Abimeleque está à janela e olha para fora. Lá embaixo, um estrangeiro que ele recebeu em Gerar e a mulher dele estão juntos, brincando. Não é a cena de um irmão com a irmã, como o homem tinha dito. O rei sabe na hora o que está vendo Gn 26.8.
É o primeiro "rei dos filisteus" da Bíblia. Este capítulo segue esse fio: os poços de Isaque e Abraão, o caminho da costa que Deus não quis que Israel tomasse, as cidades que ficaram sem ser conquistadas e o primeiro herói que bate nos filisteus de que a Bíblia dá notícia.
09 — A JANELA DE GERARAbraão, Isaque e os poços
Gerar fica no sul, na borda do deserto do Neguebe, e é lá que Abraão e depois Isaque vão parar em tempos de fome. O texto fala de três encontros. No primeiro, Abraão diz que Sara é sua irmã, e Abimeleque, "rei de Gerar", a toma Gn 20.1-2. Deus o avisa em sonho, ele devolve a mulher com ovelhas, vacas e servos, e Abraão ora por ele Gn 20.14-17. No segundo, o rei e Ficol, "príncipe do seu exército", procuram Abraão para um tratado, e os dois fecham aliança em Berseba por causa de um poço Gn 21.22-32. O parágrafo termina assim:
O terceiro encontro é com Isaque, que desce a Gerar "a Abimeleque, rei dos filisteus" Gn 26.1 e, como o pai, esconde que Rebeca é sua mulher. A janela do começo do capítulo é a cena que o desmascara. Depois, o texto vira uma história de água. Isaque semeia, colhe cem medidas e fica poderoso. "Os filisteus o invejavam", e fecham com terra os poços que os servos de Abraão haviam cavado Gn 26.12-15. Abimeleque pede que ele se afaste. Isaque reabre os poços, e os pastores de Gerar brigam por dois deles, que ele chama de Eseque ("contenda") e Sitna, nome que o hebraico liga à ideia de acusação ou oposição. O terceiro não é disputado:
O último ato é o inverso do primeiro. Os mesmos homens que o expulsaram voltam: "Havemos visto, na verdade, que o Senhor é contigo". Pedem juramento e dizem: "Agora tu és o bendito do Senhor" Gn 26.26-29.
O nome Abimelech (אֲבִימֶלֶךְ) é hebraico (ou semítico) e quer dizer "meu pai é rei", "pai do rei", segundo Strong. O dicionário lembra que ele é "o nome de dois reis filisteus e de dois israelitas". Isso sugere que não era nome próprio de uma só pessoa, e sim, talvez, um título dos reis dessa região, como "Faraó" é o título dos reis do Egito. O título do Salmo 34 chama de Abimeleque o rei de Gate que o relato de 1 Samuel 21 chama de Aquis, e essa diferença costuma ser lida como mais um sinal de que o nome era usado como título. É uma explicação comum, não uma certeza.
No Neguebe, quem tem água tem tudo. Um poço custa semanas de trabalho de braço, às vezes dentro da rocha. Entulhar o poço de outra pessoa, como fazem os de Gerar, é uma agressão calculada, mais dura do que um insulto e mais silenciosa que uma luta. E reabri-lo, como faz Isaque, dando o mesmo nome que o pai havia dado, é dizer que o direito vem do pai. O tratado em Berseba também gira em torno de um poço Gn 21.25-30. Nesses capítulos, os filisteus aparecem como vizinhos com quem se negocia, nunca como o exército do futuro.
10 — OS FILISTEUS ANTES DOS FILISTEUS?O debate honesto
Aqui há um problema que professores honestos precisam enfrentar. Abraão e Isaque, na cronologia bíblica comum, viveram bem antes de 1177 a.C. E, como vimos no Capítulo 1, a arqueologia só vê cultura filisteia, de tipo egeu, na costa de Canaã a partir de cerca de 1175 a.C. Como é que Gênesis fala de "filisteus" e de "terra dos filisteus"?
Repare num detalhe do texto: o capítulo 20 de Gênesis fala só em "Abimeleque, rei de Gerar". O nome "filisteus" aparece nos capítulos 21 e 26. As propostas mais comuns são três:
Primeira: o autor, ou um editor posterior, usou o nome que os leitores dele conheciam. É como quem escreve que "os romanos chegaram à Inglaterra": o nome é de hoje, a terra é a de então. A maioria dos estudiosos lê assim e chama o termo de anacronismo.
Segunda: havia gente do mundo egeu na costa antes dos Povos do Mar. Alguns estudiosos sugerem contatos e pequenos grupos mais antigos, e há quem fale em "proto-filisteus" (ideia associada a Joshua Grintz). Há quem lembre que Deuteronômio 2.23 já põe gente de Caftor perto de Gaza no tempo de Moisés. Nesse caso, "filisteus" seria o nome que a Bíblia dá ao povo que mais tarde se tornou famoso.
Terceira: as histórias foram postas por escrito tarde e refletem a época do narrador. Quem pensa assim costuma ver as narrativas de Gerar como memórias ou lendas editadas.
Gerar não tem endereço certo. Yohanan Aharoni propôs, em 1956, o sítio de Tel Haror (também chamado Tell Abu Hureira), no Neguebe ocidental, e Eliezer Oren escavou ali na década de 1980. Esse tel tem uma grande cidade da Idade do Bronze Média, bem antes dos filisteus. Outra proposta, mais antiga, é Tell Jemmeh, onde Petrie escavou em 1926–27 (hoje muitos veem ali, em vez de Gerar, a cidade de Yurza). O debate segue aberto.
⚠️ Nenhum achado em Tel Haror ou em Tell Jemmeh, até onde se sabe, resolve a pergunta. Os achados da Idade do Bronze Média provam que havia cidade grande no lugar em que a Bíblia põe Gerar, e só isso. O que a arqueologia não encontra é filisteu, no sentido dos Povos do Mar, antes de c. 1175 a.C. Por isso este livro, ao usar as histórias de Gerar, mostra as posições e não escolhe uma.
11 — O CAMINHO DA TERRA DOS FILISTEUSA estrada que Deus evitou
Quando Faraó deixa o povo ir, o texto diz que Deus escolhe um caminho mais longo, e dá o motivo:
Que estrada era essa? A que os egípcios chamavam de Caminhos de Hórus: a rota que acompanha o litoral do Sinai, da fronteira do Egito até Gaza. Num relevo de Seti I em Karnak aparecem os fortes e poços que a pontilhavam, e a maioria dos estudiosos liga o "caminho da terra dos filisteus" de Êxodo 13.17 a essa rota. Era o caminho dos exércitos, com fortes e poços ao longo da rota. Quem sai de uma escravidão não deve tomar a rota dos soldados.
A mesma pergunta do Gênesis volta aqui. Pelas duas datas usadas para o Êxodo (c. 1446 a.C. ou c. 1260–1250 a.C., que o livro Os Egípcios discute), os filisteus de Medinet Habu ainda não existiam. A leitura mais comum é que, de novo, o narrador usa o nome que o leitor dele conhecia para a região da costa. O mesmo vale para o resto do Êxodo: no Cântico do Mar, ao ouvir falar do que Deus fez no mar, "uma dor apoderou-se dos habitantes da Filístia" Êx 15.14, e, na promessa dos limites da terra, o Mediterrâneo é "o mar dos filisteus" Êx 23.31.
12 — A TERRA QUE FICOUJosué, Judá e os cinco príncipes
No livro de Josué, a Filístia aparece como a terra que Israel nunca completou. Primeiro, como uma nota sobre os gigantes: "Nenhum dos anaquins foi deixado na terra dos filhos de Israel; somente ficaram alguns em Gaza, em Gate, e em Asdode" Js 11.22. Gate é a cidade de Golias (Capítulo 6). Depois, quando Josué está velho, Deus fala da terra que ainda falta:
Mesmo assim, três das cidades filisteias, Ecrom, Asdode e Gaza, entram na lista da herança de Judá Js 15.45-47. O livro de Juízes completa o quadro: "Tomou mais Judá a Gaza com o seu termo, e a Ascalom com o seu termo, e a Ecrom com o seu termo", mas "não expulsou aos moradores do vale, porquanto tinham carros de ferro" Jz 1.18-19. E, mais adiante, o autor diz por que Deus deixou alguns povos: "Estas, pois, são as nações que o Senhor deixou ficar, para por elas provar a Israel", e a primeira da lista são "cinco príncipes dos filisteus" Jz 3.1-3.
Os textos dizem as duas coisas: Judá tomou essas cidades e, ao mesmo tempo, elas permaneceram como lugar dos filisteus. A Bíblia não explica a virada. Fica registrado como o texto é: um mapa que se desenha, desbota e é refeito.
Pense no vale que desce das colinas de Judá até a planície: pastagens ao pé da serra, campos de trigo, estradas largas. Quem controlava o vale controlava o pão e a estrada. Os "carros de ferro" de Juízes 1.19 dizem a mesma coisa de outro jeito: o povo da serra podia vencer na montanha, mas a planície, com carros, era de quem tinha cavalos e aço. A fronteira entre Israel e a Filístia é, por isso, mais um mapa de terreno do que de povos.
13 — SANGAR, E UM POVO QUE SERVE AOS DEUSES DOS OUTROSAs primeiras vitórias e a primeira opressão
O primeiro herói que a Bíblia põe contra os filisteus é de uma linha só: "Depois dele foi Sangar, filho de Anate, que feriu a seiscentos homens dos filisteus com uma aguilhada de bois; e também ele libertou a Israel" Jz 3.31. A aguilhada é a vara de ponta que o lavrador usa para tocar os bois. Sangar volta a ser lembrado no Cântico de Débora (Jz 5.6), em um tempo em que "cessaram os caminhos". O nome dele é incomum: Anate é o nome de uma deusa cananeia, e alguns estudiosos propõem que "Sangar" seja um nome de origem hurrita. O texto não diz mais nada sobre ele.
Mais à frente, as coisas pioram. O povo faz "o que era mau aos olhos do Senhor" e serve a vários deuses, entre eles "os deuses dos filisteus" Jz 10.6. A consequência: "vendeu-os nas mãos dos filisteus, e nas mãos dos filhos de Amom" Jz 10.7. Quando o povo clama, a resposta do Senhor é uma das mais duras do livro:
Ironia amarga: a Filístia que oprimia Israel era também a Filístia cujos deuses Israel servia. O povo se arrepende, "tiraram os deuses alheios do meio de si, e serviram ao Senhor", e o texto diz que "se angustiou a sua alma por causa da desgraça de Israel" Jz 10.16. É o pano de fundo para a próxima história: "o Senhor os entregou na mão dos filisteus por quarenta anos" Jz 13.1, e nasce um menino nazireu.
"Ide, e clamai aos deuses que escolhestes." A frase parece cruel, mas é uma lente: Deus tira o povo de uma ilusão com uma pergunta simples. Quem tem de socorrer você é quem você escolheu, ou quem escolheu você? Os poços de Isaque contam o outro lado: o que o inimigo entulhou, a fé reabre, com o mesmo nome do pai.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Gerar: poços e janelas
Abimeleque "rei dos filisteus" cruza com Abraão e Isaque entre poços, mentiras e tratados Gn 26.1.
Filisteus antes dos filisteus?
A arqueologia só vê os Povos do Mar a partir de c. 1175 a.C. As explicações vão de anacronismo do narrador a grupos egeus mais antigos.
O caminho da costa
A rota militar do Egito a Gaza, os Caminhos de Hórus, é a que Deus não quis que Israel tomasse Êx 13.17.
Próximo capítulo: Sansão, o nazireu que começou a livrar Israel da mão dos filisteus, e a mulher que ele ouviu quando devia ter calado.
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