Mileto, na costa da Jônia. Um homem anda de cabeça erguida, com os olhos pregados no céu. Não vê a boca do poço. Cai. Uma criada trácia, de língua afiada, ri dele: o sábio queria saber o que se passa lá em cima e não enxergava o que estava aos seus pés.
Quem conta a cena é Platão, quase dois séculos depois, na boca de Sócrates (Teeteto 174a). O próprio texto diz "conta-se que". É anedota, e não registro de tribunal. O homem é Tales de Mileto, que viveu entre o fim do século VII e o começo do século VI a.C., e Aristóteles o chama de fundador "desta escola de filosofia" (Metafísica I, 3, 983b). Sócrates acrescenta que a piada vale para todos os que passam a vida filosofando.
Este livro é sobre o que aconteceu depois da queda no poço. Não é uma história completa da filosofia: é a história das ideias gregas que tocaram a Bíblia e a igreja. Primeiro vêm os pensadores, um a um, com as palavras deles. Depois vem o encontro: judeus que escreveram em grego, Paulo diante dos filósofos de Atenas, o Verbo de João, os Pais da igreja, Agostinho, Tomás e uma pergunta que ainda divide teólogos: o cristianismo foi "helenizado"? O livro mostra o que cada tradição responde, sem escolher lado. Este primeiro capítulo faz o mais simples: situa o mundo onde a pergunta nasceu.
01 — A PALAVRA E O ESPANTOO que é, afinal, filosofar
A palavra é grega, e é jovem. Philosophía junta phílos, "amigo", e sophía, "sabedoria". Uma das primeiras vezes em que o verbo "filosofar" aparece num texto grego que chegou até nós está em Heródoto. O rei Creso de Sardes recebe o ateniense Sólon e lhe diz que ouviu falar da sua sabedoria e de suas viagens, de como ele percorreu muita terra "filosofando", só para ver (Heródoto, Histórias I, 30). O sentido aqui é ainda amplo: viajar por curiosidade, para aprender. Há também um fragmento atribuído a Heráclito, citado muito depois por Clemente de Alexandria, que diz que os "homens amigos da sabedoria" precisam investigar muitas coisas (Heráclito, fr. DK 22 B35). Se o fragmento é autêntico, é um dos usos mais antigos da palavra, mas a questão é discutida.
Uma terceira história é bonita demais para ser ignorada, e por isso mesmo desconfiável. Diógenes Laércio, que escreveu no século III d.C., conta que Pitágoras foi o primeiro a se chamar "filósofo". Perguntado por um tirano o que era, respondeu que nenhum homem é sábio, só Deus, e que ele era apenas amigo da sabedoria (Vidas I, 12, que cita Heráclides do Ponto). Muitos estudiosos acham que a anedota foi inventada séculos depois de Pitágoras. Fica como lenda, não como fato.
O que os gregos diziam que empurrava o pensamento? O espanto. Platão faz Sócrates dizer a um rapaz perplexo: "o espanto é a única origem da filosofia", e lembra que o poeta fez de Íris filha de Taumas (Teeteto 155d). O nome Taumas, em grego Θαύμας, é parente de thaûma, "assombro". Aristóteles diz quase o mesmo: foi por espanto que os homens começaram e ainda começam a filosofar, diante das coisas estranhas do dia a dia e depois das grandes, como a Lua, o Sol e a origem do universo (Metafísica I, 2, 982b). E ele acrescenta que, nesse sentido, quem ama os mitos já é um pouco filósofo, "pois o mito é composto de coisas espantosas".
O Novo Testamento só usa a família de philosophía duas vezes. Em Atos 17.18, Lucas escreve φιλοσόφων (philosóphōn): "alguns dos filósofos epicureus e estóicos". E em Colossenses 2.8, Paulo avisa contra φιλοσοφίας (philosophías): "filosofias e vãs sutilezas". O dicionário de Strong anota, no segundo caso, "especialmente sofisma judaico", o que mostra que a leitura do que Paulo combatia em Colossos já era discutida antes de nós (voltamos a isso no Capítulo 10).
O hebraico não tem "filosofia", mas tem chokmâh (חָכְמָה), "sabedoria". É a palavra do artesão: Bezalel é cheio "de sabedoria, e de entendimento, e de ciência, em todo o lavor" Êx 31.3. E é a palavra do temor: "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" Pv 9.10. A sabedoria hebraica nasce de Deus e vai para a vida. A filosofia grega, na descrição de Aristóteles, nasce do espanto e vai para o saber. Essa diferença de partida percorre o livro inteiro.
02 — OS DEUSES QUE NINGUÉM ESCREVEUHomero, Hesíodo e uma religião sem livro
Antes dos filósofos, os gregos tinham os poetas. Heródoto, no século V a.C., faz uma observação que vale ouro. Diz que ninguém na Grécia sabia, até pouco tempo, de onde vieram os deuses, se sempre existiram ou como eram na forma. E isso porque Hesíodo e Homero, que viveram, calculava ele, não mais de quatrocentos anos antes dele, "foram os que ensinaram aos gregos a genealogia dos deuses, deram nome aos deuses, repartiram suas honras e funções e descreveram suas formas" (Histórias II, 53; tradução minha). Os gregos não tinham um livro revelado. Tinham poemas.
Hesíodo abre a Teogonia contando como se tornou poeta. Pastoreava ovelhas no monte Hélicon quando as Musas lhe falaram: "Pastores do campo, vergonhas vivas, só barrigas, sabemos dizer muitas mentiras que parecem verdades; e sabemos, quando queremos, proclamar o que é verdadeiro" (Teogonia, vv. 26-28; tradução minha). É um começo de poema estranho: as próprias divindades que inspiram o poeta confessam que podem enganar. Quem escuta um texto assim já está pronto para perguntar quem fala a verdade.
Não havia na Grécia antiga uma igreja, um credo único nem uma casta de sacerdotes que fixasse a doutrina. A religião era sobretudo culto: sacrifícios, procissões, festas da cidade, oráculos como o de Delfos. Quem participava do ritual não precisava concordar com o que o poeta dissera sobre Zeus. Isso explica duas coisas ao mesmo tempo. Os poetas podiam ser corrigidos, e o fizeram, como se verá no próximo capítulo. E a cidade podia punir quem parecesse desrespeitar os deuses, como se verá no capítulo de Sócrates. O que importava era o rito, e não a crença.
As Musas de Hesíodo sabem "dizer muitas mentiras que parecem verdades". O texto bíblico faz uma afirmação de outra espécie: "Deus não é homem, para que minta" Nm 23.19, e Hebreus diz que, nas promessas de Deus, "é impossível que Deus minta" Hb 6.18. A pergunta que os gregos faziam, "quem diz a verdade sobre os deuses?", a Bíblia responde com um Deus que fala e não mente. Os filósofos que vêm a seguir vão procurar a resposta, em geral, pelo raciocínio, e não por uma palavra revelada.
03 — A CIDADE E O TEMPO LIVREPor que foi ali, e foi então
A Grécia nunca foi um reino. Era um mosaico de cidades-Estado, as pólis, cada uma com suas leis, seu calendário de festas e seus exércitos, espalhadas pelas ilhas do Egeu, pela costa da Ásia Menor e por colônias do mar Negro à Sicília. Em muitas delas, os cidadãos discutiam em público. Em Atenas, depois das reformas de Clístenes, por volta de 508-507 a.C., o povo reunido votava as leis. Falar bem e argumentar bem deixou de ser enfeite e passou a ser poder.
Há outra condição, e Aristóteles a nomeia com franqueza. A especulação pura, diz ele, só começou depois que quase todas as necessidades da vida estavam supridas (Metafísica I, 2, 982b). Era preciso tempo livre. E o tempo livre dos cidadãos gregos dependia de escravos e de mulheres que não votavam. A mesma cidade que inventou o debate público também firmou a escravidão como instituição, e o próprio Aristóteles a defendeu, em páginas que hoje ninguém lê sem desconforto. Um livro para pastores e professores precisa dizer isso desde o começo. Nenhum dos pensadores que vamos ler viveu fora da sua época.
Por volta de 500 a.C., diz Heródoto, Mileto estava no auge e era "a glória da Jônia" (Histórias V, 28). Era um porto que olhava para o mar e, por trás, para os grandes reinos do interior: primeiro a Lídia, depois a Pérsia. Gente que cruza o Egeu todo dia conhece o mundo de fora. A vida de porto ensina a duvidar de que o seu costume seja o único.
Em 494 a.C., depois da revolta jônica, os persas tomaram a cidade e a escravizaram (Histórias VI, 18). Em Atenas, o poeta Frínico levou ao palco uma peça chamada A tomada de Mileto, e Heródoto diz que o teatro inteiro desabou em lágrimas. A cidade multou o poeta em mil dracmas e proibiu que a peça fosse encenada de novo (Histórias VI, 21). O texto da peça se perdeu. O choro ficou na história.
04 — A PONTE DA JÔNIAEntre o Egito, a Lídia e a Babilônia
Mileto fica na Jônia, a faixa grega da costa da atual Turquia. É de lá que sai o primeiro grupo de pensadores: Tales, Anaximandro e Anaxímenes, os três de Mileto, e Heráclito, de Éfeso, a uma curta viagem. A pergunta deles tinha um jeito novo: procurar no próprio mundo aquilo de que ele é feito e o que nele permanece. Segundo Aristóteles, Tales respondeu: a água (Metafísica I, 3, 983b). O próximo capítulo conta o que vem depois disso.
O que fez a Jônia ser o lugar? A explicação mais antiga é a de um "milagre grego": de repente, no século VI a.C., a razão teria nascido, e sem ajuda. Estudiosos do século XX, como Martin West e Walter Burkert, mostraram que não foi bem assim. Os gregos aprenderam muito do Oriente. A própria escrita é um exemplo: Heródoto diz que os fenícios trouxeram as letras à Grécia e que os jônios as adotaram com algumas mudanças (Histórias V, 58). A tradição diz também que Tales viajou ao Egito (Diógenes Laércio, Vidas I, 27), embora isso seja relato tardio. O debate continua: quanto da filosofia grega veio do Egito e da Mesopotâmia, e quanto foi invenção nova.
Heródoto conta que numa batalha entre lídios e medos, num certo ano, o dia virou noite de repente, e que Tales de Mileto havia avisado os jônios dessa perda de luz, fixando o ano em que ela ocorreria (Histórias I, 74). Os cálculos astronômicos modernos reconhecem um eclipse solar que passou pela região em 28 de maio de 585 a.C., e é essa a data que a maioria dos livros dá para a "previsão de Tales".
⚠️ O eclipse é real e bem datado. O que não está claro é se Tales o previu. Os babilônios daquela época não tinham método seguro para prever um eclipse solar visível num lugar específico, e alguns estudiosos acham que a história foi construída depois, a partir de um dado astronômico conhecido. Heródoto também diz só que Tales previu o "ano", não o dia. Fica como tradição respeitável, sem prova.
05 — OS GREGOS NO TEXTO BÍBLICOJavã, as ilhas e um príncipe da Grécia
Os gregos entram cedo na Bíblia, com um nome que mal reconhecemos. Na tabela dos povos, entre os filhos de Jafé aparece "Javã" Gn 10.2, e o texto segue:
Em hebraico, o nome é Yâvân (יָוָן). Strong o lê como "Javã... e a raça (jônios, isto é, gregos) descendente dele". A identificação com os jônios é a que a maioria dos dicionários aceita.
Depois o nome volta nos profetas. Isaías vê mensageiros enviados a "Társis, Pul, e Lude, flecheiros, a Tubal e Javã, até às ilhas de mais longe, que não ouviram a minha fama" Is 66.19. Ezequiel põe Javã entre os mercadores de Tiro: "Javã, Tubal e Meseque eram teus mercadores; em troca das tuas mercadorias davam pessoas de homens e objetos de bronze" Ez 27.13. Joel acusa os fenícios de venderem "os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos" Jl 3.6. A data de Joel é discutida, e por isso não se pode dizer com certeza a que época o texto se refere.
Em Daniel e Zacarias o mesmo nome vira império. O bode peludo é "o rei da Grécia" Dn 8.21, e o anjo diz que, depois dos persas, "virá o príncipe da Grécia" Dn 10.20. Zacarias ouve Deus dizer: "suscitarei a teus filhos, ó Sião, contra os teus filhos, ó Grécia!" Zc 9.13. Esses textos entram no livro sobre Alexandre e a Macedônia. Aqui basta ver que, para o Antigo Testamento, os gregos são gente de ilhas distantes que vira, séculos depois, um poder diante do qual Israel precisa se posicionar.
No Novo Testamento o povo é Hellēn (Ἕλλην), que Strong define como "um grego ou habitante da Hélade; por extensão, um falante de grego, especialmente um não judeu". Quando alguns gregos sobem a Jerusalém para a festa e pedem ao discípulo Filipe: "Senhor, queríamos ver a Jesus" Jo 12.20-21, o texto fala de gentios de fala grega que vinham adorar na festa.
Paulo usa outro par: "Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes" Rm 1.14. Para um grego, bárbaros eram os que não falavam grego. Paulo escreve em grego, aos gregos e aos que lhes são estranhos.
LINHA DO TEMPOA Grécia dos pensadores, com a Bíblia marcada
Datas aproximadas, na cronologia convencional dos historiadores. O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico cruza cada época. Os capítulos seguintes voltam a cada ponto.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Do poço ao poço
Tales cai no poço olhando os astros, segundo Platão (Teeteto 174a). É anedota, mas diz o que os próprios gregos achavam da filosofia: coisa de gente com a cabeça nas nuvens.
O espanto como origem
Para Platão e Aristóteles, a filosofia nasce do espanto. Na Bíblia, a sabedoria começa no temor do Senhor Pv 9.10.
Uma religião sem livro
Os gregos tinham poetas e rituais, e não escritura nem credo. Por isso puderam corrigir Homero, e por isso as cidades puniam o que parecia desrespeito aos deuses.
Próximo capítulo: os primeiros filósofos, de Tales a Heráclito. Heráclito era de Éfeso, a cidade onde Paulo pregou At 19 e onde a tradição antiga põe João escrevendo o seu Evangelho. Foi ali que um pensador abriu o seu livro falando de um logos que governa tudo.
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