Os FilisteusCapítulo 4 de 11 ⤓ PDF
Sansão carrega as portas de Gaza morro acima ao amanhecer; gravura de Gustave Doré
CAPÍTULO 4 DE 11

Sansão e Dalila

O nazireu, o leão, as portas de Gaza e a casa de Dagom

Um nazireu que nasceu para começar a livrar Israel, uma mulher do vale de Soreque a quem cinco príncipes filisteus pagaram e a força que o Senhor deu e retirou. Aqui a Bíblia mostra os filisteus do cotidiano, de perto.

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O pai e a mãe vão com ele pelo caminho das vinhas de Timnate, mas é só o filho que vê o leão. Um filhote, rugindo, sai ao encontro dele. Em seguida o rapaz o despedaça "como quem despedaça um cabrito, sem ter nada na sua mão" Jz 14.6. E não conta nada aos dois.

É o começo de uma história que a Bíblia conta com humor, com sangue e com um aviso. Este capítulo percorre quatro lugares, Timnate, Leí, Gaza e a casa de Dagom, e termina com o que a pá encontrou sobre cada um.

14 — O NAZIREU DE ZORÁO menino que veio do anjo

O contexto é de dominação: "o Senhor os entregou na mão dos filisteus por quarenta anos" Jz 13.1. Em Zorá, na tribo de Dã, vive um homem chamado Manoá, cuja mulher não tem filhos. O anjo do Senhor aparece a ela e anuncia um filho, com uma ordem sobre o menino:

"Porque eis que tu conceberás e terás um filho sobre cuja cabeça não passará navalha; porquanto o menino será nazireu de Deus desde o ventre; e ele começará a livrar a Israel da mão dos filisteus." Juízes 13.5

Repare no verbo. O anjo não diz que ele acabará com os filisteus. Diz que começará a livrar. A vitória completa virá, na ordem da Bíblia, depois, com Samuel, Saul e Davi. Sansão é o começo de uma história longa.

O nazireu é alguém separado para Deus por voto. A lei de Números 6 lista três regras: não beber nada da videira, não passar navalha na cabeça e não se aproximar de um morto Nm 6.3-6. O menino cresce, "e o Senhor o abençoou", e o Espírito do Senhor "começou a incitá-lo de quando em quando" Jz 13.24-25. Dá-se a ele o nome de Sansão.

🔎 A palavra original

O hebraico escreve Shimshon (שִׁמְשׁוֹן), que o dicionário de Strong liga a shemesh, "sol": sunlight, "luz do sol". Perto da casa dele ficava a cidade de Bete-Semes, Beth Shemesh, "casa do sol". Os dois nomes brincam com a mesma palavra, mas o texto não faz nenhum comentário sobre isso, e é só uma observação dos estudiosos. A palavra nazir (נָזִיר), "nazireu", vem de uma raiz de "separar" e também designa a videira que ninguém poda, deixada crescer livre, como o cabelo do nazireu.

Dalila, em hebraico Delilah (דְּלִילָה), é explicada por Strong como "enfraquecida", "debilitada", mas a origem do nome é incerta. E um detalhe que a tradição popular esquece: o texto bíblico nunca diz que ela era filisteia. Diz que era "uma mulher do vale de Soreque" Jz 16.4, o vale que desce das colinas de Judá até a planície filisteia. O dicionário de Strong escreve "mulher filisteia", e é uma dedução, não um dado do texto.

15 — A MULHER DE TIMNATEO enigma, o leão e as raposas

Sansão desce a Timnate, uma cidade filisteia do vale de Soreque, e se encanta por uma mulher de lá. Os pais o repreendem: "não há porventura mulher entre as filhas de teus irmãos [...] para que tu vás tomar mulher dos filisteus, daqueles incircuncisos?" E ele responde com uma frase que vai marcar o livro: "Toma-me esta, porque ela agrada aos meus olhos" Jz 14.3. Em seguida o narrador faz uma observação que vira a mesa: o pai e a mãe "não sabiam que isto vinha do Senhor; pois buscava ocasião contra os filisteus" Jz 14.4.

Na volta, Sansão se desvia do caminho para ver o leão morto. Ali há um enxame de abelhas com mel. Ele tira o mel com as mãos e come andando, e dá aos pais, sem dizer de onde veio Jz 14.8-9. O leitor de Números 6 percebe o problema: o nazireu não podia se aproximar de um morto Nm 6.6. O texto de Juízes não faz esse comentário, só registra que ele guardou segredo.

O banquete de casamento dura sete dias, e trinta companheiros filisteus ficam com ele. Sansão propõe um enigma com aposta de trinta lençóis e trinta mudas de roupa: "Do comedor saiu comida, e do forte saiu doçura" Jz 14.14. Em três dias ninguém decifra. No sétimo dia, os homens pressionam a mulher com uma ameaça: "para que porventura não queimemos a fogo a ti e à casa de teu pai" Jz 14.15. Ela chora sete dias, ele cede e ela conta a resposta. Sansão diz uma frase de ofendido: "Se vós não lavrásseis com a minha novilha, nunca teríeis descoberto o meu enigma" Jz 14.18.

Então o Espírito de Deus se apossa dele, e ele desce a Ascalom, mata trinta homens, toma as roupas e paga a aposta Jz 14.19. A mulher é dada a outro. Depois de alguns dias, na sega do trigo, Sansão volta com um cabrito para visitá-la, e o sogro o barra na porta Jz 15.1-2. A resposta dele é um dos versos mais estranhos de Juízes: "Inocente sou esta vez para com os filisteus, quando lhes fizer algum mal" Jz 15.3. Ele pega trezentas raposas, junta-as duas a duas pela cauda, prende uma tocha entre elas e solta no trigo dos filisteus. Queima eira, vinha e olival Jz 15.4-5.

O ciclo da vingança gira. Os filisteus descobrem quem foi e queimam a mulher e o pai dela Jz 15.6, a mesma ameaça que ela tentou evitar traindo o marido. Sansão devolve "com grande ferimento" e se esconde na fenda da rocha de Etã.

👁️ Como era viver ali

A cena mais reveladora não é a das raposas, é a que vem depois. Os filisteus acampam contra Judá, e três mil homens de Judá descem até Sansão para amarrá-lo, não para ajudá-lo: "Não sabias tu que os filisteus dominam sobre nós? Por que, pois, nos fizeste isto?" Jz 15.11. É a voz de um povo que se acostumou. Prefere entregar o único que reage a pagar o preço da reação. Dá para entender os quarenta anos de dominação de Juízes 13.1: era um mundo em que o filisteu mandava, o israelita pagava e quem se levantava era um problema.

Também vale ver o outro lado: em Timnate, os filisteus aparecem como gente normal, com casamento de sete dias, apostas de roupa e medo de perder o trato do enigma. A cidade é um lugar onde israelita e filisteu se encontram, se casam e se enganam.

Amarrado com duas cordas novas, Sansão é levado a Leí. Os filisteus saem ao encontro dele "jubilando". Então o Espírito do Senhor se apossa dele de novo: as cordas viram "fios de linho que se queimaram no fogo". Ele acha uma queixada fresca de jumento e mata mil homens Jz 15.14-15. O verso de vitória dele, dizem os comentaristas, é um jogo de palavras no hebraico, em que "jumento" e "montão" são quase a mesma palavra, e o lugar ganha o nome de Ramate-Leí. Mas ele, que acabou de vencer mil, grita de sede: "morrerei eu pois agora de sede, e cairei na mão destes incircuncisos?" E Deus abre uma cavidade e sai água Jz 15.18-19. O vencedor depende da água. O texto resume: "E julgou a Israel, nos dias dos filisteus, vinte anos" Jz 15.20.

16 — GAZA, A NOITE E AS PORTASO homem que entrou onde não devia

O capítulo 16 começa em Gaza, a cidade mais ao sul da pentápole. Sansão entra na casa de uma prostituta. A cidade é avisada e cerca o lugar. Os gazitas montam guarda a noite toda na porta e combinam: "Até à luz da manhã esperaremos; então o mataremos" Jz 16.2.

"Porém Sansão deitou-se até à meia-noite, e à meia-noite se levantou, e arrancou as portas da entrada da cidade com ambas as umbreiras, e juntamente com a tranca as tomou, pondo-as sobre os ombros; e levou-as para cima até ao cume do monte que está defronte de Hebrom." Juízes 16.3

A cena é um insulto à cidade: a porta é a defesa e o orgulho dela, e ele a leva embora. Sansão carrega as portas até o cume de um monte que o texto situa defronte de Hebrom, a dezenas de quilômetros, em subida, de uma cidade quase ao nível do mar. O texto não diz se ele as devolveu. Gaza fica sem portas e com a lembrança de que um homem a humilhou numa noite.

17 — DALILAO preço de uma resposta

Depois, Sansão se afeiçoa a Dalila, no vale de Soreque. A reação dos cinco príncipes é imediata e vem como contrato: "Persuade-o, e vê em que consiste a sua grande força [...] e te daremos, cada um de nós, mil e cem moedas de prata" Jz 16.5. São cinco príncipes, cada um com mil e cem moedas: cinco mil e quinhentas moedas no total, uma fortuna.

Ela pergunta quatro vezes. Sansão engana três: sete vergas de vime fresco, cordas novas, sete tranças tecidas no tear. Em cada uma ela grita "Os filisteus vêm sobre ti, Sansão", e ele se levanta. Na quarta, o texto diz algo que não aparece nas outras: "importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte" Jz 16.16. E ele fala:

"E descobriu-lhe todo o seu coração, e disse-lhe: Nunca passou navalha pela minha cabeça, porque sou nazireu de Deus desde o ventre de minha mãe; se viesse a ser rapado, ir-se-ia de mim a minha força, e me enfraqueceria, e seria como qualquer outro homem." Juízes 16.17

Dalila chama os príncipes, que sobem com o dinheiro. Ele dorme nos joelhos dela, alguém corta as sete tranças, e o texto dá a frase mais amarga do capítulo: "Sairei ainda esta vez como dantes, e me sacudirei. Porque ele não sabia que já o Senhor se tinha retirado dele" Jz 16.20. Os filisteus pegam nele, "arrancaram-lhe os olhos", levam-no a Gaza, prendem-no com duas cadeias de bronze, "e girava ele um moinho no cárcere". O versículo seguinte registra algo pequeno: "E o cabelo da sua cabeça começou a crescer" Jz 16.21-22.

Sansão adormecido nos joelhos de Dalila enquanto o cabelo é cortado; gravura de Gustave Doré
Sansão e Dalila — gravura de Gustave Doré (1866), da La Sainte Bible. Domínio público.
Pintura de Rembrandt: Sansão é imobilizado no chão enquanto um soldado enfia um punhal em seu olho e Dalila foge com a tesoura
A cegueira de Sansão — Rembrandt van Rijn (1636), óleo sobre tela; Städel Museum, Frankfurt. Domínio público.

18 — A CASA DE DAGOMAs duas colunas

O fim acontece numa festa. Os príncipes se reúnem para oferecer "um grande sacrifício ao seu deus Dagom", certos de que "nosso deus nos entregou nas mãos a Sansão, nosso inimigo" Jz 16.23. O povo repete o canto. Alguém pede que tragam o prisioneiro para divertir os convidados. Ele é posto "em pé entre as colunas" da casa, que está cheia de homens e mulheres. Sobre o telhado há uns três mil Jz 16.25-27.

Sansão pede a um moço que o guie para que encoste nas colunas. E ora:

"Senhor DEUS, peço-te que te lembres de mim, e fortalece-me agora só esta vez, ó Deus, para que de uma vez me vingue dos filisteus, pelos meus dois olhos." Juízes 16.28

Ele se abraça às duas colunas do meio, diz "Morra eu com os filisteus", e a casa cai sobre os príncipes e sobre todos que estavam dentro. "E foram mais os mortos que matou na sua morte do que os que matara em sua vida" Jz 16.29-30. Os irmãos e a família do pai o descem e o enterram entre Zorá e Estaol, no sepulcro de Manoá Jz 16.31.

A última cena de Sansão é uma oração: pedir, uma vez mais, a força que ele tinha perdido. O Novo Testamento o lembra uma vez, numa lista de gente de fé: "E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté" Hb 11.32. Hebreus não comenta as falhas dele: põe o nome entre os que "da fraqueza tiraram forças" Hb 11.34.

Peça circular de jogo, em marfim, com um homem cego guiado por um menino
Peça de jogo com Sansão cego, conduzido por um menino ao templo de Dagom — marfim de morsa, arte alemã (c. 1150); The Cloisters Collection, Metropolitan Museum of Art, Nova York. CC0.
🏺 O que a pá encontrou

Timnate. A cidade onde Sansão encontrou a mulher é identificada, pela maioria, com Tel Batash, no vale de Soreque, escavado de 1977 a 1989 por Amihai Mazar e George Kelm. Sobre uma cidade cananeia destruída por incêndio no fim da Idade do Bronze, apareceu uma camada da Idade do Ferro com cerâmica filisteia. É um cenário que combina com a história: uma cidade de fronteira entre Dã e a planície, com gente do mundo filisteu.

Os templos de colunas. Em Tell Qasile, um porto filisteu na foz do rio Yarkon, onde hoje é Tel Aviv, Amihai Mazar achou uma sequência de templos do século XII ao X a.C. Na última fase, duas bases redondas de pedra, a cerca de dois metros uma da outra, aguentavam colunas de cedro: madeira queimada foi achada nelas. Em Tell es-Safi (Gate), a equipe de Aren Maeir anunciou um templo filisteu de duas colunas centrais, do século X ou IX a.C. (os relatos variam), e comentou que ele lembra o edifício de Juízes 16.

⚠️ Os templos mostram que um edifício com duas colunas centrais como o da história existia na Filístia, e que dois pilares podiam sustentar um teto. Não provam que Sansão existiu, nem que a casa de Gaza era uma delas. Nenhuma fonte da época, fora da Bíblia, cita Sansão. E os templos achados são de outras cidades e, em Gate, de época mais tardia do que a que a Bíblia indica para ele (mais ou menos de 1100 a.C. na cronologia convencional).

🌱 Semente de sermão

"Ele não sabia que já o Senhor se tinha retirado dele." Não houve grito, nem relâmpago, nem aviso. A força foi embora enquanto ele ainda se sacudia como dantes. O perigo não é só o dia em que a força acaba: é o dia em que ela acabou e a gente nem notou. E o fim é o outro lado: a oração mais fraca, "lembra-te de mim", e o Senhor responde. O mesmo cabelo que começou a crescer na prisão está no versículo logo antes do último ato.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

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Começar a livrar

O anjo diz que Sansão "começará a livrar" Israel dos filisteus Jz 13.5. Ele é o primeiro capítulo de uma guerra que dura até Davi.

💍

Timnate, Ascalom, Gaza

O mundo filisteu aparece de perto: casamento de sete dias, aposta de roupa, ameaça de fogo, portas de cidade e um moinho de prisão.

🔎

Dalila não é "filisteia" no texto

A Bíblia diz só "uma mulher do vale de Soreque" Jz 16.4. Cinco príncipes lhe oferecem mil e cem moedas de prata cada um.

🏛️

Duas colunas na pá

Templos filisteus com duas colunas centrais existiram (Tell Qasile, Tell es-Safi). Isso mostra que a cena era possível, não que aconteceu.

Próximo capítulo: a arca da aliança em terra filisteia, de Ebenézer a Asdode, a Gate, a Ecrom e de volta a Israel, num carro puxado por duas vacas.

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