A Filosofia GregaCapítulo 5 de 11 ⤓ PDF
Detalhe do afresco A Escola de Atenas: Platão, de barba branca, aponta para o alto e segura um livro; ao seu lado, Aristóteles estende a mão para a frente; ao fundo, arcos e céu azul
CAPÍTULO 5 DE 11

Platão

As Formas, a caverna, o Demiurgo e a alma

No dia em que Sócrates bebe a cicuta, Platão, "creio, estava doente". Dali sai uma obra em que o mundo que se vê é sombra, um Artesão bom ordena o caos e a alma é imortal. Três ideias que a igreja leu com lupa, e que Hebreus, Gênesis e a ressurreição obrigam a medir de novo.

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Atenas, a cela, a tarde da cicuta. Fédon, que está contando a cena anos depois, enumera os amigos que estavam ali: Apolodoro, Críton e o filho, Hermógenes, Antístenes, Ctesipo e outros. E acrescenta, de passagem: "Mas Platão, creio, estava doente" (Fédon 59b).

É uma frase curta num diálogo longo, e ela é quase uma assinatura. Platão, que tinha uns 28 anos quando Sócrates morreu, é o autor do Fédon, e se põe fora da cena. Nos diálogos, ele nunca fala em seu próprio nome. Fala sempre por meio de personagens, e o personagem principal é o mestre que a cidade matou. Diógenes Laércio conta, citando Hermodoro, que nessa idade Platão se retirou a Mégara com outros discípulos de Sócrates, e depois viajou (Vidas III, 6). O que ele fez com o resto da vida foi uma obra de mais de trinta diálogos e uma escola que durou séculos.

Neste capítulo vamos ver quatro ideias de Platão que a igreja encontrou, leu e muitas vezes usou: o mundo das Formas, a imagem da caverna, o Pai e Artesão do universo, e a alma imortal. Cada uma toca a Bíblia em algum ponto, e em cada uma há discordância séria sobre o quanto o toque foi de continuidade e o quanto foi de ruptura.

19 — O DISCÍPULO QUE ESCREVEUPlatão, a Academia e o que se sabe dela

Platão nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., numa família de aristocratas. Diógenes Laércio (Vidas III, 1-2) conta que a mãe, Perictione, era da linhagem de Sólon e parente de Crítias e Cármides, nomes ligados aos Trinta Tiranos. O nome de nascimento teria sido Aristocles. "Platão" ("largo") foi apelido, dado por um mestre de luta pelo físico robusto ou, segundo outros, pela largura da testa ou do estilo (III, 4). Morreu, segundo as fontes antigas, aos 81 anos, ou 84, por volta de 348-347 a.C. (III, 2).

Depois de viagens, e por volta de 387 a.C., na cronologia mais usada, Platão fundou em Atenas a Academia, num bosque ao qual um herói chamado Academo dera o nome (Vidas III, 7). Foi a primeira escola que durou: Aristóteles estudou ali por vinte anos. Diógenes resume a síntese que Platão fez de boa parte do que este livro já contou: nas coisas dos sentidos, seguia Heráclito; nas do intelecto, Pitágoras; na política, Sócrates (III, 8).

As obras de Platão são diálogos. A edição antiga atribuída a Trasilo, no século I d.C., ordenava-as em nove tetralogias, e abria com Eutífron, Apologia, Críton e Fédon, as quatro cenas da última fase de Sócrates (Vidas III, 56-58). O Sócrates dos primeiros diálogos pergunta e não conclui. Nos diálogos de maturidade, como República, Fédon e Timeu, o personagem Sócrates ou outro personagem expõe doutrinas, e muitos estudiosos acham que aí as ideias são de Platão. Onde termina o mestre e começa o discípulo é a questão socrática do capítulo anterior.

🏺 O que a pá encontrou

Em 1897, numa vila de Pompeia, a de Tito Simínio Estéfano, os escavadores acharam um painel de mosaico de 86 por 85 centímetros, hoje no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles (inv. 124545). Mostra sete homens de manto, reunidos sob uma árvore, diante de colunas e de uma paisagem distante. É conhecido como o "mosaico da Academia de Platão". Datável entre o século I a.C. e a erupção de 79 d.C., é uma peça romana, feita muito depois de Platão.

⚠️ O nome é convencional. Alguns estudiosos veem no painel os Sete Sábios da Grécia, outros um encontro em Delfos, outros Platão e discípulos diante de um modelo do céu. O mosaico prova que, em Pompeia, pessoas ricas gostavam de decorar a casa com cenas de filósofos. Não prova que Platão aparece nele.

Mosaico romano colorido: sete homens de mantos, sentados e em pé, sob uma árvore, em torno de um objeto; ao fundo, colunas e paisagem
O "mosaico da Academia de Platão" — mosaico romano, de c. século I a.C. a 79 d.C., da casa de T. Simínio Estéfano, Pompeia; Museu Arqueológico Nacional de Nápoles (inv. 124545). Foto de Marie-Lan Nguyen. A identificação dos personagens é discutida. Domínio público.
📜 Segundo a tradição

Uma frase muito repetida diz que, na porta da Academia, estava escrito: "Não entre quem não souber geometria". Aparece em comentaristas de Aristóteles de séculos depois, como Elias e Filopono. Nenhuma fonte do tempo de Platão a registra, e não há como saber se a frase existiu.

⚠️ Tradição, não história. A frase combina com o gosto de Platão pela matemática, e é por isso que pegou.

20 — A CAVERNAO mundo que se vê e o mundo que se pensa

Para Platão, o que vemos com os olhos não é a realidade mais firme. Há coisas belas, mas há também "o Belo mesmo", que não nasce nem morre e que cada coisa bela imita. Esses modelos eternos ele chama de ideias ou formas (εἶδος, ἰδέα). O livro VII da República conta a imagem mais famosa que ele deu disso: a caverna.

Imagine homens vivendo numa caverna subterrânea, "acorrentados desde a infância pelas pernas e pelo pescoço, de modo que ficam no mesmo lugar e só olham para a frente" (República VII, 514a-b; tradução minha). Atrás deles, uma fogueira. Entre a fogueira e os prisioneiros, uma pequena mureta, onde homens passam carregando figuras de animais e de objetos, de pedra e de madeira. Os prisioneiros veem só as sombras na parede à frente. Se pudessem conversar, "julgariam que, ao nomear o que veem, nomeiam as coisas que passam" (515b). Para eles, a realidade é as sombras dos objetos fabricados.

Um deles é solto e obrigado a levantar-se, virar o pescoço, andar e olhar para a luz. Dói. A luz o ofusca e ele não vê as coisas de que antes via as sombras. Precisa de hábito: primeiro vê as sombras, depois os reflexos na água, depois as próprias coisas, depois o céu à noite, por fim o sol, "não em reflexos nem em lugar alheio, mas ele mesmo, em seu próprio lugar" (516a-b). Compreende então que o sol é "causa" de tudo o que via. Se voltasse à caverna, os olhos cheios de escuro, os prisioneiros zombariam dele e diriam que subiu e voltou com a vista estragada. E, "se pudessem pôr as mãos em quem tentasse soltá-los e levá-los para cima, não o matariam?" (517a).

Platão mesmo explica a imagem. A caverna é o mundo visível. A fogueira é o poder do sol. A subida é a ascensão da alma ao mundo inteligível. E a última coisa que se vê, "e com dificuldade", é "a Ideia do Bem", causa de tudo o que é correto e belo, fonte da luz no mundo visível e, no inteligível, da verdade e da inteligência (517b-c). Ele acrescenta, com cautela rara: "Só o deus sabe se isso é verdade. O que me aparece, aparece assim" (517b). Muitos leitores ouvem na pergunta sobre o assassinato de quem tenta libertar os prisioneiros uma alusão a Sócrates, e a leitura é natural, embora Platão não o diga.

Gravura em preto e branco: homens acorrentados diante de uma parede alta, em que figuras sobem e levantam trombetas e luzes; à esquerda, um grupo de homens de gorros pontudos conversa; no alto, uma inscrição em latim
Antrum Platonicum ("A caverna platônica") — Jan Saenredam, a partir de Cornelis Cornelisz van Haarlem (1604), gravura; National Gallery of Art, Washington. A inscrição em latim no alto cita João 3.19: "A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz". Em 1604, a caverna de Platão já era lida com o Evangelho de João. CC0.

A Carta aos Hebreus usa vocabulário que parece saído da caverna:

"Porque tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam." Hebreus 10.1
🔎 A palavra original

Em grego, σκιὰν... οὐκ αὐτὴν τὴν εἰκόνα: "sombra... não a própria imagem". Antes, a carta diz que o tabernáculo de Moisés é "exemplo e sombra das coisas celestiais", ὑπόδειγμα καὶ σκιά, feito "conforme o modelo que no monte se te mostrou" Hb 8.5. Paulo também escreve que os dias santos e as festas "são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo" Cl 2.17. Strong define σκιά como "sombra (literal ou figurada)"; εἰκών como "semelhança, representação"; τύπος como "modelo".

As palavras são as de Platão: sombra, imagem, modelo. Mas a estrutura pode ser diferente. Em Platão, o contraste é entre o visível e o inteligível, de cima e de baixo. Em Hebreus, o contraste é sobretudo entre o antes e o depois: a sombra é a lei, e a realidade chegou em Cristo. Estudiosos divergem sobre qual dos dois pesa mais. Por muito tempo, a leitura dominante via em Hebreus um fundo platônico ou filoniano. Em 1990, Lincoln Hurst defendeu que os termos têm sentido bem mais largo do que a leitura platônica supõe e que o fundo é judaico e apocalíptico. Outros reconhecem alguma terminologia platônica em Hebreus, mas não fazem dela a chave da carta. E há quem veja a metafísica platônica como base, temperada pelo pensamento semita. O capítulo 8 volta a Fílon.

🌱 Semente de sermão

Os prisioneiros de Platão acham que a sombra é tudo, e Paulo escreve: "Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas" 2Co 4.18. É um versículo que cabe numa leitura platônica. Mas repare no contexto: Paulo fala de aflição presente e de esperança. A diferença entre ver e não ver, aqui, é a de quem aguarda o que Deus fará, e não a de quem sobe uma escada de ideias.

21 — O PAI E ARTESÃO DO MUNDOO Timeu e a história provável

Na tradição ocidental, o diálogo de Platão que mais pesou sobre a leitura do Gênesis foi o Timeu. Nele, um personagem, Timeu, expõe a origem do universo. O mundo tem um artífice, δημιουργός (demiourgós), "artesão", chamado também de "o Fazedor e Pai deste universo" (ποιητὴν καὶ πατέρα). E logo vem a ressalva: encontrar esse Pai é difícil, e "tendo-o encontrado, anunciá-lo a todos é impossível" (Timeu 28c; tradução minha).

O artífice olha para um modelo eterno e faz o mundo à semelhança dele. Por quê? Platão diz: "Ele era bom, e no que é bom nunca nasce inveja de coisa alguma; sem inveja, quis que todas as coisas fossem, o mais possível, semelhantes a ele" (29e). Quando assumiu o que era visível, "em movimento desordenado", ele o "conduziu da desordem à ordem" (30a). E o tempo é "uma imagem móvel da eternidade" (37d). Essas frases foram citadas, durante séculos, por cristãos que queriam mostrar que um grego já tinha chegado perto do Gênesis.

Mas o Timeu diz também outras coisas. O Demiurgo trabalha com o que já existe: não cria do nada, e sim arruma. O relato é apresentado como "história provável" (εἰκότα μῦθον, 29d), e o próprio Timeu pede que se aceite a "explicação verossímil" e se pare de procurar além. Aristóteles registra uma discussão entre os platônicos: alguns, que sustentam que o mundo foi gerado mas nunca perecerá, diziam falar de "geração" só "por razões didáticas", como os geômetras que "constroem" figuras passo a passo (Sobre o céu I, 10, 279b). Ou seja: já na Academia se discutia se o artífice era para ser lido ao pé da letra.

O Gênesis e o Timeu se parecem em dois pontos e se separam em vários. Ambos mostram um artífice bom e uma ordem que vem depois de um estado informe (Gn 1.2, "a terra era sem forma e vazia"). Mas, no Gênesis, Deus não olha para um modelo exterior a ele: "disse Deus", e foi. E se Gênesis 1 fala de criação do nada ou de ordenação de uma desordem é discussão aberta, como se viu no Capítulo 3. Os judeus e os cristãos que leram o Timeu tiveram de decidir o que fazer com isso. Alguns, como se verá no Capítulo 8, leram o relato de Moisés com os olhos de Platão. Outros reagiram contra o Demiurgo.

22 — A ALMA E O DEUS BOM"Aprender a morrer" e a imagem de Deus

Para Platão, a alma é imortal e vale mais que o corpo. No Fédon, Sócrates diz que "os que se dedicam à filosofia de modo correto só se ocupam de morrer e de estar mortos" (64a), porque o corpo atrapalha: nos distrai, enche de desejos e impede de ver a verdade (66b-d). A morte seria, para quem filosofa, a libertação. Não é à toa que o Fédon termina com Sócrates calmo diante da cicuta.

A Bíblia fala de outro modo. No Gênesis:

"E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente." Gênesis 2.7

A palavra é nephesh (נֶפֶשׁ), que Strong define como "um ser que respira, isto é, animal, de vitalidade, usada de modo muito amplo, de modo corporal ou mental". A alma, aqui, não é a parte imortal presa a um corpo mau: é a pessoa viva. Paulo, por sua vez, diz que "temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" 2Co 5.8 e fala em "partir, e estar com Cristo" Fp 1.23. E a esperança central do Novo Testamento é a ressurreição do corpo 1Co 15.42-44.

Como combinar isso? Os cristãos dividem-se:

Em 1955, o teólogo luterano Oscar Cullmann publicou o ensaio Imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos?, em que contrasta a morte serena de Sócrates, em que vê uma rejeição grega do corpo, com a agonia de Jesus, que levou a sério a morte do corpo. Para ele, a ideia de alma imortal é grega e é incompatível com a esperança bíblica. Outros, como o teólogo John W. Cooper em Body, Soul, and Life Everlasting (edição de 2000), defendem um "dualismo holístico": a pessoa é uma unidade, mas há uma alma distinta do corpo que continua a existir entre a morte e a ressurreição, o que, dizem, o texto bíblico apoia. A Igreja Católica ensina que a alma é a "forma" do corpo (vocabulário que vem de Aristóteles) e que é imortal: "não perece quando se separa do corpo na morte e será reunida ao corpo na ressurreição final" (Catecismo, 365-366). As três posições levam a sério a ressurreição. Divergem sobre o que o dado bíblico exige e o quanto de Platão entrou na tradição.

🔎 A palavra original

Platão escreve, no Teeteto, que a vida do filósofo é fugir deste mundo para o dos deuses, e que "fugir é assemelhar-se a Deus, tanto quanto possível" (176b; tradução minha), em grego ὁμοίωσις θεῷ κατὰ τὸ δυνατόν. Esse "assemelhar-se a Deus" (homoíōsis theô) virou fórmula da tradição platônica.

O curioso é que a mesma palavra, ὁμοίωσις, aparece na tradução grega do Gênesis: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" Gn 1.26, em grego κατ᾽ εἰκόνα ἡμετέραν καὶ καθ᾽ ὁμοίωσιν. E volta no Novo Testamento, quando Tiago fala dos homens "feitos à semelhança de Deus" Tg 3.9. Em 1994, o estudioso Martin Rösel sustentou que o grego do Gênesis mostra a influência de vocabulário platônico. A tese é discutida, e há quem a revise. Clemente de Alexandria, por volta do ano 200, junta as duas coisas: escreve que Platão define o fim da felicidade como "semelhança com Deus, tanto quanto possível", e que a lei já mandava seguir o Senhor, e acrescenta que a conformidade com "a imagem e semelhança" não é do corpo, "mas na mente e na razão" (Stromata II, 19, na numeração da edição ANF).

23 — A PALAVRA "TEOLOGIA"Como falar bem dos deuses

Na República, quando Sócrates discute o que os poetas devem poder contar dos deuses, aparece a palavra θεολογία, que muitos manuais citam como a primeira ocorrência conhecida: "os tipos relativos à teologia", isto é, as regras para falar dos deuses (República II, 379a). Que sejam essas regras, segundo Platão: o deus é bom, e por isso só causa o bem, e não é causa de todas as coisas, só das boas, "das que são más ele é inocente" (379b-c). O deus é simples e não muda de forma: se mudasse, mudaria para pior, e "é impossível que mesmo um deus queira alterar-se; cada um, sendo o mais belo e o melhor possível, permanece para sempre em sua forma" (381c). E o deus não mente: "é inteiramente simples e verdadeiro, em atos e em palavras" (382e).

Quem lê a Bíblia reconhece o desenho: Deus é bom, "não é homem, para que minta" Nm 23.19, e diz de si: "eu, o Senhor, não mudo" Ml 3.6. A semelhança é real. As diferenças também. O deus da República é uma regra de lógica para poetas. Em Israel, Deus fala, escolhe, aliança-se e se arrepende em certos textos Gn 6.6. Como os teólogos cristãos leram essa tensão entre imutabilidade e relação é uma das discussões mais antigas da doutrina de Deus, e volta nos capítulos 10 e 11.

A palavra "teologia" não está na ACF. Entrou no vocabulário cristão por via filosófica: Aristóteles, por exemplo, chama de "filosofia teológica" o estudo do ser e do divino (Metafísica, 1026a19, segundo o dicionário de Liddell e Scott). É um exemplo pequeno de um fenômeno grande: o próprio nome da disciplina que pastores e professores praticam foi cunhado por um filósofo grego, e ninguém precisa ver nisso nem escândalo nem glória.

🌱 Semente de sermão

Na República, Gláucon conta a história do anel de Giges: um pastor acha um anel que o torna invisível, e logo o usa para seduzir a rainha, matar o rei e tomar o reino. Pergunta: se um justo e um injusto tivessem o anel, os dois não fariam o mesmo? Ninguém seria justo por escolha própria, "mas só por constrangimento" (República II, 359d-360d). É a pior suspeita sobre a moral: só somos bons enquanto alguém vê. A resposta bíblica é incômoda e simples: "o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração" 1Sm 16.7, e "não há criatura alguma encoberta diante dele" Hb 4.13. Nenhum anel apaga o homem diante dos olhos de Deus.

🌱 Semente de sermão

Platão, nas Leis, responde a Protágoras, o sofista do capítulo anterior, para quem "o homem é a medida de todas as coisas". Para ele, "o deus é, para nós, a medida de todas as coisas, muito mais do que um 'homem', como dizem" (Leis IV, 716c; tradução minha). A frase poderia ser lida num culto. Mas a Bíblia diz mais do que a medida: diz que Deus fez o homem à sua imagem Gn 1.27. A diferença entre as duas frases é que a primeira pede que o homem se meça por Deus, e a segunda diz que ele foi desenhado para refletir Deus.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🕯️

A caverna

Prisioneiros que só veem sombras, um que sobe e vê o Sol, e a pergunta: "não o matariam?" σκιά, "sombra", é também palavra de Hebreus Hb 10.1, com estrutura diferente e debate entre os estudiosos.

⚒️

O Artesão do Timeu

Bom, sem inveja, ordena o caos olhando um modelo eterno. Não cria do nada, e o relato é uma "história provável".

🕊️

Alma ou ressurreição

Cullmann, Cooper e o Catecismo respondem de modos diferentes à pergunta que Platão levantou: o que a Bíblia diz sobre o ser humano e a morte.

📖

"Teologia"

A palavra aparece em Platão, República II, 379a. Os "tipos" de que fala (Deus bom, imutável e sem mentira) lembram a Bíblia, mas o contexto é outro.

Próximo capítulo: Aristóteles. Ele entrou na Academia aos dezessete anos e discordou do mestre em quase tudo o que Platão tinha de mais caro: não acreditava nas Formas separadas, e tinha outra ideia de Deus, que não cria nem fala, só pensa. Cerca de dezesseis séculos depois, Tomás de Aquino faria dele "o Filósofo".

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