Quarenta dias. Toda manhã e toda tarde, um homem sai do arraial filisteu, com o escudeiro à frente, e grita para as fileiras de Israel: "Dai-me um homem, para que ambos pelejemos" 1Sm 17.10. Ninguém sai. Do outro lado do vale, o exército inteiro do rei Saul ouve e teme 1Sm 17.11, 16.
Para chegar a esse vale, é preciso voltar uns capítulos. Saul foi ungido com uma missão: "ele livrará o meu povo da mão dos filisteus" 1Sm 9.16. Este capítulo conta como essa guerra foi, de Micmás ao vale do Carvalho, e termina no dia em que Saul ouviu as mulheres cantar. Na cronologia convencional, o reinado dele cobre c. 1050 a c. 1010 a.C.; há quem desça essas datas em décadas.
23 — O REI E A FALTA DE FERREIROSGibeá, Micmás e o monopólio
Quando Saul começa a reinar, os filisteus já têm uma guarnição em território de Israel. Samuel diz a Saul que, ao chegar ao "outeiro de Deus", ele encontrará "a guarnição dos filisteus" 1Sm 10.5. Um pouco mais tarde, Jônatas, filho de Saul, ataca essa guarnição em Gibeá. O rei toca a trombeta: "Ouçam os hebreus". O resultado é a reação em cadeia de sempre: "Israel se fez abominável aos filisteus" 1Sm 13.3-4.
O medo de Israel é descrito com uma lista: o povo se esconde "pelas cavernas, e pelos espinhais, e pelos penhascos, e pelas fortificações, e pelas covas" 1Sm 13.6. Alguns atravessam o Jordão. Saul fica com cerca de seiscentos homens 1Sm 13.15. (O número de "trinta mil carros" é muito alto para a região, e antigas versões do texto trazem "três mil". É uma das questões de transmissão do texto, e o tamanho exato do exército filisteu não é seguro.)
E então vem o texto mais famoso sobre os filisteus e o ferro:
No dia da batalha, "não se achou nem espada nem lança na mão de todo o povo que estava com Saul e com Jônatas; porém acharam-se com Saul e com Jônatas seu filho" 1Sm 13.22. O retrato é claro: um povo desarmado e um rei que só tem a si e ao filho.
O versículo 21 é um dos mais difíceis do Antigo Testamento. A ACF traduz: "Tinham porém limas para os seus sachos, e para as suas enxadas". A palavra hebraica por trás de "limas" é petsirah (פְּצִירָה), que o dicionário de Strong liga a "embotamento" e traduz como "lima". Mas o mesmo versículo traz uma palavra que ninguém entendia: pim (פִים). No início do século XX, o arqueólogo R. A. S. Macalister, escavando Gezer, achou um pequeno peso de pedra com as letras pym inscritas (um peso parecido, publicado antes por Clermont-Ganneau, tinha a inscrição difícil de ler). Era o pim: uma medida de peso de cerca de 7,6 gramas, dois terços de um siclo. O sentido do versículo, segundo muitas traduções modernas, é que o preço de afiar as ferramentas era um pim. Israel descia aos filisteus e pagava.
O ferro, na Idade do Ferro, tem uma história lenta. Nos primeiros séculos depois de 1200 a.C., o metal era raro em Canaã, e o bronze continuava comum. Os arqueólogos discutem de onde veio a técnica e quem a dominava. Uma das ideias é que o conhecimento chegou por Chipre e pelo mundo egeu, e que os filisteus tinham contato com isso.
⚠️ Nenhum achado confirma, nem refuta, que houvesse um monopólio filisteu do ferro. O texto de 1 Samuel 13 descreve o que o autor sabia: um controle de oficinas que deixava os israelitas dependentes. A única coisa que o achado do peso pim mostra é que a palavra do versículo é real e existia em Israel.
24 — JÔNATAS E O ESCUDEIRODois homens e uma penha
Foi Jônatas, e não Saul, quem rompeu o impasse. Sem avisar o pai, ele diz ao rapaz que lhe leva as armas: "Vem, passemos à guarnição destes incircuncisos; porventura operará o Senhor por nós, porque para com o Senhor nenhum impedimento há de livrar com muitos ou com poucos" 1Sm 14.6. O desfiladeiro de Micmás tem duas penhas agudas, Bozez e Sené. Os dois se mostram aos filisteus. Jônatas faz do convite deles um sinal: se disserem "esperem", ficam; se disserem "subam", sobem. A resposta é: "Subi a nós, e nós vos ensinaremos uma lição" 1Sm 14.12.
Jônatas sobe com pés e mãos, e o escudeiro atrás. Os filisteus caem diante dele, e o escudeiro os mata. Vinte homens morrem "em cerca de meia jeira de terra". Aí vem o que muda o dia: "E houve tremor no arraial, no campo e em todo o povo [...] até a terra se estremeceu porquanto era tremor de Deus" 1Sm 14.14-15. Os filisteus entram em pânico. Israel os persegue "desde Micmás até Aijalom" 1Sm 14.31.
O texto fecha o ciclo com uma frase seca sobre o reinado de Saul: "E houve uma forte guerra contra os filisteus, todos os dias de Saul; por isso Saul a todos os homens valentes e valorosos que via, os agregava a si" 1Sm 14.52. Não houve uma vitória definitiva. Houve uma guerra, e um rei que recrutava gente forte para ela.
Pense em ser lavrador de Benjamim nesses anos. A ponta do arado perde o fio, e você precisa levar a ferramenta a um ferreiro filisteu, pagar o conserto e voltar para casa sabendo que cada visita mede a força de quem manda. No campo, soldados de duas bandeiras se espionam de encosta a encosta. Quando uma companhia de saqueadores sai do campo inimigo, em três grupos, para três caminhos 1Sm 13.17-18, ninguém tem espada para impedir. A guerra de Saul é, no cotidiano, isso: falta de ferro, falta de gente armada e vizinhos com carros na planície.
25 — O CAMPEÃO DE GATEGolias e a mais famosa armadura da Bíblia
Chegamos ao vale. Os filisteus se juntam em Socó, de Judá, e acampam entre Socó e Azeca. Saul e Israel ocupam "o vale do carvalho", cada exército no seu monte, e "o vale estava entre eles" 1Sm 17.1-3. É a faixa de terra onde as colinas de Judá descem para a planície da Filístia. Quem controlasse o vale controlava o caminho para o interior.
O resto do equipamento: "grevas de bronze" nas pernas, um escudo de bronze entre os ombros, uma lança cuja haste "era como o eixo do tecelão" e cuja ponta pesava seiscentos siclos de ferro, e o escudeiro à frente 1Sm 17.6-7. Com o siclo de cerca de 11,4 gramas (um valor aproximado), a couraça pesava perto de 57 quilos e a ponta da lança, uns 7 quilos. E ele propõe o desafio nos termos de um tratado: "Se ele puder pelejar comigo, e me ferir, a vós seremos por servos; porém, se eu o vencer, [...] a nós sereis por servos" 1Sm 17.9.
A ACF chama Golias de "homem guerreiro". O hebraico é 'ish habbenayim (אִישׁ הַבֵּנַיִם): literalmente "o homem do espaço entre", ou seja, o homem que luta no espaço entre os dois exércitos. Strong o define como "um intervalo duplo, isto é, o espaço entre dois exércitos", e traduz por "campeão". É a palavra técnica para quem faz o duelo que decide a batalha. O duelo de campeões, em lugar de uma batalha inteira, é conhecido em outros textos antigos, como a Ilíada, no combate de Páris e Menelau.
O nome do vale também tem sentido. O hebraico 'Elah quer dizer "terebinto" ou "carvalho", uma árvore grande. A ACF traduziu por "vale do carvalho"; outras Bíblias deixam "vale de Elá".
A altura. A ACF diz "seis côvados e um palmo", uns 2,9 metros, contando o côvado em cerca de 45 centímetros. Mas o pergaminho de Samuel de Qumran (4QSama, do século I a.C.), a tradução grega antiga e o historiador Flávio Josefo trazem "quatro côvados e um palmo", uns 2 metros. Muitos estudiosos acham que a leitura mais curta é a original, e que o "seis" entrou na transmissão do texto, talvez por influência do "seiscentos" do versículo 7. Dois metros já fazem de Golias um homem excepcional para a época.
O nome. Em 2005, a equipe de Aren Maeir achou em Tell es-Safi (Gate) um caco de cerâmica com duas palavras escritas em alfabeto cananeu, do século X ao início do IX a.C.: algo como ʾlwt e wlt. São nomes que não parecem semitas e que lembram o de Golias. Maeir observou que o achado não prova que o Golias da Bíblia existiu. Mostra que nomes parecidos eram usados em Gate, naquela época. Um estudioso propôs que a raiz seria algo como "Alyattes", nome de reis lídios, na Anatólia. Isso é uma hipótese.
A armadura. Os estudiosos discordam sobre de onde ela vem. Alguns a comparam com armaduras gregas muito posteriores, do século VI a.C. Outros a ligam ao equipamento filisteu e micênico do século X a.C.
⚠️ A altura depende de qual manuscrito se segue: a ACF segue o hebraico tradicional, e versões antigas diferem. O caco de Gate mostra um nome do tipo, e só isso.
26 — O MENINO E A FUNDA"Do Senhor é a guerra"
Davi aparece de passagem. É o mais novo de oito filhos de Jessé, de Belém, e leva comida aos irmãos no front. Quando ouve Golias, reage ao contrário de todos: "Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?" 1Sm 17.26. Saul tenta desencorajá-lo, "tu ainda és moço, e ele homem de guerra desde a sua mocidade", e Davi responde com o que sabe fazer: ele defende rebanho de leão e de urso 1Sm 17.33-37. Saul veste nele a própria armadura, mas Davi desiste: "Não posso andar com isto, pois nunca o experimentei" 1Sm 17.39.
Ele pega o cajado, cinco seixos do ribeiro, o surrão de pastor e a funda 1Sm 17.40. A funda é uma arma séria. Entre os benjaminitas, outro texto fala de "setecentos homens escolhidos, canhotos, os quais atiravam com a funda uma pedra em um cabelo, e não erravam" Jz 20.16. O filisteu o despreza, "porquanto era moço, ruivo, e de gentil aspecto": "Sou eu algum cão, para tu vires a mim com paus?" E amaldiçoa Davi "pelos seus deuses" 1Sm 17.42-43. A resposta de Davi, na hora, é a tese do capítulo:
E fecha: "saberá toda esta congregação que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra" 1Sm 17.47. A pedra acerta a testa de Golias, que cai de rosto no chão. Davi corre, pega a espada do próprio Golias, "o matou, e lhe cortou com ela a cabeça". Os filisteus fogem, perseguidos até as portas de Ecrom e até Gate 1Sm 17.49-52. Mais tarde, o sacerdote em Nobe guarda a espada de Golias envolta num pano, atrás do éfode, e dirá a Davi: "Não há outra semelhante" 1Sm 21.9.
Quem lê com cuidado nota uma estranheza. Em 1 Samuel 16, Davi já está na corte de Saul, como músico, e é amado por ele. Em 1 Samuel 17.55-58, Saul pergunta a Abner de quem é filho aquele moço, como se nunca o tivesse visto. A tradução grega antiga, no manuscrito chamado Vaticano, é bem mais curta que o texto hebraico: não traz boa parte de 17.12-31, nem 17.41, 17.50 e 17.55 até 18.5. Para muitos estudiosos, o hebraico reúne duas versões da história, e a mais curta resolve a estranheza. Outros preferem ler o texto longo como está, como um jeito de contar o encontro que deixa a pergunta de Saul sobre a família de Davi, e não sobre quem ele é.
27 — A CANÇÃO, A INVEJA E O DOTEMilhares e dez milhares
A volta para casa é uma festa. As mulheres saem das cidades de Israel, cantando e dançando com adufes. Elas se respondem:
Saul não gosta: "Dez milhares deram a Davi, e a mim somente milhares; na verdade, que lhe falta, senão só o reino?" 1Sm 18.8. O rei, que era "tão belo" e que "desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo" 1Sm 9.2, o mais alto de Israel, foi o que não saiu ao vale. O texto não faz o comentário. O leitor faz.
Daí em diante, o plano de Saul é usar os filisteus como arma contra Davi. Quando Mical, filha dele, ama Davi, o rei pensa: "Eu lha darei, para que lhe sirva de laço, e para que a mão dos filisteus venha a ser contra ele" 1Sm 18.21. O dote que ele exige é macabro: "cem prepúcios de filisteus". O narrador explica sem rodeio: "Saul tentava fazer cair a Davi pela mão dos filisteus" 1Sm 18.25. Davi parte com seus homens, mata duzentos e traz os troféus, o dobro do pedido 1Sm 18.27. Mais tarde, quando exigir Mical de volta, Davi lembrará do preço: "que eu desposei por cem prepúcios de filisteus" 2Sm 3.14. A guerra continua: "E tornou a haver guerra; e saiu Davi, e pelejou contra os filisteus, e feriu-os com grande matança" 1Sm 19.8.
"Não posso andar com isto, pois nunca o experimentei." Davi recusa a armadura do rei, que era a melhor de Israel, porque não era dele. Há muito conselho bom que cabe no corpo de outra pessoa e pesa no nosso. Antes de pedir que Deus faça a sua parte, você precisa descobrir qual é a funda que já tem na mão. E repare no contraste: Saul tem o corpo, a armadura e o trono, e não sai; Davi só tem o nome do Senhor, e corre ao encontro.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Sem ferreiros
Israel não tinha nem espada nem lança no dia de Micmás, e descia aos filisteus para afiar as ferramentas 1Sm 13.19-22. O peso pim mostra que a palavra do versículo é real.
Jônatas em Micmás
Dois homens sobem uma penha, vinte filisteus caem, e "tremor de Deus" faz o resto 1Sm 14.15.
Golias, de 2 a 3 metros
"Seis côvados e um palmo" no hebraico tradicional, "quatro e um palmo" em Qumran, no grego e em Josefo. O caco de Gate traz um nome parecido, e nada mais.
"Do Senhor é a guerra"
Davi vai sem armadura, com uma funda e cinco seixos 1Sm 17.47. A cena é a imagem mais famosa de toda a Filístia.
Próximo capítulo: Davi entre os filisteus. O fugitivo que se escondeu em Gate, o vassalo que viveu em Ziclague e o rei que os derrotou no vale de Refaim.
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