Os FilisteusCapítulo 10 de 11 ⤓ PDF
O profeta Jeremias de pé sobre degraus de pedra, de braço erguido, cercado por homens abatidos; gravura de Gustave Doré
CAPÍTULO 10 DE 11

Os profetas e o fim

De Amós a Zacarias: quatro cidades, uma costa e uma esperança

Quase todos os profetas têm uma palavra contra os filisteus. Algumas são de uma dureza que assusta. Duas são de esperança que ninguém esperava. E em 604 a.C., uma delas se cumpre num documento babilônico.

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Barulho de cavalos, estrondo de carros, rodas rangendo. As águas do norte se levantam e viram uma torrente que alaga a terra, a cidade e os moradores. E o texto de Jeremias descreve o pânico em dois traços: "os pais não atendem aos filhos, por causa da fraqueza das mãos" Jr 47.2-3.

Esse é o oráculo contra os filisteus, e é um dos mais duros da Bíblia. Este capítulo percorre os profetas na ordem em que eles falam, de Amós a Zacarias. Termina com o documento babilônico que registra o fim de Ascalom e com duas palavras de esperança, que são o que dá a este livro o final que ele tem.

41 — AMÓS E JOELGaza, o mercado de gente

O primeiro oráculo está em Amós, por volta de 760 a.C. Ele usa a fórmula que abre toda a série das nações vizinhas, "por três transgressões... e por quatro", e diz qual foi o crime de Gaza:

"Assim diz o Senhor: Por três transgressões de Gaza, e por quatro, não retirarei o castigo, porque levaram em cativeiro todos os cativos para os entregarem a Edom. Por isso porei fogo ao muro de Gaza, e ele consumirá os seus palácios." Amós 1.6-7

É uma acusação de tráfico de gente: cativos em massa entregues a Edom. O castigo seguinte alcança Asdode, "o que tem o cetro de Ascalom" e Ecrom, "e o restante dos filisteus perecerá" Am 1.8. Observe os nomes: são quatro cidades, não cinco. Gate, a quinta da pentápole, não aparece. Mais adiante, Amós a cita de passagem, para comparar o tamanho dos reinos Am 6.2.

Joel traz uma acusação parecida, de outro ângulo. Tiro, Sidom e "todas as regiões da Filístia" são chamadas a prestar contas: "E vendestes os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos, para os apartar para longe dos seus termos". A sentença é uma inversão: "Eis que eu os suscitarei do lugar para onde os vendestes, e farei tornar a vossa paga sobre a vossa própria cabeça" Jl 3.4-7. A data de Joel é debatida entre os estudiosos, e as propostas vão do século IX ao IV a.C. O que a passagem mostra é que a costa filisteia era também um mercado, em que gente de Judá foi vendida a compradores do mar Egeu.

👁️ Como era viver ali

Imagine uma criança de Judá, levada numa incursão, vendida num porto e entregue a navios. Para quem comprava e vendia, era mercadoria. Os profetas puxam a conversa para onde ela dói: gente não é mercadoria, e o mercador que vende gente fica devendo. Repare que a acusação não é teológica, de culto errado. É ética e muito concreta: quem vendeu quem.

42 — ISAÍASA vara quebrada

Isaías fala dos filisteus em várias passagens. Em duas, eles são parte do cerco ao povo de Deus: "Pela frente virão os sírios, e por detrás os filisteus, e devorarão a Israel à boca escancarada" Is 9.12, e Israel se encheu de costumes estrangeiros e "são agoureiros como os filisteus" Is 2.6. Em outra, eles aparecem no futuro, entre os que serão vencidos Is 11.14.

A mais famosa é a que começa com uma data: "No ano em que morreu o rei Acaz, foi dada esta sentença" Is 14.28. O recado é um aviso contra a comemoração:

"Não te alegres, tu, toda a Filístia, por estar quebrada a vara que te feria; porque da raiz da cobra sairá um basilisco, e o seu fruto será uma serpente ardente, voadora." Isaías 14.29

Quem é a "vara"? É debatido. As propostas incluem um rei assírio que morreu (Tiglate-Pileser III ou Salmaneser V) e um rei de Judá, como Uzias, que feriu a Filístia. O texto não diz. O aviso é claro: o fim de um opressor pode trazer um pior. E o versículo 31 desenha o que vem: "Dá uivos, ó porta, grita, ó cidade; tu, ó Filístia, estás toda derretida; porque do norte vem uma fumaça, e não haverá quem fique sozinho nas suas convocações" Is 14.31. A "fumaça do norte" é, em geral, lida como o exército assírio. O capítulo termina com uma frase que serve de resposta aos mensageiros dos filisteus: "Que o Senhor fundou a Sião, para que os opressos do seu povo nela encontrem refúgio" Is 14.32.

43 — SOFONIAS E JEREMIASA costa desarraigada

Sofonias fala no tempo do rei Josias, no fim do século VII a.C. O primeiro verso do oráculo contra a costa é um jogo de sons:

"Porque Gaza será desamparada, e Ascalom assolada; Asdode ao meio-dia será expelida, e Ecrom será desarraigada." Sofonias 2.4
🔎 A palavra original

No hebraico, o nome de Gaza, 'Azzah (עַזָּה), soa quase igual a 'azubah, "abandonada", do verbo 'azab (עָזַב, "deixar, abandonar"). E 'Ekron soa como te'aker, "será desarraigada", do verbo 'aqar (עָקַר, "arrancar pela raiz", segundo Strong). Muitos comentaristas notam esses trocadilhos, que o português não reproduz. É como se o profeta dissesse: "Gaza vai ficar Gaza-abandonada, Ecrom vai ficar Ecrom-arrancada".

Em Jeremias 47.5, outra palavra forte: "A calvície veio sobre Gaza". O hebraico qorchah (קָרְחָה) é "calvície" e vem do verbo "raspar a cabeça". Raspar a cabeça era sinal de luto.

Sofonias promete que a costa ficará vazia, "de pastos e cabanas para os pastores", e que "será a costa para o restante da casa de Judá; [...] de tarde se deitarão nas casas de Ascalom" Sf 2.6-7. Quanto a Asdode, o verso fala em ser "expelida ao meio-dia", uma imagem de ataque em plena luz. O historiador grego Heródoto conta que o faraó Psamético I sitiou a cidade de Azoto, a Asdode dos filisteus, por vinte e nove anos, o cerco mais longo que ele conhecia (Histórias II, 157; resumo meu). Se o relato é exato, é um retrato de como a costa foi dilacerada entre os impérios.

Jeremias 47 começa com uma indicação de data: "A palavra do Senhor, que veio a Jeremias, o profeta, contra os filisteus, antes que Faraó ferisse a Gaza" Jr 47.1. Muitos ligam esse Faraó a Neco II (outros, a Psamético I), e Heródoto fala de uma cidade síria chamada Cadítis que Neco tomou, e que se costuma identificar com Gaza (Histórias II, 159). A identificação é discutida. O oráculo fala em "o remanescente da ilha de Caftor" Jr 47.4: o profeta lembra a origem dos filisteus (Capítulo 1) no momento em que o fim chega, e conclui com uma espada que não descansa:

"Mas como te aquietarás? Pois o Senhor deu ordem à espada contra Ascalom, e contra a praia do mar, para onde ele a enviou." Jeremias 47.7

Jeremias 25 inclui "todos os reis da terra dos filisteus, e a Ascalom, e a Gaza, e a Ecrom, e ao remanescente de Asdode" entre as nações que beberão o cálice da ira de Deus Jr 25.20. De novo, quatro cidades.

🏺 O que a pá encontrou

A Crônica Babilônica que cobre o primeiro ano de Nabucodonosor (604/603 a.C.) diz, em tradução minha: "Marchou para a cidade de Ascalom e a tomou no mês de Kislimu. Capturou o seu rei, saqueou-a e levou o despojo. Transformou a cidade em montes de ruínas e, no mês de Sabatu, voltou à Babilônia." A tabuinha está no Museu Britânico (BM 21946). Em Ascalom, a expedição Leon Levy acha, para o fim do século VII a.C., uma camada de destruição que combina com isso. Para o diretor Lawrence Stager, a camada de incêndio corresponde ao saque que a Crônica data de Kislimu (novembro–dezembro) de 604 a.C.; Ecrom, segundo a leitura mais comum, teve um fim parecido na mesma época.

⚠️ A destruição de Ascalom, em 604 a.C., é um caso em que um oráculo bíblico contra uma cidade e um texto babilônico de data certa se encontram. Mas o oráculo de Jeremias não cita Nabucodonosor, e a Bíblia não conta a queda. O cruzamento é uma conclusão dos historiadores.

44 — EZEQUIEL E OBADIASVingança e vizinhança

Ezequiel, já no exílio, dá o motivo do juízo de outro jeito. Os filisteus "se houveram vingativamente, e executaram vingança com desprezo de coração, para destruírem com perpétua inimizade", e por isso o Senhor estende a mão contra eles, arranca os quereteus e destrói "o restante da costa do mar" Ez 25.15-17. É a palavra mais dura e a mais curta: uma inimizade antiga que nunca esfriou. Em outro lugar, Ezequiel dá a Jerusalém uma imagem humilhante: as "filhas dos filisteus", que a desprezavam, "se envergonhavam do teu caminho depravado" Ez 16.27. Até os filisteus estavam envergonhados do que Jerusalém andava fazendo.

Obadias, num oráculo sobre Edom, tem um verso de volta da terra: "E os do sul possuirão o monte de Esaú, e os das planícies, os filisteus" Ob 19. A planície filisteia, que Israel nunca ocupou de vez, aparece como uma promessa de herança.

45 — ZACARIAS E O SALMO 87"Ecrom como um jebuseu"

Depois de tanto juízo, vem o texto mais surpreendente do capítulo. Zacarias 9 começa com um oráculo contra Hadraque, Damasco, Tiro e Sidom, e depois chega à Filístia:

"Ascalom o verá e temerá; também Gaza, e terá grande dor; igualmente Ecrom; porque a sua esperança será confundida; e o rei de Gaza perecerá, e Ascalom não será habitada. E um bastardo habitará em Asdode, e exterminarei a soberba dos filisteus." Zacarias 9.5-6

Muitos estudiosos ligam essa sequência de cidades, Tiro, Gaza, Ascalom, à marcha de Alexandre, o Grande, pela costa em 332 a.C. Outros pensam em uma data bem anterior, como a da conquista assíria. É um debate antigo, e o texto não menciona Alexandre. Mas o que vem a seguir não tem paralelo nos outros oráculos:

"E da sua boca tirarei o seu sangue, e dentre os seus dentes as suas abominações; e ele também ficará como um remanescente para o nosso Deus; e será como governador em Judá, e Ecrom como um jebuseu." Zacarias 9.7

Os filisteus passam a ser um "remanescente para o nosso Deus". E o "jebuseu", o povo que vivia em Jerusalém antes de Davi, foi absorvido em Judá. A leitura comum é que Ecrom, a cidade que gritou de pavor quando a arca chegou, será incorporada ao povo de Deus do mesmo jeito. É uma promessa rara para uma cidade filisteia.

O Salmo 87 diz algo parecido, em forma de cântico:

"Farei menção de Raabe e de Babilônia àqueles que me conhecem; eis que da Filístia, e de Tiro, e da Etiópia, se dirá: Este homem nasceu ali." Salmos 87.4

O poeta fala de Sião como a cidade onde se registram os nascimentos dos povos, e inclui entre os "nascidos" nela filisteus, tirenses e etíopes Sl 87.4-6. É uma ideia que combina com Amós 9.7 (Capítulo 1): o Deus que fez subir os filisteus de Caftor conhece o nome deles.

🔎 A palavra original

No século V a.C., o livro de Neemias deixa ver o que sobrou da Filístia: os asdoditas estão entre os adversários da reconstrução dos muros de Jerusalém Ne 4.7-8. Neemias critica os judeus que se casaram com mulheres asdoditas, amonitas e moabitas, e diz que "seus filhos falavam meio asdodita, e não podiam falar judaico" Ne 13.23-24. É uma das últimas vezes em que a Bíblia dá uma língua à Filístia: o "asdodita" seguia diferente do hebraico de Judá, mesmo cerca de setecentos anos depois da chegada dos Povos do Mar.

⚠️ O que era esse "asdodita" é discutido: dialeto cananeu, aramaico ou mistura de línguas locais. O texto diz só que a língua era diferente.

🌱 Semente de sermão

Os profetas que anunciam o fogo sobre Gaza também dizem que Ecrom será "como um jebuseu", e um salmo diz que alguém da Filístia "nasceu" em Sião. Isso não anula o juízo, mas muda o final. A Bíblia mostra o que Deus faz com a injustiça, e também deixa uma porta aberta para quem era o inimigo. A pergunta de quem lê é: quem é a minha "Ecrom", e eu tenho coragem de acreditar que o Senhor pode dizer dela "remanescente para o nosso Deus"?

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⛓️

O crime de Gaza

Vender gente: povoados inteiros entregues a Edom Am 1.6, e judeus vendidos aos gregos Jl 3.6.

4️⃣

Quatro cidades nos oráculos

Gaza, Asdode, Ascalom e Ecrom. Gate some das listas depois de c. 830 a.C.

🔥

604 a.C.

A Crônica Babilônica registra Nabucodonosor tomando Ascalom e a deixando em ruínas. Jeremias 47 e Sofonias 2.4 falam da mesma costa.

🕊️

"Ecrom como um jebuseu"

A promessa de Zacarias, junto com o Salmo 87.4, põe filisteus no povo de Deus Zc 9.7.

Próximo capítulo: o que a pá encontrou, cidade por cidade, e como o nome dos filisteus chegou até hoje na palavra "Palestina".

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