Ainda é madrugada em Asdode. Os homens da cidade chegam à casa de Dagom e encontram o deus "caído com o rosto em terra, diante da arca do Senhor" 1Sm 5.3. Eles não discutem. Levantam a imagem e a põem de volta no lugar.
Na manhã seguinte acontece de novo. Desta vez a cabeça e as palmas das mãos de Dagom estão cortadas sobre o limiar 1Sm 5.4. A cena resume este capítulo: o que os filisteus adoravam, como o adoravam e o que o texto bíblico faz com isso.
04 — DAGOM, O DEUS DA CASAPeixe, grão ou outra coisa?
Dagom é o deus mais citado dos filisteus. Três histórias o põem em cena: a arca dentro da casa dele em Asdode, o banquete em Gaza em que Sansão foi chamado para divertir a multidão e o fim de Saul em Gilboa.
Para muita gente, Dagom é um deus-peixe, meio homem, meio peixe. A ideia é antiga, mas não vem dos filisteus. O dicionário de Strong (1890) deriva o nome do hebraico dag, "peixe", e segue uma explicação que comentaristas judeus e cristãos repetem há séculos, entre eles Jerônimo (séc. IV) e Rashi (séc. XI). Hoje os especialistas desconfiam dela, e por uma boa razão: Dagom é bem mais velho que os filisteus.
O hebraico escreve Dagon (דָּגוֹן). Quase idêntica, existe outra palavra hebraica, dagan (דָּגָן), que o próprio Strong registra com o sentido de "grão", o trigo e a cevada da eira. Em Ebla e em Mari, cidades da Síria e do Eufrates no 3º e no 2º milênio a.C., um deus chamado Dagan era adorado como senhor da terra e das colheitas. Em Ugarit, na costa da Síria, um dos epítetos de Baal é "filho de Dagan" (os estudiosos discutem o que isso significa). A leitura mais aceita hoje é que o deus dos filisteus tem o mesmo nome desse velho deus semita do grão, e que "peixe" é uma etimologia popular tardia.
Um detalhe reforça isso. O livro de Josué registra cidades chamadas Bete-Dagom, "casa de Dagom": uma na terra de Judá Js 15.41 e outra no território de Aser, no norte, longe dos filisteus Js 19.27. O nome sugere que o culto de Dagom estava espalhado por Canaã, e que os filisteus o adotaram em vez de inventá-lo.
Os textos escritos pelos próprios filisteus são pouquíssimos e, segundo os estudos que consultei, nenhum cita Dagom pelo nome. O que temos vem da Bíblia e de livros posteriores. Um deles é 1 Macabeus (um livro que protestantes não incluem no cânon e católicos e ortodoxos incluem), que conta que, por volta de 147 a.C., o chefe judeu Jônatas incendiou Azoto, o nome grego de Asdode, e o templo de Dagom, com os soldados que tinham se refugiado ali 1Mc 10.83-84. Se o relato é exato, um templo dele ainda existia ali mais de mil anos depois da chegada dos filisteus.
⚠️ Isso mostra que o nome Dagom era associado a Asdode em época tardia. Não prova o que os filisteus do século XII a.C. entendiam por ele. A Bíblia é nossa principal fonte, e é uma fonte que fala do lado de fora.
Um detalhe mostra como os relatos bíblicos podem divergir. O fim de Saul aparece em duas versões. Em Samuel, os filisteus põem as armas do rei "no templo de Astarote" e pregam o corpo no muro de Bete-Sã 1Sm 31.10. Em Crônicas, as armas vão "na casa do seu deus" e a cabeça é afixada "na casa de Dagom" 1Cr 10.10. Os dois relatos podem tratar de templos diferentes, e a Bíblia não explica a diferença. O que dá para tirar dos dois: os filisteus guardavam troféus de guerra em templos.
05 — BAAL-ZEBUBE, DEUS DE ECROMA mosca, ou o príncipe?
Séculos depois, o rei Acazias, de Israel, cai de um andar de cima em Samaria e adoece. Em vez de procurar o Senhor, manda mensageiros a Ecrom:
O profeta Elias intercepta os mensageiros com uma pergunta que vale por um sermão: "Porventura não há Deus em Israel, para irdes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom?" 2Rs 1.3. O texto não explica a escolha, mas o pedido mostra que o rei via naquele deus alguém que respondia sobre saúde e futuro.
O hebraico escreve Ba'al Zevuv (בַּעַל זְבוּב): ba'al, "senhor", e zevuv, "mosca" (Strong: "uma mosca, especialmente a que pica"). Daí o apelido "senhor das moscas". A Septuaginta, a tradução grega antiga, escreve algo como "Baal-Mosca, deus de Acaron".
Mas muitos estudiosos pensam que isso é uma zombaria. Nos textos de Ugarit, zbl é título de Baal e quer dizer "príncipe" ou "exaltado". O nome do deus em Ecrom seria então Ba'al Zevul, "Baal, o Príncipe", e os israelitas teriam trocado uma letra para fazer um insulto. Há outras propostas, e nenhuma é certa. No Novo Testamento, os adversários de Jesus o acusam de expulsar demônios "por Belzebu, príncipe dos demônios" Mt 12.24, e Jesus lembra que chamaram o dono da casa por esse nome Mt 10.25. O nome grego do Novo Testamento tem um l no fim (Beelzeboúl), não um b.
"Porventura não há Deus em Israel?" O rei tinha o Senhor ao alcance e mandou perguntar longe. Na hora do medo, muita gente corre para o oráculo que está mais famoso do que fiel. A pergunta de Elias ainda cabe na boca de quem tem a Bíblia aberta e vai procurar resposta em outra porta.
06 — ASTAROTE E UMA DEUSA SEM NOME CERTODo trono egeu ao templo de Ecrom
A Bíblia diz que os filisteus tinham um templo de Astarote 1Sm 31.10. Astarote, ou Ashtoreth, é o nome hebraico de uma deusa muito antiga do mundo cananeu e fenício, ligada ao amor e à fertilidade. Israel também caiu nesse culto: no tempo dos juízes, o povo serviu "aos baalins, e a Astarote, e aos deuses da Síria, e aos deuses de Sidom, e aos deuses de Moabe, e aos deuses dos filhos de Amom, e aos deuses dos filisteus" Jz 10.6. Quer dizer: os filisteus tinham deuses próprios, e esses deuses também seduziam Israel.
E aqui a pá fala alto.
A inscrição de Ecrom. Em 1996, no sítio de Tel Miqne (Ecrom), os arqueólogos Seymour Gitin e Trude Dothan acharam, entre as ruínas de um templo, uma placa de calcário de cinco linhas, hoje no Museu de Israel. É do século VII a.C., primeira metade, e diz que o templo foi construído por Ikausu (o Aquis da Bíblia), filho de Padi, filho de Yasid, filho de Ada, filho de Yair, governante de Ecrom, e dedicado a uma deusa que o texto chama de "sua senhora" e que lhe deve dar bênção e dias longos. O nome dela está escrito Pt?yh, e a terceira letra é difícil de ler. A leitura original foi Ptgyh, uma deusa desconhecida. Outros propõem Ptryh (a filha de Baal, Pidray) e Ptnyh, que lembraria a palavra grega pótnia, "senhora".
A Ashdoda. Em Asdode, Moshe Dothan achou uma estatueta do século XII a.C.: o corpo de uma mulher que se funde a uma cadeira de quatro pernas, como se a própria deusa fosse o trono. Os arqueólogos a ligam às estatuetas de uma deusa-mãe do mundo micênico.
⚠️ A religião dos filisteus aparece, na pá, como uma mistura: uma deusa de estilo egeu, que mais tarde recebe nomes e templos semitas. A leitura mais comum é que eles trouxeram uma deusa de tradição egeia e adotaram deuses locais. A inscrição de Ecrom não confirma nem nega Dagom ou Baal-Zebube, e ainda há debate sobre o nome da deusa.
07 — ADIVINHOS, ÍDOLOS DE GUERRA E O LIMIARO cotidiano do sagrado
Quando a pestilência cai sobre eles, os filisteus não se desesperam: chamam gente do ofício. "Os filisteus chamaram os sacerdotes e os adivinhadores", e eles dão instruções de expiação 1Sm 6.2-3. Isaías, séculos depois, fala dos adivinhos como marca dos filisteus: Israel se encheu de costumes do oriente e "são agoureiros como os filisteus" Is 2.6. O termo hebraico vem de uma raiz que o dicionário de Strong liga a "encobrir, praticar magia".
Eles também levavam os deuses para a guerra. Quando Davi os derrota em Baal-Perazim, os filisteus fogem e deixam os deuses no campo: "E deixaram ali os seus ídolos; e Davi e os seus homens os tomaram" 2Sm 5.21. Crônicas conta o fim: "ordenou Davi que se queimassem a fogo" 1Cr 14.12. É o mesmo gesto dos israelitas em Ebenézer, quando trazem a arca ao campo de batalha. E os filisteus, ao ouvirem o grito de Israel, pensam em termos de deuses, no plural: "Quem nos livrará da mão desses grandiosos deuses?" 1Sm 4.8. Para eles, o Senhor era um deus poderoso entre outros.
Um último costume vem de Asdode. Depois da queda de Dagom, "nem os sacerdotes de Dagom, nem nenhum de todos os que entram na casa de Dagom pisam o limiar de Dagom em Asdode, até ao dia de hoje" 1Sm 5.5. Alguns estudiosos pensam que a frase "salta sobre o limiar" de Sofonias 1.9 ecoa esse costume. É uma hipótese.
Para o filisteu comum, a religião era sobretudo festa e proteção. Em Gaza, a casa de Dagom estava tão cheia que, além da multidão dentro, "sobre o telhado havia uns três mil homens e mulheres" vendo Sansão Jz 16.27. Um sacrifício grande era banquete, e quem estava ali "louvava ao seu deus" por uma vitória Jz 16.24. Na doença, ia-se ao sacerdote e ao adivinho. Na guerra, levavam-se as imagens. O cotidiano é o de qualquer povo antigo: o divino não ficava num canto, estava na mesa, na casa e no campo de batalha.
08 — A RESPOSTA DA BÍBLIA"Dagom, nosso deus"
O texto bíblico responde a esses deuses sem tratar os filisteus como bobos. Primeiro, ele diz o que eles acreditavam, com as palavras deles: "Nosso deus nos entregou nas mãos a Sansão" Jz 16.23. Depois mostra a fraqueza do ídolo com humor seco: um deus que precisa ser levantado do chão e posto de volta no lugar 1Sm 5.3, e que, na segunda queda, perde a cabeça e as palmas das mãos: sobra um tronco. Muitos leitores veem nisso um recado: sem cabeça, não pensa; sem mãos, não age.
Mas o clímax não é humilhar o ídolo. É a admissão dos próprios homens de Asdode: "a sua mão é dura sobre nós, e sobre Dagom, nosso deus" 1Sm 5.7. Em 2 Reis 1, a pergunta de Elias se repete três vezes (v. 3, 6 e 16). E em Sansão, a casa do deus cai com seus príncipes dentro (Jz 16.30, que o Capítulo 4 conta por inteiro).
A resposta, portanto, vem em três tempos: o deus tombado em Asdode, o oráculo desmascarado em Ecrom e o templo caindo em Gaza. Os três lugares são cidades da pentápole.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Dagom, um deus bem mais velho
Provavelmente "grão", não "peixe". Um deus Dagan já era adorado na Síria e no Eufrates muito antes dos filisteus, e havia Bete-Dagom em Canaã Js 15.41.
Baal-Zebube, o oráculo de Ecrom
"Senhor das moscas", ou uma zombaria do nome Baal-Zebul, "Baal, o Príncipe". Elias pergunta: "Porventura não há Deus em Israel?" 2Rs 1.3.
A deusa de Ecrom
A inscrição do rei Ikausu (nome que corresponde ao Aquis), do século VII a.C., dedica um templo a uma "senhora" de nome incerto. A estatueta Ashdoda lembra uma deusa egeia.
Próximo capítulo: os filisteus antes dos reis de Israel, de Gerar, nos dias de Abraão e Isaque, aos juízes, e a pergunta de quando eles realmente chegaram.
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