Filipe ouve uma ordem curta: "Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta" At 8.26. É estrada de verdade, a caminho de uma das cinco cidades que este livro percorreu. Na beira dela, Filipe encontra um etíope que lê Isaías.
Para quem andava por essa estrada, os filisteus já eram um passado de mais de mil anos. Este capítulo reúne o que a pá achou nas cidades deles, conta como o nome deles chegou até hoje e lista o que muda quando você relê os textos dos capítulos anteriores.
46 — ASQUELOMUm porto, um cemitério e um fim
Asquelom é o sítio mais conhecido da pentápole. A Expedição Leon Levy, dirigida por Lawrence Stager e Daniel Master, escavou ali de 1985 a 2016. A cidade já era um grande porto cananeu, com muralhas de terra, séculos antes dos filisteus. A camada filisteia começa, como as outras, por volta de 1175 a.C.
O cemitério. Entre 2013 e 2016, a equipe escavou, do lado de fora das muralhas, um cemitério com mais de duzentas pessoas, dos séculos XI ao VIII a.C. (os relatos dão pequenas variações no número e nas datas). Foi o primeiro cemitério filisteu já achado. A maioria das sepulturas era de covas simples. Havia também cremações em jarros e alguns túmulos de pedra lavrada. A peça mais comum entre as ofertas eram pequenos jarros. O anúncio, em 2016, mostrou que, até então, os arqueólogos conheciam as casas dos filisteus e quase nada das suas sepulturas.
O fim. A camada de destruição do fim do século VII a.C. combina com a Crônica Babilônica de 604 a.C. (Capítulo 10). O estudo dos ossos de animais, feito por Brian Hesse e Paula Wapnish, indica que os filisteus de Asquelom quase não comiam porco na época de Nabucodonosor, bem menos do que no começo, quando o porco abundava.
⚠️ O cemitério mostra como os filisteus enterravam seus mortos. Ainda se discute quanto dessas práticas é de tradição egeia e quanto é cananeia. E o DNA do Capítulo 1 veio de dez pessoas: ainda há muito material para estudar.
47 — ECROMO azeite, o templo e a cidade que mudou de lado
Ecrom é hoje o sítio de Tel Miqne, escavado por Trude Dothan e Seymour Gitin de 1981 a 1996. Há duas Ecroms nos achados. A primeira é do século XII ao XI a.C., com um grande salão de fogão circular de seixos, traço de tradição egeia, e três rodas de bronze de oito raios, que alguns ligam ao culto. A segunda é do século VII a.C., e é a que mais surpreende.
No século VII a.C., Ecrom era uma fábrica de azeite. Os escavadores contaram mais de cem instalações de produção de azeite, em prédios de plano parecido, de três cômodos. As estimativas de produção anual vão de centenas a mais de mil toneladas, números que são estimativas, não medidas. Foi nessa Ecrom que a inscrição de Ikausu (o nome que corresponde a Aquis) apareceu (Capítulo 2), e é dessa Ecrom que os assírios falam em 701 a.C. (Capítulo 9).
⚠️ A fábrica de azeite é um fato. O que a causou é debate: uns atribuem a política assíria, que teria integrado a costa ao seu comércio, e outros, como Avraham Faust, apontam o comércio no Mediterrâneo. O que o achado mostra é uma cidade próspera, e vassala, ao mesmo tempo.
48 — GATEA cidade do gigante
Tell es-Safi, que o Capítulo 1 identificou com Gate, está sendo escavado desde 1996 pela equipe de Aren Maeir. É um dos maiores sítios filisteus. No auge, em torno do século IX a.C., a cidade teria uns dez mil habitantes, uma das maiores do sul do Levante. A destruição de c. 830 a.C. por Hazael, com a trincheira de cerco, foi o tema do Capítulo 9. O caco com os nomes parecidos a "Golias" foi o do Capítulo 6, e os templos de colunas, o do Capítulo 4.
Dois achados ainda não contados. Um altar de pedra de mais de um metro de altura, do século IX a.C., o mais antigo desse tipo na Filístia. Ele tem dois chifres, e não os quatro dos altares de Israel, como o de Berseba. E uma parede comprida tombada, que a equipe liga a um terremoto do século VIII a.C. Alguns relacionam esse terremoto ao que Amós 1.1 usa para datar a profecia: "dois anos antes do terremoto".
⚠️ A ligação com o terremoto de Amós é uma hipótese de datação: o texto não diz qual foi, e terremotos são comuns na região. O altar mostra que o culto filisteu seguia um modelo próprio, só isso.
49 — ASDODE E GAZAO que a pá ainda não disse
Asdode foi escavada por Moshe Dothan de 1962 a 1972, e vêm dali a Ashdoda (Capítulo 1) e os fragmentos da estela de Sargão II (Capítulo 9). Gaza, a cidade mais ao sul, continua habitada, e por isso é a que menos se conhece. Cada uma das cinco cidades tem sua história de achados, e nenhuma está esgotada. O que se vê, até aqui, é uma cultura que nasce egeia, se mistura aos vizinhos ao longo dos séculos e desaparece como povo no século VI a.C. Mas deixa os nomes de suas cidades.
50 — O NOME "PALESTINA"Como a palavra chegou até aqui
A história do nome é uma história de fontes, e cabe contá-la em ordem, sem tomar partido em nada além dos fatos. No Egito, por volta de 1177 a.C., os peleset (Capítulo 1). Na Bíblia hebraica, Pelesheth, a terra, e Pelishtim, o povo. Os assírios, por volta de 800 a.C., escrevem Palastu numa lista de reinos que pagavam tributo (a Placa de Nimrud, do rei Adad-nirari III).
Cinco formas, uma mesma raiz. O hebraico Pelesheth (פְּלֶשֶׁת), "terra dos filisteus", e Pelishtim (פְּלִשְׁתִּים), "filisteus". O egípcio peleset. O acádio Palastu. O grego Palaistínē (Παλαιστίνη), que Heródoto escreve. Os estudiosos consideram as cinco aparentadas. O que eles não sabem é como o próprio povo se chamava.
No século V a.C., o historiador grego Heródoto usa uma expressão que vai ficar: "a Síria Palestina". Para ele, o nome cobre a faixa da costa, e em um trecho diz que o litoral, da Fenícia até a cidade de Cadítis, é dos "sírios chamados palestinos" (Histórias III, 5; resumo meu). Quando os romanos escrevem sobre a região, já existe um uso geográfico, em grego e em latim.
Depois da revolta de Bar Kokhba (132–135 d.C.), o imperador Adriano deu à província da Judeia o nome de Síria Palestina. A data exata e os motivos da mudança são discutidos, mas o nome "Palestina", como já vimos, não era invenção dele. A palavra chega ao português do latim Palaestina, do grego Palaistínē e do hebraico Pelesheth, a "terra dos filisteus".
É um nome que hoje é usado em sentidos diferentes por pessoas diferentes, com carga política forte. Este livro não entra nessa discussão. O que ele registra é o que as fontes antigas dão: um nome que nasceu como o nome de um povo da costa e acabou nomeando uma região inteira.
51 — DEPOIS DOS FILISTEUSGaza, Azoto e os apóstolos
No Novo Testamento, as cidades filisteias continuam no mapa. Filipe vai a Gaza At 8.26 e, depois de batizar o etíope, "se achou em Azoto e, indo passando, anunciava o evangelho em todas as cidades, até que chegou a Cesaréia" At 8.40. Azoto é Asdode em grego, a cidade onde Dagom caiu. Os dois nomes que a ACF usa, "Gaza" e "Azoto", fecham um círculo: as cidades dos filisteus recebem o evangelho.
E a frase "que está deserta" tem duas leituras. Alguns entendem que ela descreve o caminho, uma estrada que atravessava o deserto. Outros, que se refere à cidade: a Gaza antiga teria sido destruída e uma nova construída em outro lugar. O grego permite os dois, e os estudiosos se dividem.
52 — PASSAGENS QUE GANHAM SENTIDO NOVOSeis leituras que mudam
"Cinco príncipes". Quando você lê "o gazeu, e o asdodeu, o asqueloneu, o giteu, e o ecroneu" Js 13.3, vê uma lista de cinco cidades-estado com governantes próprios, e não um reino. Isso ajuda a entender por que os filisteus decidem em conselho, como em 1 Samuel 5 e 6.
"Incircuncisos". A palavra que a Bíblia usa para os filisteus Jz 14.3 é uma marca cultural, e não uma descrição de ofício ou de raça. Os pais de Sansão a usam, e Jônatas também 1Sm 14.6.
O ferro de 1 Samuel 13. A palavra pim, que a ACF não traduz como peso, ganha sentido: o pequeno peso de Gezer mostra que o preço de afiar uma enxada era real (Capítulo 6).
Dagom e a Ashdoda. O deus caído de cara no chão 1Sm 5.3 deixa de ser uma figura abstrata: havia um deus de grão com velhíssima história e uma deusa sentada num trono, de estilo egeu (Capítulo 2).
Aquis. O rei de Gate que confiava em Davi 1Sm 29.6 tem um nome que volta, mais de três séculos depois, em Ecrom, numa inscrição do rei Ikausu (Capítulos 2 e 7).
Os quereteus e os giteus de Davi. A guarda do rei, com os seiscentos de Itai, 2Sm 15.18-22 lembra que a fronteira entre os povos era mais porosa do que a memória nacional costuma guardar.
Do primeiro poço cavado em Gerar ao último verso sobre Ecrom, a Bíblia nunca tratou os filisteus como figurantes. Eles têm nome, cidade, deus, medo e um rei que confia em Davi. E a última palavra sobre eles não é a espada: é "remanescente para o nosso Deus". Quem lê com honestidade descobre que o "inimigo" do texto tinha rosto, e que Deus o conhecia pelo nome.
VOCÊ SABIA?Curiosidades sobre os filisteus
A língua que quase sumiu
Da fala própria dos filisteus sobraram quase só nomes, como Golias e Aquis (Ikausu), e a palavra seren, "príncipe" Js 13.3.
A fábrica de Ecrom
Mais de cem prensas de azeite no século VII a.C., em prédios de três cômodos.
Cerveja e vinho
Jarros de beber com um bico filtrante e grandes taças de vinho estão entre as peças mais comuns nas casas filisteias.
O porco que sumiu
Havia muito porco no começo da fase filisteia. No tempo de Nabucodonosor, quase nenhum.
Cinco, quatro, cinco
Cinco cidades na pentápole, quatro nos oráculos dos profetas, e cinco tumores de ouro devolvidos com a arca 1Sm 6.17.
Dez pessoas, uma conclusão cautelosa
O DNA de Asquelom (2019) mostra uma ancestralidade que chega no século XII a.C. e se dilui em até dois séculos.
PARA LEVAR NA BÍBLIAOito versículos-chave
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Asquelom
O primeiro cemitério filisteu, com mais de duzentas pessoas, e a destruição de 604 a.C.
Ecrom
A cidade do azeite e da inscrição de Ikausu, vassala da Assíria e próspera ao mesmo tempo.
Gate
Cidade grande, destruída por Hazael por volta de 830 a.C., com um altar de dois chifres.
Do peleset a "Palestina"
Um nome egípcio de 1177 a.C. que passou pelo hebraico, pelo assírio, pelo grego e pelo latim.
Do poço de Gerar à promessa de Zacarias, a Filístia da Bíblia cabe entre duas frases: "Até aqui nos ajudou o Senhor" e "Ecrom como um jebuseu". Na série Povos e Mundos da Bíblia, os livros sobre os assírios e os babilônios acompanham as campanhas que passaram por essas cidades.
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