O pai e a mãe vão com ele pelo caminho das vinhas de Timnate, mas é só o filho que vê o leão. Um filhote, rugindo, sai ao encontro dele. Em seguida o rapaz o despedaça "como quem despedaça um cabrito, sem ter nada na sua mão" Jz 14.6. E não conta nada aos dois.
É o começo de uma história que a Bíblia conta com humor, com sangue e com um aviso. Este capítulo percorre quatro lugares, Timnate, Leí, Gaza e a casa de Dagom, e termina com o que a pá encontrou sobre cada um.
14 — O NAZIREU DE ZORÁO menino que veio do anjo
O contexto é de dominação: "o Senhor os entregou na mão dos filisteus por quarenta anos" Jz 13.1. Em Zorá, na tribo de Dã, vive um homem chamado Manoá, cuja mulher não tem filhos. O anjo do Senhor aparece a ela e anuncia um filho, com uma ordem sobre o menino:
Repare no verbo. O anjo não diz que ele acabará com os filisteus. Diz que começará a livrar. A vitória completa virá, na ordem da Bíblia, depois, com Samuel, Saul e Davi. Sansão é o começo de uma história longa.
O nazireu é alguém separado para Deus por voto. A lei de Números 6 lista três regras: não beber nada da videira, não passar navalha na cabeça e não se aproximar de um morto Nm 6.3-6. O menino cresce, "e o Senhor o abençoou", e o Espírito do Senhor "começou a incitá-lo de quando em quando" Jz 13.24-25. Dá-se a ele o nome de Sansão.
O hebraico escreve Shimshon (שִׁמְשׁוֹן), que o dicionário de Strong liga a shemesh, "sol": sunlight, "luz do sol". Perto da casa dele ficava a cidade de Bete-Semes, Beth Shemesh, "casa do sol". Os dois nomes brincam com a mesma palavra, mas o texto não faz nenhum comentário sobre isso, e é só uma observação dos estudiosos. A palavra nazir (נָזִיר), "nazireu", vem de uma raiz de "separar" e também designa a videira que ninguém poda, deixada crescer livre, como o cabelo do nazireu.
Dalila, em hebraico Delilah (דְּלִילָה), é explicada por Strong como "enfraquecida", "debilitada", mas a origem do nome é incerta. E um detalhe que a tradição popular esquece: o texto bíblico nunca diz que ela era filisteia. Diz que era "uma mulher do vale de Soreque" Jz 16.4, o vale que desce das colinas de Judá até a planície filisteia. O dicionário de Strong escreve "mulher filisteia", e é uma dedução, não um dado do texto.
15 — A MULHER DE TIMNATEO enigma, o leão e as raposas
Sansão desce a Timnate, uma cidade filisteia do vale de Soreque, e se encanta por uma mulher de lá. Os pais o repreendem: "não há porventura mulher entre as filhas de teus irmãos [...] para que tu vás tomar mulher dos filisteus, daqueles incircuncisos?" E ele responde com uma frase que vai marcar o livro: "Toma-me esta, porque ela agrada aos meus olhos" Jz 14.3. Em seguida o narrador faz uma observação que vira a mesa: o pai e a mãe "não sabiam que isto vinha do Senhor; pois buscava ocasião contra os filisteus" Jz 14.4.
Na volta, Sansão se desvia do caminho para ver o leão morto. Ali há um enxame de abelhas com mel. Ele tira o mel com as mãos e come andando, e dá aos pais, sem dizer de onde veio Jz 14.8-9. O leitor de Números 6 percebe o problema: o nazireu não podia se aproximar de um morto Nm 6.6. O texto de Juízes não faz esse comentário, só registra que ele guardou segredo.
O banquete de casamento dura sete dias, e trinta companheiros filisteus ficam com ele. Sansão propõe um enigma com aposta de trinta lençóis e trinta mudas de roupa: "Do comedor saiu comida, e do forte saiu doçura" Jz 14.14. Em três dias ninguém decifra. No sétimo dia, os homens pressionam a mulher com uma ameaça: "para que porventura não queimemos a fogo a ti e à casa de teu pai" Jz 14.15. Ela chora sete dias, ele cede e ela conta a resposta. Sansão diz uma frase de ofendido: "Se vós não lavrásseis com a minha novilha, nunca teríeis descoberto o meu enigma" Jz 14.18.
Então o Espírito de Deus se apossa dele, e ele desce a Ascalom, mata trinta homens, toma as roupas e paga a aposta Jz 14.19. A mulher é dada a outro. Depois de alguns dias, na sega do trigo, Sansão volta com um cabrito para visitá-la, e o sogro o barra na porta Jz 15.1-2. A resposta dele é um dos versos mais estranhos de Juízes: "Inocente sou esta vez para com os filisteus, quando lhes fizer algum mal" Jz 15.3. Ele pega trezentas raposas, junta-as duas a duas pela cauda, prende uma tocha entre elas e solta no trigo dos filisteus. Queima eira, vinha e olival Jz 15.4-5.
O ciclo da vingança gira. Os filisteus descobrem quem foi e queimam a mulher e o pai dela Jz 15.6, a mesma ameaça que ela tentou evitar traindo o marido. Sansão devolve "com grande ferimento" e se esconde na fenda da rocha de Etã.
A cena mais reveladora não é a das raposas, é a que vem depois. Os filisteus acampam contra Judá, e três mil homens de Judá descem até Sansão para amarrá-lo, não para ajudá-lo: "Não sabias tu que os filisteus dominam sobre nós? Por que, pois, nos fizeste isto?" Jz 15.11. É a voz de um povo que se acostumou. Prefere entregar o único que reage a pagar o preço da reação. Dá para entender os quarenta anos de dominação de Juízes 13.1: era um mundo em que o filisteu mandava, o israelita pagava e quem se levantava era um problema.
Também vale ver o outro lado: em Timnate, os filisteus aparecem como gente normal, com casamento de sete dias, apostas de roupa e medo de perder o trato do enigma. A cidade é um lugar onde israelita e filisteu se encontram, se casam e se enganam.
Amarrado com duas cordas novas, Sansão é levado a Leí. Os filisteus saem ao encontro dele "jubilando". Então o Espírito do Senhor se apossa dele de novo: as cordas viram "fios de linho que se queimaram no fogo". Ele acha uma queixada fresca de jumento e mata mil homens Jz 15.14-15. O verso de vitória dele, dizem os comentaristas, é um jogo de palavras no hebraico, em que "jumento" e "montão" são quase a mesma palavra, e o lugar ganha o nome de Ramate-Leí. Mas ele, que acabou de vencer mil, grita de sede: "morrerei eu pois agora de sede, e cairei na mão destes incircuncisos?" E Deus abre uma cavidade e sai água Jz 15.18-19. O vencedor depende da água. O texto resume: "E julgou a Israel, nos dias dos filisteus, vinte anos" Jz 15.20.
16 — GAZA, A NOITE E AS PORTASO homem que entrou onde não devia
O capítulo 16 começa em Gaza, a cidade mais ao sul da pentápole. Sansão entra na casa de uma prostituta. A cidade é avisada e cerca o lugar. Os gazitas montam guarda a noite toda na porta e combinam: "Até à luz da manhã esperaremos; então o mataremos" Jz 16.2.
A cena é um insulto à cidade: a porta é a defesa e o orgulho dela, e ele a leva embora. Sansão carrega as portas até o cume de um monte que o texto situa defronte de Hebrom, a dezenas de quilômetros, em subida, de uma cidade quase ao nível do mar. O texto não diz se ele as devolveu. Gaza fica sem portas e com a lembrança de que um homem a humilhou numa noite.
17 — DALILAO preço de uma resposta
Depois, Sansão se afeiçoa a Dalila, no vale de Soreque. A reação dos cinco príncipes é imediata e vem como contrato: "Persuade-o, e vê em que consiste a sua grande força [...] e te daremos, cada um de nós, mil e cem moedas de prata" Jz 16.5. São cinco príncipes, cada um com mil e cem moedas: cinco mil e quinhentas moedas no total, uma fortuna.
Ela pergunta quatro vezes. Sansão engana três: sete vergas de vime fresco, cordas novas, sete tranças tecidas no tear. Em cada uma ela grita "Os filisteus vêm sobre ti, Sansão", e ele se levanta. Na quarta, o texto diz algo que não aparece nas outras: "importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte" Jz 16.16. E ele fala:
Dalila chama os príncipes, que sobem com o dinheiro. Ele dorme nos joelhos dela, alguém corta as sete tranças, e o texto dá a frase mais amarga do capítulo: "Sairei ainda esta vez como dantes, e me sacudirei. Porque ele não sabia que já o Senhor se tinha retirado dele" Jz 16.20. Os filisteus pegam nele, "arrancaram-lhe os olhos", levam-no a Gaza, prendem-no com duas cadeias de bronze, "e girava ele um moinho no cárcere". O versículo seguinte registra algo pequeno: "E o cabelo da sua cabeça começou a crescer" Jz 16.21-22.
18 — A CASA DE DAGOMAs duas colunas
O fim acontece numa festa. Os príncipes se reúnem para oferecer "um grande sacrifício ao seu deus Dagom", certos de que "nosso deus nos entregou nas mãos a Sansão, nosso inimigo" Jz 16.23. O povo repete o canto. Alguém pede que tragam o prisioneiro para divertir os convidados. Ele é posto "em pé entre as colunas" da casa, que está cheia de homens e mulheres. Sobre o telhado há uns três mil Jz 16.25-27.
Sansão pede a um moço que o guie para que encoste nas colunas. E ora:
Ele se abraça às duas colunas do meio, diz "Morra eu com os filisteus", e a casa cai sobre os príncipes e sobre todos que estavam dentro. "E foram mais os mortos que matou na sua morte do que os que matara em sua vida" Jz 16.29-30. Os irmãos e a família do pai o descem e o enterram entre Zorá e Estaol, no sepulcro de Manoá Jz 16.31.
A última cena de Sansão é uma oração: pedir, uma vez mais, a força que ele tinha perdido. O Novo Testamento o lembra uma vez, numa lista de gente de fé: "E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté" Hb 11.32. Hebreus não comenta as falhas dele: põe o nome entre os que "da fraqueza tiraram forças" Hb 11.34.
Timnate. A cidade onde Sansão encontrou a mulher é identificada, pela maioria, com Tel Batash, no vale de Soreque, escavado de 1977 a 1989 por Amihai Mazar e George Kelm. Sobre uma cidade cananeia destruída por incêndio no fim da Idade do Bronze, apareceu uma camada da Idade do Ferro com cerâmica filisteia. É um cenário que combina com a história: uma cidade de fronteira entre Dã e a planície, com gente do mundo filisteu.
Os templos de colunas. Em Tell Qasile, um porto filisteu na foz do rio Yarkon, onde hoje é Tel Aviv, Amihai Mazar achou uma sequência de templos do século XII ao X a.C. Na última fase, duas bases redondas de pedra, a cerca de dois metros uma da outra, aguentavam colunas de cedro: madeira queimada foi achada nelas. Em Tell es-Safi (Gate), a equipe de Aren Maeir anunciou um templo filisteu de duas colunas centrais, do século X ou IX a.C. (os relatos variam), e comentou que ele lembra o edifício de Juízes 16.
⚠️ Os templos mostram que um edifício com duas colunas centrais como o da história existia na Filístia, e que dois pilares podiam sustentar um teto. Não provam que Sansão existiu, nem que a casa de Gaza era uma delas. Nenhuma fonte da época, fora da Bíblia, cita Sansão. E os templos achados são de outras cidades e, em Gate, de época mais tardia do que a que a Bíblia indica para ele (mais ou menos de 1100 a.C. na cronologia convencional).
"Ele não sabia que já o Senhor se tinha retirado dele." Não houve grito, nem relâmpago, nem aviso. A força foi embora enquanto ele ainda se sacudia como dantes. O perigo não é só o dia em que a força acaba: é o dia em que ela acabou e a gente nem notou. E o fim é o outro lado: a oração mais fraca, "lembra-te de mim", e o Senhor responde. O mesmo cabelo que começou a crescer na prisão está no versículo logo antes do último ato.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Começar a livrar
O anjo diz que Sansão "começará a livrar" Israel dos filisteus Jz 13.5. Ele é o primeiro capítulo de uma guerra que dura até Davi.
Timnate, Ascalom, Gaza
O mundo filisteu aparece de perto: casamento de sete dias, aposta de roupa, ameaça de fogo, portas de cidade e um moinho de prisão.
Dalila não é "filisteia" no texto
A Bíblia diz só "uma mulher do vale de Soreque" Jz 16.4. Cinco príncipes lhe oferecem mil e cem moedas de prata cada um.
Duas colunas na pá
Templos filisteus com duas colunas centrais existiram (Tell Qasile, Tell es-Safi). Isso mostra que a cena era possível, não que aconteceu.
Próximo capítulo: a arca da aliança em terra filisteia, de Ebenézer a Asdode, a Gate, a Ecrom e de volta a Israel, num carro puxado por duas vacas.
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