19-20. A pergunta é de gente curiosa, e Lucas explica a curiosidade num parêntese: "Pois todos os atenienses e estrangeiros residentes, de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão de dizer e ouvir alguma novidade" At 17.21. O traço era conhecido: Demóstenes, no século IV a.C., repreendia os concidadãos por andarem perguntando uns aos outros "Há alguma novidade?" (λέγεταί τι καινόν;, Primeira Filípica 10; tradução minha).
"Areópago" é "colina de Ares" (Ἄρειος πάγος), e o nome serve à colina, ao pé da Acrópole, e ao conselho antigo que ali se reunia, famoso por julgar homicídios. Na peça Eumênides, Ésquilo mostra Atena fundando ali o tribunal (versos 681-690), e nessa mesma cena Apolo diz que, depois que a terra bebe o sangue de um homem morto, "não há ressurreição" (οὔτις ἔστ᾽ ἀνάστασις, versos 647-648; tradução minha). É a palavra ἀνάστασις (anástasis), "um levantar-se de novo" (Strong), que Lucas usa em Atos 17.18 e 17.32. A coincidência é notável, e Lucas não a comenta.
Onde, exatamente, Paulo falou? Lucas diz que esteve "no meio do Areópago" At 17.22. Duas leituras convivem. Uma pensa na colina. A outra pensa no conselho, que podia tratar de assuntos de rotina na ágora, junto à Stoa Basileios, o pórtico do "arconte-rei"; Colin Hemer, na Tyndale Bulletin, está entre os que defendem isso. Também se discute se foi um julgamento, uma sessão informal ou um convite a falar. O tom de Lucas é de curiosidade, e o Dionísio que ele chama "areopagita" em 17.34 seria, pelo nome, membro do conselho. Diógenes Laércio conta que Estilpão de Mégara foi chamado ao Areópago por dizer que a Atena de Fídias não era um deus, e mandado embora da cidade (II, 116; a numeração varia entre edições). Na memória grega, portanto, o conselho examinava gente por ideias sobre os deuses.
Em junho de 1970, as escavações americanas na ágora identificaram, no canto noroeste da praça, a Stoa Basileios, citada muitas vezes pelos autores antigos e vista por Pausânias, mas que escapara por muito tempo a quem a procurava (relatório na revista Hesperia). Isso mostra onde ficava um dos candidatos a local do encontro. Não prova que Paulo falou ali.
⚠️ Debate aberto: o texto de Lucas não permite escolher entre a colina e a ágora, e nenhuma das duas hipóteses tem evidência decisiva.
40 — O DISCURSOPasso a passo
Em Atos, é a fala de Paulo mais desenvolvida diante de um público pagão. O texto é curto, menos de dois minutos em voz alta, e é comum supor que seja um resumo. Começa assim:
"Supersticiosos" traduz δεισιδαιμονεστέρους (deisidaimonestérous). Strong liga a palavra a δειλός, "medroso", e a δαίμων, e a define como "mais religioso do que os outros". Podia ser elogio, "muito temente aos deuses", ou crítica, "supersticioso": Teofrasto dedicou um dos seus Caracteres ao deisidaimon (16), e ali é um defeito. Os estudiosos discutem o sentido que Lucas queria, e a frase podia ser ouvida das duas maneiras.
Quanto ao altar, Pausânias fala de altares "dos deuses chamados Desconhecidos", no plural, e Lucas escreve no singular. Jerônimo, no século IV, dizia no comentário a Tito que a inscrição era no plural, "deuses desconhecidos e estrangeiros", e que Paulo usou o singular por precisar de um só (assim citado por comentaristas modernos, que discutem se ele viu o altar). Diógenes Laércio dá uma origem aos altares sem nome: o cretense Epimênides, chamado a Atenas para purificar a cidade de uma peste, soltou ovelhas a partir do Areópago e mandou sacrificá-las, onde se deitassem, ao deus do lugar, e por isso "ainda hoje se encontram altares sem nome nos diferentes distritos dos atenienses" (I, 110; tradução minha, a partir da versão de Yonge).
"Desconhecido" é ἄγνωστος (ágnōstos), "não conhecido" (Strong). Paulo repete a raiz: "não o conhecendo" é ἀγνοοῦντες, e mais adiante vêm os "tempos da ignorância", ἀγνοίας (17.30). Ele parte do que os atenienses já têm, um altar, e diz que o Deus a quem eles prestam culto sem conhecer é o que ele anuncia.
Depois, quem é esse Deus:
Não há aqui nenhuma citação da Escritura introduzida por "está escrito", mas as ideias são as dela. Que Deus fez o céu e a terra é o começo da Bíblia Gn 1.1. Que "o céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés" e que ele não precisa de casa feita por mãos, diz Isaías Is 66.1, e Estêvão já o dissera ao Sinédrio At 7.48. Que quem dá "a respiração ao povo que nela está" é o Senhor, também é de Isaías Is 42.5. E que ele não precisa de oferta, um salmo diz: "Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude" Sl 50.12.
No capítulo 2, Xenófanes ria dos deuses que se parecem com quem os faz, e a crítica das imagens não era estranha à filosofia grega. Mas Paulo não cita nenhum filósofo pelo nome, e dizer que Deus "não habita em templos" ia contra o culto da própria cidade. Há também "de um só": as edições críticas modernas (NA28, SBLGNT) trazem só "de um", e o texto recebido e a tradição bizantina acrescentam "sangue", leitura que a ACF traduz. Em qualquer caso, a ideia é a unidade da humanidade, em contraste com um orgulho local: Péricles, na oração fúnebre, elogiava os antepassados que habitaram a terra "sem interrupção, de geração em geração" (Tucídides II, 36, 1; tradução minha, a partir da versão inglesa).
"Tateando" é ψηλαφήσειαν (psēlaphḗseian), de ψηλαφάω, "manipular, verificar pelo contato; figuradamente, procurar" (Strong). Em Homero, o verbo é usado do ciclope cego, que tateia com as mãos a pedra da porta da caverna (Odisseia IX, 416). Lucas o usa em outro lugar para o que Jesus ressuscitado manda os discípulos fazerem: "apalpai-me e vede" Lc 24.39. E João escreve: "as nossas mãos tocaram da Palavra da vida" 1Jo 1.1.
O versículo 28 é o mais discutido: "Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração" At 17.28. A segunda parte é uma citação, e conhecemos a fonte. O poema Fenômenos, de Arato de Soli, na Cilícia, abre dizendo de Zeus: "cheias de Zeus estão todas as ruas e todos os mercados dos homens [...] Pois também somos sua descendência" (versos 2-5; tradução minha, a partir da versão de G. R. Mair). O grego de Atos, τοῦ γὰρ καὶ γένος ἐσμέν, é igual ao de Arato. Um verso parecido está no Hino a Zeus de Cleanthes, mas o texto desse verso varia nas edições, e por isso fico com Arato. Eusébio cita ainda um autor judeu de Alexandria chamado Aristóbulo (data e autenticidade dos fragmentos são discutidas), que reproduz os versos de Arato com "Deus" no lugar de "Zeus" (Preparação evangélica XIII, 12). Se o texto é antigo, ler o poeta grego como se falasse do Deus de Israel seria anterior a Paulo.
A primeira parte, "nele vivemos, e nos movemos, e existimos", costuma ser ligada a Epimênides, o mesmo do altar. A atribuição vem de um comentário siríaco medieval a Atos, divulgado por Rendel Harris em 1907, e é discutida. Em Tito há outra frase tirada de um poeta: "Um deles, seu próprio profeta, disse: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos" Tt 1.12, que a tradição atribui a Epimênides. (A carta a Tito é atribuída a Paulo pela tradição; parte da pesquisa discute a autoria.)
O que está claro: as palavras de Atos 17.28b são, letra por letra, as de Arato. O que se discute é o que Paulo faz com elas. Uma leitura vê um ponto de contato: o poeta, falando de Zeus, apontou, sem saber, para algo verdadeiro sobre o Deus que fez os homens. Outra vê um argumento "de dentro": se somos descendência de Deus, Deus não pode ser de ouro ou de pedra (17.29). Martin Dibelius (1939) considerou o discurso uma composição de Lucas, de conteúdo helenístico, e não um resumo do que Paulo disse. Bertil Gärtner (1955) argumentou que o fundo é mais judaico do que estoico.
⚠️ Debate acadêmico aberto, que atravessa tradições católicas, ortodoxas e protestantes. Nenhuma dessas leituras é a posição oficial de uma igreja.
Depois do poeta, o discurso vira de direção:
Até aqui Paulo partiu do que os atenienses já tinham: o altar e os poetas. Agora diz o que, para eles, era novo: a crítica das imagens, tirada da própria citação, o arrependimento, μετανοεῖν, o dia do juízo, e um homem que Deus ressuscitou. O nome de Jesus, que Lucas tinha anunciado no versículo 18, não aparece no discurso. A mesma ideia de um Deus que não se escondeu das nações está na fala de Listra, a camponeses: "não se deixou a si mesmo sem testemunho" At 14.17, e em Romanos: "o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou" Rm 1.19. O debate sobre o que a razão pode saber de Deus ficará para o próximo capítulo.
41 — O QUE ACONTECEU DEPOISEscárnio, curiosidade e algumas pessoas
A palavra que interrompe Paulo é "ressurreição dos mortos". Para a filosofia que o ouvia, a imortalidade era tema respeitável, mas a ressurreição do corpo, não: no Fédon, a esperança de Sócrates é que a alma se separe do corpo (capítulos 4 e 5), e, para Epicuro, a morte "não é nada para nós" (capítulo 7). Lucas não comenta. Registra três respostas: escárnio, adiamento educado e fé.
Sobre Dionísio, a tradição guardou mais. Eusébio, no século IV, cita Dionísio de Corinto, bispo do século II, para dizer que o areopagita foi o primeiro bispo de Atenas (História eclesiástica III, 4, 11). Por volta do ano 500 apareceram escritos místicos em grego assinados "Dionísio, o Areopagita", entre eles Nomes divinos e Teologia mística. Em 532, num colóquio em Constantinopla, Hipácio de Éfeso duvidou deles, porque Padres anteriores, como Atanásio e Cirilo, não os conheciam. Valla e Erasmo, no Renascimento, também duvidaram, e em 1895 Hugo Koch e Josef Stiglmayr mostraram, cada um por conta própria, a dependência dos textos em relação ao neoplatônico Proclo, do século V. Hoje a maioria dos estudiosos fala em "Pseudo-Dionísio". Esses escritos influenciaram o cristianismo grego e o latino por muitos séculos, e voltaremos a eles no capítulo 11. Atos, por sua vez, só diz o que está no versículo 34.
E Atenas "fracassou"? Há quem leia assim. Logo depois, Paulo foi a Corinto At 18.1 e escreveria a essa igreja:
Uma leitura vê em 1 Coríntios 2 uma correção de rumo depois de Atenas: o apóstolo teria concluído que o discurso filosófico não era o melhor caminho. Outra lembra que a carta não menciona Atenas, que Lucas registra convertidos e que "fracasso" é um juízo dos leitores, não uma palavra de Lucas. O texto dá só isto: houve escárnio, houve quem quisesse ouvir de novo e houve quem cresse. O capítulo 10 volta a Corinto e à "sabedoria do mundo".
⚠️ Debate aberto: se Atos 17 mostra um método a imitar ou a evitar é discutido por comentaristas de todas as tradições.
Paulo começa pelo que os ouvintes têm: um altar, um poeta, a palavra "descendência". Só depois diz o que eles não têm: o fim da ignorância, o dia do juízo, o homem ressuscitado. Quem prega a quem não conhece a Bíblia pode olhar a ordem das frases: o começo é o chão comum, e o fim é a novidade que o ouvinte não esperava. Lucas não diz que o método "funcionou" nem que "falhou". Diz que alguns creram.
LINHA DO TEMPOAtenas, de Epimênides a Paulo
Datas aproximadas, na cronologia convencional dos historiadores.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Colina ou conselho
"Areópago" nomeia uma colina e o conselho que ali julgava. O texto grego de Atos 17 admite as duas leituras.
O altar
Pausânias fala de altares "dos deuses chamados Desconhecidos", no plural. Lucas põe o singular na boca de Paulo.
Arato e Atos 17.28
τοῦ γὰρ καὶ γένος ἐσμέν está nos Fenômenos de Arato e em Atos, com as mesmas palavras gregas.
A palavra que cortou
O discurso corre bem até "ressurreição dos mortos". Ésquilo, no mesmo lugar, tinha dito que não há anástasis.
Próximo capítulo: João abre o seu evangelho com a palavra Logos, a mesma que Heráclito e os estóicos usavam, e Paulo escreve em Corinto que a sabedoria do mundo é loucura diante de Deus e avisa os colossenses contra a "filosofia" e as "tradições dos homens". É o capítulo em que a Bíblia diz "sim" e diz "não" aos gregos.
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