Barulho de cavalos, estrondo de carros, rodas rangendo. As águas do norte se levantam e viram uma torrente que alaga a terra, a cidade e os moradores. E o texto de Jeremias descreve o pânico em dois traços: "os pais não atendem aos filhos, por causa da fraqueza das mãos" Jr 47.2-3.
Esse é o oráculo contra os filisteus, e é um dos mais duros da Bíblia. Este capítulo percorre os profetas na ordem em que eles falam, de Amós a Zacarias. Termina com o documento babilônico que registra o fim de Ascalom e com duas palavras de esperança, que são o que dá a este livro o final que ele tem.
41 — AMÓS E JOELGaza, o mercado de gente
O primeiro oráculo está em Amós, por volta de 760 a.C. Ele usa a fórmula que abre toda a série das nações vizinhas, "por três transgressões... e por quatro", e diz qual foi o crime de Gaza:
É uma acusação de tráfico de gente: cativos em massa entregues a Edom. O castigo seguinte alcança Asdode, "o que tem o cetro de Ascalom" e Ecrom, "e o restante dos filisteus perecerá" Am 1.8. Observe os nomes: são quatro cidades, não cinco. Gate, a quinta da pentápole, não aparece. Mais adiante, Amós a cita de passagem, para comparar o tamanho dos reinos Am 6.2.
Joel traz uma acusação parecida, de outro ângulo. Tiro, Sidom e "todas as regiões da Filístia" são chamadas a prestar contas: "E vendestes os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos, para os apartar para longe dos seus termos". A sentença é uma inversão: "Eis que eu os suscitarei do lugar para onde os vendestes, e farei tornar a vossa paga sobre a vossa própria cabeça" Jl 3.4-7. A data de Joel é debatida entre os estudiosos, e as propostas vão do século IX ao IV a.C. O que a passagem mostra é que a costa filisteia era também um mercado, em que gente de Judá foi vendida a compradores do mar Egeu.
Imagine uma criança de Judá, levada numa incursão, vendida num porto e entregue a navios. Para quem comprava e vendia, era mercadoria. Os profetas puxam a conversa para onde ela dói: gente não é mercadoria, e o mercador que vende gente fica devendo. Repare que a acusação não é teológica, de culto errado. É ética e muito concreta: quem vendeu quem.
42 — ISAÍASA vara quebrada
Isaías fala dos filisteus em várias passagens. Em duas, eles são parte do cerco ao povo de Deus: "Pela frente virão os sírios, e por detrás os filisteus, e devorarão a Israel à boca escancarada" Is 9.12, e Israel se encheu de costumes estrangeiros e "são agoureiros como os filisteus" Is 2.6. Em outra, eles aparecem no futuro, entre os que serão vencidos Is 11.14.
A mais famosa é a que começa com uma data: "No ano em que morreu o rei Acaz, foi dada esta sentença" Is 14.28. O recado é um aviso contra a comemoração:
Quem é a "vara"? É debatido. As propostas incluem um rei assírio que morreu (Tiglate-Pileser III ou Salmaneser V) e um rei de Judá, como Uzias, que feriu a Filístia. O texto não diz. O aviso é claro: o fim de um opressor pode trazer um pior. E o versículo 31 desenha o que vem: "Dá uivos, ó porta, grita, ó cidade; tu, ó Filístia, estás toda derretida; porque do norte vem uma fumaça, e não haverá quem fique sozinho nas suas convocações" Is 14.31. A "fumaça do norte" é, em geral, lida como o exército assírio. O capítulo termina com uma frase que serve de resposta aos mensageiros dos filisteus: "Que o Senhor fundou a Sião, para que os opressos do seu povo nela encontrem refúgio" Is 14.32.
43 — SOFONIAS E JEREMIASA costa desarraigada
Sofonias fala no tempo do rei Josias, no fim do século VII a.C. O primeiro verso do oráculo contra a costa é um jogo de sons:
No hebraico, o nome de Gaza, 'Azzah (עַזָּה), soa quase igual a 'azubah, "abandonada", do verbo 'azab (עָזַב, "deixar, abandonar"). E 'Ekron soa como te'aker, "será desarraigada", do verbo 'aqar (עָקַר, "arrancar pela raiz", segundo Strong). Muitos comentaristas notam esses trocadilhos, que o português não reproduz. É como se o profeta dissesse: "Gaza vai ficar Gaza-abandonada, Ecrom vai ficar Ecrom-arrancada".
Em Jeremias 47.5, outra palavra forte: "A calvície veio sobre Gaza". O hebraico qorchah (קָרְחָה) é "calvície" e vem do verbo "raspar a cabeça". Raspar a cabeça era sinal de luto.
Sofonias promete que a costa ficará vazia, "de pastos e cabanas para os pastores", e que "será a costa para o restante da casa de Judá; [...] de tarde se deitarão nas casas de Ascalom" Sf 2.6-7. Quanto a Asdode, o verso fala em ser "expelida ao meio-dia", uma imagem de ataque em plena luz. O historiador grego Heródoto conta que o faraó Psamético I sitiou a cidade de Azoto, a Asdode dos filisteus, por vinte e nove anos, o cerco mais longo que ele conhecia (Histórias II, 157; resumo meu). Se o relato é exato, é um retrato de como a costa foi dilacerada entre os impérios.
Jeremias 47 começa com uma indicação de data: "A palavra do Senhor, que veio a Jeremias, o profeta, contra os filisteus, antes que Faraó ferisse a Gaza" Jr 47.1. Muitos ligam esse Faraó a Neco II (outros, a Psamético I), e Heródoto fala de uma cidade síria chamada Cadítis que Neco tomou, e que se costuma identificar com Gaza (Histórias II, 159). A identificação é discutida. O oráculo fala em "o remanescente da ilha de Caftor" Jr 47.4: o profeta lembra a origem dos filisteus (Capítulo 1) no momento em que o fim chega, e conclui com uma espada que não descansa:
Jeremias 25 inclui "todos os reis da terra dos filisteus, e a Ascalom, e a Gaza, e a Ecrom, e ao remanescente de Asdode" entre as nações que beberão o cálice da ira de Deus Jr 25.20. De novo, quatro cidades.
A Crônica Babilônica que cobre o primeiro ano de Nabucodonosor (604/603 a.C.) diz, em tradução minha: "Marchou para a cidade de Ascalom e a tomou no mês de Kislimu. Capturou o seu rei, saqueou-a e levou o despojo. Transformou a cidade em montes de ruínas e, no mês de Sabatu, voltou à Babilônia." A tabuinha está no Museu Britânico (BM 21946). Em Ascalom, a expedição Leon Levy acha, para o fim do século VII a.C., uma camada de destruição que combina com isso. Para o diretor Lawrence Stager, a camada de incêndio corresponde ao saque que a Crônica data de Kislimu (novembro–dezembro) de 604 a.C.; Ecrom, segundo a leitura mais comum, teve um fim parecido na mesma época.
⚠️ A destruição de Ascalom, em 604 a.C., é um caso em que um oráculo bíblico contra uma cidade e um texto babilônico de data certa se encontram. Mas o oráculo de Jeremias não cita Nabucodonosor, e a Bíblia não conta a queda. O cruzamento é uma conclusão dos historiadores.
44 — EZEQUIEL E OBADIASVingança e vizinhança
Ezequiel, já no exílio, dá o motivo do juízo de outro jeito. Os filisteus "se houveram vingativamente, e executaram vingança com desprezo de coração, para destruírem com perpétua inimizade", e por isso o Senhor estende a mão contra eles, arranca os quereteus e destrói "o restante da costa do mar" Ez 25.15-17. É a palavra mais dura e a mais curta: uma inimizade antiga que nunca esfriou. Em outro lugar, Ezequiel dá a Jerusalém uma imagem humilhante: as "filhas dos filisteus", que a desprezavam, "se envergonhavam do teu caminho depravado" Ez 16.27. Até os filisteus estavam envergonhados do que Jerusalém andava fazendo.
Obadias, num oráculo sobre Edom, tem um verso de volta da terra: "E os do sul possuirão o monte de Esaú, e os das planícies, os filisteus" Ob 19. A planície filisteia, que Israel nunca ocupou de vez, aparece como uma promessa de herança.
45 — ZACARIAS E O SALMO 87"Ecrom como um jebuseu"
Depois de tanto juízo, vem o texto mais surpreendente do capítulo. Zacarias 9 começa com um oráculo contra Hadraque, Damasco, Tiro e Sidom, e depois chega à Filístia:
Muitos estudiosos ligam essa sequência de cidades, Tiro, Gaza, Ascalom, à marcha de Alexandre, o Grande, pela costa em 332 a.C. Outros pensam em uma data bem anterior, como a da conquista assíria. É um debate antigo, e o texto não menciona Alexandre. Mas o que vem a seguir não tem paralelo nos outros oráculos:
Os filisteus passam a ser um "remanescente para o nosso Deus". E o "jebuseu", o povo que vivia em Jerusalém antes de Davi, foi absorvido em Judá. A leitura comum é que Ecrom, a cidade que gritou de pavor quando a arca chegou, será incorporada ao povo de Deus do mesmo jeito. É uma promessa rara para uma cidade filisteia.
O Salmo 87 diz algo parecido, em forma de cântico:
O poeta fala de Sião como a cidade onde se registram os nascimentos dos povos, e inclui entre os "nascidos" nela filisteus, tirenses e etíopes Sl 87.4-6. É uma ideia que combina com Amós 9.7 (Capítulo 1): o Deus que fez subir os filisteus de Caftor conhece o nome deles.
No século V a.C., o livro de Neemias deixa ver o que sobrou da Filístia: os asdoditas estão entre os adversários da reconstrução dos muros de Jerusalém Ne 4.7-8. Neemias critica os judeus que se casaram com mulheres asdoditas, amonitas e moabitas, e diz que "seus filhos falavam meio asdodita, e não podiam falar judaico" Ne 13.23-24. É uma das últimas vezes em que a Bíblia dá uma língua à Filístia: o "asdodita" seguia diferente do hebraico de Judá, mesmo cerca de setecentos anos depois da chegada dos Povos do Mar.
⚠️ O que era esse "asdodita" é discutido: dialeto cananeu, aramaico ou mistura de línguas locais. O texto diz só que a língua era diferente.
Os profetas que anunciam o fogo sobre Gaza também dizem que Ecrom será "como um jebuseu", e um salmo diz que alguém da Filístia "nasceu" em Sião. Isso não anula o juízo, mas muda o final. A Bíblia mostra o que Deus faz com a injustiça, e também deixa uma porta aberta para quem era o inimigo. A pergunta de quem lê é: quem é a minha "Ecrom", e eu tenho coragem de acreditar que o Senhor pode dizer dela "remanescente para o nosso Deus"?
PARA FIXARO que ficou do capítulo
O crime de Gaza
Vender gente: povoados inteiros entregues a Edom Am 1.6, e judeus vendidos aos gregos Jl 3.6.
Quatro cidades nos oráculos
Gaza, Asdode, Ascalom e Ecrom. Gate some das listas depois de c. 830 a.C.
604 a.C.
A Crônica Babilônica registra Nabucodonosor tomando Ascalom e a deixando em ruínas. Jeremias 47 e Sofonias 2.4 falam da mesma costa.
"Ecrom como um jebuseu"
A promessa de Zacarias, junto com o Salmo 87.4, põe filisteus no povo de Deus Zc 9.7.
Próximo capítulo: o que a pá encontrou, cidade por cidade, e como o nome dos filisteus chegou até hoje na palavra "Palestina".
Leve este capítulo com você
Baixe o Capítulo 10 — Os profetas e o fim em PDF — diagramado, com as obras de arte e as 4 camadas de estudo, pronto pra ler offline, imprimir ou usar no preparo do sermão.
🔒 PDF do capítulo