No acampamento filisteu, em Afeque, ouve-se de repente um grito que faz a terra estremecer. Vem do campo de Israel, a pouca distância. Os soldados perguntam uns aos outros: "Que voz de grande júbilo é esta no arraial dos hebreus?" 1Sm 4.6. Ficam sabendo: a arca do Senhor acaba de chegar. E o medo corre entre eles: "Deus veio ao arraial. Ai de nós! Tal nunca jamais sucedeu antes" 1Sm 4.7.
O texto mostra os filisteus com medo do Deus de Israel. Este capítulo segue a arca em três atos: a batalha em que ela é tomada, o troféu que vira praga e a volta de carro, puxada por duas vacas.
19 — O GRITO E A DERROTAEbenézer e Afeque
Na primeira batalha, Israel acampa em Ebenézer e os filisteus em Afeque. Cerca de quatro mil israelitas morrem 1Sm 4.1-2. Os anciãos fazem então a pergunta certa e a resposta errada: "Por que nos feriu o Senhor hoje diante dos filisteus?" e, sem esperar resposta, mandam buscar a arca em Siló, "para que nos livre da mão de nossos inimigos" 1Sm 4.3. Com a arca vêm os dois filhos do sacerdote Eli, Hofni e Finéias.
Do outro lado, os filisteus têm medo e logo recompõem a coragem. A fala deles mostra os dois lados do medo. Primeiro, o terror religioso: "Quem nos livrará da mão desses grandiosos deuses? Estes são os deuses que feriram aos egípcios com todas as pragas junto ao deserto" 1Sm 4.8. Depois, o instinto de sobrevivência:
E eles vencem. "Caíram de Israel trinta mil homens de pé", os dois filhos de Eli morrem e "foi tomada a arca de Deus" 1Sm 4.10-11. Em Siló, um homem de Benjamim chega correndo, de roupas rotas e terra na cabeça. Eli, de noventa e oito anos, quase cego, estava sentado, "porquanto o seu coração estava tremendo pela arca de Deus". Ao ouvir que a arca foi tomada, cai da cadeira para trás e morre 1Sm 4.12-18. A nora dele, grávida, entra em trabalho de parto ao ouvir a notícia e dá ao filho um nome que é uma sentença: Icabode, "De Israel se foi a glória!" 1Sm 4.19-22.
Siló, o santuário de onde a arca saiu, foi escavada por uma missão dinamarquesa nos anos 1920 e 1930, dirigida por Hans Kjær. Ele achou uma camada de destruição por incêndio, que atribuiu a c. 1050 a.C. e ligou à queda do santuário depois da batalha de Afeque. Escavações e revisões de cerâmica posteriores (as de Israel Finkelstein, nos anos 1980, e outras, que usam a cronologia baixa) discutem a data exata, entre meados do século XI e o X a.C.
⚠️ A Bíblia nunca diz, nesses capítulos, que os filisteus destruíram Siló. Diz que a arca foi tomada e que Eli morreu. O que o texto registra, bem depois, é que Siló virou uma lição: "Mas ide agora ao meu lugar, que estava em Siló, onde, ao princípio, fiz habitar o meu nome, e vede o que lhe fiz" Jr 7.12; ver também Sl 78.60-61. Que os filisteus tenham sido os autores desse incêndio é uma hipótese, e o debate sobre a data e a causa continua entre os arqueólogos.
20 — O TROFÉU EM ASDODEO deus de cara no chão
Os filisteus levam a arca de Ebenézer a Asdode e a põem na casa de Dagom, ao lado da estátua 1Sm 5.1-2. Era o costume: o deus do vencido vira troféu do deus do vencedor. O Capítulo 2 contou o que aconteceu de manhã: Dagom estava caído, rosto em terra, duas vezes, e na segunda perde a cabeça e as palmas das mãos 1Sm 5.3-4.
Aí vem a praga. "A mão do Senhor se agravou sobre os de Asdode, e os assolou; e os feriu com hemorróidas, em Asdode e nos seus termos" 1Sm 5.6. Os homens da cidade tiram a conclusão: "Não fique conosco a arca do Deus de Israel; pois a sua mão é dura sobre nós, e sobre Dagom, nosso deus" 1Sm 5.7. Os cinco príncipes são convocados. A decisão é transferir a arca para Gate, e a praga vai junto: "feriu aos homens daquela cidade, desde o pequeno até ao grande" 1Sm 5.8-9. Mandam-na para Ecrom, e o pânico chega antes dela: "Transportaram para nós a arca do Deus de Israel, para nos matarem, a nós e ao nosso povo" 1Sm 5.10.
A ACF traduz por "hemorróidas". O hebraico tem duas palavras: 'ophalim (עֳפָלִים), que o dicionário de Strong define como "tumor" (e também "colina, fortaleza"), e techorim (טְחֹרִים), "furúnculo, úlcera", especialmente na região íntima. O texto hebraico tradicional (o ketiv) traz a primeira palavra e a leitura que se lia em voz alta (o qere) usa a segunda. Os nomes não dizem que doença era. Jerônimo, na Vulgata, falou de um mal nas partes ocultas. Alguns estudiosos modernos propuseram peste bubônica, disenteria, esquistossomose ou outra coisa.
A palavra 'akbar (עַכְבָּר), "rato" ou "camundongo" (Strong: "um rato, como que roendo"), aparece nas ofertas de ouro 1Sm 6.4-5. A tradução grega antiga acrescenta, no relato da praga, uma frase sobre ratos na terra, e alguns usam isso para sustentar a ideia da peste bubônica, que se espalha por pulgas de roedores. Outros respondem que os sintomas descritos não batem e que a frase é um acréscimo da tradução.
Imagine ser de Asdode na semana da praga. A cidade vive uma doença que ninguém entende. Os mais fracos adoecem primeiro, o medo muda de lugar, e o grito do povo "sobe até o céu" 1Sm 5.12. A decisão não é tomada por um rei, mas por cinco príncipes reunidos 1Sm 5.8, 11, cada um com a sua cidade a defender. Mandar a arca para a cidade vizinha é jogar o problema adiante. E os de Ecrom, ao vê-la chegar, gritam de pavor. Ninguém quer ficar com ela. O texto mostra os filisteus tratando a arca como se trata um deus poderoso: com medo, com cuidado e, no fim, com uma oferta.
21 — CINCO TUMORES E CINCO RATOS DE OUROO que fazer com o deus de Israel
Passados "sete meses" 1Sm 6.1, os filisteus chamam os especialistas: "os sacerdotes e os adivinhadores". A resposta é prática: não mandem a arca vazia. "Sem falta enviareis uma oferta para a expiação da culpa; então sereis curados" 1Sm 6.2-3. A oferta é: "Segundo o número dos príncipes dos filisteus, cinco hemorróidas de ouro e cinco ratos de ouro; porquanto a praga é uma mesma sobre todos vós e sobre todos os vossos príncipes" 1Sm 6.4. São imagens do mal: "umas imagens das vossas hemorróidas e dos vossos ratos, que andam destruindo a terra, e dai glória ao Deus de Israel" 1Sm 6.5.
Repare no que os adivinhadores sabem. Eles conhecem a história do Egito e a usam como argumento: "Por que, pois, endureceríeis o vosso coração, como os egípcios e Faraó endureceram os seus corações?" 1Sm 6.6. A Bíblia mostra, aqui, que o Êxodo era contado também entre os vizinhos, como aviso.
Depois vem um teste desenhado para tirar a dúvida entre duas hipóteses: castigo de Deus, ou acaso. O carro é novo. Duas vacas que acabaram de parir e nunca levaram jugo são atadas a ele, e seus bezerros ficam trancados em casa. Elas vão ser largadas no caminho:
O teste só faz sentido porque o instinto de uma vaca que cria é voltar para o bezerro. "As vacas se encaminharam diretamente pelo caminho de Bete-Semes, e seguiam um mesmo caminho, andando e berrando, sem se desviarem, nem para a direita nem para a esquerda" 1Sm 6.12. Os cinco príncipes vão atrás até o limite do território. Dali, voltam a Ecrom no mesmo dia 1Sm 6.12, 16. A narrativa não diz nenhuma palavra sobre o que pensaram. O leitor entende pelo verbo: voltaram.
Nos santuários gregos e romanos de cura, os arqueólogos acharam muitas imagens de partes do corpo doentes, oferecidas aos deuses para pedir ou agradecer a cura. É uma prática de época bem posterior à dos filisteus. Alguns comentaristas veem em 1 Samuel 6 um parente dela: as imagens de ouro seriam o "retrato" do mal devolvido ao deus que o enviou.
⚠️ É uma leitura por comparação, e não um achado ligado aos filisteus. O texto fala de uma "oferta para a expiação da culpa" e de imagens do mal, e não explica o rito além disso.
22 — BETE-SEMES E O MARCO DE SAMUEL"Até aqui nos ajudou o Senhor"
Em Bete-Semes, os lavradores estão colhendo trigo no vale. Levantam os olhos e veem a arca, e "se alegraram" 1Sm 6.13. Racham a madeira do carro, sacrificam as duas vacas no fogo, e os levitas descem a arca e o cofre de ouro e os põem sobre uma grande pedra. Mas o episódio termina mal: o Senhor fere os de Bete-Semes "porquanto olharam para dentro da arca do Senhor". O número que o texto hebraico traz, "cinqüenta mil e setenta homens", é muito alto para uma aldeia pequena, e alguns manuscritos e o historiador Flávio Josefo trazem só setenta. É um dos pontos em que a transmissão do texto é debatida 1Sm 6.19. A cidade se pergunta: "Quem poderia subsistir perante este santo Senhor Deus?" e manda a arca para Quiriate-Jearim 1Sm 6.20-21.
A arca fica vinte anos ali, e "lamentava toda a casa de Israel pelo Senhor" 1Sm 7.1-2. Então Samuel chama o povo a um ato de reforma: "Se com todo o vosso coração vos converterdes ao Senhor, tirai dentre vós os deuses estranhos e os astarotes" 1Sm 7.3. Os israelitas se reúnem em Mizpá, derramam água perante o Senhor, jejuam e confessam 1Sm 7.6. Quando os filisteus sobem contra eles, Samuel oferece um cordeiro, e "trovejou o Senhor aquele dia com grande estrondo sobre os filisteus, e os confundiu de tal modo que foram derrotados" 1Sm 7.10.
O capítulo fecha o círculo. Ebenézer é o nome do lugar da derrota 1Sm 4.1 e agora é o nome de uma pedra de vitória. O mesmo nome, dois sentidos. O narrador resume: "foi a mão do Senhor contra os filisteus todos os dias de Samuel", e as cidades tomadas por eles voltam a Israel, "desde Ecrom até Gate" 1Sm 7.13-14.
Bete-Semes é hoje Tel Beth-Shemesh, na fronteira entre as colinas de Judá e a planície. Os arqueólogos Shlomo Bunimovitz e Zvi Lederman, que escavam o sítio desde 1990, o descrevem como uma comunidade de fronteira entre Judá e a Filístia, onde se encontram cananeus, filisteus e israelitas. Afeque é identificada, de forma geral, com Tel Afek, perto das nascentes do rio Yarkon. Ebenézer, não: o lugar não foi identificado com segurança.
⚠️ Os achados mostram que a região de Bete-Semes era mesmo fronteira cultural. Eles não provam o episódio da arca nem apontam a pedra de Josué em que ela foi posta. Quando o texto diz "ainda está até ao dia de hoje" 1Sm 6.18, está falando de uma pedra do tempo do narrador.
Israel levou a arca à guerra como amuleto e perdeu. Os filisteus a levaram como troféu e adoeceram. Ninguém controla o Deus da arca. Quando ela volta, não é por obra de general nem de sacerdote: é por duas vacas que andam contra o próprio instinto. E Samuel finca a pedra: "Até aqui nos ajudou o Senhor." Até aqui é uma frase de gratidão com o futuro em aberto: olha para trás sem se acomodar, e anda para a frente com uma lembrança de pedra.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
O medo dos filisteus
Ao ouvir o grito de Israel, eles falam de "deuses" e se lembram do Egito 1Sm 4.7-8, mas vencem e levam a arca.
Asdode, Gate e Ecrom
A arca passa de cidade em cidade, e a praga vai com ela. Os príncipes decidem juntos 1Sm 5.8, 11.
O teste das duas vacas
Ratos e tumores de ouro, um carro novo e duas vacas com cria. Se subirem a Bete-Semes, o mal veio de Deus 1Sm 6.9.
Próximo capítulo: Saul e Golias. O rei que Israel pediu para ter diante dos filisteus, o campeão de Gate e o menino com uma funda.
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